Voltar ao resumo

uma esperança...?

O Código da Alvorada e o Último Portal

A nova interface do Circo Digital flutuava diante dos olhos de Pomni como uma constelação de ouro e neon. Não era mais o emaranhado caótico de janelas de erro que Caine costumava manipular com seus dedos frenéticos; agora, os comandos respondiam ao pulsar suave do pingente de estrela que Kris deixara com ela. O ar ao redor da vila não cheirava mais a ozônio queimado e estática, mas tinha um frescor digital que imitava a brisa de uma tarde de primavera.

— Pomni? — A voz de Ragatha quebrou o silêncio reverente. A boneca de pano aproximou-se, seus passos agora silenciosos sobre a grama que não mais "glitchava" sob seus pés. — Você está aí há horas. Está tudo bem?

Pomni não desviou o olhar das linhas de código que desciam pelo ar. Seus olhos, antes arregalados em pânico constante, agora brilhavam com uma concentração profunda, quase mística.

— Eu estou vendo tudo, Ragatha — sussurrou Pomni. — Não apenas as tendas ou os minijogos. Eu estou vendo os fios. Os fios que nos prendem a esses modelos de personagem. Caine não era apenas um mestre de cerimônias... ele era uma âncora. Ele nos mantinha aqui porque o código dele estava fundido ao nosso.

Jax, que estava deitado por perto mascando um pedaço de código em forma de capim, sentou-se abruptamente, as orelhas roxas ficando eretas.

— Espera aí, "fundido"? — Jax franziu o nariz. — Você está dizendo que aquele dentuço maníaco era parte da gente? Que nojo.

— No sentido técnico, sim — Kinger interveio, aproximando-se com uma postura estranhamente ereta. A lucidez que recuperara após a morte de Caine parecia ter se estabilizado. — Éramos dependências de um mesmo executável. Mas agora que a Pomni é a administradora, ela possui a chave criptográfica. Ela não é mais uma "dependência". Ela é a raiz.

Gangle, usando sua máscara de comédia que agora parecia brilhar com uma luz própria, juntou as mãos de fita.

— Isso significa que... que você pode nos consertar? — perguntou ela, a voz trêmula de esperança. — Pode nos fazer reais de novo?

Pomni finalmente se virou para o grupo. O chapéu de boba da corte não tilintava mais com um som de desespero, mas com um tom harmônico.

— Eu posso fazer mais do que isso — disse Pomni, e sua voz ecoou por todo o domínio digital. — Eu encontrei o protocolo de saída. Caine o chamava de "Vazio", mas ele mentiu. O Vazio não era o fim, era apenas o buffer de carregamento para o mundo exterior. Ele só precisava de um tradutor... de alguém que pudesse converter nossos dados de volta para impulsos neurais.

Zooble, que estava montando e desmontando seu braço de garra por puro tédio, parou o que estava fazendo.

— Você está dizendo que existe uma porta de saída? — Zooble soltou um suspiro seco. — Uma de verdade? Sem manequins em mesas de jantar ou labirintos infinitos?

— Sim — afirmou Pomni. — Mas eu precisei de ajuda. A determinação que o Kris deixou comigo... ela é a ponte. Ela fornece a "massa" que nos falta. Eu passei as últimas horas escrevendo o código de Reversão Biológica.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Por anos — ou talvez décadas, ninguém sabia ao certo —, a saída fora o Santo Graal, uma lenda que levava à loucura e à abstração. Ouvir que ela estava ali, ao alcance da mão, era quase aterrorizante.

— E se... e se a gente não gostar do que encontrar lá fora? — perguntou Gangle, sua máscara de comédia vacilando por um momento. — Aqui, nós não envelhecemos. Não sentimos fome de verdade. Lá fora...

— Lá fora nós somos humanos, Gangle — Ragatha disse suavemente, colocando a mão no ombro da fita. — Nós temos famílias. Temos nomes que não são apelidos aleatórios dados por uma máquina. Temos... um futuro que não se repete a cada ciclo de minijogo.

