Uma diplomata no mundo sobrenatural
O Legado da Aurora Violeta
A luz pálida do amanhecer suíço filtrava-se pelas janelas de vidro triplo da mansão, mas o calor que emanava do berço esculpido em madeira de carvalho e runas de proteção era puramente mágico. Valerius, com apenas algumas semanas de vida, dormia com uma serenidade que contrastava com a tempestade política que sua existência havia desencadeado.
Malu observava o filho, sentindo a vibração suave da magia dele ressoar com a sua. Suas asas, agora recolhidas sob a pele, ainda causavam formigamentos ocasionais, um lembrete de que ela não era mais a mesma mulher que aterrissara em Genebra com apenas uma mala e um sonho diplomático. Ela era a Matriarca de uma nova linhagem.
— Você está pensando demais de novo — a voz profunda de Hades vibrou atrás dela.
Ele a envolveu pela cintura, encostando o queixo em seu ombro. O Alfa Supremo parecia ter rejuvenescido desde o nascimento de Valerius, embora a vigilância em seus olhos tivesse triplicado.
— Estou pensando no que o seu pai disse ontem — confessou Malu, virando-se nos braços dele. — Sobre a cúpula extraordinária. Hades, eles não querem apenas nos parabenizar. Eles querem testar o Valerius.
— Deixe que tentem — rosnou Hades, os olhos brilhando em um âmbar perigoso. — Ninguém toca no meu filho sem passar por mim. E eu garanto que não sobrará nada para contar a história.
— Não é de força bruta que eu tenho medo — disse ela, acariciando o rosto dele. — É da burocracia sobrenatural. Eles podem tentar alegar que ele é instável, que uma mistura de sangue de fada real com um Alfa Supremo é um risco para o Tratado de Sigilo.
Hades suspirou, conduzindo-a para a poltrona perto da lareira.
— Você é uma diplomata, Malu. Sabe que o medo é a moeda de troca dos fracos. Eles têm medo porque Valerius representa o fim da segregação. Se um lobo e uma fada podem criar algo tão perfeito, por que continuaríamos a viver em castas?
A conversa foi interrompida pelo choro do bebê. Não era um choro de fome ou dor, mas um som cristalino que parecia fazer o ar ao redor do berço brilhar. Malu levantou-se rapidamente, mas Hades foi mais rápido. Ele pegou o filho com uma delicadeza que ainda surpreendia Malu.
— Ele está despertando a visão — observou Hades, notando que os olhos do pequeno Valerius mudavam de violeta para um dourado intenso enquanto ele olhava para os cantos do quarto.
— Ele vê o que nós não vemos — sussurrou Malu, aproximando-se. — Ele vê as correntes de energia.
Enquanto o casal se perdia na observação do filho, um estrondo ecoou nos portões da propriedade. O sistema de segurança, integrado com a tecnologia de Hades e os encantamentos de Malu, disparou um alerta silencioso nos painéis da parede.
— Fique aqui — ordenou Hades, sua aura de Alfa expandindo-se instantaneamente, preenchendo o quarto com uma pressão esmagadora.
— Nem pensar — retrucou Malu, suas asas se manifestando em um estalo de luz prateada. — Lucas está na guarita, mas se isso for o que eu acho que é, ele vai precisar de suporte místico.
Eles desceram as escadas enquanto os seguranças da matilha tomavam posições defensivas. No pátio frontal, sob a neve que começava a cair, três figuras encapuzadas aguardavam. Não eram Exilados, nem mercenários comuns. O cheiro que exalavam era de pergaminho antigo e ozônio.
— O Conselho das Anciãs Fadas — Malu reconheceu, sentindo o sangue de sua mãe pulsar em suas veias.
Hades parou à frente dela, as garras parcialmente estendidas.
— Vocês não foram convidadas para este território. Estão violando o pacto de soberania da Matilha Watfield.
A figura central removeu o capuz, revelando um rosto que parecia esculpido em mármore, com olhos que não tinham pupilas, apenas um branco leitoso.
— Não viemos por política de lobos, Alfa Supremo — disse a anciã, sua voz soando como o tilintar de sinos distantes. — Viemos pela Criança da Profecia. O equilíbrio das Seis Cortes foi alterado. Sentimos o batimento cardíaco dele desde o Vale de Aosta até as Ilhas Britânicas.
— O nome dele é Valerius — Malu deu um passo à frente, saindo da sombra de Hades. — E ele não é uma "profecia" ou um "equilíbrio". Ele é meu filho.
