Voltar ao resumo

Uma família fora dos planos

Despertadores, Laços de Fita e o Caos Organizado

O sol mal havia começado a iluminar as janelas de vidro fumê da mansão Waraha-Austin quando o som seco de saltos altos ecoou pelo corredor de mármore. Charlotte Austin já estava de pé há duas horas. Seu cabelo castanho-claro estava perfeitamente ondulado, caindo sobre os ombros de seu terno de corte impecável. Ela revisava os últimos detalhes da auditoria que apresentaria aos investidores da máfia Austin naquela manhã.

Entrando no quarto principal, Charlotte deparou-se com a cena habitual: Engfa estava enterrada sob um edredom de seda egípcia, apenas alguns fios de cabelo castanho-escuro aparecendo, roncando levemente de um jeito que ela juraria ser "respiração profunda de recuperação".

Charlotte aproximou-se da cama e, sem cerimônias, puxou o edredom com força.

— Acorda, Engfa. O mundo não para só porque você decidiu que é uma criatura noturna — a voz de Charlotte era gélida e eficiente.

Engfa resmungou algo incompreensível, tateando a lateral da cama em busca de seus óculos. Quando finalmente os encontrou e os encaixou no rosto, piscou várias vezes, tentando focar na figura autoritária à sua frente.

— Charlotte... São seis da manhã. A menos que os Lee tenham decidido bombardear a garagem, não vejo motivo para esse crime contra o meu sono — Engfa sentou-se, a pequena cicatriz na bochecha levemente avermelhada pelo travesseiro.

— Eu tenho uma reunião crucial com os investidores do conselho. Não posso me atrasar e não posso levar a Sonya — Charlotte disse, cruzando os braços e olhando para o relógio de pulso. — Hoje é o seu dia. Você vai levantar, preparar o café, garantir que ela coma algo que não seja puro açúcar e levá-la para a escola. Sem desculpas, Engfa.

— Escola? — Engfa bocejou, passando a mão pelo rosto. — Manda um dos seguranças. O P’Nam adora dirigir a van escolar blindada. Ele até coloca músicas da Disney para ela.

— Não — Charlotte deu um passo à frente, sua presença preenchendo o quarto. — A diretora já me ligou três vezes reclamando que a Sonya chega na escola escoltada por quatro homens armados com submetralhadoras por baixo dos ternos. Ela é uma criança, não um carregamento de diamantes. Hoje, você vai como uma mãe normal. Sem drifts, sem apostas no caminho e, pelo amor de Deus, sem ensinar novos golpes de imobilização antes das oito da manhã.

— Você tira toda a diversão da maternidade, Austin — Engfa resmungou, mas o brilho divertido em seus olhos denunciava que ela já estava se rendendo.

— Estou falando sério. Se eu receber uma ligação dizendo que você desafiou o pai de algum aluno para uma corrida de arrancada no estacionamento da escola, eu vou congelar todas as suas contas de "peças de reposição" por um mês. Fui clara?

Engfa abriu a boca para retrucar, mas Charlotte apenas levantou uma sobrancelha, o olhar tão direto que poderia perfurar blindagem.

— Cristalina, patroa — Engfa ironizou, fazendo uma continência preguiçosa.

Charlotte inclinou-se, depositando um beijo rápido e casto no topo da cabeça de Engfa — um gesto que sempre pegava a mais velha de surpresa — e saiu do quarto dizendo:

— O uniforme dela está passado na lavanderia. Não se atrase.

Engfa ficou ali, sentada na cama, processando a saída furacão de sua esposa de contrato. Ela suspirou, um sorriso de canto surgindo. Estava casada com a mulher mais controladora do submundo, e por algum motivo distorcido, ela não trocaria isso por nada.

De repente, a porta do quarto se abriu novamente, mas desta vez não houve som de saltos, apenas passos rápidos e saltitantes.

— Mama Engfa! Acorda, acorda, acorda! — Sonya pulou na cama, caindo exatamente sobre o estômago de Engfa, que soltou um gemido de dor.

— Ai, pequena... Você está treinando seus saltos de impacto ou tentando me assassinar? — Engfa riu, pegando a menina e começando a fazer cócegas nela.

