Uma dama e seis vagabundos
O Labirinto de Vidro e a Fragilidade do Poder
A quinta-feira amanheceu com a luz esverdeada do Lago Negro filtrando-se pelas janelas de forma quase hipnótica. O dormitório estava em um estado de desordem pacífica após a noite de cinema improvisada. Corpos estavam espalhados por almofadas, e o cheiro de pipoca queimada ainda flutuava no ar. Eu fui a primeira a acordar, sentindo o peso de Draco Malfoy usando meu pé como travesseiro e a mão de Matteo Riddle ainda segurando firmemente a barra do meu pijama.
— Acordem, seus preguiçosos — sussurrei, tentando chutar Draco levemente sem causar um escândalo. — Se o Filch resolver fazer uma inspeção surpresa e encontrar esse acampamento cigano, estamos todos mortos.
— Só mais cinco minutos, Hanna... — resmungou Draco, afundando o rosto no meu tornozelo. — Minha cama é muito longe e o chão está tão... aceitável.
— "Aceitável" não é uma palavra que um Malfoy deveria usar para descrever um tapete, Draco — a voz de Tom surgiu do canto, perfeitamente desperta.
Ele já estava sentado em sua poltrona, impecável como se nunca tivesse dormido no chão com o resto de nós. Ele segurava uma xícara de café preto que exalava um aroma forte, provavelmente conjurado ou trazido por um elfo doméstico fiel.
— Bom dia para você também, Tom — eu disse, conseguindo finalmente me livrar de Matteo e Draco. — Você sempre tem que ser o primeiro a estar pronto para dominar o mundo?
Tom levantou os olhos do livro, um brilho de diversão contida atravessando suas íris escuras.
— Alguém precisa manter os padrões, Hanna. Se dependesse de vocês, Hogwarts seria governada por travesseiros e sapos de chocolate.
Aos poucos, o resto do grupo começou a se mexer. Theodore acordou com um sobressalto, procurando por seu isqueiro de prata; Lorenzo e Régulos trocaram olhares de cansaço mútuo, enquanto Matteo se espreguiçava como um felino, os músculos das costas estalando audivelmente sob a camisa branca amassada.
— Hoje é quinta — lembrou Matteo, lançando-me um olhar carregado de intenção. — Dia de Draco Malfoy. Prepare-se, Hanna. Ele provavelmente vai querer que você use uma máscara facial de seda e ouça histórias sobre a linhagem "imaculada" dele.
— Inveja é uma característica muito feia, Riddle — Draco rebateu, levantando-se e tentando ajeitar o cabelo bagunçado com os dedos. — A Hanna vai adorar a minha companhia. Eu sou o único aqui que sabe tratar uma dama com o luxo que ela merece.
— Luxo? — Lorenzo riu, jogando uma almofada em Draco. — Você quase chorou ontem porque o espírito do filme quebrou um vaso de porcelana!
— Era um vaso Ming autêntico, seu bárbaro! — Draco gritou, e a briga matinal habitual começou oficialmente.
Eu aproveitei o caos para ir ao banheiro e me trocar. Enquanto a água quente caía sobre meus ombros, eu pensava na tensão da noite anterior. O pacto de proteção sobre Régulos ainda pairava no ar. Eles eram garotos de quinze e dezesseis anos carregando o peso de guerras que ainda nem haviam estourado completamente, mas que já os consumiam por dentro.
Quando saí, o quarto estava um pouco mais organizado. Tom e Régulos conversavam em voz baixa perto da janela, enquanto os outros terminavam de se arrumar para a primeira aula de Poções do dia.
— Hanna — chamou Tom, sem se virar. — Venha aqui.
Aproximei-me, sentindo a mudança repentina de temperatura perto dele. Tom sempre parecia carregar um inverno particular consigo.
— O Slughorn vai pedir uma análise sobre a Poção da Morta-Viva hoje — ele disse, entregando-me um frasco pequeno com um líquido perolado. — Quero que você observe a reação deste aditivo. É uma variação que eu desenvolvi.
