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uma esperança...?

O Elo de Néon e o Vazio de Dados

— Fiquem atrás de mim! — gritou Ralsei, agitando seu cachecol rosa enquanto uma aura esverdeada começava a brilhar ao redor do grupo. — Kris, o inimigo está aglomerando dados!

O que antes fora o picadeiro central agora era uma ferida aberta no tecido da realidade. A massa de abstração que emergia do chão não era como os "abstraídos" que Pomni conhecia; não era apenas um colega que enlouqueceu. Era uma amálgama de texturas descartadas, modelos de personagens não utilizados e o código fonte do próprio Caine, tudo retorcido em uma forma que desafiava a geometria. Dezenas de olhos digitais piscavam em ritmos diferentes, e vozes distorcidas de personagens deletados ecoavam como um coro de agonia.

— Aquilo... aquilo é o que acontece quando o administrador morre sem passar as chaves! — Kinger exclamou, seus olhos agora fixos na criatura, a lucidez lutando contra o pavor instintivo. — É o processo de "Garbage Collection" do sistema, mas ele está tentando nos coletar também!

Jax, ainda tremendo, mas impulsionado pelo puro instinto de sobrevivência, pegou uma das bolas de boliche pesadas que haviam sobrado de um minijogo anterior.

— Eu não vou ser deletado por uma pilha de lixo visual! — O coelho roxo rosnou, embora suas lágrimas ainda não tivessem secado completamente. — Ei, garoto da armadura! Se você tem um plano, é bom usar agora!

Kris não disse uma palavra. O silêncio do humano era quase tão pesado quanto o colapso do mundo ao redor. Com um movimento fluido, Kris apontou a espada para a massa amorfa e, em seguida, fez um gesto rápido com a mão, sinalizando para Susie avançar pela esquerda.

— Finalmente! — Susie deu um salto, seu machado brilhando com uma energia sombria. — Vamos ver se essa coisa sangra pixels!

Com um rugido, Susie descarregou um golpe lateral que cortou o ar com um rastro de luz púrpura. O impacto contra a abstração gerou um som de estática ensurdecedor, como mil televisores fora de sintonia. A criatura rugiu — um som que parecia um erro de processamento — e revidou com tentáculos feitos de código binário.

— Ragatha, Gangle, ajudem o Kinger! — Pomni gritou, tentando manter a voz firme apesar do coração martelando contra o peito. — Ele é o único que sabe como esse lugar funciona!

Ragatha, mesmo com o corpo piscando e perdendo a opacidade, correu para o lado de Kinger.

— Kinger, foque! — disse a boneca de pano, segurando os ombros da peça de xadrez. — Você falou sobre um terminal raiz. Onde ele está? Se o Caine o escondia, ele deve estar em algum lugar que ninguém olharia!

Kinger levou as mãos à cabeça, balançando-a freneticamente enquanto tentava processar as camadas de memória que a morte de Caine havia liberado.

— O Caine... ele sempre dizia que o show não podia parar... — Kinger murmurava, os olhos girando. — O show... a cortina! Não a cortina do palco, mas a cortina do céu! Pomni, olhe para cima!

Pomni inclinou a cabeça. No céu cinzento e quebrado, onde a estática era mais densa, havia um pequeno ponto preto que não piscava. Não era um erro; era um objeto sólido, uma pequena caixa flutuando no vazio absoluto.

— É o console de comando! — Kinger gritou, apontando. — Mas está fora de alcance. Precisamos de uma ponte, ou de algo que possa projetar um sinal até lá!

Enquanto isso, a batalha escalava. Kris movia-se com uma precisão matemática, desviando de projéteis que pareciam cubos de erro. Ralsei lançava feitiços de cura em Zooble, que havia sido atingida por um estilhaço de textura.

— Caramba, isso faz cócegas! — Zooble resmungou, olhando para o brilho verde que restaurava seu braço de garra. — Ei, pelúcia, você é bem útil para algo que parece um travesseiro de brinde.

— Fico feliz em ajudar! — Ralsei respondeu com um sorriso doce, antes de desviar de um tentáculo. — Mas Kris, a alma dela... as almas deles são diferentes! Elas estão presas a este mundo por fios de luz artificial! Se o mundo cair, as almas caem com ele!

Susie foi lançada para trás por uma explosão de dados, mas fincou o machado no chão para se segurar.

— Kris! — ela gritou. — Não dá para vencer essa coisa na porrada! Ela se reconstrói mais rápido do que eu consigo quebrar!

