Uma dama e seis vagabundos
Noites de Inverno e Segredos debaixo do Edredom
A segunda-feira à noite nas masmorras da Sonserina sempre parecia mais fria do que no restante do castelo. O vento uivava do lado de fora, batendo contra as janelas submersas que mostravam a imensidão escura do Lago Negro. Dentro do dormitório, porém, o clima estava carregado de uma tensão que nada tinha a ver com o clima escocês.
Matteo parecia uma criança que acabara de ganhar o Pomo de Ouro. Ele já estava de banho tomado, vestindo apenas uma calça de moletom cinza que ficava perigosamente baixa em seu quadril, exibindo o abdômen definido e as tatuagens que subiam pelos seus braços. Ele se pavoneava pelo quarto, lançando olhares de superioridade para Draco e Theodore, que pareciam prontos para amaldiçoá-lo a qualquer momento.
— Olha só para essa postura — Draco resmungou, jogando um par de meias sujas na direção de Matteo. — Parece que ele foi coroado rei de Hogwarts só porque vai dividir o travesseiro com a Hanna.
— Inveja é uma coisa feia, Malfoy — Matteo rebateu, pegando a meia no ar com um reflexo impressionante e jogando-a de volta. — Aceite que a segunda-feira é o dia da elite.
Eu estava sentada na minha cama, terminando de trançar meu cabelo preto para que não amanhecesse um ninho de mafagafos no dia seguinte. Eu tentava ignorar o modo como o olhar de Matteo queimava sobre mim toda vez que eu me mexia. A escala que eu criara era uma tentativa de colocar ordem no caos, mas, vendo a cara de predador dele agora, eu me perguntava se não tinha acabado de assinar minha própria sentença de morte por insônia.
— Hanna — a voz de Tom surgiu do canto sombrio do quarto. Ele ainda estava sentado em sua poltrona, mas o livro estava fechado sobre o colo. — Você tem certeza de que quer levar isso adiante? Se o Riddle for um incômodo, você sabe que eu posso... realocá-lo.
— "Realocá-lo"? — Matteo riu, aproximando-se da poltrona de Tom. — Você quer dizer me jogar para fora do quarto? Tente a sorte, "irmão". A Hanna deu a palavra dela. E se tem uma coisa que uma sonserina respeita, é um acordo selado.
— Eu estou bem, Tom — eu disse, dando um sorriso tranquilizador para ele. — Se o Matteo se comportar como um ser humano e não como um animal de carga, sobreviveremos à noite.
— Isso é um desafio? — Matteo perguntou, virando-se para mim com um brilho malicioso nos olhos.
— É um aviso — retruquei, apontando para o lado vazio da cama. — Deite-se. E se suas mãos passarem da linha imaginária que eu desenhei no meio do colchão, eu juro que você vai acordar sem um dedo.
Os outros meninos ficaram assistindo à cena como se fosse o evento principal de um duelo de bruxos. Lorenzo e Régulos estavam sentados na cama de Lorenzo, dividindo um sapo de chocolate, enquanto Theodore limpava sua varinha com um pano de seda, fingindo não prestar atenção.
— Boa sorte, Hanna — Theodore disse, sem levantar os olhos. — Matteo fala dormindo. Geralmente ele murmura nomes de pessoas que ele quer torturar ou o nome da última garota que ele tentou impressionar.
— Mentira! — Matteo exclamou, finalmente se enfiando debaixo das minhas cobertas verdes e prateadas. — Eu sou um anjo dormindo.
— Um anjo caído, se for — Draco murmurou, apagando as luzes do seu lado do quarto com um movimento brusco da varinha.
Aos poucos, o dormitório foi mergulhando na penumbra. As únicas fontes de luz eram as brasas moribundas na lareira e o brilho esverdeado que vinha das janelas do lago. Eu me deitei, sentindo o colchão afundar significativamente com o peso de Matteo. O cheiro dele — uma mistura de tabaco caro, menta e algo que lembrava couro — preencheu meus sentidos imediatamente.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu conseguia ouvir a respiração pesada de Draco do outro lado do quarto e o som rítmico de Tom virando uma última página antes de também se recolher. Mas, ao meu lado, a energia de Matteo era quase elétrica.
— Hanna? — ele sussurrou. A voz dele soava muito mais profunda no escuro.
— Hum? — respondi, mantendo os olhos fechados.
— Você estava falando sério sobre a cadeira de rodas? — Eu senti um movimento debaixo das cobertas. Ele se virou de lado, ficando de frente para mim.
Eu abri os olhos e encontrei os dele. Mesmo na escuridão, as íris de Matteo pareciam captar qualquer resquício de luz. Ele estava apoiado em um cotovelo, observando meu rosto com uma intensidade que me fez perder o fôlego por um segundo.
— Por que o interesse, Matteo? — perguntei, tentando manter a voz firme. — Está preocupado com a minha saúde física ou está apenas querendo inflar seu ego?
— Um pouco dos dois — ele admitiu, esticando a mão e tocando a ponta da minha franja com os dedos longos. — É que eu fico imaginando como seria. Seis de nós. E você, tão pequena, tentando dar conta de tudo isso. Às vezes eu acho que você é a pessoa mais corajosa de Hogwarts, e não falo isso por causa da sua casa.
— Eu não sou pequena — protestei, embora soubesse que, perto deles, eu realmente parecia delicada. — E eu sei me cuidar. Se vocês acham que podem me quebrar, estão muito enganados.
Matteo soltou uma risada baixa, um som vibrante que pareceu ecoar dentro do meu peito.
— Ninguém quer te quebrar, Hanna. Queremos ver até onde você aguenta antes de implorar por mais.