— A Mama Charlotte disse que hoje é o dia da "Missão Escola com a Mama Engfa"! — Sonya exclamou entre gargalhadas, os olhos brilhando com a mesma intensidade travessa da mãe adotiva. — Vamos levar o carro rápido? O que faz "vrum vrum"?

— Shhh! — Engfa colocou o dedo nos lábios, olhando para a porta como se Charlotte ainda pudesse ouvir. — Se sua mãe descobrir que eu usei o Skyline para te levar, ela me faz dormir no canil. Vamos no SUV preto, mas eu prometo que a gente pode fazer o caminho mais longo pelo túnel para ouvir o eco do motor. O que acha?

— Combinado! — Sonya fez um sinal de "joinha", sentando-se com as pernas cruzadas sobre o edredom.

Engfa levantou-se, sentindo os ossos estalarem. A vida de mafiosa era mais fácil do que a de mãe de manhã cedo, pensou ela. No submundo, se alguém a irritasse, ela apenas sacava uma arma ou dava uma ordem. Com Sonya, a arma era um sorriso banguela e a ordem era "quero panquecas de chocolate".

Caminharam até a cozinha, onde Engfa tentou agir com a eficiência que via em Charlotte, mas acabou resultando em um caos controlado. Enquanto Sonya desenhava no balcão de granito, Engfa lutava contra a cafeteira e tentava fritar ovos sem queimar a cozinha.

— Mama, por que a Mama Charlotte é tão brava de manhã? — Sonya perguntou, sem desviar os olhos de seu desenho de um carro com chamas.

— Ela não é brava, pequena. Ela é... organizada — Engfa disse, ajeitando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz suado. — Sua Mama Charlotte carrega o peso de duas famílias nas costas. Ela cuida do dinheiro para que a gente possa comprar seus brinquedos e as peças dos meus carros. Ela só esquece como relaxar às vezes.

— Você ajuda ela a relaxar? — Sonya olhou para cima, curiosa.

Engfa parou por um momento, a espátula no ar. Ela pensou nas discussões, nas trocas de farpas ácidas que escondiam uma tensão que nenhuma das duas admitia, e no modo como, nas noites mais difíceis, elas acabavam dividindo uma garrafa de vinho em silêncio no escritório.

— Eu tento irritar ela o suficiente para ela esquecer os problemas — Engfa piscou para a menina. — É uma técnica avançada de psicologia. Não conte para ela.

Depois do café — que consistiu em ovos levemente tostados e muito suco de laranja — veio a parte mais difícil: o uniforme.

Engfa encarou o vestido de pregas da escola particular de elite como se fosse um quebra-cabeça de alta complexidade.

— Como isso funciona? Por que tem tantos botões? — Engfa resmungou, tentando fechar a parte de trás do vestido de Sonya.

— A Mama Charlotte faz rápido — Sonya comentou, impaciente.

— A Mama Charlotte é uma feiticeira, Sonya. Eu sou apenas uma mortal que sabe desarmar bombas — Engfa finalmente conseguiu prender o último botão. — Agora, o cabelo. O que fazemos com isso?

O cabelo de Sonya era uma mistura das duas: castanho-claro e ondulado como o de Charlotte, mas com a teimosia selvagem do de Engfa.

— Eu quero tranças! Igual às que você usa quando vai lutar no galpão! — Sonya pediu, pulando de alegria.

Engfa hesitou. Suas tranças de luta eram para manter o cabelo longe do rosto durante o combate, feitas com brutalidade e eficiência. Fazer aquilo em uma criança de seis anos exigia uma delicadeza que ela não tinha certeza se possuía nas mãos calejadas de treinos e direção defensiva.

— Tudo bem, mas se ficar torto, a gente diz que é uma nova moda da máfia tailandesa — Engfa sentou Sonya em um banco e começou a trabalhar.

Surpreendentemente, seus dedos foram ficando mais ágeis. Enquanto trançava, ela se viu contando histórias para Sonya — não de fadas, mas de como ela e Charlotte se conheceram em uma reunião de cúpula onde quase todos acabaram mortos, mas elas decidiram que era mais lucrativo (e interessante) se casarem. Claro, ela omitiu as partes com sangue e as substituiu por "negociações intensas".

