Uma fada que ficou obcecado por uma humana
Febre de Ferro e Folha
O primeiro indício de que algo estava errado foi um arrepio. Não o arrepio familiar do ar frio da manhã a infiltrar-se pelas frestas da janela, mas um arrepio que vinha de dentro, um tremor profundo nos seus ossos que nem o cobertor de lã mais grosso conseguia afastar. Abriu os olhos para a penumbra do seu quarto e sentiu-o: uma dor surda atrás dos olhos, uma secura na garganta e um peso nos membros, como se estivessem cheios de areia molhada.
A memória voltou-lhe num clarão: o dia anterior, o pânico de um pequeno pisco-de-peito-ruivo que caíra na lagoa gelada, as suas asas a debaterem-se futilmente contra a água que lhe roubava o calor. Sem pensar, ela entrara na lagoa, a água gelada a subir-lhe pelas pernas e a encharcar-lhe as saias enquanto resgatava o pássaro a tremer. Envolvera-o num pano, levara-o para perto do fogo até as suas penas secarem e ele voar para a liberdade com um chilreio de agradecimento. Na altura, o frio era uma preocupação secundária. Agora, estava a cobrar o seu preço.
— Absurdo — murmurou ela para o quarto vazio, a sua própria voz a soar rouca e estranha aos seus ouvidos.
Uma onda de irritação consigo mesma sobrepôs-se ao desconforto físico. Ficar doente. Que coisa inútil, que fardo. A sua mente projetou imediatamente a imagem dos seus pais a preocuparem-se, a sua mãe a insistir que ela ficasse na cama, o seu pai a assumir as suas tarefas com um olhar silencioso de reprovação pela sua imprudência. Odiava essa imagem. A sua identidade, o seu valor, estava intrinsecamente ligado ao seu papel de cuidadora. Era ela quem levava o chá de ervas à Sra. Gable, quem ajudava o Sr. Fitz com a sua lenha, quem cantava para os bebés das vizinhas para que as suas mães pudessem descansar. Ser a pessoa deitada na cama, a receber cuidados em vez de os dar, parecia uma traição à sua própria essência.
Não. Não iria acontecer. Era apenas um resfriado. Um pouco de teimosia e um chá quente resolveriam o problema.
Com um esforço que pareceu monumental, ela empurrou os cobertores para o lado e sentou-se. O quarto girou por um instante, e ela teve de fechar os olhos com força até o mundo parar de se inclinar. Respirou fundo, ignorando a dor aguda que o ar frio provocava nos seus pulmões, e levantou-se. Cada movimento era um protesto, cada músculo a doer. Vestiu-se lentamente, as suas mãos a parecerem desajeitadas e estranhas. Ao espelho, o seu reflexo pareceu-lhe pálido, com círculos escuros sob os olhos que ela não reconhecia. Esfregou as bochechas com força, tentando trazer alguma cor ao seu rosto.
— Bom dia, minha flor — saudou a sua mãe quando ela entrou na cozinha. O cheiro de pão fresco e café de cevada enchia o ar, um aroma que normalmente a confortava, mas que hoje lhe revirava o estômago. — Pareces cansada.
— Não dormi muito bem — respondeu ela, a voz cuidadosamente controlada para não soar rouca. Serviu-se de uma caneca de água, evitando o chá quente que a sua mãe lhe oferecia. A sua garganta parecia estar a arder. — Tive um pesadelo com aranhas.
A sua mãe riu, uma risada calorosa que fez o seu sentimento de culpa aumentar.
— Aranhas, de novo? Tens de parar de ler os contos assustadores do teu pai antes de dormir.
O seu pai entrou, trazendo consigo o cheiro limpo e frio do exterior. Ele olhou para ela por um momento, o seu olhar mais perspicaz do que o da sua mãe.
— Estás pálida, filha.
— É só o frio da manhã, pai. — Forçou um sorriso. — Vou alimentar as galinhas.
O caminho até ao galinheiro pareceu dez vezes mais longo do que o habitual. O sol da manhã, normalmente um amigo bem-vindo, era uma lâmina afiada contra os seus olhos sensíveis. O balde de grãos parecia pesar uma tonelada. As galinhas, ao vê-la, correram na sua direção, um cacarejar caótico de expectativa. Normalmente, ela rir-se-ia, agachar-se-ia para falar com elas, chamando cada uma pelo seu nome. Hoje, apenas espalhou os grãos com um movimento cansado do braço, o barulho a parecer um trovão na sua cabeça febril.
