Uma fada que ficou obcecado por uma humana
Uma Canção para Silenciar o Trovão
A floresta, o teu santuário, recebera-te com uma hostilidade que te gelou a alma. O ar, normalmente perfumado a terra húmida e a vida em decomposição, estava agora carregado de uma eletricidade estática, uma tensão que te arrepiava os pelos dos braços. As sombras não dançavam; espreitavam. O farfalhar das folhas não era um sussurro; era um aviso sibilante. Esta não era a tua floresta. Esta noite, ela pertencia inteiramente à fúria de Skitter.
— Skitter! — A tua voz saiu como um rasgo no silêncio opressivo, mais fraca do que pretendias. A dor na tua bochecha explodiu com o esforço, um sol branco e ofuscante por detrás do teu olho. — Por favor, espera!
A única resposta foi o som de um mocho, demasiado perto, demasiado estridente, a soar mais como um escárnio do que um chamado natural.
Corrias às cegas, guiada mais pela memória e pela urgência do que pela visão. A luz da lua, filtrada pelo denso dossel de folhas, criava um labirinto enganador de luz e escuridão, transformando raízes em serpentes e ramos em garras esqueléticas. O casaco do teu pai, pesado e quente, era a tua única âncora de sanidade, o seu cheiro a fumo e a amor um escudo frágil contra o medo crescente.
A dor era o teu mapa. Cada passo que davas, cada vez que o teu pé se prendia numa raiz ou o teu ombro batia contra um tronco, a dor no teu rosto pulsava, um farol a guiar-te na direção da sua fonte. Ele não estava longe. Sentias a sua presença como uma perturbação no tecido da noite, um ponto de frio intenso a mover-se rapidamente através da escuridão.
— Skitter, por favor, fala comigo! — gritaste de novo, a tua voz a quebrar-se. Paraste por um momento, a ofegar, a mão a pressionar a bochecha a latejar. — Eu sei que estás zangado! Eu também estou! Mas isto… isto não vai consertar nada!
Silêncio. Um silêncio tão profundo que podias ouvir o teu próprio sangue a pulsar nos teus ouvidos. E depois, um som. Um estalido seco, vindo da escuridão à tua frente.
— Skitter?
Com o coração a martelar contra as tuas costelas, recomeçaste a correr. A sua raiva não era um fogo quente e caótico. Era gelo. Fria, calculista, e ele estava a usar o seu conhecimento da floresta, o *vosso* santuário, contra ti. Uma videira baixa, que nunca notaras antes, esticou-se de repente no teu caminho, prendendo-se no teu tornozelo e fazendo-te cair de joelhos na terra húmida. O impacto enviou uma onda de agonia pelo teu corpo, mas levantaste-te de imediato, ignorando as mãos enlameadas e o rasgão no teu vestido.
— Não me vais parar! — sussurraste para a escuridão, uma promessa feroz. — Não te vou deixar fazer isto!
Ele estava a testar-te. A ver até onde irias. A ver se a tua determinação era tão forte como a sua fúria. Cada obstáculo era uma pergunta: "Vais desistir? Vais voltar para a segurança da tua casa e deixar-me tratar disto?"
A tua resposta era o som dos teus pés a continuarem a correr.
O terreno começou a descer, e soubeste para onde ele te estava a levar. Para a antiga estrada de carroças, o caminho mais rápido para fora do vale, o caminho que os cavaleiros teriam tomado. O pânico deu-te uma nova força. Corrias desajeitadamente pela encosta, a escorregar em folhas molhadas, a agarrar-te a troncos de árvores para não caíres, o som do teu próprio fôlego ofegante a encher os teus ouvidos.
Chegaste à borda de um pequeno afloramento rochoso que dava para a estrada. E lá em baixo, numa curva do caminho, viste-a. A luz bruxuleante de uma fogueira.
Os cavaleiros.
Estavam acampados, tal como previras. Três deles dormiam profundamente, enrolados nas suas mantas perto do fogo, os seus roncos a soarem como o rosnar de animais adormecidos. Os seus enormes cavalos de guerra estavam amarrados a uma linha de estacas, a mastigar feno de forma inquieta, os seus olhos a refletirem a luz do fogo. O quarto homem, o que te batera, estava de guarda. Estava sentado num tronco, a afiar uma faca com movimentos lentos e metódicos, um cântaro de vinho ao seu lado.
