Uma fada que ficou obcecado por uma humana
O Sabor da Gratidão
A convalescença deixou em ti um eco, uma fome. Não de comida, mas de propósito. O teu corpo, forçado à quietude, agora vibrava com uma energia represada, uma necessidade urgente de se reconectar ao mundo através da única linguagem que conhecias fluentemente: o cuidado. A gratidão era uma coisa viva dentro de ti, um pássaro a bater as asas contra as tuas costelas, exigindo ser libertado em voo.
O teu primeiro ato de libertação começou na cozinha, o coração da tua casa. O cheiro de lenha a queimar e de café de cevada a torrar era o aroma da normalidade, um bálsamo para as tuas memórias febris. O teu braço esquerdo, ainda envolto em linho limpo, era um lembrete constante do teu lapso de poder, da tua vulnerabilidade. Movias-te com uma determinação silenciosa, ignorando a dor surda que protestava a cada movimento mais amplo.
— Bom dia, minha estrela da manhã — saudou a tua mãe, os seus olhos a examinarem-te com a atenção minuciosa de um falcão. — Devias estar a descansar. O teu pai pode tratar dos animais.
— Eu estou a descansar — respondeste, a tua voz suave, mas firme, enquanto pegavas na tigela de barro para a massa. — Descanso melhor quando as minhas mãos estão ocupadas.
Ofereceste-lhe um sorriso que esperavas ser tranquilizador e começaste a trabalhar. Hoje, não farias o pão habitual. Farias os pãezinhos de leite e mel que o teu pai adorava, aqueles que ele dizia que "sabiam a um dia de sol". Mediste a farinha, o leite morno, o mel dourado. Cada gesto era uma prece silenciosa de agradecimento. Pela força do teu pai, que te carregara como se não pesasses nada. Pela paciência da tua mãe, que passara noites a arrefecer a tua testa febril. Amassar a massa, sentir a sua vida a crescer sob as tuas palmas, era como reafirmar a tua própria vida, o teu regresso da beira do abismo.
O teu pai entrou, o seu olhar a varrer a cena. Ele não disse nada, mas a forma como os seus ombros relaxaram ligeiramente ao ver-te de pé, coberta de farinha e concentrada, foi eloquente. Ele aproximou-se, pousou uma mão pesada sobre a tua cabeça por um instante — o seu equivalente a um discurso emocionado — e foi sentar-se junto ao fogo com a sua caneca.
Enquanto os pães cresciam perto do calor, saíste para o ar frio da manhã. O mundo parecia novo, cada detalhe nítido e precioso. Agradeceste às galinhas pelas suas oferendas diárias, escovaste o pelo dos póneis até brilhar, e até paraste para acariciar a cabeça de Margarida sobre a cerca, que agora te empurrava suavemente em busca de mais carinho.
— Foste muito corajosa naquele dia — sussurraste para ela. — Todos nós fomos.
A tua gratidão humana tinha mais um destinatário. Com um cesto contendo dois pães quentes embrulhados num pano, um pedaço generoso de queijo curado e um pequeno pote do teu doce de amora caseiro, seguiste pelo caminho que levava à extremidade da aldeia.
Encontraste Liam onde esperavas encontrá-lo: a trabalhar. Estava a reparar o telhado de um celeiro, o seu corpo a mover-se com uma economia de esforço que falava de uma vida de trabalho físico. O som do seu martelo era um ritmo constante e fiável contra o silêncio da manhã.
Ele parou quando te viu a aproximar-te, um sorriso lento a espalhar-se pelo seu rosto.
— [Y/N]. É bom ver-te de pé. E a carregar coisas. Devo preocupar-me?
Riste, uma risada genuína que te surpreendeu. A tua timidez habitual perto dele parecia ter sido atenuada pela urgência da tua missão.
— Só se não estiveres com fome.
Ele desceu do telhado com uma agilidade de gato e aceitou o cesto, o seu olhar a suavizar-se ao ver o conteúdo.
— Não precisavas de ter feito isto.
