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um recomeço

O Eco de uma Ambição Despedaçada

O camarim, que outrora fora um santuário de luxo e adulação, agora parecia uma cela fria revestida de espelhos que Sho Fuwa não suportava mais encarar. Ele olhou para o próprio reflexo e não viu o ídolo que movia multidões, mas um estranho com olheiras profundas e um tremor imperceptível nas mãos. O silêncio era o seu maior inimigo. Durante anos, o ruído ensurdecedor de fãs gritando seu nome fora a trilha sonora de sua existência; agora, o único som era o tique-tique do relógio de parede, marcando o tempo de uma queda que ele nunca previu.

Sho pegou um copo de uísque barato — uma decadência drástica para quem só aceitava as melhores marcas — e virou-o de uma vez. A queimação na garganta era a única coisa que o fazia sentir-se vivo.

— Como isso aconteceu? — murmurou ele para as paredes vazias.

A resposta estava em todos os jornais, em todos os fóruns da internet e, principalmente, gravada em sua memória como uma cicatriz purulenta. Kyoko Mogami. A menina que ele trouxera para Tóquio para ser sua serva, sua sombra, sua garantia de conforto. Ela deveria ter sido o degrau para sua ascensão eterna, mas, em vez disso, ela se tornara o sol que o cegara e o consumira.

Ele se lembrava do momento exato em que tudo desmoronou. Não fora apenas o processo da LME ou a exposição de seu comportamento abusivo. Fora o olhar dela. Aquele olhar de indiferença absoluta no tapete vermelho. Para Sho, o ódio de Kyoko teria sido aceitável; o ódio significava que ele ainda importava. Mas a piedade? A indiferença? Aquilo fora o golpe de misericórdia.

— Senhor Fuwa? — A voz de Shoko, sua empresária, soou hesitante na porta entreaberta.

— O que é agora? — rosnou Sho, sem se virar. — Veio me dizer que perdi mais um contrato publicitário? Ou que a gravadora finalmente decidiu rescindir o contrato de distribuição?

Shoko entrou, seus passos ecoando com uma nota de melancolia. Ela segurava um tablet com as mãos trêmulas.

— A gravadora... eles enviaram a notificação oficial. Devido às cláusulas de moralidade e à queda drástica nas vendas do último single, eles estão encerrando a parceria. Imediatamente.

Sho riu, uma risada seca e sem humor que terminou em um acesso de tosse.

— Cláusulas de moralidade. Que piada. Eles não se importavam com a minha moralidade quando eu estava no topo das paradas. Eles só se importam porque agora sou "tóxico".

— Sho... — Shoko deu um passo à frente, a voz suavizando-se. — Talvez seja hora de voltar para casa. Seus pais em Kyoto... eles ainda estão preocupados. O ryokan ainda é seu por direito.

Sho virou-se bruscamente, derrubando a garrafa de uísque, que se estilhaçou no chão.

— Voltar para Kyoto? Como um fracassado? Como o garoto que fugiu para ser uma estrela e voltou com o rabo entre as pernas? Nunca!

— Mas não há mais nada aqui para você! — exclamou Shoko, perdendo a paciência. — A LME bloqueou todos os seus caminhos. Ren Tsuruga garantiu que nenhum estúdio de televisão sério o contrate. Kyoko Mogami é a namorada da América, a estrela de Hollywood... e você é o vilão da história dela. Ninguém quer contratar o vilão, Sho.

Sho sentiu o nome de Ren Tsuruga como uma facada no peito. Ele sempre odiara aquele homem. O "Cavalheiro Perfeito" com sua aura de superioridade. Mas agora, ele entendia que Tsuruga não era apenas um rival; ele era o guardião de algo que Sho jogara fora sem perceber o valor.

— Ela era minha — sussurrou Sho, a voz falhando. — Ela fazia tudo por mim. Ela cozinhava para mim, ela cuidava das minhas roupas, ela vivia por mim!

— E você a tratou como lixo — retrucou Shoko, sua voz agora fria como gelo. — Você a traiu da forma mais cruel possível, e agora está surpreso que ela tenha encontrado alguém que a trate como a rainha que ela sempre foi? Acorde, Sho. Você não perdeu apenas a carreira. Você perdeu a única pessoa que realmente te amava sem pedir nada em troca.

