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Um lobo sedento

Pacto de Sangue sob a Névoa da Manhã

A alvorada na floresta de Cobblestone não trouxe o alívio que os tolos associam ao nascer do sol. Trouxe apenas uma névoa espessa, leitosa e fria, que rastejava pelas frestas das tábuas de pinho da cabana como dedos espectrais tentando arrancar o calor daquele pequeno refúgio. O cheiro, contudo, continuava denso, impregnado nas paredes e nas vigas do teto: o rastro inconfundível do cio de uma loba misturado à essência metálica de sangue seco e à almíscar crua de consumação.

Wednesday não havia dormido mais do que noventa minutos. O sono profundo era um luxo que ela concedia a si mesma apenas quando todos os seus inimigos em potencial estavam devidamente catalogados ou incapacitados. E, naquele acampamento deplorável, o perigo rondava a cada canto em forma de adolescentes estúpidos e monitores intrometidos.

Ela permanecia sentada na beira da cama, vestindo sua camisa preta de botões — agora sem três botões arrancados pelas presas de Enid e com rasgos visíveis nos ombros —, observando a namorada.

Enid dormia de bruços, a respiração pesada e profunda, o corpo ainda queimando em uma temperatura que cozinharia um ser humano comum. Suas costas nuas exibiam as marcas arroxeadas dos dedos de Wednesday, um mapa de contusões que contrastava com a pele dourada. A cada exalação, uma mecha de cabelo cor-de-rosa tremulava sobre sua bochecha serena. Ela parecia um anjo caído que acabara de estraçalhar sua própria auréola.

Um rangido suave no chão de madeira denunciou a aproximação de Mãozinha. A criatura subiu com agilidade pela perna da mesa rústica, batendo os dedos com urgência sobre a superfície encerada.

Wednesday decifrou os movimentos com um revirar de olhos quase imperceptível.

— Eu já sei — murmurou ela, a voz soando mais grave e áspera pelo desuso matinal. — A ronda das seis da manhã começou. Se algum daqueles idiotas com apitos no pescoço colocar os pés na varanda desta cabana, você tem permissão expressa para usar a tesoura de tosa.

Mãozinha gesticulou uma série de sinais rápidos, alertando que o cheiro no perímetro externo já começava a levantar suspeitas entre os outros lobisomens do acampamento.

— Um problema químico — concluiu Wednesday, levantando-se sem fazer ruído.

A dor sutil na base de sua virilha era um lembrete persistente do nó da noite anterior, uma queimação latejante e satisfatória que ela acolheu como uma condecoração de guerra. Caminhou até sua mochila militar de lona encerada e retirou um frasco de vidro escuro contendo um pó acinzentado à base de enxofre purificado, folhas secas de acônito e casca de salgueiro-negro. Aproximou-se da lareira apagada, jogou uma pitada generosa sobre as cinzas frias e acendeu um fósforo com um movimento seco do polegar.

Uma fumaça azulada, com cheiro acre de folhas queimadas e terra úmida de cemitério, subiu lentamente, cobrindo o aroma adocicado e lascivo de Enid com um véu sufocante e fúnebre. Para qualquer olfato aguçado do lado de fora, a cabana pareceria apenas o antro de uma bruxa praticando rituais nocivos — o que era infinitamente melhor do que admitir que a herdeira da família Addams havia passado a madrugada atracada como uma fera à ômega mais popular de Nevermore.

Na cama, os lençóis se agitaram. Um gemido baixo, longo e rouco reverberou pelo quarto.

— Willa...? — A voz de Enid soou como veludo amassado.

Wednesday virou-se lentamente, guardando o frasco.

— A febre voltou a subir — constatou, aproximando-se do leito com passos medidos. — Seu ciclo não terminará em apenas vinte e quatro horas. Biologicamente falando, sua espécie é terrivelmente ineficiente. Três a quatro dias de histeria reprodutiva é uma falha de design evolutivo imperdoável.

Enid rolou na cama, enterrando o rosto no travesseiro antes de erguer os olhos azuis, que ainda cintilavam com aquele brilho dourado e predatório sob os cílios bagunçados. O suor brilhava em seu peito, e a linha das costelas subia e descia em um ritmo que nada tinha de repousante. Ela olhou para Wednesday, seus olhos descendo deliberadamente para o pescoço da morena.

A marca da mordida estava lá: dois furos profundos rodeados por um hematoma escuro e violáceo bem onde a jugular pulsava. A marca de posse da loba. Um sorriso torto, sonolento e descaradamente satisfeito curvou os lábios cheios de Enid.