A anciã inclinou a cabeça, um sorriso enigmático surgindo em seus lábios finos.
— Ele é ambos, Maria Luiza. Você carrega a coroa invisível da sua mãe, mas ele... ele carrega o cetro de um novo mundo. Viemos avisar que a proteção de vocês não será suficiente. Os lobos do Norte e as Fadas da Sombra formaram uma aliança ímpia. Eles acreditam que o sangue do menino pode conceder a imortalidade total a qualquer um que o consuma.
Hades soltou um rugido que fez as janelas da mansão vibrarem.
— Se eles chegarem perto desta montanha, eu farei com que a história deles termine em cinzas.
— A força não será suficiente, Alfa — advertiu a anciã. — Eles virão através dos sonhos. Virão através do vínculo que você compartilha com ela. A conexão de vocês é o caminho.
Antes que Hades pudesse responder, as figuras se dissolveram em um redemoinho de folhas secas e neve, deixando apenas um pingente de cristal negro no chão.
Malu pegou o objeto, sentindo um frio gélido percorrer seu braço.
— Hades, elas estão certas — disse ela, a voz trêmula. — Eu sinto... eu sinto uma sombra tentando se infiltrar no meu vínculo com você.
Hades a puxou para um abraço apertado, tentando protegê-la com seu próprio corpo.
— Nada vai entrar aqui, Malu. Eu vou dobrar a guarda. Vou chamar os lobos de elite do Brasil, os amigos do seu irmão. Vamos transformar este lugar em um buraco negro para qualquer inimigo.
As semanas seguintes foram de tensão constante. Malu mal dormia, temendo que seus sonhos se tornassem a porta de entrada para os atacantes. Valerius, alheio ao perigo, crescia em uma velocidade desconcertante. Seus primeiros dentes eram caninos afiados, mas seu riso fazia flores brotarem nos vasos da casa, mesmo em pleno inverno.
Uma noite, enquanto Hades revisava mapas de patrulha no escritório, Malu sentiu um peso súbito no peito. Ela correu para o berçário, mas o quarto estava mergulhado em uma escuridão que a luz das lâmpadas não conseguia penetrar.
— Valerius! — ela gritou.
Uma figura feita de fumaça e olhos vermelhos pairava sobre o berço. Era um Espectro da Sombra, uma criatura enviada pelas fadas negras.
— A semente do Alfa — sibilou a criatura. — Tão pura... tão poderosa.
Malu não hesitou. Ela não chamou Hades; ela não teve tempo. Suas asas se abriram, emitindo uma luz violeta tão intensa que a criatura recuou com um guincho de dor.
— Saia de perto do meu filho! — Malu comandou, sua voz carregada com a autoridade da Rainha das Fadas.
Ela lançou uma rajada de energia prateada, mas a criatura se dissolveu e reapareceu atrás dela, tentando cravar garras de sombra em suas costas. Foi então que o inesperado aconteceu.
O bebê, no berço, abriu os olhos. Um brilho dourado e violeta explodiu dele, criando uma redoma de energia que arremessou o espectro contra a parede, desintegrando-o instantaneamente.
Hades arrombou a porta no segundo seguinte, transformado em sua forma de lobo gigante, pronto para o massacre. Ele parou ao ver a cena: Malu brilhando como uma deusa e Valerius rindo no berço, batendo as mãozinhas enquanto faíscas de magia flutuavam pelo ar.
Hades voltou à forma humana, ofegante, e correu para Malu.
— Você está ferida? O que aconteceu?
— Ele se defendeu, Hades — disse Malu, em choque, pegando o bebê no colo. — Ele o destruiu antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.
Hades olhou para o filho com uma mistura de orgulho e pavor.
— Ele tem apenas semanas de vida, Malu. Se ele já pode fazer isso... o que ele fará quando crescer?
— Ele será o que o mundo precisar que ele seja — disse ela, aninhando o bebê. — Mas precisamos de ajuda. Não podemos fazer isso sozinhos.
Naquela mesma noite, eles tomaram uma decisão. Eles não esperariam pelo ataque. Eles iriam até o Conselho das Matilhas e exigiriam o reconhecimento formal de Valerius, forçando todas as linhagens a jurarem lealdade ou enfrentarem a fúria combinada dos Watfield e da Realeza das Fadas.
