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Um romance entre livros e óculos

O Silêncio das Rosas e a Redenção no Alpendre

A manhã de segunda-feira no East High não tinha o brilho das semanas anteriores. Para Júlia, o corredor principal parecia mais longo, o barulho dos armários batendo era mais estridente e o peso da mochila em seus ombros era um lembrete físico da decepção que carregava no peito. Ela havia passado o fim de semana inteiro em um casulo de silêncio. Igor havia enviado dezenas de mensagens — algumas pedindo desculpas, outras implorando por um minuto de conversa, e algumas apenas dizendo que sentia falta dela.

Júlia leu todas. Mas não respondeu a nenhuma.

Não era apenas por pirraça ou orgulho. Era porque, toda vez que ela tentava digitar algo, a imagem de Igor gritando com Lucas e olhando para ela com desconfiança voltava como um flash doloroso. Ela, que sempre imaginara contos de fada, descobriu que o vilão da história podia, às vezes, ser o próprio príncipe quando ele se deixava levar pelas sombras da insegurança.

Ao chegar perto de seu armário, ela o viu. Igor estava encostado na parede, parecendo que não dormia há dias. As olheiras por trás dos óculos morenos eram profundas, e o cabelo, geralmente desalinhado de um jeito fofo, estava apenas... bagunçado. Assim que ele a avistou, seus olhos brilharam com uma centelha de esperança que fez o estômago de Júlia dar voltas.

— Juli! — Ele se aproximou rapidamente, a voz rouca. — Juli, por favor, você não respondeu nada... eu fiquei preocupado. Eu mal consegui respirar este fim de semana.

Júlia continuou girando o cadeado do armário, os movimentos mecânicos e precisos. Ela não olhou para ele.

— Eu vi as mensagens, Igor — disse ela, a voz baixa e desprovida daquela doçura habitual que ele tanto amava.

— E por que não disse nada? — Ele deu um passo para mais perto, tentando buscar o olhar dela. — Eu sei que fui um idiota completo. Eu sei que não deveria ter gritado. Eu só... eu me perdi, Juli.

Júlia finalmente abriu o armário e começou a trocar os livros.

— Eu não tinha nada para dizer, Igor. Algumas coisas não se resolvem com um "desculpa" enviado por Wi-Fi.

Igor sentiu um aperto no peito. O tom distante dela era pior do que se ela estivesse gritando com ele. Ele esticou a mão, tocando levemente o braço dela, mas Júlia se encolheu sutilmente, fugindo do toque.

— Juli, olha para mim... por favor.

Ela suspirou e virou o rosto. A mágoa nos olhos dela era tão nítida que Igor sentiu vontade de desaparecer.

— Eu só queria que as coisas voltassem ao normal — sussurrou ele, inclinando-se para frente.

Tomado por uma necessidade desesperada de reconectar-se com ela, de sentir que ainda a tinha, Igor fechou os olhos e inclinou o rosto para beijá-la. Ele buscou os lábios dela, esperando que o contato físico pudesse derreter o gelo que ele mesmo criara.

No último segundo, Júlia virou o rosto para o lado oposto.

O beijo de Igor atingiu o ar frio do corredor. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ele abriu os olhos, encontrando apenas o perfil de Júlia, que mantinha o olhar fixo em um ponto qualquer da parede. Ela não disse uma palavra. Não houve sermão, não houve empurrão. Apenas o vazio.

— Eu preciso ir para a aula — disse ela, fechando o armário com um clique seco.

Ela passou por ele sem olhar para trás, deixando Igor parado no meio do corredor, sentindo-se mais invisível do que nunca, mesmo estando cercado por centenas de pessoas.

***

As horas seguintes foram um suplício. Júlia sentava-se na frente, focada no quadro negro, enquanto sentia o olhar de Igor queimando em suas costas durante a aula de história. No intervalo, ela se refugiou na biblioteca, em uma mesa escondida entre as estantes de enciclopédias antigas onde sabia que ele não a procuraria. Ela queria perdoá-lo — uma parte dela morria de saudade de suas piadas e do calor de sua mão —, mas a outra parte, a Júlia que valorizava sua inteligência e sua integridade, precisava de mais do que apenas um arrependimento de corredor.