Kris olhou para o grupo do circo e depois para a caixa preta no céu. O humano fechou os olhos por um breve segundo e, quando os abriu, uma alma vermelha e brilhante surgiu à frente de seu peito, pulsando com uma determinação que iluminou todo o cenário cinzento.

— O que é aquilo? — Gangle perguntou, ajustando sua máscara de tragédia que agora estava rachada. — É tão... quente. Parece... vida.

Kris apontou para a alma e depois para Kinger, fazendo um gesto de "conexão".

— Ele quer usar a determinação dele para alimentar o sistema! — Kinger deduziu, boquiaberto. — Uma fonte de energia externa pura! Se eu conseguir canalizar o brilho dessa alma através do código que restou, posso forçar o terminal a descer!

— E como a gente faz isso?! — Jax perguntou, chutando um pequeno "erro" que tentava morder seu calcanhar. — Não temos cabos, não temos nada!

— Temos a Gangle! — Kinger disse, virando-se para a garota de fitas. — Gangle, suas fitas são feitas de polímeros digitais flexíveis. Elas podem conduzir dados se forem tensionadas corretamente!

Gangle recuou, assustada.

— Eu? Mas eu sou tão fraca... eu sempre quebro...

— Gangle, escute — Ragatha aproximou-se, ajoelhando-se para ficar na altura da amiga. — Você é a única que pode nos ligar ao Kris. Nós vamos te segurar. Não vamos deixar você quebrar.

Pomni segurou a mão de Gangle.

— Por favor, Gangle. Faça isso por nós. Faça isso para que a gente tenha uma chance de ver o que tem lá fora.

Gangle olhou para as mãos de Pomni, depois para a figura heroica de Kris e a alma vermelha que desafiava o vazio. Ela trocou sua máscara de tragédia por uma de comédia, embora a máscara estivesse trêmula.

— Tudo bem... eu... eu vou tentar!

Kris posicionou-se no centro do grupo. Gangle estendeu suas fitas longas, envolvendo uma extremidade no pulso de Kris e a outra nas mãos de Kinger, que já estava conjurando janelas de comando fantasmagóricas no ar.

— Susie, Ralsei! Protejam eles! — Susie gritou, colocando-se à frente do círculo.

A abstração imensa, percebendo a ameaça ao sistema, rugiu com todas as suas bocas e avançou com tudo. Era uma onda de caos absoluto. Susie bloqueava os ataques físicos com seu machado, enquanto Ralsei criava escudos de luz para desviar os glitches.

— Agora, Kris! — Kinger comandou.

A alma vermelha brilhou com uma intensidade cegante. Uma corrente de energia escarlate percorreu as fitas de Gangle. A garota gritou, não de dor, mas pela sensação avassaladora de sentir algo "real" fluindo por seu corpo digital. A energia passou por Kinger, cujas mãos começaram a digitar em uma velocidade sobre-humana em teclados de luz.

— Acessando diretório raiz... — Kinger falava em transe. — Ignorando protocolos de segurança do Caine... Substituindo 'Fim do Mundo' por 'Ponto de Restauração'... Vamos... FUNCIONA, SUA SUCATA!

No céu, a caixa preta começou a descer, envolta em chamas de erro. Ela aterrissou no centro do picadeiro com um estrondo metálico.

— Jax, Zooble, Ragatha! — Kinger gritou. — Precisamos manter o círculo! A energia precisa circular ou o terminal vai explodir!

Todos se deram as mãos, formando uma corrente humana (e de brinquedos) ao redor de Kris e do terminal. Pomni sentiu a energia do humano passar por ela — era uma sensação de infância, de sol no rosto, de ar puro; coisas que ela mal lembrava, mas que a alma de Kris carregava em abundância.

A abstração colidiu contra a barreira de energia, mas desta vez, em vez de destruir, ela começou a ser absorvida. Os dados corrompidos estavam sendo reordenados pela presença da alma de Kris.

— Está funcionando! — Ragatha exclamou, rindo entre as lágrimas. — O mundo... vejam o mundo!

As cores começaram a retornar, mas não o azul berrante de Caine. Eram cores mais suaves, mais naturais. O céu de estática começou a clarear para um crepúsculo profundo e estrelado.

No entanto, o terminal começou a emitir um aviso sonoro agudo.

— Erro! — Kinger leu, o suor (ou o equivalente digital disso) escorrendo por seu rosto. — O sistema não pode reiniciar sem um administrador! Ele está procurando por uma assinatura biológica compatível para assumir o controle e estabilizar a realidade!

