Um amor oculto
O Enigma do Karaokê e a Arte de Desafinar
A segunda-feira na JYP Entertainment começou com um clima atipicamente leve, apesar das olheiras de Christopher Chan sugerirem que ele havia passado a madrugada compondo — ou, mais provavelmente, sorrindo para o teto enquanto lembrava do jantar com Maya. Ela, por outro lado, entrou no prédio com um brilho nos olhos castanhos que nem mesmo o café mais forte de Seul conseguiria replicar.
Maya mal teve tempo de organizar sua mesa quando Lily surgiu como um vulto, deslizando pela cadeira giratória com uma expressão de quem tinha acabado de ganhar na loteria.
— Se você me disser que o beijo dele tem gosto de café e responsabilidade, eu juro que peço demissão e vou morar em uma caverna — Lily disparou, sem nem dar bom dia.
Maya riu, tentando esconder o rosto entre os cabelos cacheados que teimavam em cair sobre os olhos.
— Foi melhor que isso, Lily. Foi... real. Mas e você? Eu vi o jeito que o Seungmin te segurou na saída do restaurante. Ele quase sorriu!
— Ele não quase sorriu, Maya. Ele teve um espasmo muscular que parecia um sorriso — Lily retrucou, embora suas bochechas estivessem levemente coradas. — Mas ele me levou em casa. E não reclamou da minha playlist de K-pop dos anos 90. Acho que o gelo está derretendo.
A conversa foi interrompida pelo som da porta da diretoria se abrindo. Christopher saiu de lá, impecável em um terno cinza, mas com os cabelos levemente bagunçados — o sinal claro de que ele andara passando as mãos entre os fios por puro nervosismo. Atrás dele, Seungmin carregava um tablet com a expressão neutra de sempre, embora tenha desviado o olhar rapidamente ao encontrar o de Lily.
— Bom dia, equipe — disse Christopher, sua voz soando um pouco mais rouca que o normal. Ele parou diante da mesa de Maya e, por um segundo, o mundo ao redor pareceu desaparecer. — Maya, você poderia vir à minha sala para revisarmos a agenda da semana?
— Claro, Sr. Bang — ela respondeu com um sorriso carismático, levantando-se prontamente.
— "Sr. Bang"? — Lily sussurrou para Seungmin enquanto os dois se afastavam. — Eles são tão fofos que me dão vontade de vomitar arco-íris.
— Eles são profissionais, Lily. Algo que você deveria tentar ser nos próximos cinco minutos — Seungmin rebateu, mas não conseguiu evitar que o canto de sua boca subisse um milímetro.
Dentro da sala, a seriedade de Christopher durou exatamente o tempo necessário para a porta se fechar. Ele se encostou na mesa e soltou um suspiro longo, olhando para Maya com uma ternura que a fazia sentir borboletas gigantes no estômago.
— Eu não consegui me concentrar em uma única linha de código hoje cedo — ele admitiu, estendendo a mão para ela.
Maya aproximou-se, entrelaçando seus dedos nos dele. A timidez ainda estava lá, mas a alegria de estar com ele era maior.
— Eu também não. A Lily não para de me perguntar detalhes que eu tenho vergonha de contar.
Christopher riu, puxando-a para um abraço rápido, mas protetor.
— O Seungmin também não está facilitando. Ele me deu um sermão de dez minutos sobre como "distrações românticas afetam a produtividade trimestral". Mas eu vi ele limpando o açúcar do nariz da Lily ontem. Ele está perdido.
— Nós estamos, não é? — Maya perguntou, olhando para cima.
— Completamente — ele confirmou, dando um beijo casto na testa dela. — E para provar que eu sou um chefe terrível e um namorado em potencial pior ainda, eu tive uma ideia. Vamos sair hoje à noite. Mas não um jantar calmo.
Maya arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Um karaokê. Nós quatro.
— O quê? — Maya quase engasgou. — Chan, eu sou tímida demais para cantar na frente das pessoas! E o Seungmin? Ele vai preferir ler um manual de instruções de uma geladeira a ir a um karaokê.
— Exatamente por isso vai ser engraçado — Christopher piscou. — Eu preciso ver o Seungmin tentando manter a pose de robô enquanto a Lily canta músicas dramáticas de separação. E sobre você... eu estarei lá. Podemos cantar um dueto.
O plano foi executado com a precisão de um lançamento de álbum. Lily aceitou em menos de dois segundos, já começando a montar uma lista de músicas que fariam Seungmin querer se esconder debaixo da mesa. Seungmin, por outro lado, só aceitou após Christopher prometer que não haveria fotos ou vídeos que pudessem ser usados como chantagem futura — promessa que Christopher claramente não pretendia cumprir.
