Uma diplomata no mundo sobrenatural
O Alvorecer da Coroa de Prata
O silêncio na mansão Watfield era absoluto, interrompido apenas pelo estalar da lenha na lareira monumental do quarto principal. Maria Luiza estava recostada em uma montanha de travesseiros de seda, observando os flocos de neve dançarem contra a vidraça. O mundo lá fora parecia congelado, mas dentro dela, uma tempestade de vida e magia rugia.
Hades não a deixava sozinha por mais de dez minutos. O Alfa Supremo, o homem que fazia os mercados financeiros da Europa tremerem com um franzir de testa, agora dedicava-se a uma tarefa muito mais delicada: cuidar da companheira que carregava o futuro da sua linhagem. Ele entrou no quarto carregando uma bandeja com frutas frescas e um chá de ervas preparado especificamente para acalmar a náusea persistente que a acompanhava.
— Como você está se sentindo agora? — perguntou ele, sentando-se na borda da cama. Seus olhos âmbar percorreram o rosto de Malu, buscando qualquer sinal de dor ou desconforto.
— Estou me sentindo como se tivesse engolido um sol pequeno — Malu respondeu com um sorriso fraco, tocando o ventre. — Ele não para de se mexer, Hades. Acho que ele está tentando reorganizar meus órgãos internos para ter mais espaço.
Hades colocou a mão sobre o ventre dela. Quase instantaneamente, uma pulsação de luz violeta atravessou a pele, respondendo ao toque do Alfa. O fenômeno do leite de fada, que começara semanas antes, estabilizara-se, mas Malu ainda sentia a pressão constante em seu peito, uma promessa física de que seu corpo estava pronto para nutrir o impossível.
— O médico disse que sua magia está se fundindo com a dele — comentou Hades, a voz carregada de uma reverência sombria. — Você é a criatura mais forte que eu já conheci, Maria Luiza. E eu não digo isso apenas porque você é minha companheira.
— Eu não me sinto forte — confessou ela, a voz falhando por um momento. — Eu me sinto vulnerável. Tenho medo de que, se eu piscar, algo aconteça de novo. A perda do primeiro... ainda dói, Hades.
Hades aproximou-se, encostando a testa na dela. O perfume dele — neve e sândalo — envolveu Malu como um manto protetor.
— Desta vez é diferente — afirmou ele com uma convicção que não admitia dúvidas. — A Deusa da Lua deu sua bênção pessoal. E eu jurei sobre o meu sangue que nenhum mal tocará vocês. Se for preciso, eu farei os Alpes caírem antes de permitir que uma única lágrima de dor caia dos seus olhos.
A conversa foi interrompida pelo toque suave na porta. Era o Chanceler Watfield. O rosto do homem mais velho estava sério, desprovido da alegria habitual que demonstrava ao visitar a nora.
— Hades, precisamos conversar no escritório — disse o Chanceler. — O Conselho das Matilhas acaba de enviar um emissário. Há rumores de que os Exilados estão se reorganizando na fronteira com a Itália. Eles sabem que o nascimento está próximo.
Hades sentiu o rosnado vibrar em seu peito antes mesmo de o som sair. Ele olhou para Malu, o conflito estampado em seu rosto.
— Vá — disse ela, segurando a mão dele. — Eu estou segura aqui. A casa é uma fortaleza, e eu consigo sentir a proteção das fadas vibrando nas paredes. Além disso, se alguém tentar entrar, meu irmão Lucas está na sala de segurança e ele está louco para usar os novos brinquedos tecnológicos que você comprou para ele.
Hades beijou a testa dela, um gesto rápido e possessivo, antes de sair com o pai.
Malu ficou sozinha com seus pensamentos. Ela fechou os olhos e tentou se conectar com a parte fada de sua alma. Desde que a gravidez avançara, ela começara a ter visões. Via florestas de cristal, rios de prata e uma mulher coroada de flores que a chamava. Era sua mãe, a Rainha das Fadas, tentando guiá-la através do véu.
— *Minha pequena loba* — a voz ecoou em sua mente, suave como o farfalhar das folhas. — *O poder que você carrega não é apenas para proteção. É para a união. O sangue do Alfa Supremo e o sangue da Realeza das Fadas criarão um novo equilíbrio. Não tema a dor do parto, pois ela será o grito de liberdade da nossa espécie.*
Malu acordou do transe com um solavanco. A dor que sentiu não era a náusea comum. Era uma contração aguda, poderosa, que parecia vir do centro da terra. Ela tentou se levantar, mas suas pernas cederam.
— Hades! — ela gritou, sua voz carregada com a frequência de uma ômega em perigo.
No escritório, a dois andares de distância, Hades parou de falar no meio de uma frase. O vínculo de companheirismo explodiu em seu peito como um sinalizador de emergência. Ele não usou as escadas; ele saltou pelo vão central da mansão, aterrissando com a força de um predador no andar de Malu.
Quando ele entrou no quarto, a cena era sobrenatural. Malu estava caída perto da cama, e o quarto estava preenchido por uma névoa prateada. As asas dela, normalmente ocultas, estavam abertas em toda a sua extensão translúcida, brilhando com um fulgor violeta que iluminava as paredes.