Sho ficou em silêncio. As palavras de Shoko cortavam mais do que qualquer manchete de jornal. Ele se lembrou das noites frias em que chegava tarde e encontrava Kyoko dormindo sentada na cozinha, esperando para esquentar sua comida. Ele se lembrou do brilho nos olhos dela quando ele lhe dava a mínima atenção. E lembrou-se de como ele ria dela pelas costas com outras mulheres.

— Eu não sabia... — começou ele, mas a frase morreu em seus lábios.

— Você sabia — disse Shoko, caminhando em direção à porta. — Você só achou que ela nunca teria coragem de te deixar. Você achou que era insubstituível. Mas olhe para ela agora. Ela não precisa de você. Ela nem sequer se lembra de você, a menos que alguém mencione seu nome por engano.

Shoko saiu, fechando a porta atrás de si e deixando Sho na penumbra de seu camarim decadente.

Ele caminhou até a televisão de plasma que ainda decorava a parede e ligou-a. Estava passando um programa de variedades. E lá estavam eles. Kyoko e Ren, sentados lado a lado, sendo entrevistados sobre o sucesso de seu novo filme conjunto.

Kyoko estava radiante. Ela falava sobre sua paixão pela atuação e sobre como a culinária era sua forma de relaxar após um dia longo no set.

— O Tsuruga-san é o meu maior crítico — dizia ela na tela, rindo enquanto olhava para Ren com uma adoração que Sho nunca recebera. — Mas ele também é o primeiro a provar tudo o que eu cozinho.

— Eu sou um homem de sorte — respondeu Ren, pegando a mão de Kyoko diante das câmeras. — Ter o talento dela no set e o coração dela em casa é mais do que qualquer homem poderia pedir.

Sho desligou a televisão com um movimento violento do controle remoto. Ele não conseguia suportar a felicidade deles. Era uma felicidade que parecia tão sólida, tão real, enquanto a sua vida fora construída sobre areia movediça de ego e superficialidade.

Ele saiu do prédio da agência, tentando passar despercebido. Usava um capuz e óculos escuros, mas não havia mais paparazzi esperando por ele. O desinteresse do público era mais doloroso do que o assédio. Ele caminhou pelas ruas de Tóquio, a cidade que ele jurara conquistar, sentindo-se um fantasma.

Passou por um outdoor gigante onde o rosto de Kyoko sorria para o mundo. Ela parecia uma deusa, inalcançável. Sho lembrou-se da pedra azul, o "Corn" que ela tanto protegera. Ele sempre achara aquela história uma bobagem infantil. Mas agora, vendo Ren ao lado dela, ele percebeu que a conexão entre os dois vinha de um lugar que ele nunca poderia acessar. Havia um segredo entre eles, uma sincronia que desafiava a lógica.

— Por que não eu? — questionou ele ao vento frio da noite.

— Porque você nunca a viu de verdade — uma voz respondeu em sua mente, soando estranhamente como a de sua própria mãe.

Sho acabou em um pequeno parque, sentado em um balanço que rangia sob seu peso. Ele olhou para as mãos, as mãos que deveriam estar segurando microfones em estádios lotados, e viu que elas estavam vazias.

Ele pegou o celular e discou um número que não chamava há anos.

A ligação foi atendida no terceiro toque.

— Alô? — A voz de sua mãe era cautelosa, cansada.

— Mãe... — Sho mal conseguiu pronunciar a palavra.

Houve um silêncio longo do outro lado da linha. Sho esperou que ela gritasse, que o criticasse por toda a vergonha que ele trouxera ao nome da família, mas o que ouviu foi um suspiro de alívio.

— Shotaro? É você mesmo?

— Sou eu, mãe. Eu... eu acho que cometi um erro. Muitos erros.

— Nós vimos as notícias, filho. Nós vimos o que aconteceu com a Kyoko-chan. Ela é uma estrela agora, não é? O pai dela e eu... nós sempre soubemos que ela tinha algo especial. É uma pena que você só tenha percebido isso quando a perdeu.

Sho sentiu as lágrimas finalmente caírem. Ele não chorava por sua carreira, nem pelo dinheiro, nem pela fama. Ele chorava pela perda de uma inocência que ele mesmo destruíra.

