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Um amor tímido.

O Brilho nos Olhos e o Gosto de Futuro

O som da abertura do anime preenchia o quarto, mas a mente de João estava em qualquer lugar, menos na animação japonesa. Ele sentia o peso leve de Eloá contra o seu peito, o calor que emanava dela e a forma como ela se encaixava perfeitamente no vão dos seus braços. Para alguém que sempre se sentiu "demais" — alto demais, desengonçado demais, tímido demais —, aquele momento era a prova de que ele era, finalmente, a medida exata para alguém.

— João, você está perdendo a melhor parte! — Eloá exclamou, apontando para a tela onde o protagonista desferia um golpe final em meio a uma explosão de cores. — Olha aquele efeito de luz!

— Eu estou vendo — mentiu ele, soltando um riso soprado e apertando-a um pouco mais. — É incrível.

— Você nem está olhando, seu bobo — ela disse, virando o rosto para cima para encará-lo com um sorriso vitorioso. — Você está olhando para mim.

— É que a animação aqui fora é muito mais bonita — ele respondeu, sentindo a própria audácia aquecer seu rosto.

Eloá não recuou. Em vez disso, ela se virou completamente no colo dele, ficando de joelhos sobre o colchão, o que a deixava quase na mesma altura que ele enquanto João permanecia sentado. A camiseta preta dele, que ela ainda usava, deslizou um pouco pelo ombro, revelando a pele clara e a marca sutil de um carinho da noite anterior.

— Quem diria que o João tímido escondia um galanteador desses? — Ela passou os braços pelo pescoço dele, brincando com os fios da nuca. — O que mais você está escondendo, hum?

— Nada — ele gaguejou, a confiança vacilando por um segundo diante da proximidade intensa. — Eu só... eu só me sinto bem. Como se eu não precisasse mais me esconder atrás dos meus pôsteres.

Eloá suavizou a expressão. Ela encostou a testa na dele, fechando os olhos por um instante.

— Eu amo o seu quarto, João. Amo seus pôsteres e suas teorias malucas. Mas eu amo mais o fato de que agora eu faço parte disso tudo de um jeito diferente.

— Você sempre fez parte — ele sussurrou. — Só demorou um pouco para eu ter coragem de te deixar entrar de verdade.

O clima entre eles, que oscilava entre a brincadeira e a ternura, subitamente se tornou mais denso. O som do anime ao fundo tornou-se um ruído branco, distante. João levou as mãos à cintura de Eloá, sentindo a curva delicada do seu corpo por baixo do tecido fino. Ele ainda era cuidadoso, ainda era o "gigante gentil" que temia quebrá-la, mas havia uma nova segurança em seu toque.

— João... — ela chamou baixinho, a voz carregada de uma expectativa doce.

— Oi?

— A gente não precisa descer para o almoço agora, precisa? — Ela deu um sorriso travesso, aquele que João já conhecia bem e que sempre o deixava com as pernas bambas. — A lasanha da sua mãe demora pelo menos uma hora para ficar pronta.

João sentiu o coração disparar. Ele olhou para a porta fechada e depois de volta para os olhos brilhantes de Eloá.

— Acho que temos tempo — ele respondeu, a voz ganhando uma nota de desejo que ele mal reconhecia como sua.

Ele a puxou para um beijo, desta vez mais profundo, explorando cada canto da boca dela com uma sede que parecia inesgotável. Eloá respondeu com a animação de sempre, mas havia uma entrega nova em seus movimentos. Ela se pressionou contra ele, buscando o calor do seu corpo, e João a deitou lentamente no colchão, ficando por cima dela, mas tomando o cuidado de apoiar o peso nos cotovelos.

— Você está bem? — ele perguntou entre beijos, a respiração ofegante. — Suas pernas...

— Minhas pernas estão ótimas para ficar exatamente onde estão agora — ela interrompeu, envolvendo a cintura dele com as coxas, puxando-o para mais perto. — Esquece a minha queda, João. Foca em mim.

Desta vez, não houve a escuridão do apagão para escondê-los. A luz do dia revelava cada detalhe, cada expressão de prazer e cada toque hesitante que se tornava firme. João sentia-se mais conectado a ela do que nunca. Ver o rosto de Eloá, o brilho nos olhos dela e a forma como ela sorria entre um gemido e outro, era a experiência mais intensa de sua vida. Ele era delicado, traçando o caminho com os lábios pela pele dela como se estivesse mapeando um território sagrado, mas quando ela pedia por mais, ele respondia com uma força que a fazia suspirar o seu nome.

— Você me faz sentir... — ela começou, mas as palavras se perderam quando ele a beijou no pescoço. — Você me faz sentir amada, João. De verdade.

— Porque você é — ele disse, olhando-a nos olhos. — Eu te amo tanto que às vezes dói.

O tempo pareceu parar naquele quarto. Não havia escola, não havia animes, não havia o mundo lá fora. Havia apenas o ritmo compartilhado de dois corpos que estavam aprendendo a linguagem um do outro. Quando o ápice chegou, foi como uma explosão de silêncio e satisfação, um momento de comunhão absoluta que os deixou exaustos e felizes, abraçados sob o cobertor que agora estava permanentemente bagunçado.

Algum tempo depois, o som de um carro estacionando na garagem os trouxe de volta à realidade.

— A lasanha! — Eloá deu um pulo, sentando-se rapidamente e tentando encontrar suas roupas em meio ao caos dos lençóis.