— Olha só você... — ronronou a loira, a voz carregada de uma preguiça maliciosa. — Tá exibindo a minha marca como se fosse um broche da realeza gótica.

— É uma ferida aberta suscetível a tétano e infecções bacterianas — rebateu Wednesday, inexpressiva, parando ao lado da cama. — Pretendo cauterizá-la com prata derretida assim que tivermos acesso ao laboratório.

— Você não teria coragem — desafiou Enid, esticando um braço para agarrar o pulso pálido de Wednesday, puxando-a para baixo com uma força surpreendente para quem havia desfalecido de cansaço há poucas horas. — Se você apagar essa marca, Addams, eu juro que mordo o outro lado. E depois mordo a sua coxa. E depois...

Wednesday cedeu ao puxão, apoiando o joelho no colchão estreito, ficando debruçada sobre a loba. O calor que emanava de Enid a atingiu em cheio, como uma onda térmica de forno aberto. Seus próprios feromônios, despertados pela proximidade da ômega, reagiram instantaneamente, fazendo a rigidez adormecida entre suas pernas pulsar contra o tecido áspero das calças.

— A audácia dos caninos sempre me impressiona — sussurrou Wednesday, os olhos negros fixos na boca rosada de Enid. — Especialmente quando estão à beira de um colapso hormonal.

— Não é colapso, amor — Enid passou as pernas ao redor dos quadris de Wednesday, prendendo-a em uma chave suave, esfregando o púbis febril e úmido contra a coxa da morena através do lençol. As garras de suas mãos roçaram as costas de Wednesday com ternura perigosa. — É a segunda onda. A vovó disse que o segundo dia é o pior. Minha pele tá formigando inteira... parece que tem agulhas me espetando por dentro.

— Uma sensação fascinante. Eu recomendaria que você meditasse sobre essa agonia.

— Eu não quero meditar sobre a agonia, Wednesday — Enid sibilou, puxando a cabeça de Wednesday para baixo até que suas respirações colidissem. Os dentes caninos da loira rasparam levemente no lábio superior da bruxa. — Eu quero que você me tire da minha cabeça de novo. Você me deixou tão cheia ontem... e agora tá vazio. É uma sensação horrível. Parece que eu vou morrer se você não me preencher agora.

— A morte é superestimada por mentes vulgares — murmurou Wednesday, mas sua mão já havia encontrado o quadril de Enid, os dedos pálidos cravando-se na carne macia e quente, arrancando um arquejo imediato da loba. — No entanto, sua capacidade de chantagem emocional beira a competência profissional.

— Menos palavras fúnebres... — implorou Enid, rebolando para cima, desesperada por atrito. — Por favor, Willa. Eu sinto você aí dentro das suas calças... tá dura igual uma pedra só de olhar pra mim. Você não consegue mentir pro meu nariz.

Wednesday travou o maxilar. O cheiro de Enid estava mudando outra vez; a doçura dos morangos silvestres estava se tornando mais ácida, mais urgente, o líquido do cio gotejando e encharcando o lençol sob ela. A biologia de Wednesday respondeu com a violência fria de um mecanismo de relógio que acabara de ser desarmado. Sua anatomia particular, aquela dádiva ancestral da linhagem Addams que misturava a precisão da bruxaria com uma força reprodutiva arcaica, exigia submissão mútua.

Passos pesados soaram na trilha de cascalho do lado de fora da cabana.

Enid congelou, suas orelhas humanas se contraindo instintivamente, o medo de ser descoberta atravessando a névoa de sua luxúria.

— Sinclair! Addams! — A voz estridente e irritantemente otimista da monitora da trilha ecoou perto da porta. — Vocês têm quinze minutos para a inspeção de cabines e a caminhada ecológica matinal! Estejam prontas!

As batidas rudes na porta de madeira fizeram a cabana tremer.

Wednesday não se moveu um milímetro. Manteve os olhos fixos nos de Enid, observando a pupila da loira dilatar-se pelo pânico e pela excitação de estarem tão próximas de serem pegas. Wednesday inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, a voz saindo cortante, alta o bastante para atravessar a madeira grossa da porta, mas fria como gelo seco:

— Se você bater nesta porta mais uma vez, monitora Higgins, garantirei que sua próxima caminhada ecológica seja realizada de muletas e com um ninho de vespas carnívoras costurado no forro do seu casaco de náilon. Sinclair está com febre tifoide altamente contagiosa e eu estou catalogando seus estágios terminais. Afaste-se cinco metros ou enfrente a quarentena forçada.

