Um amor oculto
O Segredo no Terraço e o Plano de Lily
A manhã de terça-feira na JYP Entertainment parecia carregar uma ressaca de felicidade. Maya sentia que estava flutuando. Cada vez que passava pela sala de Christopher e via o vidro fosco, sua mente voltava para a confissão da noite anterior. "Eu estou apaixonado por você". Aquelas cinco palavras eram mais potentes do que qualquer café expresso triplo que ela pudesse tomar para espantar o sono.
Maya estava concentrada em organizar a agenda de reuniões internacionais quando Lily surgiu, deslizando sobre os calcanhares e parando abruptamente na frente de sua mesa. Lily não parecia apenas animada; ela parecia prestes a explodir.
— Maya, você não tem noção do que aconteceu hoje cedo — sussurrou Lily, inclinando-se tanto que seus cabelos pretos quase varreram o teclado de Maya.
— Bom dia para você também, Lily — Maya riu, tentando manter a compostura. — O que houve? O Seungmin finalmente admitiu que gosta das suas piadas?
— Melhor! — Lily deu um sorrisinho vitorioso. — Ele me trouxe um café. Um café, Maya! Sem eu pedir! E quando eu fui agradecer, ele ficou vermelho, murmurou algo sobre "manter os níveis de cafeína estáveis para evitar erros operacionais" e saiu quase tropeçando no próprio pé. Aquele homem é um enigma envolto em um terno bem cortado.
— Ele está caidinho por você, Lily. Só falta ele aceitar isso por completo — Maya comentou, sentindo-se carinhosa.
— E você e o Sr. Perfeito? — Lily arqueou uma sobrancelha. — Vi o jeito que ele te olhou no elevador. Se ele te olhasse com mais intensidade, suas roupas entrariam em combustão espontânea.
— Lily! — Maya sibilou, sentindo o rosto esquentar. — Alguém pode ouvir!
— Deixe que ouçam. O amor é lindo, o escritório é chato, e nós estamos transformando este lugar em um drama coreano de alta qualidade — Lily declarou dramaticamente, antes de ser interrompida por um pigarro seco.
Seungmin estava parado logo atrás dela, segurando uma pasta azul. Sua expressão era a máscara de seriedade habitual, mas Maya notou que o colarinho de sua camisa estava ligeiramente torto — um sinal de desatenção raríssimo para ele.
— Lily, se você terminou de transformar o setor administrativo em um fã-clube, eu gostaria de lembrar que o relatório de marketing não vai se escrever sozinho — disse Seungmin, com a voz firme, mas sem a rispidez de antes.
— Ah, Seungmin! — Lily virou-se com um sorriso radiante. — Estávamos justamente falando de você. E do café delicioso que você me deu.
Seungmin desviou o olhar para Maya por um breve segundo, parecendo buscar socorro, mas Maya apenas sorriu e deu de ombros.
— Foi apenas uma cortesia profissional — ele resmungou, embora suas orelhas estivessem ficando perigosamente rosadas. — Maya, o Chan quer vê-la no terraço. Ele disse que é sobre... a "estética do novo projeto".
Maya franziu a testa. O terraço? Christopher raramente fazia reuniões lá, a menos que quisesse privacidade absoluta.
— Agora? — perguntou ela.
— Agora — confirmou Seungmin, antes de se virar para Lily. — E você, venha comigo. Preciso que você revise uns termos que só alguém com a sua... loquacidade excessiva conseguiria entender.
— "Loquacidade"? — Lily riu, seguindo-o. — Você adora usar palavras difíceis para esconder que me acha brilhante, não é?
Maya observou os dois se afastarem, percebendo como Seungmin diminuía o passo para que Lily pudesse acompanhá-lo. Ela soltou um suspiro alegre, pegou seu bloco de notas e caminhou em direção ao elevador.
O terraço da JYP era um espaço amplo, com uma vista deslumbrante de Seul e um jardim minimalista que Christopher adorava. Quando as portas se abriram, o vento fresco bagunçou seus cachos, e ela o viu. Christopher estava de costas, observando o horizonte. Ele tinha tirado o paletó, ficando apenas com a camisa branca de mangas dobradas.
— A estética do novo projeto parece envolver uma vista muito bonita — disse Maya, aproximando-se silenciosamente.
Christopher virou-se e o sorriso que surgiu em seu rosto foi o suficiente para desarmar qualquer vestígio de timidez que ela ainda carregasse.
— Eu precisava de ar — ele admitiu, caminhando até ela e pegando suas mãos. — E precisava ver você sem que o vidro do meu escritório estivesse no meio.
— O Seungmin pareceu bem convincente com a desculpa da reunião — Maya comentou, sentindo o calor das mãos dele.
