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Um amor tímido.

O Eco do Silêncio e o Calor do Cuidado

A manhã avançava preguiçosa, e o quarto de João, que antes parecia apenas um santuário de cultura geek, agora carregava uma aura de santidade particular. O cheiro de café que subia da cozinha começava a se dissipar, substituído pelo aroma familiar do amaciante dos lençóis novos e pelo perfume de baunilha que parecia ter se impregnado em cada centímetro de pele dos dois.

João observava Eloá, que agora parecia ter finalmente encontrado uma posição confortável, com as pernas entrelaçadas nas dele. Ele ainda se sentia um pouco em transe. Ser alto e desajeitado sempre lhe trouxe uma sensação de inadequação, mas ali, com ela, seus braços longos pareciam ter sido desenhados especificamente para envolvê-la por completo.

— João? — Eloá quebrou o silêncio, sua voz agora mais séria, embora mantivesse a doçura. — Você está muito quieto. No que está pensando?

Ele hesitou, sentindo o calor subir pelas bochechas.

— Eu estava pensando em como tudo mudou de ontem para hoje — confessou ele, acariciando o braço dela com a ponta dos dedos, de forma quase reverente. — Eu sempre tive medo de que, se a gente desse esse passo, algo entre nós pudesse ficar estranho. Ou que eu não soubesse como agir depois.

Eloá ergueu o rosto, apoiando o queixo no peito dele. Seus olhos brilhavam com uma compreensão profunda.

— E está estranho? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.

— Não — ele respondeu prontamente, soltando um suspiro de alívio. — Na verdade, parece que eu finalmente entendi quem eu sou quando estou com você. Eu me sinto... mais forte. Mesmo que eu tenha quase morrido de susto quando você caiu.

Ela soltou uma risadinha, dando um beijo leve na clavícula dele.

— Você é um bobo carinhoso, João. Mas eu entendo. Eu também tive meus medos. Tive medo de não ser o que você esperava, ou de que a gente perdesse aquela leveza de ficar só assistindo anime e comendo salgadinho.

— Acho que ganhamos uma leveza nova — disse ele, sorrindo. — Uma que não precisa de palavras o tempo todo.

Eles ficaram em silêncio por mais alguns minutos, apenas sentindo a proximidade. João, no entanto, ainda tinha aquela pontada de preocupação que era inerente à sua personalidade cuidadosa. Ele se lembrou da expressão de dor que ela fizera mais cedo.

— Eloá, você quer que eu pegue uma compressa quente? Ou algum remédio? Minha mãe sempre tem umas coisas na farmácia do banheiro...

— João, pelo amor de Deus — ela riu, sentando-se na cama e ignorando a fisgada leve no quadril. — Eu não estou doente. Eu só tive a melhor noite da minha vida com o garoto que eu amo. Pára de me tratar como se eu fosse quebrar a qualquer momento.

— Eu não consigo evitar — ele admitiu, sentando-se também. — Você é tão pequena perto de mim. Eu tenho essa mania de achar que qualquer movimento meu pode ser demais.

Eloá estendeu a mão e tocou o rosto dele, forçando-o a olhar nos seus olhos.

— Escuta aqui, seu gigante gentil. Você foi perfeito. Foi delicado quando precisou e... bom, você sabe. — Ela corou levemente, mas não desviou o olhar. — O que aconteceu ontem foi uma escolha nossa. E eu amei cada segundo, inclusive o seu jeito desastrado de limpar tudo depois.

João escondeu o rosto nas mãos, rindo de nervoso.

— Por favor, não me lembra da parte do lençol. Eu ainda não acredito que a luz voltou bem naquela hora.

— Foi o destino querendo ver a sua cara de pimentão — provocou ela, levantando-se da cama com mais cautela desta vez.

Ela caminhou até a estante de João, observando os bonecos de ação e os volumes de mangá cuidadosamente alinhados. Ela pegou um pequeno porta-retrato que ficava escondido atrás de uma pilha de livros. Era uma foto dos dois no ano anterior, em um festival de cultura japonesa. Eles pareciam tão mais jovens, tão mais inocentes.

— Olha como a gente era — disse ela, mostrando a foto para ele. — Você nem conseguia colocar o braço em volta do meu ombro sem tremer.

João se aproximou, ficando em pé atrás dela. A diferença de altura era gritante; o topo da cabeça de Eloá mal chegava ao seu peito. Ele a abraçou por trás, descansando o queixo no topo da cabeça dela.

— Eu estava apavorado — ele confessou. — Eu achava que, se eu chegasse perto demais, você ia perceber o quanto eu estava apaixonado e ia se assustar.

— Eu já sabia, João — ela sussurrou, encostando-se nele. — Eu só estava esperando você criar coragem.

