Um romance entre livros e óculos
Doce Reencontro e a Confissão de Vanessa
O sol de sábado declinava no horizonte, banhando as ruas de Albuquerque com uma luz dourada que parecia suavizar todas as arestas do mundo. Para Júlia, aquela tarde tinha um frescor renovado. O ar não parecia mais pesado, e o aperto que sentira no peito durante toda a semana havia se dissipado, dando lugar a uma expectativa ansiosa. Ela estava parada em frente à "Scoops & Dreams", a sorveteria favorita dos estudantes do East High, ajeitando nervosamente a armação de seus óculos e alisando o vestido azul marinho.
Não era apenas um encontro com Igor. Era a primeira vez que eles sairiam juntos com toda a família Silva após a grande turbulência. Ela sentiu uma mão quente e familiar pousar em sua cintura e, antes mesmo de se virar, o cheiro de sabonete cítrico e o calor reconfortante confirmaram que era ele.
— Você está distraída, Juli. Estava tentando calcular a velocidade de derretimento do sorvete de baunilha sob o sol de trinta graus? — A voz de Igor era brincalhona, carregada com o humor que ela tanto amava.
Júlia virou-se e sorriu, encontrando os olhos dele brilhando por trás das lentes. Igor parecia radiante, vestindo uma camisa polo que sua mãe provavelmente o obrigara a usar, mas com aquele ar de "nerd cavalheiro" que era sua marca registrada.
— Na verdade, eu estava pensando que, se demorarmos mais dois minutos, o Pietro vai acabar com todo o estoque de granulado da loja — respondeu ela, rindo.
— Você conhece bem o meu irmão — disse Igor, dando-lhe um selinho rápido e doce. — Vamos entrar? Eles já estão lá dentro, ocupando a maior mesa, como sempre.
Ao cruzarem a porta, o tilintar do sino foi abafado pelo som inconfundível da família Silva em ação. Em uma mesa redonda no canto, Roberto tentava, sem muito sucesso, impedir que Maitê usasse a colher de plástico como uma catapulta para pedaços de morango. Pietro já estava devorando uma taça gigante, com o rosto manchado de chocolate.
— Júlia! — gritou Pietro, acenando freneticamente. — O Igor disse que se você não chegasse logo, eu podia comer a sua cereja!
— Nem em sonhos, campeão — disse Igor, puxando uma cadeira para Júlia com a elegância de um lorde, antes de se sentar ao lado dela.
Vanessa, que estava terminando de organizar os guardanapos, levantou-se e deu um abraço apertado em Júlia.
— Que bom que você veio, querida. Esta sorveteria não é a mesma sem o seu bom senso para equilibrar o caos desses meninos — disse Vanessa, com um sorriso caloroso que dizia muito mais do que as palavras.
O clima na mesa era de pura celebração. Roberto contava histórias sobre os antigos verões em que levava Igor, ainda pequeno e com óculos grandes demais para o rosto, para tomar sorvete, e como ele sempre insistia em pedir o sabor mais estranho do cardápio.
— Ele uma vez pediu sorvete de chiclete com cobertura de picles porque leu em algum lugar que contrastes de sabor ajudavam na sinapse cerebral — lembrou Roberto, gargalhando.
— Pai, isso foi uma fase experimental! Eu estava tentando ser o próximo Nobel da gastronomia — defendeu-se Igor, fingindo indignação enquanto roubava uma colherada do sorvete de menta de Júlia.
Enquanto Roberto, Igor e Pietro se envolveram em uma discussão acalorada sobre qual herói de quadrinhos teria o melhor paladar para sobremesas, Vanessa aproveitou um momento de distração geral. Ela tocou suavemente no braço de Júlia e inclinou a cabeça em direção ao balcão de coberturas.
— Júlia, me ajude a escolher mais algumas castanhas? — pediu Vanessa, de forma sutil.
Júlia entendeu o convite silencioso. As duas se levantaram e caminharam até o balcão, afastando-se um pouco do barulho da mesa. O aroma de açúcar queimado e waffle fresco as envolvia. Vanessa pegou uma concha de nozes, mas não olhou para o recipiente. Seus olhos estavam fixos em Júlia, com uma seriedade terna.
— Eu queria conversar com você em particular, mesmo que por um minuto — começou Vanessa, a voz baixinha para que os meninos não ouvissem. — Eu vi o que aconteceu na semana passada. Não o incidente na escola, mas o que veio depois.
Júlia sentiu o rosto esquentar levemente. O assunto ainda era um pouco sensível.
— Nós nos resolvemos, Vanessa. O Igor foi muito sincero no alpendre.
— Eu sei que ele foi — disse Vanessa, deixando a concha de lado e segurando as mãos de Júlia. — Mas eu não sei se você tem noção do estado em que aquele menino ficou antes de tomar coragem para ir até a sua casa. Júlia, eu nunca vi o Igor tão devastado.
Júlia piscou, surpresa com a intensidade das palavras da sogra.
— Ele não queria sair do quarto — continuou Vanessa, os olhos nublados pela lembrança. — Ele passou duas noites em claro. Eu entrava lá e ele estava apenas sentado, olhando para o nada, com o rosto inchado. Ele me disse que sentia como se tivesse destruído a única coisa real e bonita que ele já teve. Ele se chamava de monstro, de idiota... ele realmente achou que tinha te perdido para sempre.
— Eu não sabia que tinha sido tão profundo assim — sussurrou Júlia, sentindo o coração apertar de empatia.