— Precisava, sim — disseste, a tua voz um pouco mais baixa. Olhaste para o teu braço enfaixado, e depois para ele. — Eu… nunca te agradeci devidamente, Liam. Se não tivesses aparecido…
— Qualquer um teria feito o mesmo — interrompeu ele, um pouco embaraçado com a tua sinceridade.
— Mas não foi qualquer um. Foste tu. — Deste um passo em frente, e a tua mão boa pousou sobre o seu antebraço, um gesto impulsivo de pura e avassaladora gratidão. A sua pele estava quente do sol, os seus músculos tensos do trabalho. — Obrigada. Do fundo do meu coração.
Ele ficou em silêncio por um momento, o seu olhar fixo na tua mão sobre o seu braço. Depois, cobriu a tua mão com a dele.
— De nada, [Y/N]. Fico feliz por estares bem.
O momento estendeu-se, simples, quente e inequivocamente humano. Retiraste a tua mão, sentindo um rubor a subir-te pelo pescoço, e deste um passo atrás.
— Bem, tenho de ir. Os meus pais vão pensar que fugi para me juntar a um circo itinerante.
Ele riu. — Tem cuidado. E se precisares de alguma coisa, sabes onde me encontrar.
Enquanto te afastavas, sentias o seu olhar nas tuas costas. Um olhar quente e protetor. Sentias-te segura. Era uma sensação boa.
Mas a tua maior dívida, a mais estranha e complexa, ainda esperava.
A transição da aldeia para a floresta era como passar por um véu. O ar mudava, os sons mudavam, e tu mudavas com eles. Deixavas para trás a cuidadora da aldeia e tornavas-te a embaixadora, a amiga de um ser que a maioria das pessoas considerava um pesadelo.
Para Skitter, um pão quente seria um insulto. Uma ferramenta útil seria ignorada. A tua gratidão por ele tinha de ser falada na sua própria língua: uma mistura de natureza, caos e atenção pessoal. Passaras a noite anterior a planear o teu presente, e a ideia viera-te num sonho febril de musgo e mel.
Na tua cesta, agora, não havia comida para humanos. Havia os ingredientes para um "bolo de fada". Não para comer, mas para experienciar. Trazias um grande punhado do musgo mais macio e aveludado que encontraras, ainda húmido e a cheirar a terra. Trazias seixos de rio, lisos e brilhantes. Trazias penas de gaio-azul, de um azul elétrico que rivalizava com o céu. E, num pequeno pote de barro, trazias mel, espesso e dourado, não como adoçante, mas como cola.
Chegaste à clareira e sentiste-o antes de o veres. Uma quietude expectante. Ele estava a observar-te.
— Skitter? — chamaste suavemente. — Trouxe-te uma coisa.
Ele desceu de um ramo, não com a sua exuberância habitual, mas com uma lentidão deliberada. Aterrou à tua frente e ficou parado, os braços cruzados sobre o peito pequeno, a sua bolsa de couro a balançar ao seu lado. O seu sorriso rasgado não estava lá. A sua face era uma máscara de indiferença estudada, mas os seus olhos dourados ardiam com uma emoção que não conseguiste decifrar de imediato.
— Estás bem? — perguntaste, a tua testa a franzir-se em preocupação.
Ele deu de ombros, um gesto agudo e irritado, e virou-te as costas, fingindo examinar uma casca de árvore com um interesse intenso.
O seu comportamento era tão invulgar que te deixou desnorteada. Normalmente, ele estaria a saltitar à tua volta, a tentar espreitar para dentro do teu cesto, a puxar-te as saias. Esta frieza era uma arma, e estava a funcionar. Sentiste uma pontada de mágoa.
— Eu fiz isto para ti — disseste, decidindo ignorar o seu mau humor. Ajoelhaste-te e começaste a desempacotar os teus materiais.
Ele espreitou por cima do ombro, a sua curiosidade a lutar contra a sua teimosia.
Começaste a trabalhar. Sobre uma grande folha de carvalho, moldaste o musgo numa forma redonda e fofa, como um pequeno bolo. Usaste o mel para colar os seixos brilhantes à volta da base, como se fossem joias. Depois, espetaste as penas de gaio-azul no topo, criando uma coroa azul vibrante. O resultado final era uma obra de arte estranha e natural, uma escultura que apelava a todos os sentidos de uma criatura da floresta.
