Uma diplomata no mundo sobrenatural
O Despertar da Herança de Prata
A neve caía lá fora, silenciosa e impiedosa, transformando a paisagem de Genebra em um cartão-postal de cristal. Mas dentro da mansão Watfield, o ar estava carregado de uma eletricidade que não vinha das tomadas. Malu estava sentada no parapeito da janela do vasto escritório de Hades, observando os flocos de neve, mas seus pensamentos estavam a quilômetros dali, em Curitiba, e ao mesmo tempo, em algum lugar ancestral que ela ainda não conseguia nomear.
Ela sentiu a presença dele antes mesmo de ouvir a porta se fechar. O cheiro de Hades — uma mistura inebriante de sândalo, poder e o frescor da floresta após a chuva — era como um ímã que a puxava de volta à realidade.
— Você está muito silenciosa hoje, Maria Luiza — disse Hades, a voz grave vibrando no ambiente.
Malu se virou, encontrando o olhar âmbar do Alfa Supremo. Ele estava sem o paletó do terno caro, com as mangas da camisa social branca dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes e as veias saltadas que Malu, por mais que tentasse negar, achava hipnotizantes.
— Eu estava pensando no que seu pai disse — respondeu ela, descendo do parapeito com uma graça que não possuía semanas atrás. — Sobre a abadia. Sobre o que eu sou. Hades, eu passei vinte e três anos achando que era apenas uma brasileira comum, talvez um pouco intuitiva demais. E agora...
— Agora você é a criatura mais rara da Europa — interrompeu ele, aproximando-se com passos predatórios e elegantes. — E a minha companheira predestinada.
Malu sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O termo "companheira" ainda soava como uma promessa e uma possessão. Ela tocou o pulso, onde a marca invisível para os olhos humanos, mas pulsante para eles, parecia queimar sob sua pele.
— Eu preciso saber a verdade — insistiu ela, aproximando-se dele até que seus peitos quase se tocassem. — O pingente da minha mãe... ele brilhou de novo hoje de manhã. E minhas costas... elas doem, Hades. É como se algo estivesse tentando rasgar minha pele de dentro para fora.
Hades franziu o cenho, a expressão suavizando-se com uma preocupação que ele raramente demonstrava ao mundo exterior. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar acariciando a maçã do rosto com uma ternura que contrastava com sua aura de poder.
— As asas — sussurrou ele, a voz rouca. — O sangue de fada está despertando com força total. O Chanceler acredita que sua mãe não era apenas uma fada comum, Malu. Você é realeza de linhagem pura.
— E o que isso me torna? Um alvo político? — Malu soltou uma risada nervosa, afastando-se um passo. — Já não bastou o Marcus no dormitório? Já não bastou quase morrer nas mãos de um beta antes de você me salvar?
Ao ouvir o nome do assediador, os olhos de Hades escureceram instantaneamente, as pupilas se dilatando até que quase não houvesse mais cor âmbar, apenas o preto do lobo dominante.
— Aquele verme nunca mais chegará perto de você — rosnou ele, o som vibrando nas paredes do escritório. — Ele está sendo... tratado pelo conselho. Mas você tem razão sobre uma coisa: precisamos ir à abadia. Amanhã.
— Você não precisa ir — disse ela, embora no fundo soubesse que era inútil pedir.
— Eu não deixo o que é meu desprotegido — retrucou ele, selando a conversa com um olhar que não admitia réplicas.
A viagem para os Alpes foi feita em um silêncio tenso. O SUV preto subia as estradas sinuosas com facilidade, mas Malu sentia a magia no ar mudar à medida que ganhavam altitude. O cristal em seu pescoço começou a emitir uma luz violeta suave, pulsando no ritmo de seu coração acelerado.
Quando chegaram à antiga construção de pedra incrustada na rocha viva, Malu sentiu uma tontura avassaladora. Hades a segurou imediatamente, seu braço firme ao redor da cintura dela.
— Respire, Malu — comandou ele. — Domine a energia, não deixe que ela domine você.
Eles foram recebidos por uma anciã de olhos brancos, que parecia ver através da alma de ambos. Ela não disse uma palavra, apenas gesticulou para que entrassem na câmara central, onde um grande espelho de água prateada aguardava no centro do salão.
— Coloque o pingente na água, Maria Luiza — instruiu a mulher.
Malu hesitou, olhando para Hades. Ele assentiu, um apoio silencioso que lhe deu a coragem necessária. Ela retirou o colar e o deixou cair na água. No instante em que o cristal tocou o líquido, a câmara foi inundada por uma luz ofuscante.
Imagens começaram a se formar no ar, como projeções de um passado esquecido. Malu viu uma mulher de beleza etérea, com asas que pareciam feitas de aurora boreal, correndo por uma floresta tropical. Ela estava acompanhada por um lobo de pelagem cinza e olhos gentis.