Apoiou-se na parede de madeira do galinheiro por um momento, fechando os olhos. O mundo parecia estar a zumbir, um som baixo e constante por trás de todos os outros. *Isto é ridículo*, pensou ela. *É só um pouco de febre.*
A rotina continuou, um teste de resistência que ela estava determinada a vencer. Ajudou a sua mãe a amassar o pão para o dia, a sua testa a suar apesar do frio na cozinha, cada movimento dos seus braços a enviar uma onda de dor pelos seus ombros. Limpou o estábulo dos póneis, o cheiro forte de feno e animal a quase fazê-la vomitar. A cada tarefa cumprida, uma pequena voz na sua cabeça sussurrava: *Vês? Não és inútil. Estás bem.* Mas o seu corpo gritava uma verdade diferente.
Perto do meio-dia, ela sabia que não podia adiar mais. A sua visita diária à floresta. Era uma parte tão integrante do seu dia como as refeições. Skitter estaria à sua espera. A ideia de ele ficar na clareira, a saltitar impacientemente, a pensar que ela o tinha esquecido, era insuportável. E, para ser honesta, uma parte dela precisava de o ver. A sua energia caótica e a sua estranha amizade eram um tónico, um lembrete de um mundo para além das preocupações humanas.
Pegou num pequeno pedaço de bolo de mel que guardara do dia anterior e embrulhou-o num pano.
— Vou dar uma caminhada — anunciou ela, a voz mais baixa do que pretendia.
— Leva o teu capuz mais quente — disse a mãe, sem levantar os olhos da sua costura. — O vento está a ficar cortante.
O ar da floresta era fresco e limpo, e por um momento, pareceu revigorá-la. Mas a cada passo, o esforço tornava-se maior. A luz do sol, filtrada pelas copas das árvores, criava padrões dançantes no chão que faziam os seus olhos doer e a sua cabeça girar. Sentia calafrios e ondas de calor, a sua pele a arrepiar-se e depois a ficar húmida de suor sob as suas roupas.
Chegou à clareira ofegante, apoiando-se numa árvore para recuperar o fôlego. O mundo parecia ligeiramente desfocado nas bordas, as cores demasiado brilhantes.
*Zzzzt!*
Um borrão verde e castanho desceu de um ramo, aterrando à sua frente com a sua agilidade habitual. Skitter estava lá, o seu sorriso rasgado a iluminar a sua face triangular. Na sua mão, ele segurava uma nova descoberta: uma concha de caracol vazia com um padrão iridescente que brilhava mesmo na sombra. Ele estendeu-lha, um chilreio de orgulho a vibrar no seu peito. Era a sua vez de dar um presente.
— É linda, Skitter — conseguiu ela dizer, a sua voz um sussurro. Estendeu a mão para pegar na concha, mas os seus dedos tremeram visivelmente.
O sorriso de Skitter vacilou. Ele inclinou a cabeça, os seus grandes olhos dourados a estreitarem-se. Ele não tirou os olhos da sua mão trémula. Depois, o seu olhar subiu para o seu rosto. Ele deu um passo para trás e inclinou a cabeça para o outro lado, como um pássaro a tentar entender um objeto estranho.
Ela forçou outro sorriso e estendeu-lhe o bolo de mel.
— Eu trouxe-te isto.
Ele não se moveu para o pegar. Em vez disso, aproximou-se cautelosamente, não como um amigo, mas como um animal selvagem a aproximar-se de uma criatura ferida. Ele não olhou para o presente. Olhou para ela. O seu pequeno nariz contraiu-se. Ele estava a cheirá-la. O cheiro dela estava errado. Normalmente, ela cheirava a pão, a terra e a flores do campo. Hoje, cheirava a algo mais, um odor acre e metálico sob o seu cheiro habitual. O cheiro da febre. O cheiro do ferro no seu sangue a lutar.
Ele soltou um som baixo, um clique interrogativo na parte de trás da sua garganta. Estendeu um dedo ossudo e cutucou-a no braço. Ela estremeceu, não com o toque, mas com um arrepio súbito que a percorreu. A sua pele estava demasiado quente.
— Estou bem — mentiu ela, a sua voz fraca. — Apenas cansada.
Skitter não compreendia "cansada" da mesma forma que os humanos. Para ele, a energia era um fluxo constante. Ou se tinha, ou não se tinha. E ela não tinha. A sua luz interior, a energia vital que ele sempre sentira a irradiar dela, estava fraca, a tremeluzir como uma vela num vendaval.