— É um bolo de musgo — explicaste, sentindo-te um pouco tola. — Para ti. Pela flor. Por… me teres ajudado.
Estendeste-lho.
Ele virou-se completamente, olhou para o teu presente, e depois para ti. E então, fez algo que te chocou. Ele bufou, um som de puro desdém, e deu um tapa na tua oferenda, enviando-a a rolar pela terra, desfazendo-se em musgo e pedras espalhadas.
O teu queixo caiu. A mágoa transformou-se num clarão de raiva.
— Skitter! Eu fiz isto para ti!
Ele sibilou para ti, mostrando os seus dentes de agulha. Apontou um dedo acusador na direção da aldeia, e depois fez uma mímica grosseira de alguém a pousar a mão no braço de outra pessoa, imitando o teu gesto com Liam. Os seus olhos dourados brilhavam com uma fúria fria.
O entendimento atingiu-te como água gelada. Ele vira-te. Ele vira-te com Liam. E na sua mente alienígena, possessiva e que não compreendia as nuances das relações humanas, aquilo fora uma traição. O teu toque, a tua atenção, que ele considerava seus por direito de amizade e de perigo partilhado, tinham sido dados a outro. Um humano grande, de cheiro forte, que o substituíra no momento em que precisavas de força.
Ele estava com ciúmes.
A tua raiva dissipou-se tão rapidamente como surgira, substituída por uma onda de espanto e uma empatia dolorosa. Pobre criatura. Ele não compreendia.
— Oh, Skitter… — sussurraste, o teu coração a doer por ele. — Não é o que pensas.
Levantaste-te e aproximaste-te dele lentamente, como te aproximarias de um animal encurralado. Ele recuou, os seus ombros tensos, pronto para fugir ou lutar.
— Ele é meu amigo — tentaste explicar. — Ele ajudou-me. Eu estava a agradecer-lhe.
Mas a palavra "amigo" parecia vazia, a mesma palavra que usarias para descrever a vossa própria ligação. Não era suficiente. Precisavas de usar a vossa linguagem.
Paraste a poucos passos dele. Lentamente, com a tua mão boa, começaste a desenrolar o linho do teu braço ferido. Skitter observou cada movimento, a sua hostilidade a dar lugar a uma curiosidade cautelosa.
Revelaste a ferida. Já não sangrava, mas a linha de sutura grosseira que o médico da aldeia fizera era uma cicatriz feia e vermelha contra a tua pele pálida, um rasgão violento que falava da rocha afiada e da tua mortalidade.
— Vês? — disseste suavemente, mostrando-lha. — Isto é nosso. Esta dor. Tu estavas lá. Tu sentiste o meu medo. Ele não. Ele só viu isto. — Apontaste para o curativo limpo. — Tu viste isto. — Apontaste para a cicatriz feia por baixo.
Ele aproximou-se um passo, os seus olhos fixos na marca escarlate. A memória do sangue, do teu rosto pálido, do seu próprio pânico impotente, voltou com força. Aquela cicatriz era a prova física do seu fracasso em proteger-te, mas também a prova do vosso laço. Liam não partilhava aquilo.
— Liam é… calor de lareira — disseste, procurando uma metáfora que ele pudesse entender. — É seguro e bom. Mas tu… tu és a floresta. És o vento e a chuva e o musgo. És parte de mim de uma forma que ele nunca poderá ser.
Ele olhou para o teu rosto, a sua própria confusão e dor refletidas nos teus olhos. A sua rigidez começou a diminuir.
E então, fizeste a única coisa que sabias que o alcançaria para além de qualquer dúvida. Fechaste os olhos e começaste a cantar.
Não cantaste uma canção nova. Cantaste a melodia antiga, a canção de embalar que usaras para acalmar Margarida, a canção que se tornara o hino não oficial da vossa amizade. A tua voz, baixa e clara, encheu a clareira. Não era uma canção para um humano. Era uma canção para um animal assustado, para um espírito da terra em sofrimento, para um pequeno duende com um coração ciumento e confuso. Era a *vossa* canção.
