um recomeço
O Eclipse da Estrela Cadente
O set de filmagem de "O Canto do Cisne Negro" estava envolto em um silêncio reverencial. A equipe técnica, composta por veteranos que já haviam visto de tudo na indústria, observava a monitora com respirações suspensas. No centro da cena, Kyoko Mogami não era mais a jovem de dezesseis anos que Ren Tsuruga resgatara de Kyoto. Ela era *Setsuka*, uma mulher consumida por uma melancolia gélida e uma ambição silenciosa.
Ren, observando dos bastidores enquanto esperava sua deixa, sentiu aquele aperto familiar no peito. Era uma mistura de orgulho avassalador e um desejo possessivo de escondê-la do mundo. Kyoko não estava apenas atuando; ela estava canalizando décadas de dor e triunfo que tecnicamente ainda não haviam acontecido nesta linha do tempo.
— Corta! — gritou o diretor, batendo as palmas. — Excelente, Mogami-san! Essa profundidade... é quase sobrenatural para alguém da sua idade.
Kyoko relaxou os ombros instantaneamente, a máscara de frieza caindo para dar lugar ao seu sorriso suave e genuíno. Ela fez uma mesura educada para a equipe e, instintivamente, seus olhos dourados buscaram Ren na penumbra do estúdio.
Ele saiu das sombras, a elegância natural de seus movimentos fazendo o coração de Kyoko errar uma batida, mesmo após tudo o que viveram. Ren aproximou-se, entregando-lhe uma garrafa de água mineral e uma toalha pequena.
— Você foi brilhante, Kyoko — sussurrou ele, a voz baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse, carregada de um carinho que ele mal conseguia conter. — Mas senti que você mergulhou um pouco demais naquela tristeza. Você está bem?
Kyoko bebeu um gole de água e olhou para ele, sentindo o calor da preocupação dele envolvê-la como um manto.
— Estou bem, Ren. É só que... atuar agora parece tão diferente. Antes, eu lutava para encontrar as emoções. Agora, eu tenho que lutar para não deixar que as memórias me dominem. Mas saber que você está aqui, me esperando no final de cada cena, torna tudo mais fácil.
Ren sentiu um impulso quase incontrolável de puxá-la para um abraço ali mesmo, diante de todos, mas sua disciplina de "Cavalheiro Perfeito" e a necessidade de proteger a reputação dela falaram mais alto. Em vez disso, ele apenas tocou levemente o ombro dela, um gesto que parecia profissional para os observadores, mas que para Kyoko era uma promessa de possessividade e proteção.
— O jantar hoje será por minha conta — disse ele, com um brilho travesso nos olhos. — Eu sei que você adora cozinhar para mim, mas hoje você gastou muita energia. Quero que você descanse.
— Mas Ren... — começou ela, protestando fracamente.
— Sem "mas", Kyoko — interrompeu ele, o tom de voz tornando-se aquele comando suave que ela tanto amava. — Eu cuido de você hoje.
***
Enquanto isso, em outra parte de Tóquio, Sho Fuwa chutava uma cadeira em seu camarim de luxo. A imagem de Kyoko na coletiva de imprensa, protegida por Ren Tsuruga, queimava em sua mente como um ácido.
— Quem ela pensa que é? — rosnou Sho para seu empresário, Shoko-san, que o olhava com uma mistura de pena e irritação. — Ela fugiu de Kyoto sem dizer nada! Ela deveria estar limpando meu apartamento, cuidando da minha comida, sendo o meu degrau para o sucesso! E agora... ela está nos outdoors? Com aquele Tsuruga?
— Sho, foque no seu trabalho — disse Shoko-san com firmeza. — A Mogami-san é claramente um prodígio que estava escondido. A LME não daria um papel de destaque a uma novata se ela não fosse excepcional. E Tsuruga-san é o ator número um do país. Se ele a apadrinhou, é melhor você ficar longe.
— Apadrinhou? — Sho soltou uma risada sarcástica. — Você viu como ele olhou para ela? Aquilo não era proteção profissional. Era... era como se ele fosse o dono dela. E Kyoko... ela nunca olhou para mim daquele jeito.
A raiva de Sho não era apenas por perder uma empregada gratuita; era o golpe em seu ego descomunal. Ele sempre acreditou que Kyoko era um satélite que orbitava em torno de sua estrela. Ver que ela não apenas tinha luz própria, mas que brilhava mais do que ele, era insuportável.
***
O apartamento de Ren era um santuário de minimalismo e luxo, mas desde que Kyoko voltara a fazer parte de sua vida de forma integral, o lugar ganhara toques de calor. Havia flores frescas em um vaso e o cheiro persistente de especiarias na cozinha.