— Foi. O Igor se esconde atrás de piadas, Júlia, mas ele sente tudo com uma intensidade assustadora. Ele me confessou, chorando, que o maior medo dele não era você gostar do Lucas, mas sim você perceber que ele não era o "príncipe" que você imaginava. Ele se sentiu pequeno, indigno de você.
Vanessa fez uma pausa, olhando para o filho na mesa, que agora fazia Maitê rir ao fingir que o sorvete estava congelando seu cérebro de forma dramática.
— Ver meu filho naquele estado partiu o meu coração, mas também me mostrou o quanto ele te ama. Ele não estava triste apenas porque estava "em apuros". Ele estava triste porque sabia que tinha tirado o seu sorriso. Ele se sentia o vilão da própria história.
Júlia olhou para Igor. Ele parecia tão feliz agora, tão seguro. Era difícil imaginar aquele mesmo garoto mergulhado em tal escuridão apenas alguns dias atrás.
— Obrigada por me contar isso, Vanessa — disse Júlia, com a voz embargada. — Eu perdoei o Igor porque vi a verdade nos olhos dele, mas saber o quanto ele sofreu por me magoar... isso me faz querer cuidar dele ainda mais.
— Eu contei porque quero que você saiba que ele aprendeu a lição da maneira mais dura — Vanessa sorriu e deu um beijinho na bochecha de Júlia. — Ele te vê como a estrela mais brilhante do East High, querida. E, às vezes, as estrelas ofuscam um pouco quem está perto, entende? Ele só precisa aprender a brilhar junto com você.
As duas voltaram para a mesa com um pote de nozes extras. Igor olhou para elas, desconfiado, mas com um sorriso brincalhão.
— O que vocês duas estavam tramando? Estavam planejando como me fazer limpar a garagem no próximo sábado? — perguntou ele.
Júlia sentou-se ao lado dele e, sem dizer nada, entrelaçou seus dedos nos dele por baixo da mesa, apertando com força.
— Estávamos apenas concordando que você fica muito fofo quando tenta ser sério — respondeu ela, olhando-o com uma ternura tão profunda que Igor ficou momentaneamente sem palavras.
— Ei, eu sou um homem sério e perigoso! — protestou ele, embora o brilho nos olhos o traísse.
— Tão perigoso quanto um marshmallow — brincou Roberto, arrancando risadas de todos.
A tarde continuou entre colheradas de sorvete e histórias de família. Maitê acabou dormindo no colo de Roberto, com o rosto pintado de rosa devido ao sorvete de morango. Pietro começou a desafiar Igor para uma corrida de bicicleta até em casa, enquanto Vanessa observava tudo com um olhar de satisfação plena.
Quando finalmente decidiram ir embora, o sol já havia se posto, deixando o céu em um tom de azul profundo salpicado pelas primeiras estrelas. No estacionamento, enquanto Roberto acomodava as crianças no carro, Igor e Júlia ficaram um pouco para trás.
— Você está quieta desde que conversou com a minha mãe — observou Igor, puxando-a para um abraço de urso, protegendo-a do vento fresco da noite. — Ela te contou alguma história embaraçosa sobre quando eu tive medo de palhaço?
Júlia riu e encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o ritmo constante do seu coração.
— Não. Ela só me contou o quanto você sentiu minha falta.
Igor parou de rir. Ele suspirou, apertando o abraço e beijando o topo da cabeça de Júlia.
— Ela tem o hábito de ser honesta demais — murmurou ele. — Mas é verdade, Juli. Aqueles dias sem você foram os piores da minha vida. Eu senti como se tivesse perdido a minha bússola.
Júlia afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. Ela esticou a mão e ajeitou os óculos dele, um gesto que se tornara sua forma favorita de dizer "eu te amo".
— Você nunca vai me perder, Igor. Mesmo quando a gente desafinar, nós vamos encontrar o tom de novo. Eu não quero um príncipe de livro que nunca erra. Eu quero você, com todos os seus medos e as suas piadas ruins.
Igor sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto de uma forma que nenhum refletor de palco do East High conseguiria.
— Então estamos bem? — perguntou ele, a voz cheia de esperança.
— Estamos ótimos — respondeu ela.
Ele se inclinou e a beijou. Foi um beijo com sabor de baunilha e felicidade, um beijo que selou o fim de uma fase difícil e o início de algo ainda mais sólido. No fundo, eles sabiam que o colégio traria mais desafios, que haveria mais dias de estresse e talvez mais inseguranças, mas ali, cercados pelo amor da família e pela doçura da tarde, nada disso importava.
— Igor! Júlia! Vamos logo ou o Pietro vai decidir que ele é o motorista agora! — gritou Roberto do carro, fazendo os dois se separarem entre risos.
— Já vamos! — respondeu Igor, pegando a mão de Júlia e correndo em direção ao carro.
Enquanto o veículo se afastava da sorveteria, Júlia olhou pela janela para as luzes da cidade. Ela pensou na confissão de Vanessa e na vulnerabilidade de Igor. Ela percebeu que o verdadeiro romance não estava na ausência de problemas, mas na coragem de enfrentá-los juntos e na doçura de um reencontro após a tempestade.
Igor apertou a mão dela no banco de trás, e Júlia soube, com toda a certeza de sua alma inteligente e observadora, que aquele roteiro que eles estavam escrevendo era o melhor de todos. Não era um conto de fadas perfeito, era algo muito melhor: era a vida real deles, vibrante, caótica e infinitamente doce, como uma tarde de sábado em família com o sabor do primeiro amor.