Uma diplomata no mundo sobrenatural
O Rugido do Silêncio e o Renascer da Estirpe
O aeroporto de Genebra parecia pequeno demais para a energia que emanava de Lucas. O irmão gêmeo de Malu desembarcou com a mesma impetuosidade com que vivia em Curitiba: uma mistura de proteção feroz e um carisma inegável. Quando seus olhos encontraram os de Malu, o vínculo de gêmeos vibrou como uma corda de violão esticada ao máximo. Ele ignorou a segurança, ignorou o protocolo e correu para abraçá-la.
— Você está enorme, baixinha! — exclamou Lucas, apertando-a com cuidado, mas sentindo imediatamente a aura poderosa que a cercava. — E você... — Ele se virou para Hades, que estava parado como uma estátua de gelo e poder logo atrás dela. — Você deve ser o sujeito que pensa que manda nela.
Hades arqueou uma sobrancelha, seus olhos faiscando em um tom âmbar.
— Eu sou o companheiro dela, Lucas. E nesta casa, ninguém "manda" em Maria Luiza. Nós governamos juntos.
Os primeiros dias foram uma dança de egos. Lucas, um lobo delta com um instinto territorial aguçado, testava Hades a cada refeição, a cada caminhada pelos jardins. Mas, aos poucos, o respeito mútuo floresceu. Hades admirava a lealdade inabalável de Lucas, e Lucas percebeu que, por trás da fachada de CEO implacável, Hades daria a própria vida para manter Malu feliz. Foram semanas de risadas, comidas brasileiras improvisadas na cozinha da mansão e planos para o futuro.
Porém, o destino tem mãos frias.
Tudo começou com uma pressão sutil no baixo ventre durante um jantar de despedida para Lucas. Malu ignorou, atribuindo ao cansaço. Mas na manhã seguinte, a dor tornou-se um grito lancinante. O sangue, vermelho e terrível contra os lençóis brancos, contou a história que nenhum deles queria ler.
O hospital da matilha foi um borrão de luzes brancas e silêncios pesados. Malu sentia a vida se esvaindo, não apenas a dela, mas a pequena chama que carregava. A perda do bebê foi um golpe que nem a magia das fadas, nem a força dos lobos pôde evitar. Foi uma incompatibilidade súbita, um choque entre as linhagens que ainda não haviam se fundido completamente.
Malu afundou em um abismo de silêncio. Por meses, ela foi uma sombra pelos corredores da mansão. Hades, devastado, tentava alcançá-la, mas o vínculo parecia ter se tornado um fio de dor pura. Ele sofria em silêncio, uivando para a lua em noites solitárias nas montanhas, sentindo que falhara com sua fêmea e seu herdeiro.
Quase um ano se passou. As feridas haviam cicatrizado na pele, mas a alma de Malu permanecia em um inverno perpétuo. Até que a Lua da Fertilidade, a mais poderosa em um século, começou a surgir no horizonte.
Naquela noite, Malu não conseguiu dormir. Ela caminhou até o jardim coberto de neve, sentindo o chamado. De repente, a luz da lua tornou-se tão intensa que o mundo ao redor desapareceu. Ela não estava mais no jardim; estava em um plano de luz prateada e névoa estelar.
À sua frente, uma mulher de beleza impossível, com cabelos que pareciam fios de luz e olhos que continham galáxias, surgiu.
— Minha criança de duas sangues — disse a Deusa da Lua, sua voz soando como o vento nos pinheiros.
— Por que me chamou? — Malu perguntou, as lágrimas brotando. — Eu falhei. Eu perdi o que era mais precioso.
— Você não falhou — disse a Deusa, aproximando-se e tocando a testa de Malu. — O sacrifício do primeiro foi necessário para purificar o caminho. O sangue de fada e o sangue de lobo precisavam de tempo para se tornarem um só tecido. Agora, a terra está pronta. A Lua da Fertilidade não é um presente, Maria Luiza, é uma convocação. Seu Alfa está morrendo por dentro. Cure-o, e ele a curará.
Malu acordou no jardim, o corpo vibrando com uma eletricidade que ela não sentia há muito tempo. O cheiro de Hades a atingiu a quilômetros de distância. Ela correu para dentro da mansão, encontrando-o na biblioteca, bebendo sozinho, os olhos perdidos na lareira.
— Hades — ela chamou, a voz carregada de uma urgência sobrenatural.
Ele se virou, e o que viu o fez largar o copo. Malu estava envolta em uma aura violeta e prateada tão forte que o ar ao redor dela crepitava.
