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Um amor prefeito

O Peso do Amanhã e a Promessa do Agora

A luz pálida da manhã começou a se infiltrar pelas frestas da janela de madeira da estalagem, trazendo consigo o som distante do despertar de Tanzaku. O burburinho do mercado e o bater de carroças pareciam pertencer a outro mundo, um mundo que não tinha conhecimento da revolução silenciosa que ocorrera entre aquelas quatro paredes. Na cama, o calor compartilhado era a única realidade que importava.

Jiraiya estava acordado há algum tempo. Ele observava Naruto dormir, a expressão do jovem finalmente livre da tensão das batalhas e das expectativas da vila. As marcas de bigode em suas bochechas pareciam mais suaves sob a luz matinal, e o peito subia e descia em um ritmo tranquilo. O Sannin Lendário, o homem que enfrentara exércitos e vira o pior da natureza humana, sentia-se desarmado. Ele não aguentava mais o peso da máscara que usara por tanto tempo.

A mão de Jiraiya, marcada por cicatrizes de décadas de combate, hesitou antes de tocar os fios loiros e rebeldes. Ele sempre fora um homem de palavras — um escritor, um poeta do submundo, um observador das fraquezas alheias. Mas ali, com Naruto, as palavras pareciam insuficientes, ou talvez, perigosamente reais. Ele amava aquele garoto com uma intensidade que o assustava. Não era apenas o afeto por um pupilo, nem a responsabilidade com o legado de Minato. Era algo visceral, uma necessidade de proteger aquela luz que Naruto carregava, e agora, um desejo profundo de ser a pessoa que o manteria aquecido.

Naruto começou a se mexer, um murmúrio baixo escapando de seus lábios antes de seus olhos azuis se abrirem lentamente. Ao encontrar o olhar de Jiraiya, um sorriso sonolento e genuíno se formou em seu rosto.

— Bom dia, Ero-Sennin... — sussurrou Naruto, a voz ainda rouca de sono. — Você está me encarando de novo. Isso é meio estranho, sabia?

Jiraiya soltou uma risada curta, sentindo a tensão em seus ombros diminuir um pouco.

— Eu sou um escritor, Naruto. Observar é o meu trabalho — respondeu ele, embora o tom fosse carregado de uma ternura que nenhum de seus livros jamais capturou. — Além disso, alguém tem que vigiar você para garantir que não caia da cama.

Naruto espreguiçou-se, sentindo os músculos levemente doloridos da noite anterior, uma dor que ele acolheu com uma satisfação silenciosa. Ele se aproximou, enterrando o rosto no peito de Jiraiya, respirando o cheiro de pergaminho, tinta e o perfume amadeirado que era exclusivamente dele.

— Eu não vou a lugar nenhum — afirmou Naruto, a voz abafada contra a pele do mestre. — A menos que você me arraste para treinar. Mas acho que hoje podemos tirar uma folga, não?

Jiraiya suspirou, passando o braço pela cintura de Naruto e puxando-o para mais perto.

— Uma folga... — repetiu ele, fechando os olhos. — O mundo lá fora não costuma dar folgas para pessoas como nós, Naruto. Mas, por hoje... por hoje eu acho que posso abrir uma exceção.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas aproveitando a presença um do outro. No entanto, a mente de Jiraiya não parava. Ele pensava em Konoha, na Akatsuki, na profecia do Grande Eremita Sapo e no destino que parecia sempre querer arrancar as coisas dele. Ele olhou para Naruto e sentiu um aperto no coração. Como ele poderia conciliar o papel de mentor com esse novo e avassalador sentimento?

— No que você está pensando? — perguntou Naruto, levantando a cabeça para encarar o Sannin. — Sua testa está toda franzida. Você fica mais velho quando faz isso.

— Ora, seu moleque atrevido! — Jiraiya deu um leve peteleco na testa de Naruto, mas seu olhar permaneceu sério. — Eu estava pensando que... eu não aguento mais esconder as coisas, Naruto. Passei a vida inteira fugindo de conexões profundas porque o meu caminho é perigoso. Mas com você... eu sinto que não tenho mais para onde fugir.

Naruto sentou-se na cama, deixando os lençóis caírem pela cintura, revelando a pele que Jiraiya havia adorado horas antes. Ele segurou a mão do mais velho com força.

— Então não fuja — disse Naruto com aquela determinação simples que era sua marca registrada. — Você sempre me diz para não voltar atrás na minha palavra, certo? Esse é o meu caminho ninja. E o meu caminho agora é estar com você. Não me importa o quão perigoso seja ou o que os outros digam.

— Você é um idiota, Naruto — murmurou Jiraiya, sentindo os olhos arderem levemente. — Um idiota corajoso e teimoso.

— Sou o seu idiota — retrucou Naruto, dando uma piscadela travessa.

Jiraiya sorriu, mas a sombra da preocupação ainda pairava. Ele se levantou, caminhando até a janela e olhando para a rua que começava a ganhar vida.

— Naruto, o que aconteceu ontem à noite... o que está acontecendo agora... — Ele hesitou, buscando as palavras certas. — Eu não quero que você se sinta preso a um velho como eu. Você tem o mundo inteiro pela frente. Você será Hokage um dia.