E empoleirado num ramo alto de um carvalho antigo, do outro lado da estrada, uma silhueta pequena e angulosa contra a lua, estava Skitter.
Ele estava perfeitamente imóvel, um gárgula de vingança. A luz do fogo apanhava o brilho dos seus olhos, dois pontos de ouro frio e implacável. Nas suas mãos, segurava algo longo e escuro. Uma longa e grossa videira de espinheiro, que ele entrelaçara cuidadosamente. Não era uma arma para matar um homem. Era uma arma para aleijar um cavalo.
O seu plano atingiu-te com a força de um golpe físico. Ele não ia atacar os homens diretamente. Isso seria demasiado simples, demasiado humano. Ele ia atacar o seu poder, a sua mobilidade, o seu orgulho. Iria aterrorizar os cavalos, fazê-los entrar em pânico, talvez quebrar uma perna na confusão. Iria deixá-los apeados, vulneráveis e furiosos no coração do seu território. Era um plano de Pixie. Brilhante, cruel e terrivelmente eficaz.
Tinham de ser aqueles cavalos. Os mesmos que tinham entrado na tua aldeia com tanta arrogância. Para Skitter, eles não eram diferentes dos homens que os montavam. Eram parte da mesma máquina de ferro e crueldade.
— Não… — sussurraste, o som perdido no vento.
Precisavas de chegar até ele. Precisavas de atravessar a estrada sem seres vista pelo guarda.
Começaste a descer a encosta rochosa, movendo-te com um cuidado infinito, testando cada apoio para os pés antes de transferires o teu peso. Cada pedra solta, cada galho partido, era um desastre em potencial. A dor no teu rosto era uma distração constante, mas focaste-te na tarefa, a tua respiração presa no peito.
Chegaste à base do afloramento, escondida nas sombras. A estrada estava a poucos metros de distância, uma faixa de terra batida iluminada pela luz da fogueira. O guarda bocejou, bebeu um longo gole do cântaro e voltou a sua atenção para a sua faca.
Era a tua oportunidade.
Correste. Uma corrida curta e desesperada através da luz, o teu corpo agachado, as tuas botas macias a não fazerem quase nenhum som no pó. Por um segundo, estiveste totalmente exposta, uma figura fugaz a atravessar o palco iluminado. O guarda não levantou a cabeça.
Mergulhaste nas sombras do outro lado, o teu coração a bater tão forte que tinhas a certeza de que o podiam ouvir. Estavas agora na base do carvalho onde Skitter estava empoleirado.
Levantaste a cabeça.
— Skitter — chamaste, a tua voz um sussurro rouco.
Ele não se moveu, mas sabias que te ouvira. O seu foco permaneceu fixo no cavalo mais próximo do guarda, um enorme garanhão negro cujo pelo brilhava à luz do fogo.
— Skitter, por favor, olha para mim.
Lentamente, como se fosse um grande esforço, a sua cabeça virou-se. Os seus olhos dourados encontraram os teus, e o frio neles fez-te estremecer. Não havia reconhecimento, nem amizade. Apenas uma intenção gelada.
— Eu sei o que estás a fazer — sussurraste, subindo um pouco mais para que ele te pudesse ouvir claramente. — E sei porquê. Estás a fazer isto por mim. Para me vingar.
Ele inclinou a cabeça, um movimento subtil de confirmação. A sua lógica era pura. Eles magoaram-te. Ele ia magoá-los. Era o equilíbrio do seu mundo. Um dente por um dente.
— Mas esta não sou eu. — A tua voz ganhou força, alimentada pela tua convicção. — Esta dor… esta vingança… não é o que eu quero. Não é o que *nós* somos.
Tiraste a pedra cinzenta da tua bolsa. A luz do fogo fez com que parecesse mais escura, mas era inconfundível. Estendeste-a na tua palma aberta.
— Lembras-te? O nosso primeiro novo tesouro. Um novo começo. Não era sobre vingança. Era sobre reconstruir. Sobre perdoar.
