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Uma dama e seis vagabundos

Entre Beijos, Acordos e Promessas de Cadeira de Rodas

O silêncio no dormitório era um artigo de luxo que raramente durava mais de cinco minutos. Tom continuava imerso em seu livro, a postura tão rígida que parecia esculpida no mármore das masmorras. Eu, cansada de ficar sentada na minha cama sendo observada pelo olhar felino de Matteo, decidi mudar de ares. Levantei-me e caminhei até a poltrona onde Tom estava. Era uma peça larga, de veludo verde-musgo, com espaço suficiente para duas pessoas se apertassem. Sem pedir licença, sentei-me ao lado dele, encaixando meu corpo no pequeno espaço vago e apoiando meu queixo em seu ombro para conseguir ler as letras miúdas do tomo antigo que ele segurava.

Ele nem sequer desviou os olhos da página. Não houve um protesto, nem um empurrão, nem aquele olhar gélido que costumava afastar qualquer um que ousasse invadir seu espaço pessoal. Tom apenas ajustou levemente o ângulo do livro para que eu também pudesse enxergar. Ficamos ali, em um silêncio cúmplice, enquanto o cheiro de pergaminho dele se misturava ao meu perfume.

— Olhem só para isso — a voz de Draco quebrou o transe, carregada de um deboche ácido. — Parece que o nosso Lorde tem um ponto fraco.

— Eu sempre soube que o Tom era um molenga por dentro — Matteo comentou, largando o cigarro de lado e cruzando os braços, os olhos fixos em nós dois. — Ele não deixa ninguém encostar nem na ponta da capa dele, mas a Hanna pode usar o ombro dele de travesseiro? Isso é favoritismo descarado.

— Talvez ele só goste do cheiro do shampoo dela — provocou Lorenzo, soltando uma risadinha baixa. — Ou talvez ele finalmente tenha admitido que a Hanna é a única pessoa neste quarto que ele não quer transformar em um rato de biblioteca.

Eu senti minhas bochechas esquentarem. Tentei focar nas palavras do livro, mas a implicação de que Tom "gostava" de mim daquela forma sempre gerava um burburinho incômodo. Eu sabia como eles eram; se sentissem um pingo de hesitação, eles atacariam como tubarões.

— Parem com isso — Tom disse subitamente. Sua voz não foi alta, mas teve o efeito de um chicote estalando no ar. Ele não tirou os olhos da leitura. — Ela não está incomodando, mas vocês estão. Hanna não está gostando da conversa, então calem a boca antes que eu perca a paciência.

O dormitório ficou mudo por um instante. O fato de Tom Riddle ter saído em minha defesa de forma tão direta era raro. Os meninos se entreolharam, surpresos, mas a quietude durou pouco. Sonserinos não recuam tão fácil, especialmente quando o assunto é provocação.

— Ah, pronto — Theodore resmungou, fazendo uma carinha triste e dramática enquanto se jogava em sua própria cama. — Agora eu estou com ciúmes. A Hanna só dá atenção para o Tom agora. Eu estou aqui, carente, exausto de tanto fumar e não ganho nem um "oi" decente.

Eu olhei para Theodore. Ele parecia um cachorrinho abandonado, apesar de ser um dos bruxos mais sarcásticos que eu conhecia. Senti uma onda de diversão misturada com aquela vontade de provocá-los de volta. Se eles queriam atenção, eles teriam.

Levantei-me da poltrona, mas antes de me afastar totalmente, inclinei-me e depositei um beijo suave e estalado na bochecha de Tom. Pude sentir a pele dele tencionar sob meus lábios, um choque de surpresa que ele tentou esconder voltando a virar a página com força excessiva.

Caminhei até Theodore, que me olhava com os olhos arregalados.

— Não precisa ficar assim, Theo — eu disse, sorrindo de forma doce e um pouco travessa. — Eu também gosto de você.

Inclinei-me e dei um beijo idêntico em sua bochecha. Theodore ficou paralisado por um segundo, um sorriso vitorioso começando a surgir em seu rosto enquanto ele lançava um olhar de superioridade para os outros.

— Ei! E quanto a nós? — Draco protestou, levantando-se da cama de Lorenzo. — Isso é injustiça! Eu sou muito mais bonito que o Nott.

— É verdade — Régulos concordou, fingindo indignação. — Eu sou um Black, eu mereço um tratamento de primeira classe.

— Vocês são impossíveis — eu ri, revirando os olhos.

Para acabar com o drama, fiz uma rodada pelo quarto. Fui até Draco e dei-lhe um beijo na bochecha, ignorando o comentário dele sobre como a pele dele era macia. Depois Lorenzo, que deu uma piscadinha atrevida, e por fim Régulos, que ficou levemente corado. Voltei para a minha cama e me sentei de pernas cruzadas, cruzando os braços com um ar de desafio.

— Estão satisfeitos agora, seus bebês chorões? — perguntei.