Quando o sinal da última aula tocou, Júlia saiu apressada. Ela não queria encontros dramáticos no estacionamento. Caminhou rápido até o ponto de ônibus e, durante todo o trajeto para casa, manteve os fones de ouvido, embora nenhuma música estivesse tocando. Ela só queria o silêncio.

Chegou em casa, cumprimentou sua mãe brevemente e subiu para o quarto. Tentou estudar, mas as palavras nos livros de química pareciam dançar sem sentido. Por volta das seis da tarde, a campainha tocou.

Júlia sentiu um calafrio. Ela sabia quem era.

— Júlia! — chamou a mãe dela da base da escada. — O Igor está aqui. Ele disse que precisa muito falar com você. Posso deixá-lo subir?

— Não, mãe — Júlia respondeu, levantando-se e ajeitando os óculos. — Eu vou descer.

Ela encontrou Igor parado no alpendre. Ele não estava no carro de Vanessa; tinha vindo a pé ou de bicicleta, a julgar pelo suor leve em sua testa e o rosto levemente corado. Ele segurava um pequeno caderno velho — o caderno onde ele costumava anotar suas piadas e rascunhos de ideias.

— Oi — disse ele, a voz falhando.

— Oi — respondeu ela, permanecendo atrás da porta de tela, como se fosse uma barreira física entre seus mundos.

— Eu não vim aqui para te beijar de surpresa ou para implorar que você esqueça o que aconteceu — começou Igor, olhando para os próprios pés antes de encontrar os olhos dela. — Eu vim aqui porque eu percebi que, se eu não for honesto comigo mesmo, eu nunca vou merecer uma garota como você.

Júlia cruzou os braços, mas seu coração começou a suavizar o ritmo.

— Pode entrar, Igor. Vamos sentar no balanço.

Eles se acomodaram no balanço de madeira do alpendre, o mesmo lugar onde, em sua imaginação, Júlia já havia vivido mil contos de fada. Mas agora, a cena era real e dolorosamente humana.

— Eu escrevi isso — disse ele, estendendo o caderno. — Porque quando eu tento falar, eu acabo fazendo piada para esconder o quanto estou apavorado. E hoje eu não quero me esconder.

Júlia abriu o caderno. Não eram piadas. Eram parágrafos longos, escritos com uma caligrafia apressada e sincera.

"Eu passei a vida toda sendo o nerd que ninguém via", dizia uma das notas. "E quando você me viu, Júlia, eu senti que tinha ganhado o mundo. Mas o medo de você perceber que eu sou apenas eu — um cara comum com óculos e notas na média — me fez ver monstros onde não existiam. Eu não desconfiei de você. Eu desconfiei de mim. Eu achei que não era o suficiente para te manter interessada, e projetei essa minha falha no Lucas e em você. Eu te tratei como se você não tivesse escolha, como se você fosse um troféu que alguém pudesse roubar. E eu sinto muito por ter diminuído a mulher incrível que você é a uma insegurança minha."

Júlia terminou de ler, sentindo as lágrimas nublarem sua visão. Ela fechou o caderno e o devolveu para ele.

— Igor... — ela começou, a voz trêmula. — Por que você não me disse isso antes?

— Porque é difícil admitir que eu sou pequeno às vezes — confessou ele, limpando uma lágrima que escapou por baixo de seus óculos. — Eu queria ser o príncipe perfeito do seu conto de fada, Juli. Mas eu acabei sendo o bobo da corte que estragou o baile.

— Eu não quero um príncipe perfeito — disse Júlia, virando-se para ele no balanço. — Príncipes perfeitos são chatos e não existem. Eu quero o Igor. O Igor que me faz rir, o Igor que estuda comigo na biblioteca, o Igor que é gentil com a irmãzinha. Mas eu não posso estar com alguém que me olha e vê uma traição em potencial em cada conversa amigável que eu tenho.

