tudo por voce
O Crepúsculo das Inseguranças
O restaurante à beira-mar em Mykonos era um refúgio de sofisticação, com mesas de madeira clara postas sob um pergolado de videiras e luzes de fada que começavam a brilhar à medida que o sol se despedia. O som das ondas batendo suavemente no cais de pedra criava uma melodia relaxante, mas, para Oscar Piastri, a tranquilidade era apenas superficial. Por dentro, seu motor emocional ainda estava em rotação máxima, processando cada palavra e cada lágrima que Anna havia derramado naquela manhã.
Sentado à mesa, Oscar mantinha uma mão no joelho de Alex, que devorava uma massa com entusiasmo, enquanto seus olhos não saíam de Anna. A menina estava sentada ao seu lado, vestida com um conjunto de linho branco, o rosto ainda um pouco pálido, mas aparentemente calma. Ela comia pequenos pedaços de peixe grelhado, ocasionalmente olhando para o pai como se estivesse verificando se ele ainda estava ali, se ele não havia desaparecido para o mundo dos motores.
— Tudo bem com o peixe, princesa? — perguntou Oscar, sua voz carregada de uma suavidade que ele reservava apenas para os momentos mais íntimos da família.
Anna assentiu devagar, dando um pequeno sorriso.
— Está gostoso, papai. Mas eu queria que a gente pudesse ver as sereias daqui.
— Quem sabe, se ficarmos bem quietinhos depois do jantar, elas não apareçam para dar um tchauzinho antes de dormirem? — sugeriu Oscar, sentindo um aperto no peito. Ele estava sendo vigilante. Cada movimento de Anna era monitorado por ele com mais precisão do que qualquer telemetria da McLaren.
Lily, sentada à frente deles, observava o marido. Ela via a tensão nos ombros dele, a forma como ele mal tocava em seu próprio prato, priorizando a atenção à filha. Ela estendeu a mão sobre a mesa, tocando os dedos de Oscar.
— Oscar, coma um pouco — sussurrou ela em português, a língua que usavam quando queriam uma camada extra de privacidade. — Ela está bem agora. Você está fazendo um ótimo trabalho.
— Eu não consigo parar de pensar no que ela disse, Lily — respondeu ele, também em voz baixa, os olhos voltando para Anna. — Como eu não percebi que ela se sentia assim? Eu me sinto um idiota por ter deixado o Alex monopolizar tudo.
— Você não é um idiota. Você é um pai que compartilha uma paixão com o filho. O ajuste só precisa ser feito agora. Olhe para ela, ela está feliz por estar ao seu lado.
O jantar prosseguiu com Alex contando histórias animadas sobre o "peixe de corrida" que vira mais cedo, mas Oscar, embora risse e interagisse com o filho, mantinha um radar constante ligado para Anna. Quando Alex tentava puxar o braço de Oscar para mostrar algo, Oscar gentilmente redirecionava a atenção, garantindo que Anna estivesse incluída na conversa.
— Alex, espere um pouco — dizia Oscar. — A Anna estava me contando sobre o desenho que ela quer fazer amanhã. O que era mesmo, Anna?
A menina, sentindo-se validada, começava a falar, e Oscar ouvia como se cada detalhe sobre as cores das flores fosse a informação mais vital da temporada.
À medida que o jantar terminava e o crepúsculo se transformava em uma noite estrelada, o cansaço começou a pesar sobre os pequenos. Alex, depois de tanta energia gasta, começou a bocejar, encostando a cabeça no ombro de Lily. Anna, no entanto, parecia ter atingido o seu limite emocional. Ela se arrastou para mais perto de Oscar, puxando a barra de sua camisa.
— Papai... colo? — pediu ela, a voz carregada de sono.
Oscar não hesitou um segundo. Ele a pegou no colo com cuidado, acomodando a cabeça dela em seu peitoral atlético. Anna soltou um longo suspiro, um som que parecia carregar todo o peso das inseguranças daquele dia, e fechou os olhos. Em poucos minutos, sua respiração tornou-se lenta e profunda contra a pele de Oscar.
O piloto da McLaren permaneceu imóvel, sentindo o calor do corpo da filha e o cheiro doce de xampu infantil. Ele a apertou um pouco mais, sentindo uma necessidade quase primitiva de protegê-la de qualquer sentimento de exclusão.
— Ela apagou — sussurrou Lily, sorrindo com ternura para a cena. — Vamos? O Alex também já está quase indo.
Oscar levantou-se com Anna nos braços, movendo-se com a cautela de quem transporta o cristal mais valioso do mundo. Eles caminharam de volta para a vila, o silêncio da noite grega sendo interrompido apenas pelo som de seus passos.
Ao chegarem na casa, Lily levou Alex para o quarto dele, enquanto Oscar levou Anna para a cama de dossel. Ele a deitou com uma delicadeza extrema, cobrindo-a com o lençol leve. Mas, em vez de sair, ele sentou-se na beirada da cama, observando o rosto sereno da filha sob a luz suave do abajur.
Lily entrou no quarto pouco depois, encontrando-o naquela posição de vigília.
— Ela está segura, Oscar. Ela sabe que você a ama.
— Eu não quero que ela nunca mais duvide disso, Lily — disse ele, a voz embargada. — Eu passei o dia todo com medo de que ela se fechasse de novo. Mesmo quando eu estava na piscina com o Alex, eu não conseguia parar de olhar para a porta, esperando que ela saísse.
— Eu vi — Lily sentou-se ao lado dele, abraçando-o. — E ela viu também. Ela notou que você estava procurando por ela. Isso significa o mundo para uma criança.
— Eu vou ter que aprender a ser dois Oscars, não vou? — perguntou ele, olhando para a esposa. — O Oscar que corre com o Alex e o Oscar que pinta com a Anna.
— Você já é esses dois homens, querido. Só precisa aprender a alternar a marcha — brincou Lily, tentando aliviar a tensão dele. — E eu estou aqui para te ajudar a não derrapar.
Oscar sorriu, finalmente relaxando um pouco. Ele se inclinou e beijou a testa de Anna, sussurrando um "eu te amo" que só o silêncio do quarto ouviu.
Naquela noite, enquanto Mykonos dormia sob o luar, Oscar Piastri não sonhou com pódios ou troféus. Ele sonhou com castelos de areia rosa e jardins de corais, prometendo a si mesmo que, no Grande Prêmio da vida real, sua filha sempre teria o lugar de honra, bem ao centro do seu coração, onde a velocidade não importava, apenas a presença.
— Amanhã será um dia melhor — sussurrou Lily, enquanto caminhavam para o próprio quarto.
— Amanhã será o dia dela — corrigiu Oscar, segurando a mão de Lily com força. — E de todos os dias depois desse, eu vou garantir que ela nunca mais se sinta apenas a areia que fica parada. Ela é o meu horizonte, Lily. E eu nunca vou parar de olhar para ela.