Um amor tímido.
O Despertar de uma Nova Cumplicidade
A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas da cortina do quarto de João, pintando linhas douradas sobre o tapete e os pôsteres que ele tanto estimava. O silêncio da casa era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico da respiração dos dois jovens que, exaustos pelas emoções da noite anterior, dormiam um sono profundo e sem sonhos.
Dona Marisa, a mãe de João, aproximou-se da porta do filho com uma bandeja de café na mão, pronta para chamá-lo para a escola, antes de se lembrar que era sábado. Ela girou a maçaneta devagar, apenas para conferir se o filho já estava de pé. Ao abrir uma fresta, seus olhos encontraram uma cena que a fez parar no mesmo instante.
João estava deitado de lado, com o braço longo envolvendo protetoramente o corpo pequeno de Eloá. Ela, por sua vez, estava quase desaparecida sob o cobertor e a camiseta enorme dele, com a cabeça aninhada na curva do pescoço do rapaz. Havia uma paz tão genuína na expressão deles que Marisa sentiu um aperto doce no peito. Ela deu um sorriso discreto, fechou a porta com o máximo de cuidado para não fazer o trinco estalar e retirou-se na ponta dos pés. Eles mereciam aquele descanso.
Alguns minutos depois, o sol ficou mais forte, atingindo diretamente o rosto de Eloá. Ela franziu o nariz, soltando um murmúrio baixinho, e começou a se espreguiçar sob os lençóis. Cada movimento fazia seus músculos protestarem de uma forma nova, uma sensação de peso e sensibilidade que a lembrava, a cada segundo, do que havia acontecido.
Ela abriu os olhos e viu João. Ele ainda dormia, com a boca levemente aberta e os cabelos escuros bagunçados sobre a testa. Eloá não resistiu; com um sorriso travesso, ela se impulsionou para cima, rastejando devagar até ficar montada sobre o abdômen dele, deitando o peito sobre o dele e envolvendo seu pescoço em um abraço apertado.
— Bom dia, dorminhoco — sussurrou ela, depositando um beijo na ponta do nariz de João.
João despertou sobressaltado, os olhos piscando freneticamente até focarem no rosto radiante de Eloá acima dele. O susto inicial logo deu lugar a um sorriso tímido e carregado de carinho.
— Bom dia... — A voz dele saiu rouca, o que o deixou ainda mais sem jeito. — Você já acordou faz tempo?
— Acabei de despertar — disse ela, ajustando-se sobre ele. Ao se mexer para encontrar uma posição melhor, Eloá soltou um gemido baixo e cerrou os dentes, fazendo uma careta. — Ai... caramba.
João, instantaneamente em alerta, segurou-a pelos ombros, a preocupação brilhando em seus olhos castanhos.
— O que foi? Onde dói? Eu fiz alguma coisa errada, não fiz? Eu sabia que devia ter tido mais cuidado...
Eloá riu da aflição dele, embora a dorzinha incômoda ainda estivesse lá.
— Calma, João! Não é nada ruim. É só que... bem, você é grande e eu sou pequena. Meu corpo está reclamando um pouco do "exercício" de ontem.
Ela se ajeitou ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro e suspirando.
— Mas não se preocupe — continuou ela, com um brilho malicioso no olhar. — É uma dor que eu gostei de ganhar. Me faz lembrar de cada detalhe.
João sentiu as bochechas queimarem instantaneamente. Ele nunca saberia lidar com a franqueza desarmante de Eloá. Ele apenas a apertou mais contra si, escondendo o rosto no cabelo dela, que ainda cheirava ao shampoo que usaram no banho compartilhado.
— Você é doida — ele murmurou, sorrindo contra a pele dela.
— Sou doida por você — rebateu ela, dando um tapinha leve no peito dele. — Agora, vamos levantar? Meu estômago está roncando mais alto que o seu computador antigo.
João concordou e se sentou primeiro, oferecendo a mão para ajudá-la. Eloá aceitou a ajuda, deslizando para fora da cama com confiança. No entanto, assim que seus pés tocaram o chão e ela tentou colocar o peso do corpo nas pernas, seus joelhos simplesmente cederam.
— Uepa! — exclamou ela, caindo de joelhos no tapete com um baque surdo.
