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Um lobo sedento

Cinzas da Fera e o Sossego da Bruxa

O silêncio que se instalou na cabana nas primeiras horas da manhã de domingo não era o mesmo silêncio tenso e elétrico das noites anteriores. A atmosfera densa, saturada de hormônios lupinos e feromônios incandescentes que pareciam capazes de incendiar o arvoredo, havia finalmente se dissipado. O cheiro de morangos silvestres e baunilha açucarada ainda pairava sobre a madeira envelhecida, mas agora era apenas isso: o cheiro natural, doce e familiar de Enid Sinclair.

A tempestade hormonal havia quebrado. O cio da ômega finalmente chegara ao fim.

Enid ainda dormia, enrolada na colcha pesada que Wednesday havia resgatado do armário, com o rosto afundado no travesseiro de penas que milagrosamente sobrevivera às garras. Suas respirações eram lentas, cadenciadas, desprovidas daquela febre tortuosa que fizera a loba tremer e suplicar por dias seguidos. As unhas haviam retornado ao comprimento normal, ostentando restos descascados de esmalte amarelo e azul-pastel.

Do outro lado do aposento, Wednesday Addams estava sentada em uma cadeira de espaldar reto, completamente imóvel, encarando a lareira onde as últimas brasas cinzentas morriam sem fumaça.

Seus olhos negros estavam fundos, rodeados por olheiras arroxeadas que davam ao seu semblante pálido um aspecto quase cadavérico — o que normalmente seria um elogio que ela receberia com satisfação mórbida, mas que naquele momento refletia apenas exaustão pura.

O corpo de Wednesday cobrava o preço. Cada centímetro de sua carne ardia com as marcas profundas de dentes e unhas. Seus pulsos exibiam hematomas escuros onde haviam sido prensados contra a parede rústica. Porém, a maior perturbação de Wednesday não provinha dos cortes superficiais ou da dor muscular. Provinha de sua própria biologia.

A anatomia intersexual que herdara de sua linhagem ancestral operava sob leis rígidas de causa e efeito. Durante três dias e três noites ininterruptas, seu membro havia sido exigido ao limite de sua capacidade mecânica e fisiológica. O nó havia se formado, travado e expandido tantas vezes dentro de Enid que agora a base de sua virilha parecia um amontoado de chumbo e brasas frias.

Havia uma dormência incômoda ali. Uma recusa teimosa do corpo em responder a qualquer estímulo neurológico. Wednesday tentara, com seu habitual pragmatismo cirúrgico, testar a própria circulação alguns minutos antes, enquanto Enid ainda roncava baixinho. O membro permanecia pesado, completamente mole, dolorido e obstinadamente inerte sob a calça de moletom escura. Para alguém obcecada pelo controle absoluto sobre todas as suas funções vitais — desde a frequência cardíaca até a secreção biliar —, a disfunção temporária soava como um insulto gravíssimo.

Além disso, havia a sensação. Um vazio estranho, rastejante e repugnante que Wednesday se recusava a chamar pelo nome vulgar de carência.

Com a interrupção brusca do turbilhão químico de Enid, uma queda vertiginosa de endorfinas atingira a bruxa como um golpe de maça de ferro no peito. Sentia frio. Sentia uma necessidade física, dolorosa e infantil de contato que sua mente considerava uma aberração inaceitável.

Na cama, o colchão rangeu suavemente.

— Willa...?

A voz de Enid soou limpa, sem a aspereza animal da loba, mas ainda embalada pela sonolência matinal.

Wednesday não se virou imediatamente. Piscou devagar, mantendo as costas eretas como uma coluna de mármore funerário.

— Você dormiu por catorze horas consecutivas — disse Wednesday, com a voz plana, embora ligeiramente mais baixa do que o costume. — Seus níveis de glicose devem estar em níveis perigosamente baixos. Eu deveria descer ao refeitório e confiscar um pedaço de pão velho para evitar que você entre em choque hipoglicêmico.

Enid sentou-se na cama, espreguiçando-se com um longo bocejo que terminou em um suspiro satisfeito. O cobertor escorregou pelos seus ombros, revelando a pele cheia de sardas e as marcas avermelhadas de beijos e sucções que desciam pelo seu colo e pelos seios fartos. Seus olhos azuis, claros e límpidos como o céu após uma tempestade de granizo, encontraram a figura estática da namorada.

A loba inclinou a cabeça, piscando devagar. O instinto apurado de Enid não precisava dos feromônios do cio para ler a garota que amava.