— O Seungmin é um ótimo aliado quando quer. Ele sabe que eu não estava conseguindo focar em nada hoje — Christopher suspirou, puxando-a para mais perto. — Maya, eu andei pensando muito sobre nós.
O coração de Maya deu um solavanco. A seriedade no tom dele a deixou em alerta.
— Pensando o quê?
— Que eu não quero mais que você se sinta como se estivesse se escondendo — ele disse, acariciando o rosto dela com o polegar. — Eu sei que você é tímida e que o ambiente da empresa é rígido, mas eu quero poder te levar para almoçar sem inventar desculpas. Eu quero que você saiba que, para mim, você não é a assistente que eu me apaixonei. Você é a mulher que dá sentido ao meu trabalho.
Maya sentiu sua natureza alegre transbordar. Ela se soltou um pouco, o que sempre a tornava mais falante e corajosa.
— Chan, se você continuar dizendo essas coisas, eu vou acabar fazendo um discurso carinhoso de meia hora e você vai perder a reunião com os produtores — ela brincou, embora seus olhos estivessem úmidos. — Eu também não quero me esconder. Só tenho medo de como as pessoas vão te olhar. Você é o líder, o pilar desta empresa.
— Deixe que olhem — ele respondeu, com uma determinação gentil. — Se eles virem como você me faz sorrir, vão entender que é o melhor investimento que eu já fiz.
Eles ficaram ali por um tempo, apenas aproveitando a companhia um do outro, protegidos pelo céu de Seul. No entanto, o momento "meloso" foi subitamente quebrado pelo som de uma risada escandalosa vindo da porta de acesso ao terraço.
— Eu disse que eles estariam aqui! — a voz de Lily ecoou.
Maya e Christopher se afastaram rapidamente, apenas para ver Lily e Seungmin saindo para a área aberta. Lily segurava o braço de Seungmin, que parecia estar sendo arrastado contra sua vontade, mas não fazia nenhum esforço real para se soltar.
— Lily? Seungmin? — Christopher perguntou, tentando recuperar sua aura de chefe sério, embora seu cabelo bagunçado pelo vento o fizesse parecer mais um adolescente flagrado no jardim.
— Viemos trazer os relatórios! — Lily anunciou, abanando alguns papéis aleatórios. — E também porque o Seungmin estava morrendo de fome e eu disse que o ar puro do terraço abre o apetite.
— Eu não disse nada disso — Seungmin protestou, ajustando os óculos. — Eu apenas disse que o escritório estava ficando sufocante com o cheiro do perfume novo da Lily.
— Mentira! Você disse que eu estava cheirosa — Lily rebateu, dando um tapinha no ombro dele.
Christopher soltou uma risada curta, relaxando os ombros.
— Vocês dois são um desastre. O que realmente os traz aqui?
Seungmin suspirou e olhou para Christopher com uma expressão mais séria, de amigo para amigo.
— Há um rumor correndo no andar de baixo, Chan. Alguém viu vocês dois no karaokê ontem. Nada comprometedor, mas as pessoas falam.
Maya sentiu um frio na barriga. A timidez voltou a bater à sua porta.
— O que estão dizendo? — perguntou ela, baixinho.
— Estão dizendo que o Sr. Bang finalmente encontrou alguém que o faz rir mais do que as piadas sem graça do Seungmin — Lily respondeu, aproximando-se de Maya e segurando sua mão de forma encorajadora. — E eu acho isso ótimo. Maya, você é incrível. Não deixe que o falatório de corredor te assuste.
Christopher olhou para Seungmin, que apenas assentiu levemente.
— Se alguém perguntar — disse Seungmin, com sua voz monótona mas carregada de lealdade —, eu direi que estamos todos trabalhando em um projeto de integração de equipe altamente confidencial.
— Um projeto de integração? — Christopher arqueou uma sobrancelha.
— Sim — continuou Seungmin, olhando brevemente para Lily antes de desviar o olhar. — Um projeto que envolve cafés, jantares e, ocasionalmente, suportar a presença um do outro por tempo indeterminado.
Lily soltou um "awww" alto demais, fazendo Seungmin fechar os olhos em sinal de paciência esgotada.
— Você é tão fofo quando tenta ser burocrático, Seungmin! — Lily exclamou, fazendo Maya e Christopher rirem.
O clima pesado de preocupação se dissipou. Christopher voltou a olhar para Maya, transmitindo toda a segurança que ela precisava.
— Viu? Temos suporte — ele disse. — O que você acha, Maya? Pronta para o "projeto de integração"?
Maya olhou para Lily, que fazia um sinal de positivo com as mãos, e para Seungmin, que apesar de sério, parecia satisfeito. Depois, olhou para Christopher, o homem que por fora era o pilar da indústria, mas por dentro era a pessoa mais gentil que ela já conhecera.