— Você está me usando como cobaia de laboratório, Tom? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Estou lhe dando a chance de ser a melhor da classe, depois de mim — ele corrigiu, com aquela arrogância que só ele conseguia tornar charmosa. — Não desperdice.
— Ela não vai precisar de aditivos para brilhar, Tom — disse Régulos, dando um sorriso encorajador. Ele parecia muito melhor hoje, a palidez doentia substituída por uma determinação renovada.
O dia de aulas passou como um borrão. Nos corredores, o grupo se movia como uma unidade. Eu caminhava no centro, flanqueada por Draco e Matteo, com Tom liderando o caminho como uma ponta de lança. Os outros alunos abriam caminho, alguns por respeito, a maioria por medo. Eu sentia os olhares — as meninas da Corvinal sussurrando sobre como eu era "sortuda", os meninos da Grifinória lançando olhares de desprezo que morriam assim que Matteo ou Theodore retribuíam o olhar.
No Salão Principal, durante o almoço, a coruja de Draco trouxe um pacote volumoso. Ele o abriu com visível excitação, revelando uma caixa de veludo negro.
— Minha mãe enviou — ele disse, deslizando a caixa pela mesa em minha direção. — Para a nossa "noite especial".
Abri a caixa e encontrei um conjunto de frascos de cristal contendo óleos essenciais e um par de pantufas de pele de coelho que pareciam mais caras que a minha varinha.
— Draco, eu não posso aceitar isso — eu disse, sentindo meu rosto esquentar.
— Bobagem — ele cortou, gesticulando com a mão. — É apenas o básico. Se você vai dormir no meu território, tem que estar de acordo com o padrão Malfoy. Além disso, o Matteo reclama que você rouba o calor dele, então essas pantufas devem resolver o problema.
— Eu nunca reclamei! — Matteo protestou, roubando uma uva do prato de Draco. — Eu disse que ela é um pequeno aquecedor portátil, o que é uma qualidade, não um defeito.
— Parem de discutir sobre o metabolismo da Hanna — Theodore resmungou, debruçado sobre um livro de Defesa Contra as Artes das Trevas. — Estamos em público. Tentem parecer minimamente perigosos.
— Difícil parecer perigoso quando o Draco está dando pantufas de coelhinho — sussurrou Lorenzo, fazendo Régulos rir abafado.
A noite de quinta-feira chegou com uma chuva torrencial que batia contra as paredes externas das masmorras, criando um som abafado e constante. No dormitório, o clima era mais calmo. Tom estava imerso em seus estudos, Theodore e Matteo jogavam Xadrez Bruxo em um canto, e Lorenzo estava tentando consertar um rádio trouxa que ele encontrara, sob o olhar curioso de Régulos.
Draco, no entanto, estava em sua glória. Ele havia conjurado uma pequena mesa de chá perto da lareira e insistiu que eu me sentasse lá enquanto ele lia em voz alta uma peça de teatro bruxo clássica.
— "O destino é uma serpente que morde a própria cauda" — Draco lia com uma entonação dramática, gesticulando com uma mão enquanto a outra segurava uma xícara de porcelana.
— Draco, essa peça é uma tragédia — eu comentei, rindo enquanto usava as pantufas de coelho (que, admito, eram as coisas mais confortáveis que já toquei). — Todo mundo morre no final.
— É clássico, Hanna! — ele defendeu-se, fechando o livro com um estalo. — Tragédias mostram a nobreza da alma sob pressão. Algo que esses bárbaros — ele apontou para Matteo e Theodore — não entenderiam.
— Ei! Eu entendo de pressão — Matteo gritou do outro lado do quarto. — Especialmente a pressão que eu vou exercer no seu pescoço se você não calar a boca e nos deixar jogar!
Draco revirou os olhos e se aproximou de mim, sentando-se no tapete aos meus pés. O brilho da lareira refletia em seu cabelo loiro quase branco, dando-lhe uma aparência angelical que escondia perfeitamente sua natureza mimada e, às vezes, cruel.
— Hanna — ele disse, sua voz perdendo o tom de brincadeira. — Você sabe que as coisas estão ficando complicadas lá fora, não sabe?
— Eu sei, Draco. O Tom e o Régulos... eu sinto a tensão.
