Uma diplomata no mundo sobrenatural
O Eco dos Alpes e o Sangue de Prata
A estrada que serpenteava em direção à antiga Abadia de Saint-Maurice parecia um fio de seda branca estendido sobre a imensidão dos Alpes Suíços. Dentro do SUV blindado, o silêncio era tão denso que Malu sentia que poderia cortá-lo com um dos papéis de diplomacia que fingia ler. Ao seu lado, Hades Watfield exalava uma aura de autoridade que parecia diminuir o espaço interno do veículo.
Malu olhou pela janela, observando os picos nevados. A cada quilômetro que subiam, a pressão em seu peito aumentava. Não era apenas a altitude; era o seu sangue. Desde que saíram de Genebra, ela sentia uma coceira sob a pele, um calor que começava na base da coluna e se espalhava como fogo líquido. A Lua Cheia ocorreria naquela noite, e algo dentro dela — a parte que ela ainda não compreendia — estava despertando com uma violência assustadora.
— Você está pálida — a voz de Hades quebrou o silêncio, áspera como granito. — Se vai desmaiar de novo, avise antes de manchar o couro do banco.
Malu respirou fundo, fechando os olhos para não avançar no pescoço dele.
— Eu estou bem, Hades. Só estou cansada da sua arrogância. Por que insiste em me tratar como um fardo? Eu sou estagiária do seu pai, não sua prisioneira.
Hades desviou o olhar da estrada por um segundo, e seus olhos, normalmente azuis profundos, brilharam com um reflexo âmbar predatório.
— Você não tem ideia do que é, Maria Luiza. Você caminha por este país como se fosse uma turista, mas exala um cheiro que está deixando cada lobo a dez quilômetros de distância em estado de alerta. Incluindo a mim.
— O cheiro de flores silvestres que você tanto detesta? — provocou ela, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
— O cheiro de algo que não deveria existir — rosnou ele. — Uma mistura impossível.
Eles chegaram à abadia ao entardecer. O prédio de pedra antiga parecia guardar segredos milenares. O Chanceler os aguardava com um monge idoso que, ao ver Malu, fez o sinal da cruz e depois uma reverência profunda, algo que a deixou desconfortável.
Enquanto Hades se afastava para atender uma ligação urgente sobre a fusão de uma empresa de tecnologia em Zurique — sua mente de CEO nunca descansando, mesmo nas montanhas —, Malu foi conduzida à biblioteca subterrânea.
— Aqui estão os registros das Primeiras Linhagens — explicou o Chanceler, apontando para tomos encadernados em pele. — A lenda diz que o Alfa Supremo não é apenas um título político, Malu. É uma maldição de solidão que só termina quando a Lua e a Natureza se fundem em uma única alma. A Companheira Predestinada.
Malu tocou a capa de um livro e sentiu um choque.
— Por que está me contando isso? Eu sou apenas uma estudante de Curitiba.
— Você é a filha da Rainha das Fadas do Vale de Aosta e de um Alfa exilado do Brasil — o Chanceler disse suavemente. — Você é a ponte, Malu. E Hades... Hades é o lobo que esperou trezentos anos por você, embora ele seja orgulhoso demais para admitir que seu lobo já a reconheceu.
A revelação a atingiu como um soco. Antes que pudesse processar, a luz da lua começou a filtrar pelas frestas superiores da abadia. A dor explodiu em suas costas. Malu gritou, caindo de joelhos. Suas unhas se alongaram, e uma luz prateada começou a emanar de seus poros, misturando-se a um brilho violeta etéreo.
— Malu! — A voz de Hades ecoou enquanto ele descia as escadas correndo.
Ao vê-la naquele estado, a transformação dele também foi desencadeada. O Alfa Supremo não conseguia conter a fera diante da agonia de sua fêmea. Mas, em vez de conforto, o que surgiu foi uma colisão de instintos.
— Fique longe de mim! — gritou Malu, sua voz ganhando um eco sobrenatural. As asas de fada, translúcidas e poderosas, rasgaram o tecido de sua blusa, enquanto seus olhos se tornavam completamente prateados, a marca da loba ômega assumindo o controle.
— Você está perdendo o controle! — Hades rugiu, seus músculos se expandindo, a camisa social se rasgando conforme ele crescia em estatura e poder. — Deixe-me ajudar!
— Eu não preciso de um Alfa que me olha com desprezo! — Malu avançou, a velocidade de fada combinada com a força de loba. Ela o empurrou contra a parede de pedra com uma força que teria matado um humano. — Você me odeia porque eu te faço sentir algo, não é? Porque você não pode controlar uma "brasileira teimosa"!
Hades a segurou pelos pulsos, os corpos colados, a eletricidade entre eles incendiando o ar.
— Eu não te odeio, sua idiota! — ele rosnou no ouvido dela, a respiração quente e selvagem. — Eu estou tentando não te devorar desde o momento em que você entrou na minha casa!
