Uma fada que ficou obcecado por uma humana
O Fio Escarlate do Destino
A clareira tornara-se o teu ninho. Nos meses que se seguiram à febre, o teu refúgio na floresta evoluíra de um simples ponto de encontro para uma extensão da tua própria casa. Um velho tronco caído, coberto de musgo aveludado, servia de banco; uma reentrância na base de um carvalho ancestral era o teu armário, onde guardavas frascos de barro com sementes e uma manta de lã gasta para os dias mais frios. Era aqui que o teu mundo e o de Skitter se sobrepunham em perfeita e caótica harmonia.
Hoje, a luz do sol de outono, com a sua tonalidade de mel, filtrava-se pelas folhas, pintando o chão com manchas douradas. Estavas sentada no teu trono de musgo, completamente absorta. À tua volta, espalhado sobre a manta, estava o conteúdo do teu kit de costura: carretéis de fio de linho, uma tesoura de ferro polido, agulhas de osso e, o mais importante, os teus tesouros. Tinhas passado a manhã a colher pequenas flores silvestres, pinhas em miniatura, pedras de rio com veios interessantes e penas iridescentes de corvo. O teu projeto era fazer colares para as crianças da aldeia, pequenos amuletos da floresta para as proteger dos medos noturnos e para lhes trazer sonhos doces.
— Não, não, seu diabinho — resmungaste, rindo, sem levantares os olhos. A tua mão disparou e agarrou um tornozelo fino como um graveto.
Skitter, que tentava fugir com o teu dedal de metal na boca, soltou um guincho de indignação e debateu-se. Penduraste-o de cabeça para baixo, o seu cabelo de musgo seco a fazer-te cócegas no pulso, até ele abrir a boca e deixar cair o dedal na tua palma.
— És um ladrão incorrigível — disseste, pousando-o gentilmente no chão.
Ele mostrou-te a sua fileira de dentes afiados num sorriso que não continha qualquer arrependimento. A vossa amizade atingira um nível de conforto físico que ainda te maravilhava. Ele já não se assustava com os teus movimentos súbitos, e tu já não te sobressaltavas com as suas aparições instantâneas. Ele era uma presença constante nas tuas incursões pela floresta, um satélite de energia crepitante que orbitava à tua volta. Às vezes, ajudava, apontando com o seu chocalho para uma pena particularmente bonita ou desenterrando uma pedra com um brilho invulgar. Mais frequentemente, ele "ajudava" roubando as tuas ferramentas ou dançando sobre os teus materiais cuidadosamente arranjados.
Começaste a cantarolar baixinho enquanto enfiavas um fio de linho numa pequena flor-estrela. Era uma melodia simples, sem palavras, que tinhas inventado para acalmar os póneis do teu pai. A tua voz, que guardavas tão zelosamente do mundo humano, fluía livremente aqui. Para ti, Skitter não contava como "alguém". Ele era como um pássaro ou um riacho, uma parte do cenário natural que não julgava.
Ao som da tua voz, a energia frenética de Skitter acalmou. Ele subiu para o tronco ao teu lado, enrolou-se como um gato e ficou a observar-te, os seus grandes olhos dourados a piscar lentamente. A bolsa de couro que lhe fizeste, agora gasta e decorada com novos e estranhos apêndices — um dente de javali, uma asa de borboleta em farrapos —, repousava ao seu lado. A visão enchia-te de um calor profundo e silencioso.
— Este vai ser para a pequena Lyra — disseste, mais para ti mesma do que para ele, enquanto prendias uma minúscula pinha ao colar. — Ela tem medo do escuro. Talvez isto lhe dê coragem.
Precisavas de um toque final, algo especial. A tua mente lembrou-se de uma flor que tinhas visto mais cedo, a crescer numa saliência rochosa na orla da clareira. Era uma Lágrima-de-fada, uma flor rara com pétalas de um escarlate tão profundo que pareciam gotas de sangue sobre a pedra cinzenta. Seria perfeita.
— Já volto — disseste, afagando a sua cabeça eriçada.
Ele levantou-se num instante, os seus sentidos de repente em alerta. Seguiu-te enquanto te aproximavas da parede de rocha. Era mais alta do que parecia, e a flor crescia a meia altura, numa pequena fenda. A escalada não seria difícil; havia muitos pontos de apoio para as mãos e os pés.
— Fica aqui — ordenaste suavemente, começando a subir.