— Está na hora — arquejou ela, as mãos cravadas no tapete. — Ele está vindo, Hades. Agora!
Hades a pegou nos braços e a levou para a maca médica que já estava preparada no quarto anexo. O médico e as enfermeiras da matilha entraram correndo, mas pararam na porta, intimidados pela energia que emanava do casal.
— Saiam! — rugiu Hades. — Eu farei isso.
— Senhor Watfield, o senhor não pode... — começou o médico.
— Eu sou o Alfa dele! — Hades virou-se, seus olhos completamente dourados, a fera à flor da pele. — A magia dela vai repelir qualquer um que não seja do sangue. Fiquem na porta, preparem o que for necessário, mas ninguém toca nela a menos que eu ordene!
O parto não foi um evento médico comum. Foi um ritual de poder. A cada contração de Malu, a mansão tremia. O céu lá fora, antes claro, escureceu, e uma aurora boreal artificial, criada pela magia das fadas, começou a brilhar sobre os Alpes.
Malu gritava, mas seus gritos não eram de agonia pura; eram de poder. Ela segurava as mãos de Hades com uma força que quebraria ossos humanos, mas ele nem piscava. Ele transferia sua própria energia vital para ela através do vínculo, servindo como a âncora que a impedia de ser consumida pela própria magia.
— Você consegue, Malu! Olhe para mim! — Hades ordenou, sua voz sendo o único farol na tempestade de luz. — Sinta o meu lobo. Sinta a nossa força. Traga o nosso filho para casa!
— Eu não consigo... é demais! — Malu chorava, o suor brilhando em sua pele de porcelana. — As asas dele... eu sinto as asas dele!
— Então abra o caminho! — Hades rugiu, e seu rosnado foi acompanhado por um uivo que ecoou por toda a montanha, convocando a proteção de todos os antepassados Watfield.
Em um último esforço monumental, onde o brilho violeta e o dourado se fundiram em um clarão ofuscante, o som de um choro agudo e poderoso preencheu o quarto. Não era um choro comum; era um som que carregava a autoridade de um Alfa e a melodia de uma fada.
O silêncio caiu sobre a mansão. A névoa dissipou-se lentamente.
Hades estava ajoelhado, segurando nos braços um pequeno embrulho envolto em uma luz suave. O bebê tinha uma penugem de cabelos negros como os do pai, mas quando abriu os olhos por um segundo, eles brilharam com o violeta profundo das fadas. Nas suas pequenas costas, duas marcas prateadas indicavam onde as asas se manifestariam no futuro.
— É um menino — sussurrou Hades, a voz embargada, as mãos enormes tremendo enquanto entregava o filho a Malu.
Malu pegou o bebê, encostando-o ao peito. O pequeno ser, instintivamente, buscou o calor da mãe. No momento em que ele começou a mamar, o leite de fada fluiu, e uma onda de paz e cura percorreu o corpo de Malu, fechando suas feridas e restaurando sua energia.
— Ele é perfeito — disse ela, as lágrimas de alegria escorrendo livremente. — Ele é o nosso milagre.
Hades sentou-se ao lado dela, envolvendo os dois em seus braços poderosos. O Alfa Supremo, o homem que nunca se curvava, encostou a cabeça no ombro da esposa e chorou de alívio.
— O nome dele será Valerius — declarou Hades. — Aquele que é forte e valente. O primeiro de sua espécie.
Naquela noite, a notícia espalhou-se. As matilhas de toda a Europa sentiram a mudança na atmosfera. Os Exilados, que planejavam um ataque, recuaram para as sombras, temendo o poder que acabara de nascer.
Horas depois, Lucas e o Chanceler entraram no quarto. Lucas, ao ver o sobrinho, perdeu toda a sua postura de "durão de Curitiba" e começou a chorar, sendo prontamente provocado por Hades, o que trouxe um momento de leveza necessária.
— Ele tem o seu nariz, Malu — disse Lucas, limpando as lágrimas. — Mas tem a cara de poucos amigos do pai. Coitada da Suíça quando esse moleque começar a andar.
— A Suíça estará em boas mãos — disse o Chanceler, tocando o ombro do filho. — E o mundo sobrenatural nunca mais será o mesmo.
Quando todos saíram e o quarto voltou a ficar em penumbra, Malu olhou para Hades.
— Nós conseguimos, não conseguimos?
— Nós apenas começamos, meu amor — respondeu Hades, beijando os lábios dela com doçura. — Agora temos uma dinastia para proteger e um mundo para ensinar que o amor entre espécies diferentes não é uma fraqueza, mas a maior força que existe.
Malu fechou os olhos, sentindo o peso reconfortante do filho em seus braços e o calor do marido ao seu lado. A jovem diplomata que saíra do Brasil em busca de um sonho encontrara algo muito mais vasto: ela encontrara o seu lugar no universo, como a Rainha de um novo povo, a companheira de um Alfa e a mãe de uma lenda. E enquanto a neve continuava a cair sobre os Alpes, o coração da montanha batia no ritmo de uma nova esperança.