Houve um segundo de silêncio absoluto. Eloá olhou para as próprias pernas, depois para João, e começou a gargalhar. Era uma risada gostosa, genuína, de quem achava graça da própria vulnerabilidade.
— Minhas pernas... elas entraram em greve, João! — disse ela entre risos.
João, por outro lado, estava pálido. Ele saltou da cama e se ajoelhou ao lado dela, as mãos tremendo levemente enquanto a segurava pelos braços.
— Meu Deus, Eloá! Você se machucou? Você bateu o joelho forte? — A voz dele era pura agonia. — Eu te machuquei tanto assim? Eu sou um monstro, eu devia ter parado...
— João, para! — Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. — Eu estou rindo, não estou? Não foi nada. Minhas pernas só estão bambas. É normal, sabia? Significa que foi bom.
— Mas você caiu... — ele insistiu, embora o pânico estivesse diminuindo diante do sorriso dela.
— Eu caí porque sou desastrada e porque você me deixou sem forças — ela brincou, dando um beijo rápido nos lábios dele. — Agora, para de sofrer e me ajuda a levantar, meu cavaleiro de armadura brilhante.
João suspirou, sentindo o coração voltar ao ritmo normal. Ele a pegou pela cintura, levantando-a com uma facilidade que sempre a impressionava. Ele a manteve apoiada em seu corpo, um braço passado firmemente pelas costas dela, enquanto caminhavam em direção à porta.
— Eu vou te carregar até a cozinha — propôs ele, sério.
— Nem pensar! — Eloá protestou. — Sua mãe está lá embaixo. O que ela vai pensar se você aparecer me carregando no colo às dez da manhã?
— Ela vai pensar que eu sou um namorado atencioso — retrucou ele, embora estivesse morrendo de vergonha da ideia.
— Ela vai saber exatamente o porquê de eu não estar conseguindo andar, João! — Eloá riu, batendo no ombro dele. — Me solta aqui na porta. Eu vou tentar disfarçar.
Eles desceram as escadas devagar. João ia logo atrás, com as mãos estendidas, pronto para ampará-la a qualquer sinal de instabilidade. Eloá tentava manter a postura, mas cada passo resultava em um leve mancar que ela tentava transformar em um "gingado" casual, sem muito sucesso.
Ao chegarem na cozinha, o aroma de café fresco e pão na chapa preenchia o ar. Dona Marisa estava de costas, mexendo em algo no fogão.
— Bom dia, queridos! — disse ela, sem se virar. — Dormiram bem?
— Bom dia, mãe — respondeu João, a voz uma oitava mais alta que o normal.
— Bom dia, tia Marisa! — Eloá forçou um tom alegre e caminhou em direção à mesa.
Ela tentou fazer o trajeto de forma natural, mas no meio do caminho, seu quadril deu um estalo e ela teve que se segurar na borda da mesa para não fraquejar. João deu um passo rápido à frente, mas Eloá o afastou com um olhar de "eu consigo". Ela se sentou na cadeira com um suspiro de alívio que quase pareceu um gemido.
— Vocês parecem cansados — comentou Marisa, colocando uma jarra de suco na mesa e lançando um olhar cúmplice para o filho, que quase se engasgou com o próprio ar. — A luz demorou a voltar ontem, não foi?
— Foi... foi sim — gaguejou João, enterrando a cara em uma caneca de leite.
— Pois é, ficamos conversando no escuro por um tempão — completou Eloá, pegando um pedaço de bolo com uma naturalidade invejável. — A senhora sabe como o João fala quando começa a explicar as teorias dos animes dele.
Marisa sorriu, claramente não acreditando em uma palavra, mas decidiu poupar os dois.
— Imagino. Comam bastante, vocês precisam de energia.
O café seguiu com conversas triviais, embora João estivesse em um estado de alerta constante, observando cada movimento de Eloá. Quando terminaram, ele rapidamente se ofereceu para lavar a louça, querendo que ela descansasse.
— Pode subir, Eloá — disse ele. — Eu já vou para lá.
Ela assentiu e, com um pouco mais de firmeza agora, conseguiu subir as escadas, embora ainda segurando firme no corrimão. Quando João entrou no quarto, alguns minutos depois, encontrou-a esparramada em sua cama, ocupando exatamente o meio do colchão.