Mas Skitter estava agitado. Ele correu até à base da rocha, a puxar a bainha do teu vestido com os seus dedos ossudos, a soltar uma série de estalidos e chilreios ansiosos. O seu chocalho, pendurado na sua bolsa, tilintava com os seus movimentos nervosos.
— Shhh, está tudo bem. Eu tenho cuidado — tranquilizaste-o, olhando para baixo e sorrindo. — É só um instante.
Ele não se acalmou. Saltou para um ramo próximo, ao nível dos teus olhos, as suas orelhas achatadas contra a cabeça, os seus olhos dourados arregalados e fixos, não em ti, mas na rocha acima da tua cabeça. Ele via algo que tu não vias: uma fissura subtil, o ligeiro deslocamento de uma pedra que suportava o teu peso. Ele sibilou, um som agudo de aviso.
Ignoraste-o, a tua atenção focada no prémio escarlate a apenas alguns centímetros de distância. Estendeste a mão. Os teus dedos roçaram as pétalas aveludadas.
E então o mundo cedeu.
A pedra sob a tua mão soltou-se com um som surdo e seco. Perdeu o teu apoio. Um grito agudo escapou dos teus lábios enquanto caías para trás. Não foi uma queda longa, talvez pouco mais do que a tua própria altura, mas aterraste de forma desajeitada. O teu corpo bateu contra o chão da floresta, o impacto a tirar-te o fôlego.
Por um momento, tudo ficou branco de dor. Uma dor aguda e lancinante irradiava do teu braço esquerdo. Atordoada, sentaste-te, a tua cabeça a girar. Olhaste para o teu braço. Uma lasca de ardósia afiada, escondida sob as folhas, abrira um rasgão profundo no teu antebraço, desde o pulso até quase ao cotovelo.
O sangue jorrou, um vermelho vivo e chocante contra a tua pele e as folhas outonais.
O guincho de Skitter foi algo que nunca tinhas ouvido antes. Não era um som de travessura ou de raiva. Era um som de puro e absoluto terror. Ele saltou do seu ramo e aterrou ao teu lado, uma mancha de pânico verde e castanho.
— Estou… estou bem — ofegaste, mas as palavras soaram ocas. O sangue escorria por entre os teus dedos enquanto tentavas estancar a hemorragia. A dor era uma onda nauseante. Pontos negros dançavam na tua visão.
Skitter correu em círculos à tua volta, a sua agonia a manifestar-se em movimento frenético. Ele puxava o seu próprio cabelo, batia com os pés no chão e emitia uma série de sons agudos e angustiados. Depois, parou, a sua mente feérica a procurar uma solução.
Ele mergulhou na floresta e voltou segundos depois, carregando uma grande folha de doca, ainda húmida de orvalho. Empurrou-a contra o teu braço. Era a sua versão de um curativo. Mas a folha ficou imediatamente encharcada de sangue, inútil.
O pânico dele aumentou. Desapareceu de novo e voltou com um verme gordo e a contorcer-se, que te ofereceu com um chilreio suplicante. Era uma oferenda de vida, de poder terreno. Era o melhor remédio que ele conhecia.
— Não, Skitter… — gemeste, afastando a cabeça.
A visão do teu sangue, a sentir o cheiro metálico e quente, parecia estar a enlouquecê-lo. Ele tocou numa gota com a ponta de um dedo, olhando para o líquido escarlate com uma mistura de fascínio e horror. Ele compreendia o que era aquilo. Era a tua vida, a tua essência, a derramar-se para a terra.
E ele não podia pará-la.
A sua magia, as suas travessuras, o seu conhecimento da floresta — nada disso servia. As suas soluções eram para picadas de inseto, para afugentar espíritos, para encontrar bagas. Não eram para carne rasgada e sangue que não parava.
Uma nova compreensão, fria e terrível, pareceu tomar conta dele. Ele olhou para o teu rosto, agora pálido como cera. Olhou para o sangue que manchava a terra. E depois olhou na direção da tua aldeia.
Ele precisava de ajuda. De ajuda *humana*.
Com um último guincho que soou como um soluço, ele virou-se e disparou. Não correu, voou rente ao chão, um borrão de movimento tão rápido que mal parecia tocar nas folhas. O seu medo dava-lhe uma velocidade sobrenatural. Ele tinha de trazer alguém. Mas como? Não podia falar com eles. E não podia ser visto. A sua mente, acostumada a quebra-cabeças e travessuras, trabalhava furiosamente.