— Por que você tá sentada aí nessa cadeira dura parecendo uma estátua de cemitério? — perguntou Enid, a voz doce, desprovida de qualquer agressividade. Ela bateu a mão espalmada no espaço vazio do colchão ao seu lado. — Vem cá. A cama ainda tá quentinha.

— A cama é um ninho de ácaros, fluidos secos e penas destruídas — retrucou Wednesday, sem se mover. — Permanecer de pé ou em uma postura vertical é fundamental para restaurar o fluxo sanguíneo adequado após dias de histeria biomecânica.

Enid franziu o nariz, observando a rigidez exagerada nos ombros de Wednesday, a forma como as mãos pálidas agarravam os próprios joelhos com uma força desnecessária e o modo como ela evitava olhar diretamente para ela.

— Wednesday Addams — chamou Enid, usando aquele tom afetuoso e exasperado que sempre conseguia desmontar as barricadas mentais da morena. — Você tá fugindo de mim?

— Eu não fujo de nada, exceto de conversas triviais sobre astrologia e reuniões pedagógicas.

— Então por que você tá aí parecendo um gatinho preto que caiu na chuva e tá com medo de pedir abrigo?

Wednesday trincou a mandíbula. O insulto felino atingiu seu orgulho com a precisão de um dardo envenenado.

— Não sou um gatinho. Sou uma criatura da noite em perfeito estado de contemplação fúnebre.

Enid não caiu na provocação. Em vez disso, jogou a coberta de lado, levantou-se descalça e caminhou pelo assoalho gelado até parar diante de Wednesday. Vestia apenas uma camisa cinza larga que pertencia à Addams, cujas mangas engoliam suas mãos.

A loba ajoelhou-se entre as pernas de Wednesday, pousando as mãos quentes sobre as coxas cobertas de moletom da morena.

Wednesday estremeceu de forma quase imperceptível ao primeiro contato. Aquele toque morno, suave e desprovido de garras afiadas quebrou a última resistência de sua armadura.

— Você tá gelada, Willa — murmurou Enid com ternura, erguendo o rosto para encarar os olhos escuros e desolados da bruxa. — E seus olhos tão gritando que você precisa de um abraço, mesmo que sua boca vá dizer que prefere ser empalada.

— A empalação é um método tradicional romeno de execução — começou Wednesday, a voz vacilando ligeiramente —, tem suas vantagens estéticas...

— Cala a boca, sua boba.

Enid passou os braços ao redor da cintura de Wednesday, enterrando o rosto no peito da morena, respirando fundo o cheiro de mirra e sabão de lixívia que Wednesday exalava. A Addams congelou por um segundo antes de suas mãos descerem, hesitantes, para os cabelos loiros de Enid, os dedos embaraçando-se nos fios desgrenhados com um desespero sutil que traía toda a sua pose.

— Você me aguentou o tempo todo — sussurrou Enid contra o tecido do casaco de Wednesday. — Minha primeira vez fora de controle total... e você ficou comigo em cada minuto. Deixou eu te morder, deixou eu te machucar...

— Foi um estudo fascinante sobre patologia canina — murmurou Wednesday, mas seus dedos se fecharam com mais força nos cabelos da loira, puxando-a contra si como se Enid fosse a única âncora que a impedia de afundar no abismo da própria mente.

— Não mente pra mim — Enid ergueu a cabeça, deslizando uma das mãos pela barriga de Wednesday até pousar a palma com cuidado e hesitação sobre a virilha da namorada.

Wednesday empederniu instantaneamente.

— Não faça isso — pediu Wednesday, a voz falhando em uma nota baixa de humilhação contida.

Enid sentiu a maciez inerte através do tecido, o calor abafado e o leve tremor nos músculos da coxa de Wednesday. Não havia ereção; havia apenas a exaustão profunda de um órgão que havia trabalhado muito além dos limites biológicos seguros.

— Tá doendo? — perguntou a loba com uma suavidade infinita, sem um pingo de zombaria ou provocação.

Wednesday desviou o olhar para o chão de tábuas, sentindo uma queimação irritante subir pela sua garganta.

— É uma falha funcional temporária — justificou-se, as palavras saindo duras, quase clínicas. — A vascularização dos corpos cavernosos sofreu colapso por estresse repetitivo. O reflexo muscular simplesmente não responde. Eu tentei restabelecer a rigidez por meio de foco mental e estímulo táctil, mas o resultado foi absolutamente nulo. Uma máquina inútil e quebrada.