Ao som da tua voz, a última barreira dele desmoronou-se. Um pequeno som, um soluço seco, escapou do seu peito. Ele olhou para os restos desfeitos do seu "bolo" no chão, e depois para ti. A sua fúria fora substituída por um arrependimento agudo e infantil.
Quando terminaste de cantar, abriste os olhos. Ele estava parado à tua frente, a olhar para o chão como uma criança apanhada em falta.
Ajoelhaste-te e, com cuidado, começaste a juntar os pedaços do teu presente. Ele observou-te por um momento, e depois, com uma hesitação, ajoelhou-se também e começou a ajudar-te, as suas mãos finas e ossudas a recolher os seixos de rio e a tentar alisar o musgo amachucado.
Trabalharam em silêncio, a reconstruir o que a sua raiva destruíra. Quando terminaram, o bolo de musgo estava um pouco torto e manchado de terra, mas estava inteiro. Colocaste-lo no centro da clareira, sobre uma pedra plana.
— Está tudo bem — sussurraste. — Eu percebo.
Ele olhou para ti, e depois, fez algo que te aqueceu até à alma. Ele foi até à sua bolsa de couro, remexeu lá dentro e tirou a flor escarlate que te deixara na janela. Com uma delicadeza infinita, ele colocou a Lágrima-de-fada no topo do bolo de musgo, a peça final que faltava. Era o seu pedido de desculpas. A sua contribuição. A sua paz.
Sorriste, um sorriso trémulo de alívio e afeto.
— É perfeito.
Ele ficou a olhar para ti, a sua expressão agora suave, vulnerável. A tua necessidade de o encher de amor e gratidão, interrompida pela sua crise de ciúmes, voltou com força total. Mas sabias que presentes materiais não eram o que ele precisava naquele momento. Ele precisava de reafirmação.
Estendeste a tua mão boa, com a palma para cima. O vosso gesto.
Ele não hesitou. Pousou a sua mão pequena e áspera sobre a tua. Mas não paraste aí. Com a tua outra mão, a ferida, cobriste a dele. Um sanduíche de mãos, com a dele no centro, protegida.
— Amigo — repetiste, a palavra agora cheia de um significado mais profundo.
Ele olhou para as vossas mãos unidas, e depois para o teu rosto. Inclinou-se para a frente e, com uma hesitação que era comovente na sua estranheza, encostou a sua testa fria e seca contra a tua bochecha. O seu cabelo de musgo fez-te cócegas. Foi o mais próximo de um abraço que a sua natureza permitiria. Foi um gesto de confiança absoluta, de rendição.
Ficaram assim por um longo momento, no silêncio da clareira, rodeados pelo cheiro a terra e a folhas em decomposição. O calor da tua pele contra a frescura da dele. O ritmo da tua respiração e o zumbido quase inaudível da sua energia.
Ele afastou-se, os seus olhos dourados a brilhar com uma luz suave que nunca tinhas visto antes. A possessividade ainda lá estava, sabias disso, mas agora estava temperada com uma compreensão, uma segurança.
Com um chilreio suave, ele saltou para cima do bolo de musgo, não para o destruir, mas para reclamá-lo. Sentou-se no meio das penas de gaio-azul, como um pequeno rei no seu trono verde, e começou a lamber um pingo de mel de um dos seixos com um ar de contentamento absoluto.
Levantaste-te, o teu coração finalmente em paz. Sentias-te leve, esgotada, mas completa. O sabor da gratidão, percebeste, era complexo. Para os humanos, tinha o sabor do pão quente e do doce de amora. Para as fadas, tinha o sabor do musgo e do mel, da paciência e de uma canção partilhada.
Voltavas para casa enquanto o sol começava a descer, deixando para trás o teu estranho amigo a banquetear-se no seu trono. O teu braço doía. O teu corpo estava cansado. Mas a tua alma estava a cantar. Tinhas navegado pelas águas traiçoeiras do ciúme de uma fada e saíras do outro lado, não apenas com a vossa amizade intacta, mas fortalecida. O dia fora, de facto, um dia de alegria e amor, mas de uma forma muito mais complicada e bela do que alguma vez poderias ter imaginado.