Às oito da noite, eles estavam em uma sala privativa de um karaokê em Gangnam. O ambiente era neon, com sofás de couro sintético e um cheiro persistente de pipoca.
— Eu não vou cantar — declarou Seungmin, cruzando os braços e sentando-se no canto mais escuro do sofá, parecendo um juiz de tribunal supremo prestes a dar uma sentença de morte.
— Ah, você vai sim, "Minnie" — Lily disse, já pegando o microfone e selecionando uma música extremamente animada de um grupo feminino. — A regra é clara: quem não canta, paga a conta das bebidas.
— Eu sou o braço direito do CEO, eu posso pagar a conta — ele retrucou friamente.
— Mas não pode comprar sua dignidade de volta se eu contar para todo mundo que você usa meias de cachorrinho — Lily rebateu com um sorriso malicioso.
Seungmin empalideceu levemente e olhou para Christopher, que apenas deu de ombros enquanto abria uma garrafa de água para Maya.
— Ela te pegou, amigo — disse Christopher, rindo.
Lily começou a cantar, e ela era exatamente como Maya esperava: barulhenta, desafinada em alguns momentos, mas com uma energia tão contagiante que até os garçons que passavam pelo corredor pareciam querer dançar. Ela puxou Maya para o meio da sala.
— Vai, Maya! Sua vez de brilhar!
Maya sentiu o rosto queimar. A timidez tentou prendê-la ao sofá, mas ela olhou para Christopher. Ele estava sorrindo, incentivando-a com o olhar. Ela pegou o microfone, as mãos levemente trêmulas. A música era uma balada suave.
No início, a voz de Maya saiu baixinha, quase um sussurro. Mas, à medida que ela se soltava, sua natureza carinhosa e alegre transparecia na melodia. Ela tinha uma voz doce, como mel, que preencheu a sala e fez Christopher esquecer até de respirar.
Quando ela terminou, houve um silêncio momentâneo, seguido pelos aplausos entusiasmados de Lily.
— Minha amiga é um anjo! — Lily gritou.
Christopher levantou-se e caminhou até Maya, pegando o microfone da mão dela.
— Minha vez — ele disse, mas não olhou para a tela. Olhou diretamente para ela.
Ele começou a cantar uma música que ele mesmo havia composto, uma melodia R&B lenta e profunda. Ver Christopher Chan cantar era uma experiência religiosa. Ele não era apenas o chefe sério ou o homem gentil; ele era um artista puro. Maya sentiu que poderia derreter ali mesmo.
— Ok, chega de melaço! — interrompeu Seungmin, levantando-se subitamente. — Se eu tiver que ouvir mais uma nota de amor, eu vou ter uma síncope. Lily, passe esse microfone.
Todos paralisaram. Seungmin caminhou até a máquina de karaokê e digitou um código. A música que começou a tocar era um rock pesado e frenético.
O que se seguiu foi uma das cenas mais surreais da vida de Maya. Seungmin, o homem que mal movia um músculo facial durante as reuniões de diretoria, começou a cantar com uma técnica vocal impecável e uma agressividade cômica, pulando pelo sofá e apontando o microfone para uma Lily que estava de boca aberta.
— Ele... ele é bom? — Maya sussurrou para Christopher.
— Ele treinou para ser ídolo antes de decidir que odiava pessoas — Christopher riu, limpando as lágrimas dos olhos de tanto rir. — Ele é o melhor cantor que eu conheço, mas ele só faz isso quando está muito irritado ou... muito confortável.
Lily, recuperando-se do choque, pegou o outro microfone e começou a fazer o "back vocal" de forma totalmente desordenada, transformando o rock em uma bagunça sonora maravilhosa. Os dois acabaram rindo tanto que não conseguiram terminar a música, caindo sentados no sofá, ofegantes.
— Você... você é um esquisito, Seungmin — Lily disse, tentando recuperar o fôlego, com o cabelo todo bagunçado.
— E você é um desastre auditivo, Lily — ele respondeu, mas, pela primeira vez, ele sorriu de verdade. Um sorriso aberto, que mostrava os dentes e iluminava seu rosto de uma forma que o tornava quase irreconhecível.
Lily parou de rir por um segundo, observando o sorriso dele.
— Você deveria fazer isso mais vezes. Fica menos parecido com um vilão de filme de época.
Seungmin desviou o olhar, mas não se afastou quando Lily encostou o ombro no dele.
Enquanto isso, Christopher puxou Maya para um canto mais reservado da sala, longe da luz neon mais forte.