Enid soltou um som baixo, um arrulho de puro carinho que fez a bruxa cerrar os olhos. A loira retirou a mão da virilha de Wednesday e levou-a até o rosto pálido da garota, acariciando a bochecha fria com o polegar.

— Você não é uma máquina, Willa. Você é a minha namorada. E você passou três dias enfiada dentro de mim até o nó travar, me salvando de morrer queimada de febre. É óbvio que o seu corpinho ia cobrar a conta. Você não tem que ficar dura agora. Nem hoje, nem amanhã, se não quiser.

— Mas eu preciso... — Wednesday engoliu em seco, odiando a fragilidade de sua própria voz. — O silêncio químico que se seguiu ao fim do seu ciclo gerou uma perturbação neural inusitada. Não consigo regular minha temperatura interna. Meus pensamentos estão desconexos e há uma carência de dopamina que beira a imbecilidade humana comum.

Enid sorriu, um sorriso pequeno, lindo e repleto de uma compreensão tão profunda que arrancou o resto de ar dos pulmões de Wednesday.

— Vem pra cama — pediu Enid, puxando suavemente Wednesday pelas mãos, levantando-se. — Deixa eu cuidar de você agora.

Wednesday não protestou. Pela primeira vez em sua vida inteira, ela permitiu ser conduzida sem questionamentos. Deixou que Enid a puxasse para o colchão bagunçado, despindo suas botas pesadas com paciência e retirando o casaco preto rasgado nos ombros.

Quando as duas se deitaram sob a colcha grossa, o calor de Enid envolveu o corpo gélido de Wednesday como um bálsamo. A Addams deitou-se de lado, mantendo as pernas ligeiramente encolhidas para aliviar a pontada incômoda na virilha dormente.

Enid deitou-se de frente para ela, puxando o cobertor até cobrir os ombros de ambas. Os seios da loira, ainda túrgidos e hipersensíveis devido às alterações hormonais do pós-cio, pressionavam contra o peito de Wednesday através do tecido fino da camisa.

Wednesday fixou os olhos escuros no decote largo da camisa que Enid vestia. A pele ali estava quente, macia, com as veias azuladas visíveis sob a epiderme translúcida, e um perfume concentrado de conforto maternal e animal emanava das curvas arredondadas.

A garganta de Wednesday secou. Havia uma necessidade física primitiva, inexplicável pelas teorias científicas que costumava ler, martelando em seu cérebro exausto. Um impulso que ia contra qualquer noção de sua postura altiva, mas que se recusava a desaparecer.

— O que foi, amor? — perguntou Enid em um sussurro, notando a fixação da bruxa.

Wednesday cerrou os punhos sobre o lençol. Suas bochechas pálidas adquiriram um tom tênue de carmim — um fenômeno raro que Enid só vira acontecer duas ou três vezes em toda a convivência das duas.

— Há uma técnica de regulação neuroquímica descrita por alguns curandeiros medievais — começou Wednesday, a voz saindo em um fiapo tenso e hesitante —, envolvendo o contato oral prolongado com glândulas mamárias ativadas por ciclos hormonais. A estimulação mecânica libera ocitocina imediata em ambos os indivíduos, amenizando a dor pélvica e restaurando a homeostase emocional.

Enid piscou, processando a torrente de termos técnicos até que a tradução simples e doce iluminou seus olhos azuis. Um sorriso iluminou o rosto da loba, mas ela conteve qualquer risada para não ferir o orgulho já estilhaçado de Wednesday.

— Willa... — murmurou Enid, inclinando o queixo da morena com dois dedos macios. — Fala em português simples. O que você quer?

Wednesday cerrou os olhos por um segundo inteiro, respirando fundo como se estivesse prestes a pular de um penhasco rumo a pedras pontiagudas. Quando abriu os olhos, o olhar que fitou Enid era de uma vulnerabilidade tão nua e crua que fez o coração da loba derreter por completo.

— Deixe-me mamar no seu seio — pediu Wednesday, a voz num sussurro rouco, firme na intenção, mas trêmula de vergonha. — Por favor, Enid. Eu preciso me ancorar.

A loba não hesitou por uma fração de segundo sequer.

Com um movimento suave e fluido, Enid puxou a gola da camisa larga para o lado, descendo o tecido até expor o ombro e o seio esquerdo por inteiro. O mamilo rosado estava ereto, saliente pela temperatura ambiente fria e inchado pelas ondas hormonais recentes.

— Vem cá, minha bruxinha — chamou Enid com um murmúrio aveludado, passando o braço ao redor das costas de Wednesday e puxando-a para o seu peito. — Toma o que você precisa. Tudo meu é seu.