Entretanto, na orla da floresta, Liam limpava o suor da testa. Tinha passado a manhã a reparar a cerca do pasto, um trabalho árduo e solitário. Decidiu fazer uma pausa e entrar um pouco na floresta para procurar alguns dos cogumelos saborosos que cresciam após as chuvas recentes. Ele conhecia-te desde a infância, e sempre sentira uma admiração silenciosa pela tua gentileza e pela forma como parecias pertencer mais à natureza do que ao barulho da aldeia. Por vezes, perguntava-se sobre as tuas longas caminhadas solitárias, uma pontada de preocupação a misturar-se com a sua curiosidade.
Foi então que algo atingiu a parte de trás da sua cabeça.
— Ai! — exclamou ele, virando-se. Não havia ninguém. Apenas uma pequena pedra no chão. Franziu o sobrolho e continuou a andar.
*Plaf.* Outra pedra, desta vez no seu ombro.
— Mas que… — começou ele, irritado. Olhou para os ramos acima, procurando um esquilo ou um pássaro travesso. Não viu nada.
Um farfalhar súbito à sua direita. Ele virou-se a tempo de ver um vislumbre de algo a mover-se rapidamente por entre os arbustos. Parecia demasiado grande para um esquilo.
— Quem está aí? — chamou ele, a sua mão a ir instintivamente para o cabo do pequeno machado que trazia à cintura.
A única resposta foi um som de assobio agudo, vindo de mais longe na floresta. Intrigado e um pouco alarmado, ele decidiu seguir. O que quer que fosse, estava a tentar chamar a sua atenção.
Começou um estranho jogo de perseguição. Ele seguia os sons — um galho a estalar aqui, um chilreio estranho ali, o vislumbre ocasional de movimento rápido e verde-castanho na periferia da sua visão. Sentia-se um tolo, a ser guiado numa dança louca pela floresta. Várias vezes esteve prestes a desistir, convencido de que era apenas o vento ou a sua imaginação. Mas a persistência da criatura era estranha, urgente. Parecia que não o estava a provocar, mas a *guiá-lo*.
O fenómeno do "pixy-led", ser guiado por duendes, era uma história para assustar crianças. Mas enquanto se embrenhava mais fundo, seguindo a chamada invisível, uma sensação de estranheza apoderou-se dele.
Finalmente, os sons pararam. Ele emergiu numa pequena clareira e o seu coração gelou.
Viu-te. Estavas encostada a uma árvore, o teu rosto de uma palidez fantasmagórica, os teus olhos semi-cerrados. O teu braço estava coberto de sangue, e uma poça escura formava-se no chão a teus pés. Por uma fração de segundo, ele pensou ter visto algo pequeno e encurvado a observá-lo das sombras profundas de um carvalho, algo com olhos que brilhavam como moedas de ouro, antes de se dissolver na escuridão. Mas a visão de ti, ferida e vulnerável, baniu todos os outros pensamentos da sua mente.
— [Y/N]! — gritou ele, correndo para o teu lado.
Ajoelhou-se, o seu rosto uma máscara de choque e preocupação. — Pelos deuses, o que aconteceu?
— Caí… — sussurraste, a tua voz fraca. — A rocha…
Ele não perdeu tempo com perguntas. A sua mente prática assumiu o controlo. Rasgou uma longa tira da sua própria camisa de linho e, com mãos surpreendentemente firmes, começou a enrolá-la firmemente à volta do teu braço, criando um curativo de pressão improvisado.
— Temos de te levar para casa. Agora. Consegues andar?
Assentiste, embora não tivesses a certeza. Ele passou um braço forte à volta da tua cintura, ajudando-te a levantar. A dor explodiu no teu braço, e cambaleaste contra ele, um gemido a escapar dos teus lábios.
— Calma, eu estou aqui. Apoia-te em mim — disse ele, a sua voz suave, mas cheia de uma autoridade tranquila.
A viagem de volta foi um borrão de dor e confusão. Cada passo era uma agonia. A tua cabeça estava encostada ao ombro de Liam, o seu cheiro a suor, terra e preocupação a encher os teus sentidos. Estavas grata pela sua força, pela sua presença sólida. Mas a tua mente estava em outro lugar. Estava na clareira, com um pequeno ser em pânico. Onde estava Skitter? Estaria ele seguro? Teria sido ele que guiara Liam até ti? A ideia era tão extraordinária, tão impossível, que a descartaste como um delírio da febre da dor.
