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um recomeço

O Palco das Sombras e a Dança do Destino

O ar no set de filmagem da nova mega-produção da LME, "O Labirinto de Vidro", estava carregado com uma eletricidade que ia além dos refletores e cabos de alta tensão. Kyoko Mogami, agora estabelecida como a "Jovem Estrela de Ouro" da agência, estava sentada em sua cadeira de descanso, mas sua mente não estava em repouso. Seus olhos dourados seguiam cada movimento de Ren Tsuruga, que estava sendo preparado pela equipe de maquiagem para a cena crucial do dia.

Nesta nova linha do tempo, a dinâmica entre eles era um segredo guardado a sete chaves, um tesouro escondido sob camadas de profissionalismo impecável. Mas, entre quatro paredes, ou no silêncio de um olhar compartilhado, a possessividade de Ren e a devoção de Kyoko eram as únicas verdades que importavam.

— Mogami-san, dez minutos para a sua entrada — anunciou o assistente de direção, tirando-a de seus devaneios.

Kyoko levantou-se com uma graça que não pertencia a uma garota de dezesseis anos. Ela vestia um figurino de época, um quimono de seda escura que realçava a palidez de sua pele e o brilho determinado de seu olhar.

— Obrigada — respondeu ela, a voz suave mas firme.

Ela caminhou em direção ao centro do cenário, passando por Ren. Por um breve segundo, a mão dele roçou a dela — um toque quase imperceptível para os outros, mas que enviou uma descarga de adrenalina por todo o corpo de Kyoko.

— Destrua-os, Kyoko — sussurrou Ren, o tom de voz carregado daquela possessividade protetora que a fazia se sentir invencível.

— Apenas se você estiver lá para me segurar quando as luzes se apagarem — retrucou ela com um sorriso enigmático antes de assumir sua posição.

A cena era complexa. Kyoko interpretava uma espiã que precisava trair o homem que amava (personagem de Ren) para salvar seu clã. O diretor, um homem conhecido por sua exigência quase cruel, deu o sinal.

— Ação!

O ambiente mudou instantaneamente. Kyoko não era mais a namorada dedicada que cozinhava *nikujaga* com amor; ela era uma força da natureza. Suas expressões mudavam com uma sutileza técnica que deixava os veteranos do set boquiabertos. Ela usava cada gota de sua experiência da vida passada, cada dor que Sho Fuwa lhe causara e cada grama de amor que Ren lhe dera para construir uma performance visceral.

Ren, do outro lado da cena, respondia à altura. A química entre eles era tão intensa que parecia distorcer o próprio ar. Quando ele a segurou pelos ombros na cena do confronto, a força em suas mãos não era apenas atuação; era o reflexo do medo que ele sentia de perdê-la novamente, de que o destino pregasse outra peça e os separasse.

— Por que você fez isso? — rugiu o personagem de Ren, os olhos brilhando com uma dor real.

— Porque o amor é um luxo que eu não posso pagar — respondeu Kyoko, e uma única lágrima solitária rolou por seu rosto, perfeitamente cronometrada.

— Corta! Perfeito! — gritou o diretor, quase pulando da cadeira. — Isso foi... divino!

Enquanto a equipe começava a se mover para a próxima configuração, Ren não soltou os ombros de Kyoko imediatamente. Ele a puxou para um canto mais escuro do cenário, longe dos olhares curiosos.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca de emoção. — Aquela lágrima... pareceu real demais.

Kyoko respirou fundo, tentando se desvencilhar da personagem. Ela tocou o rosto de Ren, sentindo a pele quente sob seus dedos.

— Foi real, Ren. Mas não pela personagem. Foi por lembrar de como era o mundo antes de você me encontrar nesta vida.

Ren fechou os olhos por um momento, encostando a testa na dela. A possessividade dele era como uma âncora para Kyoko.

— Eu nunca vou deixar aquele mundo voltar — prometeu ele. — Você é minha, Kyoko. E eu vou garantir que o mundo inteiro saiba disso, no momento certo. Mas, por enquanto... eu só quero te levar para casa.

***

Mais tarde naquela noite, o aroma de gengibre e alho fritando preenchia o apartamento de Kyoko. Cozinhar era a sua forma de aterramento, a maneira como ela processava as emoções intensas de um dia de filmagem. Ela estava finalizando um frango ao molho de soja quando ouviu o som da chave na porta.

Ren entrou, parecendo exausto, mas seus olhos se iluminaram ao vê-la com um avental por cima de suas roupas casuais.

— O cheiro está maravilhoso — disse ele, caminhando direto para ela e envolvendo-a em um abraço por trás.