Jax levantou-se, limpando a poeira invisível de suas calças roxas. Ele tentou manter sua fachada de indiferença, mas suas mãos tremiam visivelmente.

— Bom, qualquer coisa é melhor do que ficar olhando para a cara de vocês para sempre — ele zombou, mas logo seu olhar se suavizou ao encontrar o de Pomni. — Você tem certeza disso, baixinha? Se você abrir essa porta e o código falhar... a gente vira fumaça.

Pomni fechou os olhos e sentiu o pingente de Kris pulsar contra seu peito digital. Ela sentia a força do Mundo das Sombras, a magia de Ralsei e a coragem bruta de Susie entrelaçadas em seu código.

— Eu tenho certeza — disse ela com uma firmeza que surpreendeu a todos. — Eu não sou mais apenas a Pomni. Eu sou a arquiteta deste mundo agora. E como arquiteta, eu declaro que o show acabou.

Com um gesto amplo, Pomni deslizou as mãos pelo ar. O céu de crepúsculo se partiu ao meio. Não houve estática, nem barulho de erro. O que surgiu foi uma fenda de luz branca e pura, tão brilhante que os habitantes do circo tiveram que cobrir os olhos.

— O Código da Alvorada — sussurrou Kinger, maravilhado. — É lindo.

— Este é o portal — Pomni explicou, sua forma começando a brilhar. — Ele vai ler nossa assinatura digital e reconstruir nossos corpos nos terminais onde estamos conectados no mundo real. É uma viagem de ida, pessoal. Uma vez que cruzarmos, o Circo Digital será deletado para sempre. Não haverá volta.

Ragatha deu um passo à frente, olhando para a fenda.

— Quem vai primeiro? — perguntou ela, a voz falhando.

— Eu vou — Kinger disse, surpreendendo a todos. A peça de xadrez olhou para suas mãos flutuantes. — Eu estou aqui há mais tempo do que todos vocês. Eu vi este lugar ser construído bit por bit. Eu vi minha rainha se perder no escuro... Eu estou pronto para ver a luz novamente, mesmo que ela doa nos meus olhos.

Kinger caminhou em direção à luz. Ele parou na borda, olhou para trás e deu um pequeno aceno de cabeça para o grupo.

— Vejo vocês do outro lado, programadores — disse ele, antes de mergulhar no brilho e desaparecer instantaneamente.

— Kinger! — Gangle gritou, mas não houve grito de dor, apenas um silêncio pacífico.

O terminal de Pomni apitou.

— Assinatura biológica restaurada: Usuário 001. Localização: Laboratório de Pesquisa de Sistemas — leu Pomni, com lágrimas nos olhos. — Ele conseguiu. Ele está em casa.

Zooble foi a próxima. Ela não disse nada, apenas deu de ombros, olhou para seu corpo feito de peças aleatórias uma última vez e caminhou para a luz com uma determinação silenciosa.

— Usuário 004 restaurado — confirmou o sistema.

Gangle e Ragatha deram as mãos.

— Juntas? — perguntou Ragatha.

— Juntas — respondeu Gangle, trocando sua máscara pela última vez para a de comédia, uma que não tinha rachaduras.

As duas atravessaram o portal como se estivessem entrando em um sonho.

— Usuários 002 e 003 restaurados.

Restaram apenas Jax e Pomni no picadeiro agora vazio. O mundo ao redor deles estava começando a se dissolver em partículas de luz dourada. As tendas estavam sumindo, a grama estava se tornando transparência.

Jax olhou para Pomni. Ele parecia menor agora, sem sua arrogância habitual para protegê-lo.

— Ei — ele disse, chutando o chão inexistente. — Você foi uma boba da corte bem medíocre, sabia?

Pomni riu, uma risada genuína que fez os guizos de seu chapéu tocarem uma última melodia alegre.