— Meu pai diz que grandes mudanças estão chegando. Ele quer que eu esteja pronto — ele olhou para as próprias mãos. — Mas às vezes, eu só queria que as quintas-feiras durassem para sempre. Só a gente aqui. Sem marcas, sem deveres, sem o peso daquele brasão na parede.
Coloquei minha mão no ombro dele. Draco sempre foi o mais vocal sobre sua superioridade, mas eu sabia que, no fundo, ele era o que mais temia não estar à altura das expectativas monumentais de Lucius Malfoy.
— Enquanto estivermos neste quarto, Draco, as quintas-feiras são nossas. Ninguém entra aqui sem a nossa permissão.
Ele olhou para mim e deu um sorriso pequeno, um daqueles sorrisos que ele não mostrava para o resto da escola.
— Você é uma boa sonserina, Hanna. Talvez a melhor de nós.
A noite avançou e, conforme a escala ditava, Draco e eu nos preparamos para dormir. A cama dele era imensa, com lençóis de seda que pareciam gelados ao toque inicial, mas que logo se aqueciam. Ele se deitou de um lado, mantendo uma distância respeitosa, mas logo que as luzes se apagaram, senti o movimento sob as cobertas.
— Hanna? — ele sussurrou.
— Sim?
— Você se importa se eu segurar sua mão? É que... o barulho da chuva está muito alto hoje.
Eu sorri no escuro, sabendo que a chuva era apenas uma desculpa. Estendi minha mão e senti os dedos longos e finos de Draco se entrelaçarem nos meus.
— Tudo bem, Draco. Pode segurar.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Eu ouvia a respiração pesada de Matteo do outro lado do quarto e o som rítmico de Tom virando páginas, ele raramente dormia antes das duas da manhã.
— Ei, Malfoy — a voz de Matteo veio da escuridão, baixa e provocadora. — Se você fizer ela chorar com suas poesias tristes, eu vou te transformar em um tapete para o Salão Comunal.
— Vá dormir, Riddle! — Draco rebateu, mas sem soltar minha mão. — A Hanna está perfeitamente feliz. Ela finalmente tem alguém com classe ao lado dela.
— Classe? — Theodore murmurou, sonolento. — Você usa pijama de seda com suas iniciais bordadas, Draco. Isso não é classe, é um pedido de ajuda.
— Invejosos! — Draco sibilou, mas eu senti que ele estava sorrindo.
Aos poucos, o dormitório mergulhou no silêncio total. A segurança daquelas paredes de pedra parecia absoluta, embora eu soubesse que era uma ilusão de vidro. Lá fora, o mundo bruxo estava mudando, e meus seis protetores estavam no centro da tempestade. Mas ali, com a mão de Draco apertando a minha e o calor do grupo ao meu redor, a tempestade parecia estar a milhas de distância.
Eu estava quase pegando no sono quando ouvi um movimento perto da nossa cama. Abri os olhos minimamente e vi a silhueta de Tom Riddle parada ao pé da cama, observando-nos. Ele não disse nada, apenas ficou ali por alguns segundos, como um sentinela silencioso, garantindo que tudo estivesse em ordem. Ele ajeitou o cobertor que havia escorregado do pé da cama com um movimento quase imperceptível da varinha e depois voltou para sua poltrona.
Naquele momento, entendi algo fundamental. Eles me humilhavam, me provocavam e me tratavam como se eu fosse um fardo, mas a verdade era que eu era o único ponto de humanidade que eles ainda possuíam. Eu era a âncora deles, e eles eram o meu caos.
— Boa noite, Draco — sussurrei, fechando os olhos.
— Boa noite, pequena bússola — ele respondeu, sua voz já perdida no sono.
A sexta-feira chegaria com novas aulas, novos conflitos e o peso crescente do futuro. Mas a quinta-feira havia cumprido seu papel. No labirinto de vidro que era a vida na Sonserina, tínhamos encontrado, mais uma vez, o caminho de volta um para o outro. E enquanto eu estivesse ali, segurando a mão de um Malfoy e sob a vigilância de um Riddle, eu sabia que o vidro não se quebraria. Pelo menos, não hoje.