— Eu posso voltar? — perguntou ele, a voz quebrada. — Eu não tenho mais nada aqui. A agência me dispensou, os fãs me esqueceram... eu não sou ninguém em Tóquio.

— O ryokan sempre terá um lugar para você, Shotaro — disse a mãe, com a severidade típica de Kyoto misturada com a compaixão de uma progenitora. — Mas você não voltará como uma estrela. Você voltará para trabalhar. Para limpar o chão, para carregar as malas, para aprender o que significa servir aos outros. Você voltará para aprender a ser um homem, não um ídolo de papelão.

— Eu aceito — disse Sho, fechando os olhos. — Eu aceito qualquer coisa.

Ele desligou o telefone e olhou para o céu noturno. As estrelas de Tóquio eram pálidas comparadas às luzes da cidade, mas, por um momento, ele sentiu que podia ver o brilho de Kyoko em algum lugar lá em cima.

Ele levantou-se do balanço e começou a caminhar em direção ao seu apartamento para arrumar as poucas coisas que lhe restavam. Enquanto caminhava, passou por uma loja de conveniência onde uma revista de fofocas exibia a manchete: "O Casamento do Século: Ren e Kyoko oficializam união em cerimônia privada".

Sho não comprou a revista. Ele não precisava ler os detalhes. Ele sabia que a história deles era um épico de amor e destino, enquanto a dele fora apenas um prólogo amargo e mal escrito.

Ao chegar em casa, ele encontrou uma pequena caixa de papelão no fundo do armário. Dentro, havia um lenço velho, bordado com as iniciais "S.F.". Era um lenço que Kyoko fizera para ele quando ainda estavam na escola, um trabalho manual simples, mas cheio de dedicação. Ele se lembrou de como rira do presente na época, dizendo que era brega e inútil.

Ele apertou o lenço contra o peito e chorou até que não houvesse mais lágrimas.

Na manhã seguinte, Sho Fuwa pegou o trem bala para Kyoto. Ele não usava óculos escuros nem capuz. Ele olhava pela janela, observando a paisagem mudar da selva de pedra para o verde das montanhas.

Quando chegou à estação de Kyoto, não havia tapete vermelho. Havia apenas seu pai, um homem de poucas palavras e olhar duro, esperando por ele com uma caminhonete velha.

— Você está atrasado para o turno da tarde — disse o pai, sem abraços ou boas-vindas calorosas. — Deixe suas malas na caçamba. Temos hóspedes chegando e o jardim precisa ser varrido.

Sho assentiu, sentindo o peso da realidade cair sobre seus ombros. Ele carregou suas próprias malas, algo que não fazia há anos, e subiu no veículo.

A vida no ryokan era dura. Sho passava os dias esfregando pisos de madeira, polindo pratas e cuidando da manutenção pesada. Suas mãos, antes macias, tornaram-se calejadas. Sua pele, antes tratada com os melhores cremes, agora estava bronzeada pelo sol do trabalho no jardim.

À noite, ele exaurido, sentava-se na varanda do alojamento dos funcionários e olhava para a lua. Às vezes, os hóspedes falavam sobre a "grande atriz Kyoko Mogami" e sobre como ela era o orgulho de Kyoto. Sho ouvia em silêncio, sem nunca revelar que ele era o garoto da história dela. Ele não tinha mais o direito de reivindicar qualquer parte da vida dela.

Um dia, enquanto limpava um dos quartos mais luxuosos, ele encontrou uma revista esquecida por um hóspede. Era uma entrevista exclusiva com Kyoko sobre sua nova fundação de caridade para jovens talentos sem recursos.

— Eu quero dar a eles a chance que eu tive que lutar tanto para conquistar — dizia ela na entrevista. — Mas, acima de tudo, quero que eles saibam que ninguém tem o direito de diminuir seus sonhos. O amor deve ser uma asa, não uma âncora.

Sho fechou a revista e colocou-a de volta na mesa. Ele sentiu uma pontada de orgulho por ela, misturada com a dor da própria falha. Ela havia se tornado tudo o que ele temia e tudo o que ele secretamente admirava.