A briga foi feroz, uma dança de rosnados e magia. Malu tentava fugir da intensidade dele, mas a montanha tinha outros planos. No auge da transformação, quando Malu estava entre a consciência humana e a selvageria da loba, um grupo de mercenários — caçadores de seres sobrenaturais que rastreavam a linhagem das fadas há décadas — invadiu a abadia.
Aproveitando o momento de exaustão de Malu após a briga com Hades, eles dispararam dardos de acônito e ferro frio. Malu sentiu o mundo escurecer enquanto era arrastada para as sombras da floresta alpina.
O rugido que saiu da garganta de Hades naquele momento não foi humano. Foi o som de um deus perdendo sua razão de viver.
***
Malu acordou em uma cabana úmida, as mãos presas por correntes de ferro frio que queimavam sua pele de fada. Sua loba estava acuada, ganindo dentro de sua mente.
— A última da linhagem — disse um homem de cicatriz no rosto, aproximando-se com uma lâmina. — O sangue de uma fada-loba vale bilhões no mercado negro de elixires.
— Tente tirar uma gota — Malu cuspiu, o sangue curitibano e a fúria da loba se fundindo —, e eu garanto que você não terá mãos para segurar esse dinheiro.
Ela sentiu o vínculo antes de ouvi-lo. Uma conexão invisível, um fio de ouro e prata que agora brilhava em seu peito, ligando-a diretamente ao coração de Hades. Ela podia sentir a raiva dele, o medo paralisante de perdê-la e, acima de tudo, o amor avassalador que ele tentara esconder sob ternos caros e reuniões de diretoria.
A porta da cabana voou longe, arrancada das dobradiças. Hades não entrou como um homem; ele entrou como o pesadelo de qualquer caçador. Em sua forma de lobo gigante, de pelos negros como a noite e olhos que queimavam como brasas, ele era o Supremo em toda a sua glória.
O massacre que se seguiu foi rápido. Hades não deu chance aos sequestradores. Quando ele finalmente voltou à forma humana, nu e coberto de sangue dos inimigos, ele correu até Malu, quebrando as correntes com as mãos nuas.
— Malu... Maria Luiza... — ele sussurrou, envolvendo-a em seus braços.
Ela não recuou. Pela primeira vez, ela se aninhou no peito dele, sentindo o perfume de sândalo e neve que agora era seu lar.
— Você veio — ela murmurou, a voz fraca.
— Eu sempre virei. Você é minha companheira. Eu fui um tolo por tentar lutar contra o destino.
***
Duas semanas depois, a mansão Watfield em Genebra tinha uma nova dinâmica. Malu não era mais a "estagiária protegida", mas a senhora da casa, embora ela ainda insistisse em terminar seu curso de diplomacia.
Ela estava sentada no escritório de Hades, revisando um tratado sobre cooperação ambiental entre a Suíça e o Brasil, enquanto ele, em sua mesa maciça de carvalho, tentava se concentrar em um relatório financeiro, mas seus olhos não paravam de desviar para ela.
— Você está me desconcentrando — disse Hades, um sorriso de canto aparecendo, algo que ele só mostrava para ela.
— Eu? Eu estou apenas trabalhando, Senhor Watfield — Malu respondeu, ajeitando os óculos. Suas asas, agora sob controle, estavam recolhidas, mas sua aura brilhava com uma saúde vibrante. — O senhor é quem não para de me cheirar do outro lado da sala.
Hades levantou-se e caminhou até ela, inclinando-se sobre a cadeira. Ele beijou a curva de seu pescoço, onde a marca da união agora brilhava permanentemente.
— O instinto do Alfa é proteger o seu tesouro mais valioso. E a economia da Europa pode esperar cinco minutos enquanto eu lembro à minha companheira o quanto ela é irritante e perfeita.
Malu riu, virando-se para beijá-lo.
— Você ainda é um ditador de escritório, sabe disso?
— E você ainda é uma diplomata teimosa — ele retrucou, a voz carregada de afeto. — Mas somos os governantes deste pequeno mundo, Malu.
Ela sabia que ainda tinha muito a descobrir sobre suas origens de fada, e que o mundo lá fora ainda podia ser perigoso para alguém tão única. Mas, enquanto olhava para Hades, o lobo que deixaria o mundo queimar para vê-la sorrir, Malu soube que o gelo da Suíça nunca mais seria frio. Ela tinha encontrado seu fogo, sua matilha e, finalmente, a si mesma.
— Hades? — chamou ela, enquanto ele a puxava para perto.
— Sim, *mon amour*?
— Mandei meu irmão gêmeo vir para o Natal. Ele é um lobo delta e odeia europeus arrogantes. Boa sorte.
Hades soltou uma risada sonora, a primeira em anos que realmente vinha do peito.
— Que venham os brasileiros. Se eles forem metade tão difíceis quanto você, a Suíça finalmente terá um desafio à altura.
O destino tinha sido traçado entre a neve e o sangue, e agora, sob o céu de Genebra, um novo capítulo de poder e paixão começava a ser escrito.