A viagem para a sede do Conselho em Berna foi cercada de segurança máxima. Lucas liderava o comboio, armado até os dentes com munição de prata e ferro frio. Quando entraram no grande salão, o silêncio foi absoluto. Os líderes das matilhas europeias, homens e mulheres que viviam há séculos sob regras rígidas, olhavam para o bebê nos braços de Malu com uma mistura de cobiça e medo.
Hades caminhou até o centro do estrado, sua presença dominando o ambiente.
— Eu não vim aqui para pedir permissão — declarou ele, sua voz de Alfa Supremo ecoando pelas colunas de pedra. — Eu vim apresentar o herdeiro de Genebra, o Príncipe das Fadas e o Alfa da Próxima Geração. Qualquer um que conspirar contra ele, qualquer um que sonhar com o seu sangue, será caçado até os confins da terra.
— Você nos traz uma criança que derrubou as leis da natureza e espera que nos curvemos? — questionou um Alfa da Escandinávia, levantando-se. — Ele é um risco para todos nós.
Malu deu um passo à frente. Ela não precisava de armas. Ela apenas olhou para o homem, e suas asas se abriram, preenchendo o salão com um brilho que fez os lobos mais velhos baixarem os olhos.
— O risco não é o meu filho — disse ela, com uma calma diplomática que gelou o ar. — O risco é vocês continuarem vivendo no passado enquanto o futuro está bem diante dos seus olhos. Valerius não é o fim da nossa espécie. Ele é a evolução dela.
Nesse momento, o bebê, como se entendesse a gravidade da situação, soltou um pequeno uivo. Mas não foi um uivo de lobo comum; foi um som harmônico que ressoou com a magia das fadas, fazendo com que todos os presentes sentissem uma onda de vitalidade e paz. Era uma demonstração de poder benevolente, mas absoluto.
Os Alfas, um por um, começaram a baixar a cabeça. Não por medo da morte, mas por reconhecimento da soberania.
— A linhagem está selada — declarou o Chanceler Watfield, levantando-se de seu lugar de honra. — Que comece a Era da Aurora Violeta.
De volta à mansão, semanas depois, a vida parecia ter encontrado um novo equilíbrio. As ameaças não haviam desaparecido totalmente, mas agora eles tinham o apoio das matilhas unificadas.
Malu estava na varanda, observando o pôr do sol. Hades aproximou-se, trazendo um cálice de vinho para ela.
— Conseguimos um tempo de paz — disse ele, abraçando-a por trás.
— Paz é um conceito relativo para nós, não é? — Malu sorriu, recostando-se nele.
— Com você, Malu, até a guerra parece um passeio no parque — brincou Hades, beijando o pescoço dela, onde a marca de companheiros brilhava com uma intensidade renovada.
— Hades? — ela chamou suavemente.
— Sim, meu amor?
— Eu estava pensando... Valerius vai precisar de alguém para brincar. Alguém que entenda o que é ter asas e presas.
Hades parou, o copo de vinho a meio caminho da boca. Ele olhou para ela com uma mistura de choque e um desejo ardente.
— Você está sugerindo o que eu acho que está sugerindo?
Malu riu, virando-se para ele, seus olhos prateados brilhando com malícia e amor.
— O médico disse que a Lua da Fertilidade do próximo mês será especialmente forte para híbridos. E eu acho que a Suíça aguenta mais um pequeno terremoto mágico.
Hades soltou uma risada sonora, uma daquelas que vinham do fundo da alma, e a pegou no colo, levando-a para dentro enquanto a neve voltava a cair, cobrindo o mundo com um manto de silêncio, enquanto dentro da mansão, o fogo do destino queimava mais alto do que nunca.
Eles sabiam que o caminho seria longo. Haveria novos inimigos, novas descobertas sobre as origens de Malu e desafios que testariam cada fibra do seu ser. Mas enquanto estivessem juntos, o Alfa Supremo e sua Rainha Fada, o mundo sobrenatural teria que aprender a se curvar diante da força de uma união predestinada.
No berço, Valerius sonhava com florestas de cristal, e em seus sonhos, ele já via a irmã que viria, uma pequena loba com asas de luz, pronta para completar o legado que começara com uma jovem diplomata brasileira e um CEO suíço que pensava que tinha o controle de tudo, até descobrir que o amor era a única força que ele nunca poderia governar.
A Aurora Violeta não era apenas um nome; era a promessa de que, mesmo na noite mais escura, a luz da união sempre encontraria um caminho para brilhar. E ali, nos Alpes, o futuro estava apenas começando.