— Eu sei — ele disse, com a cabeça baixa. — Eu prometo que vou trabalhar nisso. Eu já conversei com a minha mãe... ela me deu uma bronca monumental, mas também me ajudou a entender que eu preciso confiar no que nós temos. Se você me der outra chance, eu juro que vou ser o seu maior fã, não o seu carcereiro.

Júlia olhou para o horizonte, onde o sol estava começando a se pôr, tingindo as nuvens de rosa e laranja. O silêncio agora não era mais pesado; era um silêncio de cura.

— Sabe por que eu desviei do beijo hoje de manhã? — perguntou ela.

Igor engoliu em seco.

— Porque você me odiava?

— Não — ela sorriu tristemente. — Porque um beijo é uma conexão. E naquele momento, nós estávamos desconectados. Eu não queria um beijo que servisse apenas para calar a nossa briga. Eu queria que você entendesse por que eu estava magoada.

— Eu entendo agora — ele disse suavemente. — Eu entendo que eu feri a sua confiança e a sua liberdade. E isso dói mais em mim do que qualquer outra coisa.

Júlia esticou a mão e, desta vez, foi ela quem buscou a dele. Igor apertou os dedos dela com força, como se estivesse segurando sua âncora em meio a uma tempestade.

— Eu te perdoo, Igor — disse ela, e sentiu como se um peso imenso tivesse sido retirado de seus ombros. — Mas não faça mais isso. Não deixe a sua insegurança falar mais alto do que o que a gente sente um pelo outro.

Igor soltou um suspiro longo, uma mistura de alívio e gratidão.

— Eu prometo, Juli. Pela minha coleção de quadrinhos e por todas as minhas notas de química, eu prometo.

Ele se aproximou lentamente, mas desta vez parou a poucos centímetros do rosto dela, esperando um sinal. Júlia sorriu, ajeitou os óculos dele que estavam levemente tortos, e encurtou a distância.

O beijo deles no alpendre foi diferente de todos os outros. Não tinha a euforia do primeiro beijo, nem a celebração do pedido de namoro. Era um beijo de reconciliação — calmo, profundo e cheio de uma compreensão mútua. Era o som de duas notas voltando à harmonia após uma dissonância dolorosa.

Quando se separaram, Igor tinha um brilho renovado nos olhos.

— Então... — ele começou, tentando recuperar seu lado divertido agora que o peso havia passado. — Isso significa que eu ainda posso te levar para tomar sorvete amanhã ou eu fui rebaixado para o cargo de 'amigo que carrega os livros'?

Júlia riu, o som que Igor mais sentira falta no mundo.

— Você ainda é o namorado oficial, Igor. Mas se você tentar me dar um ataque de ciúmes de novo, eu vou pedir para o Pietro te trancar no freezer junto com o controle da TV.

— Justo — ele riu, puxando-a para um abraço apertado. — Totalmente justo.

Eles ficaram ali no balanço por um bom tempo, observando a noite chegar. O East High continuaria sendo o mesmo lugar de sempre, com seus cliques, seus dramas e seus musicais, mas ali, naquele alpendre, Júlia e Igor sabiam que sua história era feita de algo mais sólido do que roteiros de cinema. Era feita de erros, de perdões e de uma verdade que só dois nerds apaixonados poderiam entender.

— Juli? — chamou ele, quando ela já estava quase entrando em casa.

— Sim?

— Eu te amo. E eu realmente acho que você é inteligente demais para trocar um cara incrível como eu por um capitão de debate — ele piscou, fazendo a primeira piada do dia.

Júlia revirou os olhos, mas com um sorriso imenso no rosto.

— Convencido. Vai para casa, Igor!

— Vou, mas vou feliz! — gritou ele, descendo os degraus saltitando.

Júlia fechou a porta, encostando a cabeça na madeira. O conto de fada tinha tido seu primeiro grande conflito, mas a reconciliação tinha sido muito melhor do que qualquer final feliz de livro. Porque, no fim das contas, a realidade — com todas as suas falhas e pedidos de desculpas sinceros — era a melodia mais bonita que ela já tinha ouvido. E ela mal podia esperar para ver qual seria o próximo verso que eles escreveriam juntos.