Ren havia pedido comida de um restaurante tradicional japonês de altíssimo nível, mas, assim que chegaram, Kyoko não resistiu e foi para a cozinha preparar um chá verde especial e algumas conservas que ela mesma fizera.
— Eu disse para você descansar — disse Ren, encostado no batente da porta, observando-a se mover.
— Cozinhar é o meu descanso, Ren — respondeu ela, sorrindo por cima do ombro. — Ver você comer o que eu preparo é o que me recarrega.
Ren aproximou-se e, desta vez, sem câmeras ou olhos curiosos, ele a envolveu completamente em seus braços. Ele a girou para que ficasse de frente para ele, prendendo-a entre seu corpo e o balcão da cozinha.
— Você é teimosa — murmurou ele, aproximando o rosto do dela. — E eu sou completamente louco por essa sua teimosia.
Kyoko envolveu o pescoço de Ren com os braços, sentindo a possessividade dele emanar em ondas. Ela amava quando ele deixava a máscara de lado e mostrava o homem intenso e protetor que era.
— Você está preocupado com o Sho, não está? — perguntou ela suavemente.
Ren suspirou, encostando a testa na dela.
— Eu odeio que ele esteja no mesmo raio de quilômetros que você. Eu sei o que ele fez com você na outra vida, Kyoko. Eu vi os pedaços do seu coração que eu tive que ajudar a colar. A ideia de ele tentar se aproximar de você agora, quando você é tão jovem e vulnerável aos olhos do mundo... isso me dá vontade de destruir a carreira dele tijolo por tijolo.
— Eu não sou vulnerável, Ren — disse ela, com uma determinação que brilhou em seus olhos dourados. — Eu tenho você. E eu tenho a memória de cada lição que aprendi. Sho Fuwa é apenas um fantasma do passado que ainda não percebeu que morreu. Ele não pode me machucar.
Ren a apertou mais forte, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Eu sei. Mas eu ainda vou protegê-la. De tudo e de todos. Você é o meu tesouro, Kyoko. E desta vez, eu não vou esperar anos para deixar isso claro para o mundo, mesmo que tenhamos que ser discretos por enquanto.
Eles jantaram em um clima de intimidade profunda, discutindo roteiros e técnicas de atuação como os profissionais veteranos que eram, mas trocando olhares e toques que pertenciam a amantes de longa data.
— Ren — disse Kyoko, enquanto eles tomavam o chá após a refeição —, recebi um convite hoje. A produção de um programa de variedades quer que eu participe de um segmento de "novos talentos". E adivinha quem será o convidado principal?
Ren estreitou os olhos.
— Sho Fuwa.
— Exatamente. Eles querem criar um "confronto" entre a nova promessa da atuação e o ídolo pop do momento.
— Você não precisa ir — disse Ren imediatamente, a mandíbula tensa. — Eu posso falar com o Presidente Lory. Ele vai entender.
— Não — disse Kyoko, segurando a mão dele sobre a mesa. — Eu quero ir. Eu quero que ele veja, na frente das câmeras, que a "Kyoko de Kyoto" não existe mais. Eu quero que ele sinta o peso do meu talento. E eu quero que ele veja que, não importa o quanto ele grite, ele nunca mais terá um segundo da minha atenção.
Ren observou o fogo nos olhos dela. Ele sabia que, por trás daquela aparência delicada, havia uma mulher que havia conquistado a indústria do entretenimento uma vez e estava pronta para fazê-lo novamente, com ainda mais força.
— Tudo bem — disse ele, cedendo. — Mas eu estarei lá. Nos bastidores.
— Eu contava com isso — disse ela, sorrindo.
***
O dia da gravação do programa de variedades chegou. O estúdio estava agitado. Sho Fuwa caminhava pelos corredores com sua arrogância habitual, distribuindo autógrafos com um sorriso falso, mas seus olhos procuravam constantemente por uma cabeleira preta e curta.
Quando ele finalmente a viu na sala de maquiagem, ele entrou sem bater, dispensando os assistentes com um gesto impaciente.
— Kyoko! — exclamou ele, parando atrás da cadeira dela. — Que palhaçada é essa? Atriz? Você? Você mal conseguia falar com estranhos sem gaguejar em Kyoto!
Kyoko nem sequer se virou. Ela continuou olhando para o seu reflexo no espelho, enquanto a maquiadora terminava de aplicar um batom carmesim que a fazia parecer perigosamente elegante.
— Sho-san — disse ela, a voz calma e gélida. — Este é um local de trabalho. Por favor, mantenha o decoro.
— Decoro? — Sho riu, aproximando-se mais. — Eu sei quem você é, Kyoko. Você veio para Tóquio atrás de mim, não foi? Você conseguiu esse papel só para ficar perto de mim. Admita! Você está desesperada para que eu te note de novo.