Wednesday soltou um arrepio profundo e desabou para a frente.

Com lábios cuidadosos, quase reverentes, Wednesday aproximou o rosto da pele macia e quente. Ela respirou fundo o aroma concentrado de Enid antes de envolver o mamilo intumescido entre os lábios.

O contato inicial fez Enid soltar um longo suspiro entrecortado, seus dedos embaraçando-se instantaneamente na nuca de Wednesday, acariciando os fios negros e curtos com infinita delicadeza.

Wednesday começou a sugar.

Não era a mordida feroz e sádica das noites de paixão; era uma sucção rítmica, profunda, calma e desesperada por afeto. A língua pálida da bruxa massageava a base do mamilo, enquanto os lábios aplicavam uma pressão firme e constante, tirando proveito da textura macia e hipersensível da aréola de Enid.

Um gosto sutil e adocicado brotou contra o palato de Wednesday — resquício das alterações endócrinas que o cio causara no organismo lupino de Enid, uma secreção límpida e morna que funcionava como o néctar mais puro da floresta.

No exato momento em que sentiu o gosto e o calor firme da carne de Enid preenchendo sua boca, os músculos tensos das costas de Wednesday se desarmaram. O nó rígido de ansiedade em seu estômago desfez-se em cinzas.

A Addams fechou os olhos com força, afundando o nariz no vale entre os seios da namorada, enquanto uma de suas mãos pálidas subia para segurar a cintura de Enid com um aperto quase infantil, agarrando o tecido da camisa como se temesse que o mundo ao redor pudesse arrancá-la daquele abraço.

— Isso... assim, meu amor — sussurrava Enid, ninando o corpo menor de Wednesday contra o seu, balançando-se suavemente sobre o colchão. — Tá tudo bem agora. A tempestade acabou. Eu tô aqui com você.

Wednesday sugava com mais avidez, emitindo pequenos sons guturais e abafados contra a pele de Enid, uma mistura de alívio e pura entrega. Toda a pose fúnebre, a frieza cadavérica e o sadismo cultivado com tanto zelo haviam sido engolidos pelo calor protetor da loba. Naquela cama quebrada de acampamento, Wednesday Addams era apenas alguém que precisava desesperadamente de refúgio — e Enid era sua única e eterna fortaleza.

A dor na base da virilha de Wednesday começou a diminuir, substituída por uma quentura suave e agradável que se espalhava lentamente pela pelve. Seu membro continuava inerte, repousando em paz, mas o sofrimento e a dormência angustiante davam lugar a uma sensação de descanso merecido.

Enid beijava o topo da cabeça de Wednesday repetidas vezes, acariciando as costas da morena, passando as pontas dos dedos com extremo cuidado sobre as marcas arroxeadas que ela mesma havia deixado na garota durante o delírio da lua.

— Obrigada por ter cuidado de mim, Willa — murmurava a loba, a voz embargada de um amor puro e desmedido. — Agora sou eu que cuido da minha bruxinha má. Ninguém vai mexer com você.

Wednesday afrouxou ligeiramente a sucção, mantendo o mamilo de Enid entre os lábios úmidos, deslizando a língua devagar em uma carícia preguiçosa antes de soltar um suspiro quente que arrepiou toda a pele do peito da loira.

— Você é excessivamente barulhenta até quando tenta ser maternal — murmurou Wednesday contra a carne macia, a voz saindo abafada e pesada de sono.

Enid riu baixo, sentindo o peito vibrar sob o queixo de Wednesday.

— E você é a pessoa mais dengosa desse universo, Addams. Nem tenta disfarçar. Você tá quase dormindo mamando no meu peito.

— O estímulo mecânico ativou receptores parassimpáticos no meu tronco encefálico — Wednesday tentou argumentar, mas suas pálpebras estavam pesadas demais, colando-se contra sua vontade. — É uma consequência neuroquímica involuntária.

— Sei perfeitamente o que é — Enid puxou o lençol para cobrir as duas até o queixo, aconchegando Wednesday ainda mais perto, até que a respiração suave da morena se sincronizasse com as batidas firmes de seu próprio coração. — Dorme, minha Willa. A floresta pode esperar. O acampamento inteiro pode queimar se quiser. Eu não vou a lugar nenhum.

Wednesday não respondeu. Com a boca ainda roçando a curva quente do seio de sua loba e a mão firmemente ancorada na cintura de Enid, a herdeira dos Addams finalmente fechou os olhos, mergulhando no sono mais pacífico e seguro que sua alma sombria jamais conhecera.

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