— Você chegou bem na hora — disse Kyoko, inclinando a cabeça para receber o beijo que ele depositou em seu pescoço. — Como foi a reunião com o Presidente?

Ren suspirou, apertando o abraço. Sua linguagem de amor era o toque físico, a necessidade constante de sentir que ela estava ali, sólida e real.

— Lory está radiante. Ele disse que as prévias de "O Labirinto de Vidro" estão causando um frenesi entre os críticos. Ele já está planejando sua próxima turnê de promoção.

Kyoko se virou nos braços dele, segurando as mãos de Ren.

— E o que isso significa para nós?

— Significa que teremos que ser ainda mais cuidadosos — admitiu Ren, a sombra de uma preocupação possessiva cruzando seu rosto. — Sho Fuwa está tentando usar a sua fama repentina para se promover. Ele deu uma entrevista hoje sugerindo que vocês têm um "passado romântico mal resolvido".

O rosto de Kyoko endureceu. O ódio por Sho era algo que ela havia aprendido a controlar, mas a audácia dele ainda a irritava.

— Ele não desiste, não é? — perguntou ela, sentindo o calor da raiva subir.

— Ele é um parasita — disse Ren, o tom de voz tornando-se perigosamente frio. — Mas ele não vai te tocar. Eu já instrui Yashiro a monitorar qualquer movimento da assessoria dele. Se ele tentar algo mais direto, eu mesmo cuidarei disso.

Kyoko sorriu, tocando o peito de Ren. Ela adorava quando ele se tornava protetor, aquela faceta de "imperador" que ele raramente mostrava ao público.

— Não gaste sua energia com ele, Ren. Deixe que ele fale. No momento em que estrearmos o filme, a única coisa que as pessoas vão ver é a distância abissal entre o talento dele e o nosso.

Ren sorriu, um sorriso genuíno que suavizou suas feições.

— Você tem razão. Minha pequena atriz é muito mais sábia do que eu.

Eles jantaram em um silêncio confortável, quebrado apenas pelos elogios de Ren à comida de Kyoko. Para ele, cada refeição que ela preparava era um lembrete de que eles haviam vencido o tempo. Eles não eram apenas sobreviventes de um acidente; eram os mestres de seu destino.

— Kyoko — disse Ren, após terminarem o jantar, enquanto ela lavava a louça e ele a secava, um ritual doméstico que ambos prezavam —, eu recebi um roteiro hoje. É para uma peça de teatro. Uma releitura de *Romeu e Julieta*, mas com um toque moderno e sombrio.

Kyoko parou com o prato na mão.

— E?

— Eles querem que eu seja o Romeu. E o diretor disse que só aceita fazer a peça se você for a Julieta.

Kyoko sentiu o coração disparar. Teatro era diferente de cinema. Era cru, imediato. E fazer uma história de amor tão trágica e intensa ao lado de Ren...

— Você quer fazer isso? — perguntou ela, olhando-o nos olhos.

Ren largou o pano de prato e se aproximou, prendendo-a contra a pia. A intensidade em seu olhar era quase sufocante.

— Eu quero mostrar ao mundo o que é o amor de verdade, Kyoko. Mas, ao contrário da peça, eu não vou deixar você morrer no final. Eu vou te proteger de cada adaga, de cada veneno.

— Então, aceitaremos — disse ela, puxando-o para um beijo que selava o compromisso.

***

As semanas seguintes foram um borrão de ensaios exaustivos. A notícia de que Ren Tsuruga e a novata prodígio Kyoko Mogami estrelariam juntos no teatro abalou o Japão. Sho Fuwa, em um acesso de fúria, tentou invadir um dos ensaios, mas foi barrado pela segurança reforçada que Ren insistira em contratar.

No dia da estreia, o teatro estava lotado. Personalidades da mídia, críticos e fãs ansiosos preenchiam cada assento. Nos bastidores, Kyoko sentia o peso da expectativa.

— Você está pronta? — perguntou Ren, surgindo ao lado dela. Ele estava deslumbrante em seu traje de cena, uma mistura de couro e veludo que o fazia parecer um príncipe moderno e perigoso.

— Sempre estou pronta quando estou com você — respondeu ela, ajustando a gola do traje dele.

A peça começou, e desde o primeiro encontro de seus personagens no palco, o público ficou hipnotizado. Não era apenas atuação. Era uma conversa entre duas almas que haviam atravessado o véu da morte para se encontrarem novamente.

Na cena da varanda, Ren olhou para Kyoko com uma adoração tão pura que várias pessoas na plateia começaram a chorar.

— Mas, suave! que luz brilha através daquela janela? — declamou Ren, sua voz aveludada preenchendo o teatro. — É o oriente, e Julieta é o sol!