— Você está se divertindo? — ele perguntou, passando o braço pelos ombros dela.
— Muito — Maya admitiu, encostando a cabeça no peito dele. — Eu nunca imaginei que veria o Seungmin fazendo headbanging.
— A vida é cheia de surpresas quando você deixa as pessoas certas entrarem — ele disse suavemente. — Maya, eu sei que as coisas no escritório podem ficar estranhas agora que estamos... bem, agora que somos "nós". Mas eu quero que você saiba que, não importa o quão sério eu pareça lá dentro, aqui fora eu sou apenas o seu Chan.
Maya se afastou um pouco para olhar nos olhos dele. A pele branca dele parecia quase etérea sob a luz azul do karaokê.
— Eu não me importo com o "Sr. Bang" — ela disse, ganhando uma confiança nova. — Eu gosto dele também. Ele é dedicado e protege o que ama. Mas eu confesso que prefiro o Chan que me desafia a cantar em público.
Christopher sorriu e se inclinou, beijando-a com uma calma que contrastava com o caos que Lily e Seungmin estavam causando ao fundo, agora discutindo sobre qual era a melhor marca de sorvete de chocolate.
O beijo era doce, com um leve gosto de refrigerante e a promessa de muitos outros momentos como aquele. Maya sentia que, finalmente, sua timidez estava perdendo a batalha para a felicidade. Ela era carismática, era falante e, com Christopher, ela sentia que podia ser tudo o que quisesse.
— Ei, pombinhos! — a voz de Lily ecoou. — Menos beijos, mais duetos! O Seungmin disse que aceita cantar uma música da Disney se a Maya fizer a voz da princesa!
— Eu nunca disse isso! — protestou Seungmin, embora já estivesse segurando o livro de músicas.
Maya e Christopher riram, voltando para o centro da sala.
A noite continuou entre risadas, notas desafinadas e uma competição de dança improvisada onde Seungmin surpreendentemente ganhou de todos. Entre uma música e outra, Maya observava seus amigos. Lily e Seungmin estavam em um pé de guerra constante, mas havia uma suavidade nova na forma como eles se olhavam. Seungmin não parecia mais tão sério, e Lily parecia ter encontrado alguém que conseguia acompanhar seu ritmo frenético.
Ao final da noite, enquanto caminhavam para o estacionamento, o ar frio de Seul ajudou a baixar a adrenalina.
— Eu levo a Lily — disse Seungmin, girando as chaves do carro com uma indiferença fingida.
— Ah, vai é? — Lily provocou. — Achei que eu fosse uma "obstrução barulhenta".
— Você é. Mas é uma obstrução que mora no caminho da minha casa — ele retrucou, abrindo a porta do carro para ela.
Lily sorriu para Maya e deu uma piscadela antes de entrar.
Christopher e Maya ficaram sozinhos perto do carro dele.
— Acho que o plano do karaokê foi um sucesso — ele comentou, puxando-a para perto para protegê-la do vento.
— Foi maravilhoso, Chan. Obrigada por me empurrar para fora da minha zona de conforto.
— Eu sempre estarei aqui para te segurar se você tropeçar — ele prometeu.
Ele a levou para casa e, diante da porta do seu apartamento, o clima de diversão deu lugar a algo mais profundo.
— Maya — ele chamou, antes que ela entrasse.
— Sim?
— Eu estou apaixonado por você.
O silêncio que se seguiu não foi pesado, mas sim preenchido pelo som do coração de Maya batendo acelerado. Ela deu um passo à frente e segurou o rosto dele com as duas mãos, sentindo a pele macia e o calor que ele emanava.
— Eu também estou apaixonada por você, Christopher Chan. Mesmo quando você me faz trabalhar até tarde com aquelas planilhas infinitas.
Ele riu, um som rico e vibrante, e a beijou uma última vez naquela noite.
Ao entrar em casa, Maya encontrou uma mensagem de Lily no celular: "O robô me beijou! Repito: O ROBÔ ME BEIJOU! E ele tem gosto de menta. Acho que vou precisar de um aumento para lidar com tanta emoção. Como foi com o seu CEO?".
Maya sorriu, sentando-se no sofá e olhando para as estrelas através da janela. Ela pegou o celular e respondeu apenas: "Foi música para os meus ouvidos, Lily. Literalmente".
A vida na JYP Entertainment seria, sem dúvida, muito mais interessante a partir de agora. Entre reuniões sérias e encontros escondidos, Maya sabia que tinha encontrado não apenas um amor, mas uma trilha sonora inteira para o seu coração. E, se dependesse de Chan, a música nunca pararia de tocar.