Ele olhou para a pedra, e por um instante, viste uma cintilação de algo mais nos seus olhos. Uma memória. Mas depois, o seu olhar endureceu de novo, e ele olhou para o teu rosto, para a mancha escura e inchada que desfigurava a tua bochecha. O seu olhar dizia claramente: *Eles fizeram-te isto. O perdão não consertou isso.*
A sua mão apertou a videira de espinheiro. Ele estava prestes a agir.
O pânico apoderou-se de ti. As palavras não estavam a funcionar. A lógica não estava a funcionar.
— Não! Espera! — A tua voz era um grito sussurrado. Desesperada, tiraste a outra coisa da tua bolsa. O pássaro de madeira de Liam. — Olha! Olha para isto!
Seguraste-o para que ele o visse.
— Um humano fez isto. Ele fez isto para mim. Porque se sentiu mal. Porque queria fazer-me sentir melhor. Eles não são todos como *aquele*! — Acenaste com a cabeça na direção do guarda. — Há bondade neles também, Skitter! Há bondade em todo o lado, se a procurarmos!
Ele olhou para o pássaro de madeira, a sua expressão ilegível. Ele via o objeto, a sua forma, a sua textura. Mas não via o significado. Para ele, era apenas mais um objeto de madeira, menos interessante do que um galho com um fungo peculiar. A bondade humana era um conceito tão abstrato para ele como a cor do vento.
Ele estava a perder a paciência. Ele virou-se de ti, o seu corpo a preparar-se para saltar. Ias perdê-lo. Ias perder tudo.
E então, fizeste a única coisa que te restava. A tua última arma. O vosso ritual mais sagrado.
Abriste a boca e cantaste.
Não foi um grito de guerra. Não foi um lamento. Foi a canção de embalar. A melodia que usaras para acalmar póneis assustados, para adormecer bebés chorosos, para o confortar quando ele estava agitado. A canção que se tornara o hino da vossa amizade.
A melodia fluiu de ti, um fio de prata na escuridão espessa, frágil mas surpreendentemente forte. Cantaste baixo, apenas para ele, a tua voz a tremer com a dor e a emoção, mas a melodia era pura. Cada nota era uma memória: da primeira vez que partilharam amoras, do dia em que construíram a torre de pedras, da tarde em que salvaram o texugo juntos. Cada nota era um pedido: *Lembra-te. Lembra-te de nós.*
O guarda não ouviu. O som era demasiado baixo, demasiado entrelaçado com os sons da noite. Mas Skitter ouviu.
Ele congelou. O seu corpo, que estava tenso e pronto para saltar, ficou rígido como pedra. A canção atingiu-o como uma onda física, a entrar pelos seus ouvidos pontiagudos e a inundar o seu cérebro feérico.
A sua fúria lutou contra ela. Viste-o a lutar. A sua mão apertou a videira com tanta força que os espinhos devem ter-lhe perfurado a pele. A sua cabeça abanou para a frente e para trás, como se tentasse livrar-se de um enxame de abelhas. Um silvo baixo e gutural escapou-se dos seus lábios, um som de agonia.
Continuaste a cantar. Colocaste toda a tua dor, todo o teu amor, toda a tua esperança em cada nota. A tua bochecha ardia, as lágrimas escorriam livremente pelo teu rosto, mas não paraste. A tua canção era a tua âncora, a vossa âncora.
Ele olhou para ti, os seus olhos dourados agora um turbilhão de emoções contraditórias. Fúria. Dor. Confusão. E por baixo de tudo, um amor possessivo e desesperado. A tua canção estava a lembrá-lo não apenas dos bons momentos, mas da dor que sentira quando pensou que te tinha perdido. A dor do silêncio.
Ele não queria voltar a esse silêncio.
Com um som que foi meio soluço, meio rosnado, a sua mão abriu-se. A videira de espinheiro, a sua arma de vingança, caiu do ramo, aterrando no chão com um farfalhar suave e inócuo.
A tensão no seu corpo quebrou-se. Ele encolheu-se, parecendo subitamente muito pequeno, muito jovem e terrivelmente perdido. Ele olhou para as suas mãos vazias, como se não soubesse como tinham chegado ali.