— E então, quando achamos você naquele beco, a Mama Charlotte olhou para mim e eu soube, pela primeira vez na vida, que ela estava com medo — Engfa sussurrou, terminando a segunda trança. — Não de mim, nem dos inimigos. Ela estava com medo de não saber como cuidar de algo tão pequeno e precioso.

Sonya olhou-se no espelho e sorriu, tocando as tranças firmes.

— Eu gosto de ser cuidada por vocês.

Engfa sentiu um aperto estranho no peito. Um calor que não vinha da adrenalina das corridas. Era algo mais profundo, algo que a tornava vulnerável e, ao mesmo tempo, invencível.

— Certo, chega de sentimentalismo. Temos um horário a cumprir ou a Mama Charlotte vai mandar os cobradores atrás de mim — Engfa pegou a mochila de Sonya e as chaves do SUV.

O trajeto até a escola foi uma aventura por si só. Engfa não conseguiu evitar: ligou o rádio no máximo em uma estação de rock e Sonya acompanhou, batendo as mãos no banco de couro. Quando pararam no sinal vermelho, Engfa percebeu um carro suspeito dois veículos atrás. Seus olhos se estreitaram instantaneamente por trás das lentes dos óculos. O instinto de líder da máfia Waraha assumiu o controle.

— Sonya, abaixe-se um pouco e pegue seu tablet. Não olhe para trás — Engfa disse, a voz subitamente calma e autoritária, a mesma que usava antes de um tiroteio.

— É um jogo, Mama? — Sonya perguntou, já se encolhendo no banco traseiro, acostumada com os protocolos de segurança.

— Sim, pequena. O jogo de "quem some primeiro no trânsito" — Engfa sorriu para o retrovisor, mas seus dedos apertaram o volante com força.

Ela não ia acelerar como uma louca — Charlotte a mataria — mas ela conhecia cada atalho daquela cidade. Com uma manobra precisa e sem quebrar nenhuma lei de trânsito aparente, ela entrou em um beco estreito, cortou por dentro de um estacionamento comercial e saiu três quadras à frente, deixando o carro suspeito preso em um engarrafamento provocado por um caminhão de entregas que, convenientemente, pertencia a uma das empresas de fachada dos Waraha.

Ao chegar na frente da escola, Engfa estacionou o SUV com uma precisão milimétrica. Ela desceu, abriu a porta para Sonya e entregou a lancheira.

— Entregue em segurança — Engfa disse, dando um beijo na testa da menina.

— Mama Engfa? — Sonya parou na entrada do portão. — Você é muito legal. Mesmo sendo preguiçosa.

Engfa riu, observando a pequena entrar. Ela ficou ali por alguns minutos, encostada no carro, vigiando os arredores até ter certeza de que Sonya estava dentro do prédio. Só então ela pegou o celular e discou um número familiar.

— Charlotte? — Engfa disse assim que a chamada foi atendida. — A missão foi concluída. A pequena está na escola. E, a propósito, avise aos seus investidores que se eles mandarem mais um carro de reconhecimento para seguir o meu SUV enquanto eu levo nossa filha para a aula, eu vou transformar o escritório deles em um estacionamento de luxo.

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio, seguido pelo suspiro cansado, mas secretamente aliviado, de Charlotte.

— Eles fizeram isso? — Charlotte perguntou, sua voz agora carregada de uma fúria contida.

— Tentaram. Eu cuidei disso. Mas agora você me deve uma, Austin. Aquelas tranças me custaram muito suor e dignidade.

— Você fez tranças nela? — O tom de Charlotte suavizou-se, quase chegando a um tom carinhoso. — Obrigada, Engfa. De verdade.

— Não se acostume. Agora vou para casa dormir até as duas da tarde. Ser mãe "normal" cansa mais do que uma guerra de gangues.

— Estarei em casa às seis. Não destrua a mansão — Charlotte desligou.

Engfa guardou o celular, ajeitou os óculos e entrou no carro. Ela ainda tinha um império para liderar e corridas para ganhar, mas, enquanto dirigia de volta, percebeu que o contrato que as unia já não parecia mais um papel frio. Era algo vivo, barulhento e que usava tranças de luta. E, pela primeira vez em seus 32 anos, Engfa Waraha sentia que tinha algo que valia a pena proteger com cada gota de seu sangue.