Das sombras, dois olhos dourados observavam cada passo vosso. Skitter seguiu-vos à distância, um guardião silencioso e atormentado. Ele via o humano grande a segurar-te, a sua força a apoiar a tua fraqueza. Via a forma como o teu corpo se inclinava para o dele. E sentiu algo novo e azedo a contorcer-se no seu peito. Não era medo. Não era raiva. Era uma emoção mais complexa, para a qual ele não tinha nome. Era uma possessividade fria, uma pontada de ciúme. Ela era a *sua* humana. Era ele quem a protegia, quem partilhava os seus segredos. E agora, este estranho de cheiro forte estava a tocá-la, a carregá-la para longe dele, de volta para o mundo barulhento e de ferro a que ela pertencia. Ele odiou-o com uma intensidade silenciosa.
Quando finalmente chegaram à orla da floresta, os teus pais, alertados pelos gritos de Liam, correram ao vosso encontro. A tua mãe soltou um grito de angústia ao ver o teu estado. O teu pai, o seu rosto uma carranca trovejante, assumiu o controlo, pegando-te nos braços e carregando-te para casa como se fosses uma criança.
A última coisa que viste antes de a escuridão te vencer foi a linha das árvores, as sombras a parecerem mais profundas do que o habitual. E tiveste a certeza de ter visto um brilho dourado, como dois carvões em brasa, a observar-te da escuridão antes de desaparecer.
Acordaste na tua própria cama. O cheiro de ervas medicinais enchia o ar. O teu braço estava limpo e enfaixado com linho branco, a dor agora uma pulsação surda e controlável. A tua mãe estava sentada numa cadeira ao teu lado, o seu rosto cansado, mas aliviado.
— Ela acordou — disse ela suavemente.
O teu pai apareceu à porta. Ele não disse nada, mas o seu olhar continha um milhão de perguntas. Liam contara-lhes que te encontrara por acaso, que deves ter escorregado e caído. Era a história oficial, uma história simples que não continha duendes em pânico nem perseguições misteriosas. E por isso, estavas grata.
Passaste os dois dias seguintes na cama, a ser mimada e cuidada, sentindo-se novamente um fardo, mas demasiado fraca para protestar. O teu braço doía, mas o teu coração doía mais. Preocupavas-te com Skitter. Terias tu imaginado a sua reação, a sua tentativa de te ajudar? Teria ele ficado assustado com o sangue e fugido para sempre? A incerteza era um tormento pior do que a dor física.
Na terceira manhã, sentiste-te forte o suficiente para te sentares junto à janela. O mundo lá fora parecia tranquilo, alheio ao drama que se desenrolara. O teu coração sentia-se pesado. Sentias falta do teu amigo.
E então, viste.
Na soleira da janela, cuidadosamente colocada sobre um leito de musgo, estava uma única flor. Uma Lágrima-de-fada, com as suas pétalas de um escarlate profundo e perfeito.
O ar ficou preso nos teus pulmões. Ele não fugira. Ele voltara. Ele terminara a tua tarefa. Fora ele. Fora tudo real.
Com a tua mão boa, pegaste na flor. Era um pedido de desculpas. Era uma declaração. Era um "eu ainda estou aqui". As lágrimas encheram-te os olhos, mas desta vez, não eram de dor. Eram de uma gratidão tão profunda, tão avassaladora, que te deixou sem fôlego.
Olhaste para a floresta distante. Não o vias, mas sentias a sua presença. O fio invisível que vos ligava não se partira. Pelo contrário. O acidente, o sangue, o medo — tudo isso o tinha esticado até ao limite, mas não o quebrara. Tinha-o apenas tingido de uma nova cor. Uma cor escarlate. A cor do sangue derramado, da flor oferecida, e do destino estranho e perigoso que ambos partilhavam.
A tua amizade sobrevivera. Mas sabias, com uma clareza arrepiante, que algo mudara para sempre. A inocência fora manchada de sangue. O ciúme plantara uma semente escura no coração do teu amigo. E a tua dívida para com ele, e a dele para contigo, tornara-se infinitamente mais complexa. O fio que vos unia era agora mais forte, mas também muito, muito mais perigoso. E mal podias esperar para ver onde ele vos levaria a seguir.