— A Lua... — murmurou Hades, seu lobo interior despertando com uma força que ele não conseguia controlar.
— Ela falou comigo, Hades — disse Malu, aproximando-se e rasgando a própria camisa com uma força que não era humana. — Chega de luto. Chega de silêncio. Eu quero você. Eu preciso que você me reivindique como se fosse a primeira e a última vez.
Hades não precisou de outro convite. O vínculo, antes ferido, explodiu em chamas. Pelos próximos quatro dias, a mansão foi isolada do mundo. O poder da Lua da Fertilidade os manteve em um estado de transe erótico e espiritual. Não era apenas sexo; era uma reconstrução celular. A cada vez que Hades a possuía, a magia de Malu tecia novas defesas em seu útero, e a força do Alfa selava as rachaduras em sua alma.
Eles se perderam um no outro. Foram quatro dias de rendição total, onde o tempo não existia, apenas o calor, o nó do Alfa prendendo-os em promessas de vida, e a magia das fadas criando um casulo de luz ao redor da cama.
Dois meses depois.
Malu estava no meio de uma conferência internacional quando o mundo decidiu girar para o lado errado. O palácio das Nações Unidas parecia estar em um navio durante uma tempestade.
— Senhorita Watfield? — perguntou um colega, notando que ela se segurava na mesa com os nós dos dedos brancos.
— Eu... eu estou bem — mentiu ela, mas o cheiro do perfume de uma delegada ao lado pareceu um ataque físico aos seus sentidos.
Ela correu para o banheiro, o estômago revirando em espasmos violentos. Ao se olhar no espelho, viu que seu rosto estava pálido, mas seus olhos tinham um brilho violeta febril. Ela tentou sair, mas uma tontura avassaladora a fez desabar no chão de mármore.
— Malu! — A voz de Hades ecoou pelo corredor. Ele estava no prédio para uma reunião econômica e sentira o desmaio dela através do vínculo como um choque elétrico.
Ele a encontrou em estado crítico, a respiração curta e a pele suada. Ao pegá-la nos braços, Hades sentiu algo que o deixou paralisado por um segundo. A temperatura do corpo dela estava altíssima, e um aroma doce, quase como mel e leite, emanava de sua pele.
— Vamos para casa. Agora! — rosnou ele para os seguranças que tentavam ajudar.
Na mansão, o médico da família foi chamado às pressas. Malu estava em um sono profundo, agitada por sonhos mágicos. Quando Hades a despiu para que o médico a examinasse, ele soltou um suspiro sufocado.
Os seios de Malu estavam visivelmente maiores, as veias azuis e violetas desenhando mapas sobre a pele sensível. Mas o que mais chocou Hades foi a pequena mancha de líquido perolado que escapava de seus mamilos.
— Leite de fada — murmurou o médico, ajustando os óculos. — Senhor Watfield, isso é inédito nessa fase. O corpo dela não está apenas grávido; ele está em um estado de hiperpreparação. A magia da Deusa da Lua está sustentando a gestação de uma forma que o corpo físico dela está lutando para acompanhar.
Hades sentou-se ao lado dela, segurando sua mão.
— Ela vai sobreviver a isso?
— Ela é a companheira do Alfa Supremo e a filha da Rainha das Fadas — disse o médico. — O mal-estar, os desmaios, a saída de leite precoce... são sinais de que o bebê é tão poderoso que está consumindo as reservas dela. Ela precisa de você, Hades. Mais do que nunca. O seu sangue, a sua presença, o seu toque. Você é a âncora dela.
Malu abriu os olhos lentamente, encontrando o olhar dourado de Hades.
— Eu estou doente de novo? — perguntou ela, a voz fraca.
Hades sorriu, uma lágrima solitária escapando e caindo na mão dela.
— Não, meu amor. Você está transbordando vida.
Malu levou a mão ao peito, sentindo a dor latejante e a umidade do leite. Ela olhou para Hades e, apesar da fraqueza, sentiu uma paz profunda. A Deusa cumprira sua promessa.
— Ele está vindo, não está? — sussurrou ela.
— Sim — disse Hades, inclinando-se para beijar seu ventre, onde a luz violeta agora brilhava constante e forte. — E desta vez, nada no céu ou na terra ousará nos tirar isso.
Malu fechou os olhos, sentindo o rugido protetor do seu Alfa ecoar em sua alma, enquanto o silêncio do inverno lá fora era quebrado pelo som da vida que, finalmente, florescia em seu solo sagrado.