A tua canção terminou numa nota trémula. O silêncio que se seguiu não era opressivo. Era vazio, à espera de ser preenchido.
Ele deslizou pelo tronco da árvore, em vez de saltar, e aterrou no chão à tua frente com um baque suave. Não olhou para ti. Apenas ficou ali, a cabeça baixa, os ombros caídos. A fúria desaparecera, deixando para trás um vazio de exaustão e vergonha.
A adrenalina que te mantivera de pé abandonou-te. As tuas pernas cederam, e deslizaste para o chão, as costas apoiadas contra a casca áspera do carvalho. Estavas exausta. Tudo doía.
— Skitter… — sussurraste.
Ele levantou a cabeça. À luz da fogueira, viste que a sua pele, normalmente de um verde-oliva saudável, estava pálida e manchada. Havia pequenos cortes nas suas mãos onde os espinhos o tinham perfurado. A sua fúria custara-lhe caro.
Ele deu um passo na tua direção, depois outro, com uma hesitação que era dolorosa de ver. Ajoelhou-se à tua frente, no pó da estrada.
Estendeste a tua mão, não a que segurava os objetos, mas a outra. Ele olhou para a tua mão estendida, e depois para o teu rosto. Os seus olhos fixaram-se na tua bochecha ferida. Um pequeno som de angústia escapou-lhe do peito. Ele estendeu uma mão trémula, os seus dedos a pairarem a centímetros da tua pele, com medo de tocar, com medo de causar mais dor.
— Não foste tu — sussurraste, a adivinhar os seus pensamentos. — Tu não me magoaste.
Gentilmente, pegaste na sua mão e guiaste-a até ao teu rosto. Os seus dedos eram frios e ásperos contra a tua pele a arder. Ele estremeceu ao sentir o inchaço e o calor sob a sua palma. Mas não retirou a mão.
— A vingança não teria curado isto — continuaste, a tua voz pouco mais que um sopro. — Teria criado uma ferida muito pior. Uma ferida na tua alma. E na nossa amizade. E eu não podia deixar que isso acontecesse.
Ele fechou os olhos. Uma única lágrima, espessa e dourada como resina, escorreu do canto do seu olho e caiu sobre o teu pulso.
Na fogueira, o guarda levantou-se, espreguiçou-se e caminhou para a escuridão para se aliviar. Nenhum de vós se moveu. O mundo deles, com as suas necessidades corporais e a sua violência casual, parecia estar a um milhão de milhas de distância.
Ali, nas sombras da estrada, duas criaturas de mundos diferentes, uma humana ferida e um Pixie de coração partido, encontraram um terreno comum na dor partilhada. Ele queria proteger-te da dor, e no processo, quase destruiu tudo o que era importante para ti. Tu, para o protegeres da sua própria escuridão, tiveste de enfrentar a tua maior dor.
Ele abriu os olhos e olhou para ti. A fúria desaparecera, substituída por algo que nunca tinhas visto nele antes: remorso. Ele não compreendia a moralidade humana do que fizera, mas compreendia que te causara dor. A sua tentativa de te vingar levara-te a correr pela floresta escura, a chorar, a cantar uma canção de desespero. E essa constatação era o seu castigo.
Inclinaste-te para a frente, ignorando a pontada no teu rosto, e encostaste a tua testa na dele. Pele quente contra pele fria. O casaco do teu pai caiu dos teus ombros, formando um pequeno ninho à vossa volta.
— Vamos para casa — sussurraste.
Ele não se moveu. Apenas ficou ali, a absorver o teu calor, a tua presença, o teu perdão.
O trovão da sua fúria fora silenciado. Mas a tempestade ainda não passara. Os cavaleiros acordariam de manhã. A tua aldeia ainda vivia com medo. E o mundo continuava a ser um lugar onde os homens de ferro podiam magoar impunemente.
Nada fora resolvido.
Mas enquanto estavas sentada na escuridão, com a cabeça do teu estranho e terrível amigo encostada na tua, com a sua lágrima dourada a secar na tua pele, sabias uma coisa. Fosse qual fosse a tempestade que viesse a seguir, não a enfrentariam sozinhos. E isso, por agora, era o suficiente.