Ele recuou, os seus olhos dourados cheios não de preocupação, mas de uma profunda e perturbada confusão. Era como ver uma montanha a tremer ou um rio a correr para trás. Era contra a ordem natural das coisas. Ela era a rocha, a calma no centro do seu caos. Vê-la assim, frágil e instável, era profundamente alarmante. O seu sorriso desaparecera por completo, deixando o seu rosto com uma expressão estranhamente vazia e vigilante. Ele deixou cair a concha de caracol no chão e, com um estalido de língua que soou mais a alarme do que a travessura, desapareceu de volta para as árvores.
A sua partida súbita e a sua reação estranha atingiram-na com mais força do que esperava. Sentou-se pesadamente no chão, o bolo de mel esquecido ao seu lado. A sua cabeça latejava. A floresta, o seu santuário, parecia agora ameaçadora, os seus sons demasiado altos, as suas sombras demasiado escuras.
Não sabia quanto tempo ficou ali sentada, mas quando finalmente se levantou, o sol já estava mais baixo no céu. A caminhada de volta foi um pesadelo. Cada passo era uma decisão consciente. Teve de parar várias vezes, apoiando-se em árvores, a sua visão a escurecer nas bordas. Quando finalmente saiu da floresta e viu a sua casa, pareceu-lhe estar a quilómetros de distância.
Foi o seu pai quem a encontrou. Ela estava a meio do campo, de joelhos na terra, a vomitar o pouco que tinha no estômago. Ele não disse uma palavra. Apenas correu até ela, levantou-a nos seus braços como se ela não pesasse nada, e carregou-a para casa. O seu rosto era uma máscara de fúria silenciosa — não dirigida a ela, mas à sua teimosia.
— Porquê? — foi tudo o que a sua mãe disse, a sua voz a quebrar-se enquanto ajudava o seu pai a deitá-la na sua cama. — Por que não nos disseste, minha filha?
— Não queria ser um fardo — sussurrou ela, antes de a escuridão febril a engolir por completo.
Os dias seguintes foram um borrão de sensações desconexas. Sonhos febris misturavam-se com breves momentos de lucidez. Havia o toque fresco de um pano na sua testa, o sabor amargo de chás de ervas que a sua mãe a forçava a beber, a voz grave do seu pai a ler para ela de um dos seus livros, a sua presença uma âncora no mar tempestuoso da sua doença. Sentia-se miserável. Não apenas pela dor física, mas pela culpa esmagadora. Ouviu as suas vozes preocupadas a sussurrar do lado de fora da sua porta. Ouviu os vizinhos a virem oferecer ajuda, trazendo comida para que os seus pais não tivessem de cozinhar. Ela, a cuidadora, tornara-se o centro de uma teia de cuidados, e isso era a sua maior humilhação.
Mas algo mais estava a acontecer, algo para além das paredes da sua casa.
Na sua febre, ela ouvia sons. O som familiar de um chocalho. *Shk-shk-tzzzzt*. Intermitente, ansioso. Por vezes, soava perto da sua janela. Noutras, parecia vir do telhado. Ela descartou-o como um sonho, uma alucinação.
No terceiro dia, a febre atingiu o seu pico. Ela estava a arder, presa num labirinto de pesadelos. Sonhou que estava a afogar-se na lagoa gelada, mas em vez de água, era a névoa azul da Mãe do Musgo que a envolvia, a roubar-lhe o fôlego.
Foi então que a sua mãe entrou no quarto, o seu rosto pálido e perplexo.
— [Y/N], querida… há… coisas na tua janela.
Com um esforço imenso, ela virou a cabeça. Na soleira da janela, havia uma coleção bizarra de objetos. Não eram flores nem presentes humanos. Havia um rato do campo, perfeitamente morto, o seu corpo ainda quente. Ao lado dele, uma lagarta verde e gorda a contorcer-se. Havia também um pedaço de musgo que brilhava com uma fraca luz verde, e um seixo coberto de pirite, o "ouro dos tolos", que cintilava à luz fraca.
A sua mãe estremeceu. — É horrível. Algum gato deve ter deixado isto aqui. Vou limpar.
— Não! — A palavra saiu com uma força que surpreendeu a ambas. — Deixa… deixa estar.
A sua mãe olhou para ela, confusa, mas obedeceu. Quando ela saiu, um sorriso fraco tocou os lábios de [Y/N]. Eram presentes. Presentes de fada. O rato, uma oferenda de caça, de força. A lagarta, uma promessa de vida e transformação. O musgo, uma luz na escuridão. O seixo, um tesouro da terra.
