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Uma dama e seis vagabundos

A Sinfonia das Sombras e o Trono de Veludo

A sexta-feira em Hogwarts sempre trazia uma vibração diferente, um misto de exaustão pelo fim da semana e a antecipação do descanso, mas no dormitório masculino da Sonserina, o clima era de uma tensão refinada. O dia amanheceu com uma névoa espessa que subia do Lago Negro, filtrando uma luz fantasmagórica pelas janelas submersas, banhando o quarto em tons de azul e prata. Eu acordei sentindo o peso familiar de alguém na beirada da minha cama; era Lorenzo, que polia distraidamente um anel de família enquanto esperava que eu abrisse os olhos.

— Bom dia, flor do dia — murmurou Lorenzo, com aquele sorriso preguiçoso que sempre parecia esconder um segredo. — Draco já está no banheiro há quarenta minutos tentando consertar um fio de cabelo rebelde. Se você não se apressar, vamos perder o café e o Tom vai ter um colapso nervoso por causa do atraso.

— O Tom está sempre à beira de um colapso — respondi, bocejando e me sentando. — Ele só disfarça melhor que os outros.

Do outro lado do quarto, ouvi a risada seca de Matteo, que já estava devidamente vestido, embora sua gravata estivesse frouxa e sua camisa ligeiramente desabotoada, como sempre.

— Ele ouviu isso, Hanna — avisou Matteo, apontando com o queixo para a poltrona de couro perto da lareira, onde Tom Riddle estava mergulhado em um pergaminho antigo, a pena movendo-se com uma precisão assustadora.

— Eu ouço tudo neste quarto — a voz de Tom surgiu, fria e melodiosa, sem que ele sequer levantasse os olhos. — E a Hanna tem razão. Meu limiar de paciência para a vaidade excessiva do Malfoy e a lentidão de vocês está se esgotando. Temos aula dupla de Defesa Contra as Artes das Trevas com os Grifinórios. Não pretendo dar a eles o prazer de nos verem chegar depois do sinal.

Levantei-me apressada, pegando meu uniforme. A convivência com eles era um exercício constante de equilíbrio. Ao mesmo tempo em que me protegiam como se eu fosse um tesouro raro, não perdiam a chance de me lembrar que eu era a "intrusa" no território deles. Mas era uma intrusão que todos eles pareciam prezar.

Enquanto eu me arrumava, Theodore Nott passou por mim, deixando um rastro de fumaça de seu cigarro mágico. Ele parou por um segundo, ajeitando minha gola com uma delicadeza que contrastava com seu olhar distante.

— Você está pálida, Hanna — disse ele, a voz rouca. — Coma algo substancial hoje. Não quero ter que te carregar pelos corredores porque você resolveu desmaiar de cansaço.

— Eu não vou desmaiar, Theo — rebati, embora apreciasse o gesto.

Saímos do dormitório em um grupo compacto. Era impossível não notar como as pessoas reagiam à nossa passagem. Os alunos do primeiro ano se encostavam nas paredes, e até os veteranos desviavam o olhar. Éramos uma visão intimidadora: seis dos rapazes mais poderosos e perigosos da escola, cercando uma única garota de cabelos pretos e olhos cor de mel.

Na aula de Defesa, a tensão era palpável. O professor nos colocou para praticar feitiços de expulsão em duplas. Eu acabei ficando com um garoto da Grifinória chamado McLaggen, que parecia mais interessado em contar vantagem sobre suas habilidades no Quadribol do que em segurar a varinha corretamente.

— Sabe, Hanna — disse ele, com um sorriso convencido —, você não deveria passar tanto tempo com esse pessoal das masmorras. Eles têm uma fama... sombria. Se quiser, posso te mostrar como um verdadeiro cavalheiro se comporta.

Antes que eu pudesse responder, senti uma presença fria atrás de mim. Matteo e Draco haviam parado de praticar e observavam a cena.

— Um cavalheiro, é? — a voz de Matteo era puro veneno. — Que interessante. E o que exatamente um "cavalheiro" como você faria, McLaggen? Além de tropeçar na própria língua?

— Ela está bem conosco — Draco acrescentou, sua voz arrastada e cheia de desdém. — E eu sugeriria que você se concentrasse no seu feitiço. Sua postura está deplorável, até para um grifinório.

McLaggen empalideceu e voltou ao trabalho, sem dizer mais uma palavra. Eu suspirei, olhando para os dois.

— Eu sei me defender, sabiam?

— Sabemos — respondeu Matteo, aproximando-se e sussurrando no meu ouvido —, mas é muito mais divertido ver eles se borrarem de medo. Além disso, você é nossa, Hanna. Lembra do pacto?

A tarde passou entre aulas e estudos na biblioteca, onde Tom nos obrigou a revisar cada parágrafo de um ensaio sobre poções curativas. Quando finalmente voltamos para o dormitório, o cansaço era absoluto. Sexta-feira era, por escala, a noite de Lorenzo, mas o clima no quarto estava mais introspectivo.

Régulos Black estava sentado em sua cama, limpando um colar de prata que parecia ser uma relíquia de família. Ele estava silencioso o dia todo. Aproximei-me e sentei ao seu lado.

— Está pensando na sua família de novo? — perguntei baixinho.

Régulos olhou para mim, seus olhos cinzentos refletindo uma tristeza que ele raramente deixava transparecer.

— Às vezes sinto que o peso desse nome vai acabar me afogando, Hanna. Todos esperam que eu seja como o Sirius ou o oposto dele. Ninguém espera que eu seja apenas eu.