— O quê?! — Jax gritou. — Quem vai ser o novo Caine?! Eu me recuso a usar aquele chapéu idiota!

— Não é um mestre de cerimônias que ele quer — Kinger olhou para Pomni. — Ele quer alguém que tenha a maior taxa de compatibilidade emocional. Alguém que se importe com todos aqui.

Todos os olhares se voltaram para Pomni. A pequena boba da corte deu um passo atrás, soltando a mão de Kris.

— Eu? Não... eu não posso... eu só quero ir embora! Eu não quero mandar em ninguém!

— Pomni — Ralsei disse suavemente, aproximando-se dela enquanto a batalha diminuía, com a abstração agora reduzida a uma massa inerte. — Às vezes, para salvar as pessoas, temos que aceitar um fardo que não pedimos. Kris e eu... nós sabemos como é isso.

Kris assentiu levemente, o olhar encorajador por trás da franja.

— Se você não assumir, o sistema vai colapsar de vez e levar o Kris e os amigos dele junto — Kinger explicou com tristeza. — Você não seria uma ditadora como o Caine. Você seria o coração desse lugar. Você poderia mudar as regras. Poderia abrir as portas que ele mantinha fechadas.

Pomni olhou para seus amigos. Ragatha, que sempre a confortou. Gangle, que sofria em silêncio. Zooble, que fingia não se importar. E Jax... que agora a olhava com uma vulnerabilidade que ele nunca permitira que ninguém visse.

— Você não vai estar sozinha, boba — Jax disse, a voz baixa. — A gente ajuda. Até eu.

Pomni respirou fundo. Ela olhou para a mão de Kris uma última vez e depois tocou a tela do terminal.

— Identidade confirmada: Pomni — uma voz sintética ecoou pelo vazio. — Novo Administrador detectado. Iniciando Protocolo: 'Novo Amanhecer'.

Uma explosão de luz branca consumiu tudo.

Quando a visão de todos clareou, eles não estavam mais no circo de Caine. Estavam em uma versão muito mais pacífica do lugar. O castelo de tendas agora parecia uma vila acolhedora sob um céu eterno de fim de tarde. Não havia mais o barulho irritante das fanfarras, apenas o som de um vento suave.

A porta misteriosa ainda estava lá, aberta.

Kris, Susie e Ralsei estavam parados diante dela.

— Parece que o trabalho de vocês está apenas começando — Susie disse, guardando o machado e dando um tapinha (meio forte demais) no ombro de Jax. — Mas ei, vocês mandaram bem. Para um bando de bonecos de pano e peças de xadrez.

— Obrigado por nos ajudarem — Ragatha disse, aproximando-se dos heróis. — Nunca esqueceremos o que vocês fizeram.

Ralsei sorriu e fez uma reverência.

— Sempre que houver escuridão precisando de luz, ou mundos precisando de um coração, nós estaremos por perto. Adeus, amigos!

Kris olhou para Pomni. Ele não sorriu, mas estendeu a mão e entregou a ela um pequeno objeto: um pingente em forma de estrela que brilhava com a mesma luz de sua alma. Um pedaço de determinação para ela guardar.

— Obrigada, Kris — Pomni sussurrou.

Os três atravessaram a porta, que se fechou silenciosamente e desapareceu no ar, deixando o grupo do circo sozinho em seu novo lar.

O silêncio agora não era pesado ou aterrorizante. Era... calmo.

— E agora? — Zooble perguntou, sentando-se na grama digital que agora parecia macia.

Pomni olhou para o pingente em sua mão e depois para o horizonte. Ela sentia o controle do sistema em sua mente, mas não parecia uma prisão. Parecia uma ferramenta.

— Agora — Pomni disse, um sorriso real e calmo surgindo em seu rosto pela primeira vez —, nós vamos descobrir o que realmente existe além daquelas montanhas. E desta vez, ninguém vai nos impedir de tentar encontrar o caminho de casa.

Jax sentou-se ao lado dela, olhando para as estrelas.

— Sabe... — ele começou, tentando recuperar seu tom sarcástico, mas falhando miseravelmente — ...esse céu até que não é tão feio.

Kinger, Ragatha e Gangle se juntaram a eles, observando o início de uma nova era. O Circo Digital não era mais um espetáculo de horrores; era, finalmente, um refúgio. E em algum lugar, entre as dimensões, a alma vermelha de um humano continuava a brilhar, conectando mundos que o código jamais poderia separar.