Houve um silêncio chocado do outro lado. Passos apressados recuaram pelo cascalho, quase tropeçando nas raízes expostas, até desaparecerem na direção do refeitório principal.

Enid soltou uma risada abafada contra o peito de Wednesday, o corpo tremendo em espasmos de puro deleite.

— Febre tifoide? Sério?

— Era isso ou espetar os olhos dela com uma agulha de tricô — respondeu Wednesday, impassível. — A mentira patológica é mais higiênica.

— Você é doentia, sabia? — Enid sorriu, passando as unhas pintadas de azul e rosa pela gola da camisa de Wednesday, empurrando os ombros da garota para trás. — E é por isso que eu sou louca por você. Agora tira essa calça ridícula antes que eu rasgue ela inteira com os dentes.

Wednesday atendeu, não pela pressa infantil da carne, mas porque o comando da ômega ecoava em sua própria medula. Ela se desvencilhou do tecido preto, livrando-se das roupas inferiores com a compostura de quem se preparava para um sacrifício ritual. Seu membro despontou pesado, longo e perfeitamente rígido, brilhando com uma gota límpida na ponta que traía o falso desdém de sua expressão.

Enid soltou um gemido sôfrego, abrindo as coxas o máximo que o colchão estreito permitia. Seus lábios inferiores estavam inchados da noite anterior, brilhantes e transbordando um lubrificante espesso e aromático.

— Olha pra isso... — sussurrou a loba, puxando o próprio lábio com os dentes, os olhos devorando a visão de Wednesday nua sobre ela. — Willa... enfia. Não brinca comigo hoje. Faz daquele jeito de novo. Me prende na cama.

Wednesday apoiou uma mão firme na garganta de Enid, aplicando uma pressão cirúrgica — o suficiente para acelerar os batimentos da loba e privá-la sutilmente do ar, mas sem machucar de verdade. Enid revirou os olhos em puro êxtase masoquista, arqueando o pescoço para oferecer mais área de contato.

— Você pede por sofrimento com uma vulgaridade admirável, Enid — disse Wednesday, a voz descendo para um sussurro cavernoso. — E eu pretendo satisfazer cada uma de suas perversões.

Sem preliminares desnecessárias, Wednesday alinhou-se e empurrou.

A penetração foi avassaladora. O interior de Enid, ainda dolorido e hipersensível da noite passada, abraçou o tamanho de Wednesday com uma sucção violenta e quente. Um grito rouco e agudo morreu na garganta presa de Enid, que fechou as mãos nos lençóis com tanta força que o linho rasgou com um estalo seco.

Wednesday afundou até a raiz, sentindo o colo do útero da ômega bater contra a glande em uma recepção milimétrica e devastadora. Ela soltou a garganta de Enid apenas para segurar seus quadris com as duas mãos, cravando os dedos na carne farta e iniciando um ritmo implacável.

— Ah, merda... Willa! — Enid choramingou, balançando a cabeça de um lado para o outro sobre o travesseiro destruído. O estrado da cama começou a chiar em protesto contra a violência dos movimentos. — É muito... tão fundo... você tá me partindo no meio!

— O objetivo nunca foi preservá-la inteira — rebateu Wednesday entre respirações cortadas, os olhos brilhando com uma satisfação obscura ao ver a garota perder completamente a postura humana.

Cada estocada de Wednesday era cirurgicamente pesada, aproveitando o ângulo das pernas levantadas de Enid para atingir a parede anterior da loba com uma constância brutal. O som úmido de seus corpos colidindo ecoava na cabana, misturando-se com a chuva leve que voltava a fustigar os vidros da janela.

Enid não conseguia conter os ganidos. Mordia o próprio antebraço para não berrar alto demais, mas pequenas exclamações quebradas escapavam por entre seus dentes pontiagudos.

— Willa... o nó... eu quero o nó agora! — exigia a ômega, as contrações internas tentando desesperadamente puxar Wednesday mais para dentro, ordenhando o membro com uma força espasmódica. — Incha dentro de mim, por favor... me enche tudo de novo!

Wednesday sentiu o aviso elétrico percorrer sua espinha. A sensação de possessão que tomava conta de seus pensamentos lógicos era intoxicante. Ela curvou o corpo sobre a loira, cobrindo o peito de Enid com o seu próprio, seus lábios encontrando a orelha da loba.