— Eu espero — eu disse, segurando sua mão. — Para mim, você é apenas o Régulos que gosta de ler poesia trouxa escondido e que sempre me deixa ganhar no xadrez quando percebe que estou triste.

Ele deu um sorriso triste e beijou a palma da minha mão.

— Obrigado, pequena bússola.

A noite caiu e o dormitório se transformou naquele refúgio caótico que eu aprendera a amar. Matteo e Theodore estavam em um canto, rindo de algo que Lorenzo contava enquanto tentavam conjurar faíscas coloridas com as varinhas. Draco estava ocupado demais organizando seus frascos de perfume, reclamando que o cheiro de tabaco de Theo estava "contaminando o ambiente".

— Hanna — chamou Lorenzo, batendo no colchão ao lado dele. — É minha vez na escala, mas acho que o grupo todo precisa de um momento. Que tal um acordo?

— Que tipo de acordo? — perguntei, desconfiada.

— Uma noite no "trono de veludo" — ele disse, referindo-se ao grande tapete que havíamos cercado com almofadas e feitiços de aquecimento perto da lareira. — Sem escalas individuais hoje. Apenas o grupo.

Tom, que estava em sua mesa, fechou o livro e se virou para nós.

— Uma quebra de protocolo, Lorenzo? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha.

— Uma necessidade estratégica, Tom — Lorenzo respondeu, sem se abalar. — A Hanna está exausta e nós estamos todos agindo como se fôssemos explodir a qualquer momento. Precisamos de uma trégua.

Surpreendentemente, Tom assentiu.

— Que assim seja.

Nós nos acomodamos no centro do dormitório. Era uma visão bizarra: os herdeiros das linhagens mais nobres e sombrias do mundo bruxo amontoados em almofadas como crianças em um acampamento. Eu fiquei no centro, com Lorenzo e Matteo de cada lado. Draco deitou-se aos meus pés, usando meu tornozelo como apoio para a cabeça, enquanto Theodore e Régulos ficaram logo atrás, criando uma barreira de calor. Tom sentou-se na borda do grupo, sua presença como um sentinela silencioso.

— Sabe o que eu sinto falta? — começou Lorenzo, olhando para as brasas da lareira. — De quando éramos do primeiro ano e a nossa maior preocupação era não sermos pegos pelo Filch nos corredores.

— Você sempre era o primeiro a ser pego, Lorenzo — zombou Theodore. — Porque nunca conseguia calar a boca.

— E você sempre fugia e nos deixava para trás! — rebateu Draco, chutando levemente a perna de Theo.

As risadas ecoaram, quebrando a tensão acumulada da semana. Por um momento, não éramos sonserinos perigosos ou peões em uma guerra iminente. Éramos apenas amigos.

— Hanna — disse Matteo, sua voz mais suave do que o habitual —, você já se perguntou por que deixamos você ficar aqui? No nosso dormitório?

— Todos os dias — admiti. — Às vezes acho que é porque vocês gostam de ter alguém para humilhar.

Houve um silêncio súbito. Matteo se inclinou, seu rosto a centímetros do meu.

— Nós te humilhamos porque é a única forma que conhecemos de não deixar o mundo ver o quanto precisamos de você — sussurrou ele. — Você é a única coisa real neste lugar de máscaras e mentiras. Se você fosse embora, acho que nos tornaríamos exatamente o que todos esperam que sejamos: monstros.

Senti um nó na garganta. Olhei para Tom, que me observava com uma intensidade que parecia ler meus pensamentos mais profundos.

— Você não vai embora, Hanna — afirmou Tom, sua voz soando como um decreto. — Você faz parte da estrutura deste dormitório agora. Tão essencial quanto as pedras destas paredes.

— Eu não pretendo ir a lugar nenhum — respondi, sentindo o calor do grupo me envolver.

A noite avançou e o sono começou a pesar. Lorenzo abraçou minha cintura, dormindo quase instantaneamente. Draco já roncava baixinho aos meus pés. Theodore e Régulos conversavam em sussurros sobre o próximo jogo de Quadribol, até que o silêncio finalmente reinou.

Eu estava quase pegando no sono quando senti uma mão tocar meu cabelo. Era Tom. Ele se aproximara enquanto os outros dormiam.

— Você é uma bússola perigosa, Hanna — murmurou ele, tão baixo que parecia um segredo compartilhado com as sombras. — Porque você aponta para um norte que eu não tinha certeza se queria encontrar.

— E que norte é esse, Tom? — perguntei, com os olhos pesados.

— A humanidade — ele respondeu, retirando a mão e voltando para sua posição vigilante. — Agora durma. O amanhã não será tão gentil quanto esta noite.

Fechei os olhos, sentindo o coração bater em sincronia com o ritmo calmo do dormitório. Eu era Hanna, a garota da Sonserina que dividia o quarto com os rapazes mais temidos da escola. Eles me insultavam, me provocavam e me tratavam com uma possessividade que beirava o absurdo. Mas ali, no escuro, protegida por eles, eu sabia que não havia outro lugar no mundo onde eu estivesse mais segura.

Éramos uma sinfonia de sombras, cada um com suas notas dissonantes e segredos obscuros, mas juntos, formávamos uma melodia que ninguém em Hogwarts conseguia entender. E enquanto a lareira morria lentamente, transformando-se em cinzas e brasas, eu adormeci com a certeza de que, não importa o que o futuro reservasse, aquele dormitório seria sempre o meu santuário.

O sábado chegaria com suas próprias batalhas, mas por agora, no trono de veludo e cercada por minhas serpentes, eu era a rainha de um mundo que pertencia apenas a nós. E isso era mais do que suficiente.