— Calma, calma — João riu, embora também estivesse se apressando para vestir a bermuda. — Minha mãe ainda vai levar um tempo para preparar tudo.

— Eu não quero que ela entre aqui e veja a gente desse jeito! — Eloá disse, finalmente encontrando seu short jeans. — Eu tenho uma reputação a zelar, sabia?

— A reputação de ser a menina mais fofa e animada que já pisou nesta casa? — João provocou, aproximando-se para dar um beijo rápido no ombro dela. — Acho que isso está seguro.

— Engraçadinho.

Eles se arrumaram rapidamente, tentando apagar os vestígios da "bagunça" matinal. João arrumou a cama com uma velocidade impressionante, enquanto Eloá tentava domar o cabelo rebelde diante do espelho.

— João, olha isso — ela disse, apontando para o pescoço. — Isso é uma marca?

João se aproximou, sentindo uma mistura de culpa e orgulho. Havia uma pequena mancha avermelhada perto da clavícula dela.

— Desculpa... eu não percebi.

— Não pede desculpa — ela sorriu, ajeitando a gola da camiseta (que agora era uma dela, que ela trouxera na mochila). — Eu gostei. É como uma tatuagem temporária do meu gigante favorito.

Eles desceram as escadas de mãos dadas, tentando agir com a maior naturalidade possível. Dona Marisa já estava na cozinha, descarregando as sacolas de compras.

— Cheguei! — anunciou ela. — Trouxe queijo extra, porque sei que vocês dois comem como se não houvesse amanhã.

— Oi, tia Marisa! Quer ajuda? — Eloá se ofereceu, aproximando-se com seu jeito saltitante, embora ainda desse um passo um pouco mais cauteloso que o habitual.

— Não precisa, querida. João, venha aqui me ajudar a abrir esse pote de molho, você sabe que eu não tenho força para isso.

João obedeceu, sentindo-se um pouco mais relaxado. A normalidade da rotina doméstica era um contraste estranho, mas reconfortante, com a intensidade do que acabara de viver no andar de cima. Enquanto ajudava a mãe, ele trocava olhares cúmplices com Eloá, que estava sentada no balcão, balançando as pernas e roubando pedaços de queijo.

— Então — começou Marisa, com um tom casual demais para ser inocente —, o que vocês decidiram sobre o anime? O herói venceu?

João sentiu o rosto esquentar instantaneamente.

— Ah... sim. — Ele pigarreou. — Ele venceu. Foi uma luta difícil, mas ele conseguiu.

— Que bom — Marisa sorriu, olhando de soslaio para o filho. — Às vezes as melhores vitórias são as que exigem mais esforço, não é?

Eloá soltou uma risadinha abafada por um pedaço de queijo, e João decidiu que era melhor focar totalmente na tarefa de abrir o pote de molho.

O almoço foi repleto de risadas e conversas sobre o futuro. Falaram sobre a faculdade, sobre as viagens que queriam fazer e sobre como o quarto de João precisava de uma reforma urgente para caber mais prateleiras de livros. Para João, ouvir Eloá incluir-se nos planos futuros de forma tão natural era o melhor som do mundo.

Depois de comerem até não aguentarem mais, os dois voltaram para o quarto. O sol da tarde agora batia em um ângulo diferente, criando sombras longas. Eles se deitaram na cama, mas desta vez apenas para descansar. Eloá apoiou a cabeça no peito de João, e ele começou a fazer um cafuné lento em seus cabelos.

— João? — ela chamou, com a voz sonolenta.

— Hum?

— Você acha que a gente vai ser assim para sempre?

Ele parou o movimento da mão por um segundo, refletindo sobre a pergunta. No mundo dos animes, os heróis muitas vezes enfrentavam desafios impossíveis para manterem seus laços. Na vida real, ele sabia que as coisas podiam ser mais complicadas, mas olhando para a menina em seus braços, ele não conseguia imaginar outro destino.

— Eu não sei se "para sempre" existe do jeito que mostram nos filmes — ele disse com sinceridade. — Mas eu sei que eu quero tentar. Todos os dias. Quero que cada dia seja uma nova temporada da nossa história.

Eloá sorriu, fechando os olhos.

— Eu gosto dessa ideia. A primeira temporada foi ótima. O episódio de ontem foi o meu favorito.

— O meu também — ele concordou, beijando a testa dela. — Mas acho que a segunda temporada promete ser ainda melhor.

— Com certeza. — Ela bocejou, aninhando-se mais perto dele. — Mas agora, o protagonista precisa de um cochilo.

— O protagonista e a heroína — corrigiu ele.

— Heroína, não. Co-protagonista. Eu tomo a frente às vezes, lembra?

— Como eu poderia esquecer? — ele riu, lembrando-se da ousadia dela mais cedo.

O silêncio voltou a reinar no quarto, mas era um silêncio preenchido pela presença um do outro. João ficou observando Eloá adormecer, maravilhado com a sorte de ter encontrado alguém que transformava sua timidez em força e seu cuidado em amor. Ele sabia que haveria outros desafios, outros apagões e outras manhãs de pernas bambas, mas enquanto tivessem um ao outro, ele estava pronto para qualquer aventura que a vida decidisse roteirizar.

Ele fechou os olhos também, deixando-se levar pelo sono, com a certeza de que, naquele pequeno quarto decorado com heróis de papel, ele havia encontrado a sua própria versão de um final feliz — que, na verdade, era apenas um maravilhoso e inesquecível começo.