— Se o projeto incluir mais noites de karaokê e menos planilhas de domingo, eu aceito — ela respondeu, fazendo todos rirem.
— Ótimo! — Lily bateu palmas. — Agora, como diretora não-oficial de assuntos sociais, eu decreto que hoje o almoço é por conta do Christopher. E eu quero lagosta.
— Lagosta, Lily? — Christopher riu. — Eu sou um CEO, não um banco central.
— Você pode pagar, Chan. Eu vi os bônus do último trimestre — Seungmin acrescentou, com um brilho de diversão nos olhos.
Eles desceram juntos, e a dinâmica no elevador era algo que Maya nunca imaginaria meses atrás. Ela estava entre sua melhor amiga extrovertida e o homem que amava, enquanto o braço direito de Christopher tentava, sem sucesso, manter uma distância segura de Lily.
Ao passarem pelo andar administrativo em direção à saída, Christopher não soltou a mão de Maya. Alguns funcionários pararam para olhar, os sussurros começaram, mas Christopher apenas manteve a cabeça erguida, com um sorriso de canto que dizia que ele não tinha nada a esconder.
Maya, sentindo o apoio de Lily ao seu lado e a mão firme de Christopher na sua, não abaixou a cabeça. Pela primeira vez, sua alegria era maior do que sua timidez. Ela sorriu para uma colega de trabalho que passava, um sorriso carismático e radiante que iluminou o corredor.
— Você está bem? — Christopher sussurrou enquanto cruzavam a recepção.
— Estou maravilhosa — ela respondeu com sinceridade.
O almoço foi barulhento e cheio de implicâncias entre Lily e Seungmin. Maya descobriu que Seungmin, quando provocado o suficiente, tinha um humor ácido que combinava perfeitamente com a energia caótica de Lily. E Christopher, livre das pressões da sala de reuniões, era o homem mais engraçado e carinhoso que Maya poderia desejar.
— Sabe — disse Lily, entre uma garfada e outra —, eu acho que nós deveríamos fazer uma viagem de equipe. Só nós quatro.
— Viagem? — Seungmin perguntou, desconfiado. — Eu tenho três auditorias para revisar no próximo mês.
— As auditorias podem esperar, robô — Lily retrucou. — Imagine só: uma cabana nas montanhas, neve, chocolate quente... e eu ganhando de você no snowboard.
— Você não ganha de mim nem no "pedra, papel e tesoura", Lily — Seungmin desafiou, com um sorriso de lado.
— É o que vamos ver!
Christopher olhou para Maya e piscou.
— Uma viagem parece uma excelente ideia. O que você acha, Maya?
— Eu acho que, se a Lily e o Seungmin ficarem na mesma cabana, ou eles se casam ou incendeiam o lugar — Maya comentou, fazendo Christopher gargalhar.
A tarde voltou ao normal, ou ao "novo normal". Maya trabalhava em sua mesa, mas agora havia flores que Christopher "casualmente" pediu para entregar no setor administrativo. Seungmin passava pela mesa de Lily e deixava post-its com correções gramaticais que, no fundo, eram apenas desculpas para falar com ela.
No fim do expediente, o escritório estava quase vazio. Maya estava guardando suas coisas quando Christopher saiu de sua sala. Ele não disse nada, apenas parou ao lado dela e esperou.
— Pronto por hoje? — perguntou ela.
— Por hoje, sim. Mas para nós, acho que estamos apenas no começo — ele respondeu, pegando a bolsa dela para carregar.
Eles caminharam até o estacionamento, onde o carro de Christopher os esperava. Antes de entrarem, ele a parou e a abraçou, um abraço longo e apertado que cheirava a café e segurança.
— Obrigado, Maya — ele sussurrou em seu ouvido.
— Pelo quê?
— Por me transformar em alguém que gosta de segundas-feiras.
Maya sorriu, sentindo-se a mulher mais sortuda de Seul. Ela era tímida, alegre e carinhosa, e tinha encontrado alguém que amava cada uma dessas facetas. A empresa de Christopher Chan podia ser um império de música e negócios, mas para Maya, o verdadeiro sucesso estava naquele abraço, no sorriso de Lily e até na rabugice de Seungmin.
Enquanto o carro se afastava da JYP, Maya olhou pelo retrovisor e viu Lily e Seungmin saindo juntos do prédio, ainda discutindo sobre algo, mas caminhando tão próximos que suas sombras se tornavam uma só.
A história deles estava longe de ser um romance meloso de livro; era real, era engraçada, tinha seus tropeços e suas planilhas infinitas. Mas, acima de tudo, era deles. E Maya mal podia esperar pelo próximo capítulo.