— Minha mãe... e meu pai — sussurrou Malu, as lágrimas escorrendo livremente.
Ela viu a perseguição. Viu que sua mãe era a Rainha das Fadas do Vale de Aosta, que fugira para o Brasil para proteger o fruto de um amor proibido com um lobo delta brasileiro. Viu o sacrifício deles para esconder a linhagem híbrida da filha.
— Você não é apenas uma híbrida, Malu — a voz da anciã ecoou pelo salão. — Você é a ponte para a unificação das raças. O seu sangue carrega a cura para a esterilidade mágica que assola os lobos de linhagem pura da Europa.
Hades ficou rígido ao lado dela. A implicação era enorme. Se o mundo sobrenatural descobrisse o que Malu representava, ela seria caçada não apenas por ódio, mas por cobiça.
— Ninguém vai usá-la — declarou Hades, sua voz de Alfa Supremo fazendo o chão tremer. — Ninguém.
De repente, a dor nas costas de Malu tornou-se insuportável. Ela caiu de joelhos, soltando um grito que rasgou o silêncio da abadia. Hades tentou se aproximar, mas uma aura de luz violeta o repeliu com uma força violenta.
— Malu! — ele gritou, desesperado, socando a barreira invisível.
— Deixe-a passar pela transformação! — ordenou a anciã. — O sangue dela está aceitando a coroa!
A pele da blusa de Malu rasgou-se e, com um som de seda sendo partida, duas asas majestosas se abriram. Elas eram imensas, translúcidas, com veios de prata e violeta que brilhavam com uma luz própria. Ao mesmo tempo, seus olhos mudaram, a íris tornando-se um anel de prata ao redor da pupila de loba.
Malu levitou alguns centímetros do chão, sua presença emanando um poder que fez até mesmo Hades baixar a cabeça por um instante, não por submissão, mas por reconhecimento de uma força igual à sua.
Quando a luz finalmente diminuiu, Malu pousou suavemente no chão frio. As asas se recolheram, desaparecendo sob sua pele como se nunca tivessem existido, deixando apenas duas cicatrizes finas e prateadas em suas escápulas.
Ela olhou para as próprias mãos, sentindo a força que agora corria em suas veias. Ela não era mais a jovem de Curitiba que fugia de sombras. Ela era a Rainha-Loba.
Hades aproximou-se lentamente, como se estivesse diante de uma divindade. Ele tocou o rosto dela com uma reverência que Malu nunca imaginara ver no arrogante CEO.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz falhando.
— Eu estou... completa — respondeu ela, e sua voz tinha um novo timbre, uma ressonância que parecia vibrar com a própria montanha. — Eu sei quem eu sou agora, Hades. E sei por que o destino me trouxe até você.
— E por que foi? — ele perguntou, prendendo a respiração.
— Porque você é o único que tem força suficiente para caminhar ao meu lado sem ser consumido pela minha luz — ela sorriu, puxando-o para um beijo que selou não apenas o vínculo de companheiros, mas uma aliança de poderes que mudaria o mundo sobrenatural para sempre.
A anciã observava-os do canto da sala, um sorriso satisfeito no rosto enrugado.
— A guerra está chegando — murmurou ela para as sombras. — Mas, pela primeira vez em milênios, a luz tem um lobo para protegê-la.
Enquanto saíam da abadia, a neve parara de cair. O céu estava limpo, e a Lua de Prata brilhava no topo das montanhas. Malu olhou para o horizonte, sentindo a presença de seus irmãos ao longe, sabendo que em breve teria que contar a eles a verdade.
— O que faremos agora, Hades? — perguntou ela, enquanto entravam no carro.
Hades ligou o motor, mas antes de partir, ele a olhou nos olhos, uma promessa eterna brilhando em seu olhar dourado.
— Agora, nós governamos — disse ele. — E qualquer um que tentar se atravessar no nosso caminho descobrirá por que o Alfa Supremo e a Rainha das Fadas nunca deveriam ter sido provocados.
Malu encostou a cabeça no banco, sentindo o calor de Hades ao seu lado. A jornada que começara com um assédio em um dormitório e um desmaio em um escritório agora se transformara em uma dinastia. Ela era Maria Luiza, a loba-fada, e ao lado de Hades Watfield, ela estava pronta para enfrentar qualquer tempestade que o destino decidisse enviar.
— Hades? — chamou ela suavemente, enquanto desciam a montanha.
— Sim, meu amor?
— Eu acho que vou precisar de roupas novas. Aquelas asas destroem qualquer blusa de seda.
Hades soltou uma risada sonora, a primeira que Malu ouvia de forma tão genuína.
— Eu comprarei todas as lojas de Genebra para você, Malu. Mas, para ser sincero, eu prefiro você exatamente como está agora.
Malu sorriu, fechando os olhos e deixando que a magia da montanha a embalasse, sabendo que, nos Alpes Suíços, uma nova lenda acabara de nascer.