Kyoko respondeu com uma entrega emocional que transcendia o roteiro. Ela não estava apenas dizendo as falas de Shakespeare; ela estava declarando seu amor por Ren Tsuruga diante de milhares de pessoas, escondida sob o manto da ficção.

No entanto, o clímax da noite não estava no roteiro.

Durante o intervalo para a troca de cenário da cena final, um estrondo ecoou nos bastidores. Sho Fuwa, de alguma forma, havia conseguido burlar a segurança, aproveitando-se da confusão da equipe técnica. Ele estava pálido, os olhos injetados de raiva e inveja.

— Kyoko! — gritou ele, avançando pelo corredor estreito. — Você não pode fazer isso! Você não pode olhar para ele desse jeito!

Kyoko, que estava terminando de ajustar seu vestido para a cena da tumba, virou-se, o rosto calmo.

— Sho, saia daqui agora. Você está arruinando sua carreira e o meu trabalho.

— Eu não me importo! — Sho tentou agarrar o braço dela. — Você é minha! Você sempre foi a minha Kyoko!

Antes que ele pudesse sequer chegar perto, um vulto escuro se interpôs. Ren Tsuruga não estava mais com a expressão de Romeu; ele era o homem que havia despertado de um acidente mortal com um único propósito: proteger a mulher que amava.

Ren segurou o pulso de Sho com uma força que fez o cantor soltar um gemido de dor.

— Eu já avisei você uma vez, Fuwa — disse Ren, a voz baixa e letal como uma lâmina. — Mas parece que você tem dificuldade de aprendizado.

— Solte-me, Tsuruga! — gritou Sho, tentando se soltar, mas Ren era muito mais forte.

— Escute bem — continuou Ren, aproximando o rosto do de Sho, sua aura de possessividade explodindo de uma forma que até Kyoko sentiu um calafrio. — Kyoko Mogami não pertence a você. Ela nunca pertenceu. Ela é a mulher que eu amo, e se você se atrever a respirar na direção dela novamente, eu não vou apenas destruir sua carreira. Eu vou garantir que você se arrependa de ter vindo para Tóquio.

Os seguranças, finalmente alertados pelo barulho, chegaram e levaram Sho, que gritava insultos enquanto era arrastado para fora.

Ren respirou fundo, tentando controlar a fera dentro de si. Ele se virou para Kyoko, seus olhos escuros suavizando instantaneamente ao encontrarem os dela.

— Você está bem? Ele te machucou? — perguntou ele, as mãos grandes tateando os braços dela em busca de qualquer ferimento.

— Estou bem, Ren — disse ela, abraçando-o pela cintura. — Obrigada. Você foi... assustadoramente maravilhoso.

Ren a apertou contra si, escondendo o rosto em seu cabelo.

— Eu odeio que ele tenha chegado perto de você. Eu sinto que falhei.

— Você nunca falha, Ren — disse ela, afastando-se para olhar para ele. — Agora, temos uma cena final para entregar. Vamos mostrar a eles que, nesta vida, o nosso amor não termina em tragédia.

Eles voltaram para o palco para o ato final. Quando Romeu encontrou Julieta na tumba e a peça chegou ao seu fim emocionante, a plateia aplaudiu de pé por dez minutos seguidos.

Naquela noite, após a festa de comemoração, Ren e Kyoko caminharam sozinhos pelo terraço do teatro, observando as luzes de Tóquio.

— Sabe — disse Ren, abraçando-a por trás e protegendo-a do vento frio —, eu estava pensando sobre o que o Sho disse. Sobre você ser a "Kyoko dele".

Kyoko virou-se nos braços dele, sorrindo.

— E o que você concluiu?

Ren a puxou para mais perto, sua possessividade agora tingida de uma doçura infinita.

— Concluí que ele estava errado desde o início. Você nunca foi dele. Você sempre foi minha, mesmo antes de sabermos. O destino apenas teve que nos dar uma segunda chance para que pudéssemos fazer as coisas do jeito certo.

— E estamos fazendo? — perguntou ela, roçando os lábios nos dele.

— Estamos — respondeu Ren, antes de beijá-la com toda a paixão de duas vidas entrelaçadas. — E este é apenas o começo da nossa história.

Enquanto a neve começava a cair suavemente sobre a cidade, Ren e Kyoko sabiam que, não importava o quanto o passado tentasse retornar, o futuro deles estava escrito nas estrelas, em uma linguagem que só eles podiam entender: a linguagem do amor, da atuação e da proteção eterna. E desta vez, ninguém, nem mesmo Sho Fuwa ou o próprio tempo, poderia separá-los.