Os meses tornaram-se anos. Sho Fuwa desapareceu completamente dos radares da mídia. Boatos surgiram de que ele havia se mudado para o exterior ou que estava vivendo em reclusão total. Ninguém, exceto sua família e os poucos funcionários fiéis do ryokan, sabia que o ex-ídolo agora era o gerente assistente de uma das estalagens mais tradicionais de Kyoto.

Ele aprendeu a cozinhar. Não por obrigação, mas porque o aroma da comida o lembrava de Kyoko, e ele queria entender a linguagem que ela usara para tentar alcançá-lo durante tanto tempo. Ele descobriu que havia uma paz na rotina, uma dignidade no serviço que ele nunca encontrara nos palcos.

Certa tarde, enquanto organizava as reservas, ele viu um nome que fez seu sangue congelar por um segundo. "Reserva para dois: Família Tsuruga".

Seu coração disparou. Ele pensou em pedir para outro funcionário atender, em se esconder na cozinha, em fugir. Mas então, ele olhou para suas mãos calejadas e para o reflexo no vidro da recepção. Ele não era mais Sho Fuwa. Ele era Shotaro, o herdeiro do ryokan.

Quando o carro preto e discreto parou na entrada, Sho estava lá, curvando-se em uma recepção perfeita.

Ren Tsuruga saiu primeiro, parecendo ainda mais imponente com o passar dos anos. Ele ajudou Kyoko a descer. Ela estava grávida, uma aura de serenidade e felicidade emanando dela como uma luz divina.

Ren olhou para Sho. Houve um momento de reconhecimento nos olhos do ator, um lampejo de surpresa que foi rapidamente substituído por um respeito silencioso. Ren percebeu a mudança no homem à sua frente.

— Bem-vindos ao nosso ryokan — disse Sho, a voz firme e educada. — É uma honra recebê-los.

Kyoko olhou para ele. Seus olhos dourados se arregalaram levemente, e por um instante, o tempo pareceu parar. Sho esperou por um insulto, por uma cena, ou pelo menos por um olhar de desprezo.

Mas Kyoko apenas sorriu. Um sorriso gentil, sem mágoa, o sorriso de alguém que havia perdoado o passado porque o presente era infinitamente melhor.

— Obrigada, Shotaro-san — disse ela, usando seu nome real. — Ouvimos dizer que este é o melhor lugar para descansar em Kyoto.

— Faremos o possível para que sua estadia seja perfeita, Mogami-san... peço desculpas, Tsuruga-san — corrigiu ele, fazendo uma mesura profunda.

Durante o fim de semana, Sho garantiu que cada detalhe da estadia deles fosse impecável. Ele mesmo preparou o jantar especial de Kyoko, usando as técnicas que aprendera, colocando todo o seu arrependimento e seu novo respeito em cada prato.

Na manhã da partida, Ren aproximou-se de Sho enquanto Kyoko se despedia da mãe de Sho no jardim.

— Você mudou muito, Fuwa — disse Ren, a voz baixa.

— O tempo tem uma forma de nos ensinar o que a arrogância nos impede de ver, Tsuruga-san — respondeu Sho, sem desviar o olhar. — Cuide bem dela. Eu sei que você cuida, mas... ela merece o mundo.

— Ela é o meu mundo — afirmou Ren. — E eu agradeço por você ter se tornado o homem que ela não precisa mais temer.

Quando o carro partiu, Sho ficou na entrada, observando-os sumir na estrada sinuosa. Ele sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas não era de tristeza. Era a lágrima de quem finalmente havia encerrado um capítulo doloroso.

Ele voltou para dentro, pegou sua vassoura e começou a limpar a entrada. A vida de Sho Fuwa havia acabado há muito tempo, mas a vida de Shotaro estava apenas começando. Ele nunca teria os aplausos de milhões novamente, nem o amor da mulher que ele desperdiçara, mas ele tinha algo que nunca tivera no auge da fama: paz de espírito.

E, enquanto o sol de Kyoto se punha sobre o ryokan, Sho percebeu que, embora não fosse a estrela da história, ele finalmente aprendera a apreciar a luz de quem realmente brilhava. O eco de sua ambição fora substituído pelo aroma da redenção, e isso, para ele, era o suficiente.