Não era apenas Skitter. Ele tinha espalhado a palavra. A humana forte, a que cantava para a dor e acalmava a fúria, estava… quebrada. E o Povo da Floresta, na sua forma estranha e incompreensível, estava a tentar ajudar. Estavam a oferecer-lhe o que consideravam poderoso: vida, morte, luz e terra.
Naquela noite, a febre quebrou. Ela acordou encharcada de suor, mas a sua mente estava clara pela primeira vez em dias. O ar no seu quarto estava fresco, e a dor no seu corpo tinha diminuído para uma dor surda e cansada. A lua cheia brilhava através da sua janela, iluminando os estranhos presentes na soleira.
E lá fora, o som do chocalho começou de novo. *Shk-tzzzzt. Shk-shk-tzzzzt*.
Ela levantou-se lentamente, os seus membros fracos, mas obedientes. Enrolou-se num cobertor e foi até à janela. Olhou para baixo.
No jardim banhado pela luz da lua, estava uma cena saída de um sonho. Skitter não estava sozinho. Ele estava a saltitar em círculos, a abanar o seu chocalho não com alegria, mas com uma intensidade focada, como um xamã a realizar um ritual. À sua volta, um pequeno grupo de outras criaturas estava reunido. Um Gnomo da Floresta, com o seu chapéu vermelho pontiagudo, estava a bater ritmadamente com duas pedras. Um par de Glimmerlings dançava no ar, o seu brilho a pulsar em sincronia com o som. Até um Pillywiggin, uma pequena fada das flores normalmente tímida, estava lá, a deixar cair pétalas de rosa de inverno no chão.
Eles não estavam a fazer aquilo por ela. Estavam a fazer aquilo *para* ela. Estavam a lutar contra o espírito invisível da doença da única forma que conheciam: com som, com luz, com ritmo, com a energia vibrante da vida. Estavam a tentar afugentar o silêncio e a quietude que a tinham reclamado.
As lágrimas escorreram pelo seu rosto. Não de tristeza ou de culpa, mas de uma gratidão tão avassaladora que lhe roubou o fôlego. Ela, que sempre se sentira mais confortável a dar, estava a receber. E estava a receber de uma forma tão pura, tão estranha e tão profundamente comovente que o seu coração parecia que ia rebentar.
Ela abriu a janela. O ar frio da noite atingiu o seu rosto, mas pareceu-lhe limpo e curativo. O som do ritual tornou-se mais claro.
Skitter parou abruptamente ao vê-la. O seu chocalho ficou em silêncio. As outras criaturas pararam também, olhando para ela com os seus olhos brilhantes e não-humanos.
Ela sorriu, um sorriso genuíno, embora cansado.
— Obrigada — sussurrou ela para a noite.
Skitter inclinou a cabeça. Ele não compreendia a palavra, mas compreendia o tom. Viu que a cor regressara ao seu rosto, que a luz nos seus olhos estava mais forte. A sua energia, embora fraca, já não tremeluzia. Estava estável.
Ele soltou um chilreio agudo e triunfante, levantando o seu chocalho para o céu. As outras criaturas ecoaram o seu sentimento com os seus próprios sons estranhos. A sua magia funcionara. Eles tinham afugentado o mal.
Ele olhou para ela uma última vez e, depois, com um salto, desapareceu na escuridão, seguido pelo resto do seu bizarro grupo de curandeiros.
Ela ficou à janela por um longo tempo, a respirar o ar da noite. O som do chocalho ainda ecoava nos seus ouvidos, uma sinfonia para um coração assustado. O seu medo de ser um fardo não desaparecera, mas algo mudara. O peso do cuidado que os outros lhe davam já não parecia uma corrente, mas um cobertor. Quente, pesado e seguro.
Fechou a janela, pegou no rato morto com um pano (ela dar-lhe-ia um enterro apropriado pela manhã) e colocou o musgo brilhante e o seixo cintilante na sua mesa de cabeceira, ao lado da sua pedra de fada. Tesouros de dois mundos.
Voltou para a cama, o seu corpo exausto, mas a sua alma em paz. A doença fora uma provação, um teste à sua teimosia. Mas fora também uma lição. Uma lição sobre a graça de receber, sobre a estranha e bela linguagem do cuidado, e sobre a força de uma amizade que podia atravessar a fronteira entre a febre de ferro de um corpo humano e a magia das folhas de uma floresta antiga. E enquanto adormecia, um sono profundo e curativo, pela primeira vez sem sonhos, ela soube que nunca mais estaria verdadeiramente sozinha na sua doença ou na sua saúde. Tinha uma família na sua casa e uma tribo no seu jardim. E isso era um poder maior do que qualquer outro que já conhecera.