— Implore com mais dignidade, Sinclair — provocou Wednesday, aumentando o ritmo a um nível febril, cravando os dentes na cartilagem da orelha de Enid.

— Por favor! Minha bruxa... minha alfa... Willa, eu imploro! — Enid desabou em um frenesi cego de palavras, as unhas agora afundando nas nádegas de Wednesday, impulsionando a morena para frente com toda a força de sua herança lupina. — Agora, Wednesday! Agora!

O espasmo atingiu Enid como uma descarga de alta tensão. As paredes internas da ômega prenderam Wednesday em um torniquete abrasador, contraindo-se com uma violência tão perfeita que rompeu qualquer resquício de disciplina mental que a Addams mantinha.

Com um rosnado abafado contra o ombro de Enid, o nó de Wednesday começou a se expandir rapidamente, forçando a abertura já dilatada até seu limite físico absoluto. A dor deliciosa e esmagadora da anatomia de Wednesday se travando firmemente no canal de Enid fez as duas soltarem o ar juntas em um suspiro trêmulo.

Presas.

O calor disparou em pulsos vigorosos e quentes, jatos grossos inundando as profundezas de Enid, pintando a matriz receptiva da loba com a semente viva e pesada da bruxa. Enid soluçou, o corpo inteiro tremendo dos pés à cabeça, os olhos revirados enquanto recebia cada gota do tributo fértil de Wednesday.

— Willa... — murmurava a ômega, o olhar vidrado de um prazer que beirava a agonia mística. — É quente demais... você é tão quente...

Wednesday não respondeu de imediato. Apoiou a testa na têmpora de Enid, sentindo o pulsar conjunto de suas peles, o nó gigantesco mantendo-as fundidas como uma única entidade biomecânica sob os lençóis em frangalhos. Seu coração batia a uma velocidade que ela consideraria medicamente perigosa, mas a satisfação sombria que inundava sua alma não tinha paralelo na literatura clássica de tortura.

Minutos se arrastaram em um silêncio sagrado, perturbado apenas pelo gotejar monótono da chuva no telhado de zinco.

Aos poucos, a respiração de Enid foi encontrando um compasso mais calmo. Seus braços continuavam frouxamente enlaçados ao redor do pescoço de Wednesday, os dedos acariciando as pontas das mechas escuras que haviam escapado das tranças.

— Nós vamos perder o café da manhã — disse Enid baixinho, a voz doce e sonolenta, sem demonstrar a menor preocupação real com o fato.

— As panquecas desidratadas do refeitório têm a consistência e o valor nutricional de isolamento acústico — pontuou Wednesday, ainda sentindo seu membro firmemente acoplado dentro da garota, a pressão diminuindo em uma lentidão dolorosa. — Você não perdeu nada além de uma potencial intoxicação alimentar.

Enid riu, virando a cabeça para dar um beijo estalado e molhado na bochecha de Wednesday.

— Você é muito fofa quando tenta fingir que se importa com a minha digestão.

Wednesday abriu os olhos devagar, encarando a loira com uma frieza que não convencia nem a si mesma.

— Use essa palavra depreciativa novamente e eu utilizarei seu pelo como enchimento para meu próximo travesseiro de viagem.

— Aham, sei — zombou a loira, aconchegando-se ainda mais contra o corpo da namorada, os olhos fechando-se lentamente enquanto o cansaço do pós-orgasmo a reivindicava mais uma vez. — Mas você vai me segurar assim até o nó descer, não vai?

Wednesday suspirou, um movimento quase imperceptível de seus ombros tensos. Ela ajeitou o cobertor grosso sobre os corpos nus e entrelaçados das duas, protegendo a ômega do vento cortante que assobiava do lado de fora.

— Se eu me mover, corro o risco de deslocar uma vértebra — justificou Wednesday, sua mão pálida repousando com uma firmeza possessiva sobre o quadril marcado de Enid. — Portanto, considerarei sua imobilidade uma exigência tática. Apenas durma, lobinha. Quando a noite cair, terei que lidar com a terceira onda do seu delírio.

Enid soltou um ronronar preguiçoso e vitorioso, beijando mais uma vez a marca fresca que havia deixado na jugular de Wednesday antes de se entregar ao sono pesado da floresta. Wednesday manteve-se imóvel na penumbra, sua mão sentindo o ritmo constante da vida de sua loba, plenamente ciente de que, se o mundo inteiro lá fora ardesse em chamas naquele exato instante, ela não moveria um único dedo para salvá-lo.

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