Naruto levantou-se também, caminhando até Jiraiya e abraçando-o por trás, entrelaçando os dedos sobre o peito largo do mestre.

— Você fala como se ser Hokage fosse a única coisa que importa — disse Naruto suavemente. — Mas de que serve ser o líder da vila se eu não tiver as pessoas que amo ao meu lado? Você é a minha família, Jiraiya. E agora você é muito mais do que isso. Eu não me sinto preso. Eu me sinto... completo. Pela primeira vez.

Jiraiya virou-se nos braços de Naruto, segurando o rosto do jovem entre as mãos.

— Eu passei anos escrevendo sobre o amor, mas eu nunca entendi nada sobre ele até agora — confessou Jiraiya. — Eu achava que o amor era algo trágico, algo que se perdia no campo de batalha ou que se deixava para trás em uma carta de despedida. Mas você... você me faz querer ficar. E isso me assusta mais do que qualquer inimigo que já enfrentei.

— Então tenha medo — respondeu Naruto, aproximando o rosto do dele. — Mas fique comigo mesmo assim.

O beijo que se seguiu foi diferente do da noite anterior. Não havia a urgência desesperada da descoberta, mas sim uma promessa silenciosa e profunda. Era um selo de compromisso, um pacto feito entre dois homens que conheciam a dor da solidão e haviam decidido que não a aceitariam mais.

Quando se separaram, Jiraiya parecia ter rejuvenescido alguns anos. A expressão pesada que ele carregava habitualmente fora substituída por uma determinação renovada.

— Tudo bem, Naruto — disse ele, a voz firme. — Se é assim que vai ser, então não vamos mais nos esconder. Pelo menos não entre nós. Mas temos que ser inteligentes. O mundo ainda é um lugar cruel para quem tem muito a perder.

— Eu sei — concordou Naruto, voltando a ser o ninja focado, mas com um brilho de felicidade nos olhos. — Mas agora eu tenho um motivo a mais para ficar forte. Eu vou proteger você tanto quanto você me protege.

Jiraiya riu, desta vez de forma aberta e vibrante.

— Protegendo o Grande Sannin Lendário? Você realmente tem uma confiança inabalável, garoto. Mas sabe de uma coisa? Eu acredito em você.

Eles começaram a se vestir, o ambiente na pequena estalagem agora carregado de uma domesticidade nova e confortável. Naruto, enquanto lutava para amarrar suas sandálias, não parava de falar sobre os novos jutsus que queria aprender e sobre como o ramen de Tanzaku era bom, mas não chegava aos pés do Ichiraku. Jiraiya o ouvia, ocasionalmente lançando um comentário sarcástico, mas sempre com o olhar fixo no jovem, como se quisesse gravar cada detalhe daquele momento na memória.

— Ei, Ero-Sennin! — chamou Naruto, já com sua jaqueta laranja fechada. — Depois que terminarmos esse treinamento e voltarmos para Konoha... você acha que a Vovó Tsunade vai notar?

Jiraiya parou por um momento, imaginando a reação da Quinta Hokage. Ele soltou um suspiro dramático.

— Tsunade é perspicaz demais para o próprio bem. Ela provavelmente vai me dar um soco que vai me mandar para a outra vila, e depois vai exigir que eu pague uma rodada de saquê para ela por ter escondido isso.

Naruto riu, imaginando a cena.

— Vale a pena o risco — declarou ele, caminhando até a porta.

— Sim — murmurou Jiraiya para si mesmo, observando as costas de Naruto enquanto ele saía para o corredor. — Vale cada segundo.

Antes de sair do quarto, Jiraiya olhou para o pergaminho sobre a mesa, onde começara a esboçar o próximo capítulo de seu livro. Ele pegou a caneta e, em um impulso, riscou o título melancólico que havia escrito anteriormente. No lugar, ele escreveu apenas uma frase: "A luz que dissipa a sombra".

Ele não aguentava mais a solidão, não aguentava mais o silêncio de uma vida dedicada apenas ao dever. Naruto havia quebrado as barreiras que Jiraiya construíra em volta de seu coração ferido, e agora, pela primeira vez em décadas, o Sannin sentia que tinha algo pelo qual valia a pena não apenas lutar, mas viver.

Ao sair do quarto e encontrar Naruto esperando no corredor, com aquele sorriso que desafiava o próprio sol, Jiraiya soube que o caminho à frente seria difícil. Haveria perigos, haveria perdas e haveria o peso inevitável do destino. Mas, enquanto ele tivesse aquela mão quente segurando a sua nas sombras, e aquele riso vibrante guiando-o na luz, ele estava pronto para enfrentar qualquer coisa.

— Vamos, Naruto — disse Jiraiya, batendo no ombro do garoto. — Temos muito trabalho a fazer. E depois... depois eu te pago uma tigela de ramen.

— Duas tigelas! — negociou Naruto, os olhos brilhando.

— Está bem, seu esfomeado. Duas tigelas.

E assim, mestre e discípulo, amantes e companheiros de alma, desceram as escadas da estalagem e caminharam em direção ao futuro, deixando para trás o homem que não aguentava mais e encontrando o homem que, finalmente, tinha encontrado o seu lar.