Kyoko finalmente se virou na cadeira. O olhar que ela lançou a Sho foi tão carregado de autoridade e desdém que o cantor deu um passo atrás, instintivamente.
— Você realmente acredita nisso? — perguntou ela, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Sho-san, você é um músico talentoso, mas sua arrogância o cega. Eu não vim para Tóquio por você. Eu vim por mim mesma. E o fato de estarmos no mesmo estúdio hoje é apenas uma coincidência infeliz que minha agenda profissional me obrigou a cumprir.
— Você está mentindo! — gritou Sho, perdendo o controle. — Você me ama! Você sempre me amou!
— Amar você? — Kyoko soltou uma risada melodiosa, mas cortante. — O que eu sentia por você era a devoção de uma criança que não conhecia o mundo. Mas eu cresci, Sho. E descobri o que é o amor de verdade. Um amor que não pede para eu ser uma sombra, mas que me incentiva a ser um sol.
Sho avançou, estendendo a mão para agarrar o ombro dela.
— Quem? Aquele Tsuruga? Você acha que ele se importa com você? Ele só está te usando para parecer um bom mentor!
Antes que a mão de Sho pudesse tocar o tecido do vestido de Kyoko, a porta da sala de maquiagem se abriu com uma força controlada. Ren Tsuruga entrou, e a temperatura da sala pareceu cair dez graus.
— Eu acredito que já tivemos essa conversa antes, Fuwa-san — disse Ren, sua voz era um sussurro perigoso que ecoava nas paredes.
Ren caminhou até Kyoko e colocou as mãos em seus ombros, um gesto de posse absoluta que não deixava dúvidas para ninguém que estivesse assistindo.
— Tsuruga... — Sho rosnou, embora seus olhos mostrassem medo. — Você não pode ficar interferindo assim!
— Eu posso e vou — disse Ren, olhando para Sho como se ele fosse um inseto incômodo. — Mogami-san está sob minha proteção pessoal e profissional. Qualquer desrespeito a ela é um desrespeito a mim. E eu garanto que você não quer me ter como inimigo nesta indústria.
— Ela é minha amiga de infância! — tentou Sho, desesperado.
— Ela foi sua vítima de infância — corrigiu Kyoko, levantando-se e ficando ao lado de Ren. — Mas esse tempo acabou. Agora, saia. Tenho um programa para gravar e não quero que sua energia negativa estrague minha performance.
Sho, humilhado e fervendo de raiva, saiu batendo a porta.
Ren relaxou a postura apenas quando a porta se fechou, virando Kyoko para ele. Suas mãos subiram para o rosto dela, polegares acariciando as maçãs do rosto com uma ternura infinita.
— Você foi incrível — disse ele. — Mas meu coração quase parou quando vi que ele ia te tocar.
— Eu tinha tudo sob controle, meu amor — disse Kyoko, cobrindo as mãos dele com as suas. — Mas adoro quando você vem me resgatar.
Ren sorriu, aquele sorriso que ele guardava apenas para os momentos em que eles eram apenas Ren e Kyoko, sem as pressões do passado ou do futuro.
— Vamos mostrar a eles do que você é capaz? — perguntou ele.
— Vamos — respondeu ela, os olhos brilhando.
A gravação foi um massacre unilateral. Kyoko dominou cada segmento, sua inteligência e sagacidade deixando Sho Fuwa parecendo um amador atrapalhado. O público e os produtores estavam encantados. Ao final do programa, não havia dúvida de quem era a verdadeira estrela.
Ao saírem do estúdio, tarde da noite, a neve começava a cair levemente sobre Tóquio. Ren conduziu Kyoko até o carro, protegendo-a com seu casaco longo.
— Sabe — disse Kyoko, enquanto Ren dirigia pelas ruas iluminadas —, nesta época, na outra vida, eu estaria em casa chorando porque você tinha sido frio comigo ou porque o Sho tinha me ignorado.
Ren estendeu a mão e entrelaçou seus dedos com os dela, levando a mão de Kyoko aos lábios para um beijo demorado.
— E nesta vida, você está indo para casa com o homem que te adora, depois de ter mostrado ao mundo que você é a rainha que nasceu para ser.
— Sim — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele enquanto o carro avançava pela noite. — E o melhor de tudo é que ainda temos a vida inteira pela frente.
Ren sorriu, apertando a mão dela. O futuro era incerto, mas com Kyoko ao seu lado e o conhecimento de suas vidas passadas, ele sabia que não importava quais obstáculos surgissem, eles os superariam. Afinal, eles não eram apenas atores interpretando papéis; eles eram os autores de sua própria história de amor, e desta vez, o final seria perfeito.