— E agora? — perguntou ele. — O que acontece agora?

Eloá se virou nos braços dele, ficando de frente para o rapaz. Ela passou as mãos pela nuca dele, brincando com os fios de cabelo na base do pescoço.

— Agora a gente continua sendo a gente. Só que com um segredo maravilhoso que só pertence a nós dois. E com a certeza de que, não importa o que aconteça, a gente cuida um do outro.

— Eu gosto disso — ele disse, inclinando-se para beijá-la.

O beijo foi calmo, doce, carregado de uma promessa de futuro. Não havia a urgência da noite anterior, apenas a confirmação de um vínculo que havia se tornado inquebrável.

De repente, o som de passos no corredor os fez se separarem rapidamente. João deu um pulo para trás, quase derrubando uma pilha de mangás, enquanto Eloá tentava ajeitar a camiseta gigante que insistia em escorregar pelo seu ombro.

— João? — A voz de Dona Marisa soou através da porta, seguida por duas batidas leves. — Eu vou ao mercado. Vocês precisam de alguma coisa?

João olhou para Eloá, que fazia sinais frenéticos para que ele respondesse de forma normal.

— Não, mãe! — ele gritou, a voz falhando levemente no final. — Estamos bem! Obrigado!

— Tudo bem, então. Eloá, querida, se quiser ficar para o almoço, eu vou trazer ingredientes para fazer aquela lasanha que você gosta.

— Eu adoraria, tia Marisa! — Eloá respondeu, sua voz saindo perfeitamente estável, o que deixou João impressionado. — Muito obrigada!

Ouviram os passos se afastando e, logo depois, o som da porta da frente batendo. João soltou o ar que nem sabia que estava prendendo, deixando o corpo relaxar contra a parede.

— Como você consegue ser tão calma? — ele perguntou, incrédulo. — Meu coração está parecendo uma escola de samba.

— Prática, meu caro Watson — ela brincou, voltando para a cama e se jogando nos travesseiros. — E também porque sua mãe é incrível. Ela sabe, João. Mães sempre sabem. Ela só está sendo legal o suficiente para não nos deixar constrangidos.

— Você acha? — Ele se sentou ao lado dela, genuinamente preocupado.

— Tenho certeza. Mas ela viu como você está feliz. E é isso que importa para ela.

João sorriu, sentindo um peso sair de seus ombros. Ele se deitou ao lado dela, e os dois ficaram olhando para o teto, onde algumas estrelas fluorescentes que ele colara na infância ainda resistiam ao tempo.

— Sabe o que eu queria fazer agora? — perguntou Eloá, virando o rosto para ele.

— O quê? — Ele perguntou, já se preparando para alguma outra provocação.

— Terminar aquele episódio do anime. Eu realmente preciso saber se o protagonista vai conseguir salvar a vila.

João soltou uma gargalhada alta, uma risada que vinha do fundo da alma e que espantava qualquer resquício de timidez.

— Você não existe, Eloá.

— Existe sim, e está com fome de novo. Mas o anime primeiro.

Ele ligou o computador, e o brilho da tela iluminou o quarto, que agora parecia mais vibrante do que nunca. João puxou Eloá para o seu colo, acomodando-a entre suas pernas longas, criando um casulo de calor e segurança.

Enquanto a abertura do anime começava a tocar, ele sentiu a mão pequena dela procurar a sua e entrelaçar os dedos. Não era apenas sobre o sexo, ele percebeu. Era sobre a entrega, sobre a confiança e sobre a descoberta de que, no meio de tanta timidez e hesitação, ele havia encontrado alguém que o via exatamente como ele era — e que o amava por isso.

— João? — ela chamou, sem tirar os olhos da tela.

— Oi?

— Eu te amo.

Ele sentiu o coração falhar uma batida, mas desta vez não foi por nervosismo. Foi por uma plenitude que ele nunca imaginou ser possível.

— Eu também te amo, Eloá. Mais do que todos os episódios de todos os animes do mundo.

— Nossa, então é muito — ela brincou, apertando a mão dele.

— É — ele sussurrou, beijando o topo da cabeça dela. — É muito mesmo.

E ali, no silêncio confortável do quarto, com a luz do dia brilhando lá fora e a promessa de uma lasanha no almoço, João e Eloá entenderam que a noite anterior não fora um fim, mas um começo. Um capítulo novo, mais maduro e infinitamente mais doce, de uma história que estava apenas começando a ser escrita. Eles eram opostos em altura e temperamento, mas, naquele momento, eram uma sintonia perfeita, dois corações batendo no mesmo ritmo sob o céu de estrelas de plástico e o brilho de uma tela de computador.