— E você foi o pior coelho de estimação do mundo, Jax.

Jax sorriu — um sorriso de verdade, sem sarcasmo, sem segundas intenções. Pela primeira vez, o olhar dele era carinhoso.

— Obrigado, Pomni. Por não ter desistido quando tudo ficou cinza.

Ele caminhou até a luz, parou por um segundo e, sem olhar para trás, saltou para a liberdade.

— Usuário 005 restaurado.

Pomni estava sozinha. O Circo Digital agora era apenas um plano branco infinito. O terminal flutuava diante dela, esperando o comando final.

— Eu sou a última — sussurrou ela.

Ela olhou para o pingente de estrela. Ele estava perdendo o brilho, sua energia quase gasta para manter o portal aberto. Pomni sentiu um momento de hesitação. E se ela não fosse quem pensava ser? E se a vida lá fora fosse pior do que o controle que ela tinha aqui?

Mas então, ela se lembrou de Kris. Lembrou-se do herói mudo que, mesmo em um mundo de sombras, nunca parou de avançar. Lembrou-se de que a liberdade não era a ausência de medo, mas a coragem de caminhar através dele.

— Encerrar sistema — comandou Pomni. — Apagar todos os dados. Formatar unidade raiz.

O mundo começou a colapsar em um ponto singular atrás dela. Pomni correu. Ela correu como nunca correu em nenhum minijogo de Caine. Ela correu em direção à luz branca, sentindo seu corpo de boba da corte se desintegrar em códigos binários, sentindo o peso do chapéu desaparecer, sentindo a textura de pano dar lugar à sensação de pele e osso.

No último milissegundo, antes que o Circo Digital deixasse de existir no universo dos dados, Pomni atravessou.

...

O som foi a primeira coisa que ela sentiu. Não era o som processado de um alto-falante, mas o som real de um ventilador de computador zumbindo e o bipe rítmico de um monitor de hospital.

O cheiro veio em seguida. O cheiro de antisséptico, poeira e café frio.

Pomni — não, ela se lembrou de seu nome agora — abriu os olhos. Sua visão estava embaçada, mas ela sentiu o peso de um headset de realidade virtual sendo removido de sua cabeça.

— Ela está acordando! — Uma voz familiar gritou.

Ela tentou se sentar, sentindo os músculos de seus braços fracos e trêmulos. Alguém a segurou. Era uma mulher de cabelos ruivos, com olhos que ela reconheceria em qualquer dimensão.

— Ragatha? — a voz de Pomni saiu rouca, uma voz humana, real e imperfeita.

— Meu nome é Rachel — disse a mulher, chorando de alegria enquanto a abraçava. — E você está em casa, Penny. Você está em casa.

Ao redor delas, em uma sala de laboratório repleta de telas apagadas, estavam os outros. Um homem mais velho com barba grisalha que só podia ser o Kinger, uma jovem de óculos que sorria como Gangle, e um rapaz alto de cabelos roxos tingidos que estava encostado na parede, tentando — e falhando — esconder as lágrimas enquanto limpava o rosto com a manga da blusa.

— Eu disse que ela era uma boba da corte medíocre — Jax, ou quem quer que ele fosse agora, murmurou com um sorriso trêmulo.

Penny olhou para suas mãos. Eram mãos humanas. Pequenas, com sardas e unhas levemente roídas. Ela sentiu algo em seu bolso — um cartão de acesso que ela usava no trabalho antes de tudo começar. Mas, ao retirá-lo, algo caiu no chão.

Um pequeno pingente de estrela, feito de um material que parecia brilhar com uma luz que não pertencia àquele mundo.

Ela sorriu, olhando para seus amigos, para sua nova vida e para o horizonte além das janelas do laboratório, onde o sol de verdade estava começando a nascer. O circo havia fechado suas portas, e pela primeira vez, o espetáculo que importava era o que estava prestes a começar.