— Finalmente — disse ela, esticando os braços. — Essa cama é o meu lugar favorito no mundo agora.
João fechou a porta e se aproximou, sentando-se na beirada. Ele tocou o tornozelo dela com delicadeza.
— Ainda está doendo muito?
Eloá rolou de lado, apoiando o rosto na mão e olhando para ele com um sorriso travesso que João já deveria ter aprendido a temer.
— Sabe, João... — começou ela, a voz descendo um tom. — Eu estava pensando aqui. Já que eu já estou toda dolorida mesmo, e já que eu nem consigo andar direito... talvez a gente devesse aproveitar que a luz não caiu hoje.
João arregalou os olhos, as orelhas ficando vermelhas.
— O-o quê? Eloá, você não está falando sério. Você acabou de cair no chão!
— E daí? — Ela se aproximou dele, engatinhando pela cama com uma agilidade que desmentia sua condição de minutos atrás. — A gente pode testar outras posições. Uma que não exija tanto das minhas pernas. O que você acha?
Ela passou os braços pelo pescoço dele, puxando-o para mais perto até que seus narizes se tocassem.
— Você quer, não quer? — sussurrou ela, soprando o rosto dele. — Eu sei que você quer.
João estava paralisado. O desejo lutava contra seu instinto protetor e sua timidez crônica. Ele sentia o calor dela, o perfume, e a provocação em seus olhos.
— Eu... eu acho que a gente devia descansar — ele gaguejou, embora suas mãos tivessem subitamente encontrado o caminho para a cintura dela. — Você disse que estava doendo...
— Uma dorzinha de nada não vai me parar — ela continuou, mordendo o lábio inferior. — Vamos, João. Me mostra que você não é tão delicado quanto parece...
Ela deu um beijo casto, mas demorado, no canto da boca dele. João sentiu o mundo girar. Ele estava prestes a ceder, prestes a deitá-la novamente e esquecer qualquer preocupação, quando Eloá subitamente se afastou e caiu na gargalhada.
— Ai, meu Deus! Você devia ver a sua cara! — Ela rolou pela cama, rindo tanto que precisou abraçar o travesseiro. — Você ficou... você ficou roxo!
João piscou, processando a situação. O peso da provocação sumiu, substituído por uma indignação fingida.
— Eloá! Isso não se faz! Eu estava preocupado com você!
— Eu sei, eu sei — disse ela, tentando recuperar o fôlego, com as bochechas coradas de tanto rir. — Mas é tão fácil te provocar. Você é tão certinho, tão cuidadoso... eu não resisti.
— Você é impossível — disse ele, embora não conseguisse esconder o sorriso. Ele se inclinou e começou a fazer cócegas nas costelas dela.
— Não! João! Para! — ela gritou entre risos, contorcendo-se. — Se você fizer isso, eu vou gritar e sua mãe vai subir aqui!
— Deixa ela subir, eu vou dizer que você está me assediando — brincou ele, continuando o ataque até que ela estivesse sem fôlego.
Finalmente, ele parou, deitando-se ao lado dela. O clima de brincadeira acalmou os nervos de ambos. O quarto voltou a ter aquele silêncio confortável de antes, mas agora carregado com a certeza de que algo havia mudado para sempre entre eles.
Eloá se aconchegou no peito de João, sentindo o coração dele bater de forma estável sob sua orelha.
— Mas falando sério — sussurrou ela, agora sem nenhuma brincadeira na voz. — Obrigada por ser assim. Por se preocupar.
João beijou o topo da cabeça dela, envolvendo-a com seus braços longos.
— Eu sempre vou me preocupar com você, Eloá. Mesmo quando você estiver fazendo piada da minha cara.
— Promete?
— Prometo.
Eles ficaram ali, emaranhados um no outro, enquanto o sol subia mais alto no céu. O anime na tela do computador estava esquecido, pois a história que eles estavam escrevendo ali, entre lençóis limpos e risadas compartilhadas, era muito mais interessante do que qualquer ficção. Naquela manhã, a dor nas pernas de Eloá era apenas um pequeno detalhe, um troféu de uma noite inesquecível que havia transformado o tímido João em seu porto seguro, e a animada Eloá na dona absoluta de seu coração.