— Satisfeito eu estaria se fosse na boca — Matteo disparou, com aquele sorriso torto que sempre me dava um frio na espinha. — Mas como somos cavalheiros, vamos aceitar a esmola por enquanto.

— Cavalheiros? Vocês? — Dei uma gargalhada genuína. — No dia em que vocês forem cavalheiros, o Snape vira professor de Herbologia.

A atmosfera mudou de leve, tornando-se mais densa. Eles sabiam, e eu sabia, que nossa convivência naquele quarto tinha ultrapassado os limites da amizade há muito tempo. Quase toda noite, um deles — ou às vezes dois — acabava se enfiando debaixo das minhas cobertas quando o frio das masmorras apertava ou quando o pesadelo de algum deles era forte demais. Até o Tom, com toda sua arrogância, já tinha aparecido no meio da noite, alegando que minha cama era "menos desconfortável".

Matteo se levantou e caminhou até mim, sentando-se na beirada do meu colchão. Logo, os outros o seguiram, cercando-me como se eu fosse o tesouro no centro de um ninho de dragões.

— Hanna — Matteo começou, a voz baixando de tom, tornando-se mais séria. — Você sabe que a gente está esperando.

— Esperando o quê? — perguntei, embora soubesse exatamente.

— Para de fingir — Draco disse, sentando-se aos meus pés. — Você sabe. Quando é que você vai liberar? A gente está sendo paciente, mas somos homens, e morar com você nesse quarto sem poder tocar em nada é uma tortura que nem os trouxas inventariam.

Eu olhei para cada um deles. Aqueles rostos bonitos, marcados pela ambição e por uma possessividade que só a Sonserina criava. Eles não estavam apenas brincando; a tensão sexual no quarto era palpável, como eletricidade antes de uma tempestade.

— Vou pensar no caso de vocês — respondi, mantendo a voz firme, embora meu coração estivesse acelerado. — Mas vocês precisam de ordem. Isso aqui está uma bagunça.

— Ordem? — Tom perguntou da poltrona, tendo finalmente fechado o livro para prestar atenção na conversa.

— Sim. Se vocês querem minha atenção e se querem dormir comigo, vamos ter regras — eu disse, pegando um pergaminho e uma pena na minha mesinha de cabeceira. — Eu decidi que cada um vai ter um dia da semana para dormir na minha cama. Mas escutem bem: sem gracinhas. É só dormir.

— Ah, qual é! — Lorenzo reclamou.

— Shhh! — Eu o silenciei com o olhar. — Vamos lá. Segunda-feira é do Matteo. Terça do Theodore. Quarta do Lorenzo. Quinta do Draco. Sexta do Régulos. E sábado... sábado é do Tom.

— E domingo? — Régulos perguntou curioso.

— Domingo a gente vê. Pode ser de todos, ou vocês decidem quem se comportou melhor durante a semana — respondi com um sorriso enigmático. — E isso começa hoje. E como hoje é segunda...

Matteo soltou um grito de vitória, jogando-se para trás no meu colchão com um sorriso de orelha a orelha. Os outros começaram a resmungar, reclamando que a segunda-feira era um dia privilegiado, mas Matteo não deu a mínima.

— Hoje a noite vai ser longa — ele provocou, passando a mão pelo lençol.

— Eu disse "sem fazer nada", Matteo — lembrei, cutucando a costela dele.

— Veremos, pequena Hanna. Veremos — ele piscou.

— Olha só — eu disse, rindo da empolgação dele —, se você já está alegre assim só por dormir do meu lado, imagina quando eu resolver "liberar". Vou sair daqui de cadeira de rodas, porque vocês não têm o menor senso de limite.

O quarto explodiu em gargalhadas. Até Tom permitiu que um sorriso de canto aparecesse em seu rosto, balançando a cabeça negativamente.

— Cadeira de rodas é pouco, Hanna — Theodore brincou, acendendo outro cigarro. — A gente ia precisar de um feitiço de regeneração completa.

— Vocês são ridículos — eu disse, pegando o controle remoto da pequena televisão mágica que havíamos contrabandeado para o dormitório. — Agora, cheguem para lá. Vamos ver um filme, porque se eu tiver que ouvir mais uma piada sobre a minha futura deficiência física, eu cancelo a escala.

Eles se acomodaram como puderam. Matteo e Theodore de um lado, Draco e Lorenzo do outro, Régulos no chão encostado na cama e Tom, surpreendentemente, levantou-se e sentou-se na poltrona mais próxima, mantendo seu posto de observador, mas sem se afastar.

Enquanto as luzes se apagavam e o brilho da tela iluminava o quarto, senti o calor de Matteo ao meu lado. Ele passou o braço por cima dos meus ombros, reivindicando seu território de segunda-feira. Eu sabia que as férias estavam chegando e que a vida fora de Hogwarts seria complicada, mas ali, naquele dormitório barulhento e cheio de garotos perigosos, eu me sentia estranhamente em casa. E, pela primeira vez, a ideia de uma "cadeira de rodas" não parecia tão assustadora assim.