— Matteo! — sussurrei, sentindo meu rosto arder. — Os meninos estão ouvindo!
— Deixe que ouçam — ele disse, aproximando o rosto do meu. — Draco está fingindo que dorme, mas está com os ouvidos atentos. Theodore está morrendo de inveja. E o Tom... bem, o Tom provavelmente está planejando como vai ser o sábado dele. Mas hoje é segunda. E na segunda, você é minha.
Ele reduziu a distância entre nós. Eu esperava um beijo na bochecha, como os que eu dera mais cedo, mas Matteo nunca se contentava com pouco. Seus lábios encontraram os meus em um beijo lento e exploratório. Tinha gosto de perigo e de algo proibido. Suas mãos, que eu ameaçara cortar, encontraram minha cintura e me puxaram para mais perto, eliminando qualquer espaço que restava entre nossos corpos.
Eu deveria ter me afastado. Deveria ter lembrado a ele sobre as regras. Mas o calor que emanava dele era o único remédio contra o frio das masmorras. Minhas mãos subiram para o peito dele, sentindo os batimentos acelerados do seu coração.
— Ei! — Uma voz ranzinza veio do outro lado do quarto. Era Draco. — Se vocês forem começar a fazer barulhos de sucção, eu juro por Merlin que vou lançar um abaffiato tão forte que vocês vão ficar surdos!
Matteo se afastou apenas alguns milímetros, sorrindo contra os meus lábios.
— Cala a boca, Malfoy! Vá sonhar com suas vassouras e nos deixe em paz! — Matteo gritou de volta, sem se importar com o silêncio do dormitório.
— Deixe eles, Draco — a voz de Lorenzo soou abafada pelo travesseiro. — Deixe o Matteo aproveitar a única vez na vida que ele vai ter uma mulher na cama sem ter que pagar ou usar uma poção do amor.
— Eu vou te matar amanhã, Lorenzo! — Matteo prometeu, mas não se moveu.
Ele voltou a se aninhar ao meu lado, mas desta vez ele me puxou para cima do seu braço, fazendo minha cabeça descansar em seu peito. Ele puxou o edredom até nossos queixos e suspirou, parecendo finalmente satisfeito.
— Hanna? — ele chamou novamente, agora com a voz sonolenta.
— O que foi agora?
— Se o Tom tentar qualquer gracinha no sábado, você me avisa? Eu não confio naquele cara. Ele é muito... intenso.
Eu ri baixinho, sentindo o sono finalmente chegar.
— Matteo, você é a última pessoa no mundo que pode reclamar da intensidade de alguém. Agora durma. Amanhã ainda temos que arrumar os malões para o trem.
— Dormir é um desperdício de tempo quando se está com você — ele murmurou, mas seus olhos já estavam fechando. — Mas tudo bem. Eu preciso estar descansado para te carregar até o Grande Salão amanhã.
— Eu tenho pernas, obrigada.
— Por enquanto — ele disse a última frase com um tom de promessa, e logo a respiração dele se tornou pesada e regular.
Fiquei ali parada, ouvindo o som dos seis garotos respirando ao meu redor. Era uma situação absurda. Eu era uma garota de quinze anos, dividindo um quarto com os herdeiros das famílias mais perigosas e influentes do mundo bruxo. Eles eram rudes, possessivos e constantemente me testavam. Mas, enquanto eu sentia o braço de Matteo me apertando protetoramente, eu sabia que nenhum mal me alcançaria naquelas masmorras.
Pelo menos, nenhum mal que eu não permitisse.
O restante da noite passou em uma calma relativa. Theodore levantou-se uma vez para beber água e tropeçou em um dos sapatos de Draco, soltando um palavrão que fez Tom resmungar algo sobre "falta de classe". Régulos falou o nome de uma garota da Corvinal durante o sono, o que certamente seria motivo de piada no café da manhã.
Quando os primeiros raios de sol, filtrados pela água esverdeada do lago, começaram a iluminar o quarto, eu senti que a escala tinha sido uma ideia brilhante. Ou talvez a ideia mais perigosa que eu já tivera.
Ao abrir os olhos, vi que Matteo ainda dormia. Ele parecia muito mais jovem e menos ameaçador assim. Mas no pé da cama, sentado e já devidamente vestido com seu terno escuro, estava Tom Riddle. Ele estava lendo, como sempre, mas no momento em que eu me mexi, seus olhos encontraram os meus.
— Bom dia, Hanna — ele disse, com a voz perfeitamente clara.
— Bom dia, Tom. Você já está acordado há muito tempo?
— O suficiente para ver que o Riddle não sabe manter as mãos quietas nem dormindo — Tom fechou o livro com um estalo seco. — Prepare-se. O Malfoy já está no banho e ele prometeu que vai gastar toda a água quente hoje como vingança por ontem à noite.
Eu suspirei, sentindo o peso da rotina sonserina recomeçar.
— Hanna? — Tom chamou, quando eu estava prestes a me levantar.
— Sim?
— Falta muito para sábado?
Eu senti um frio na barriga que não tinha nada a ver com a temperatura do quarto. Dei um sorriso pequeno e levantei-me, deixando Matteo resmungando por causa da perda de calor.
— O tempo voa, Tom. Tente não matar ninguém até lá.
Caminhei em direção ao banheiro, sentindo os olhares de Tom e, agora, de um Matteo recém-desperto, seguindo cada passo meu. Eu era Hanna, a "fofa e gentil" sonserina, mas naquele dormitório, eu estava aprendendo que para domar monstros, era preciso ser um pouco monstro também. E eu estava adorando cada segundo.