Uma família fora dos planos
O Brilho do Ciúme e o Som do Silêncio
O silêncio na suíte principal da mansão Waraha era absoluto, interrompido apenas pelo tique-taque rítmico de um relógio de parede que Engfa raramente notava. Quando ela finalmente abriu os olhos, a luz do entardecer filtrava-se pelas cortinas de veludo, pintando o quarto com tons de laranja e púrpura. Ela tateou o criado-mudo em busca dos óculos e, ao checar o celular, sentiu o sangue congelar.
Havia doze chamadas perdidas de Charlotte e uma mensagem de texto que dizia apenas: "Eu avisei". Eram 17h15. A escola de Sonya fechava as portas para o turno da tarde às 17h00.
— Droga, droga, mil vezes droga! — Engfa saltou da cama, tropeçando nos próprios pés enquanto vestia uma calça jeans e calçava os tênis sem nem se preocupar com as meias.
Ela correu para a garagem, o coração martelando contra as costelas. Sabia que Charlotte, com sua pontualidade britânica e temperamento de gelo, estaria possuída. Engfa ignorou o protocolo de segurança, não chamou batedores e arrancou com seu Porsche 911 preto, fazendo os pneus gritarem contra o concreto.
Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, Charlotte Austin batia os dedos ritmicamente no volante de seu Mercedes blindado. Ela estava presa em um engarrafamento causado por um acidente na avenida principal. Sua expressão era uma máscara de calma, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma fúria perigosa.
— Ela dormiu demais. Eu sabia que ela ia dormir demais — Charlotte murmurou para si mesma, sentindo uma pontada de culpa por ter confiado na esposa, misturada a uma vontade genuína de estrangular Engfa com o contrato de casamento delas.
Na frente da escola, Sonya estava sentada em um banco de madeira, balançando as perninhas e observando o movimento. Ao seu lado, a professora de artes, uma mulher jovem chamada Miss Sarah, tentava manter a menina entretida. Quando o Porsche de Engfa freou bruscamente na zona de desembarque, Sonya deu um pulo de alegria.
— Mama Engfa! — a pequena gritou, correndo em direção à mulher que saía do carro com o cabelo levemente bagunçado e os óculos tortos no rosto.
— Desculpe o atraso, pequena guerreira! O trânsito estava... — Engfa parou, percebendo que não tinha uma desculpa plausível além da verdade nua e crua. — O trânsito estava um deserto e eu acabei me perdendo nos meus sonhos.
— Você dormiu, não foi? — Sonya perguntou, com as mãos nos quadris, imitando perfeitamente a postura de Charlotte.
— Talvez um pouco — Engfa riu, pegando a menina no colo e dando um beijo em sua bochecha.
— Boa tarde, você deve ser a mãe da Sonya — disse uma voz suave e carregada de uma intenção óbvia.
Engfa virou-se e deu de cara com a professora. Sarah era bonita, usava um vestido floral e tinha um sorriso que tentava ser encantador. Engfa, sendo a pessoa extrovertida e naturalmente charmosa que era, ajustou os óculos e deu seu sorriso de lado mais sarcástico.
— Sou eu mesma. Engfa Waraha. Desculpe por deixar a Sonya aqui até mais tarde, tive alguns... imprevistos de negócios.
— Oh, sem problemas — Sarah disse, dando um passo para mais perto do espaço pessoal de Engfa e enrolando uma mecha de cabelo no dedo. — Eu não me importo de esperar com uma criança tão adorável. E, devo dizer, a Sonya fala muito de você. Ela diz que você é uma piloto profissional?
Engfa soltou uma risada curta, sentindo o ego ser massageado.
— Algo assim. Gosto de velocidade.
— Eu também adoro adrenalina — Sarah continuou, baixando o tom de voz e lançando um olhar sugestivo para Engfa. — Talvez você pudesse me mostrar esse seu carro qualquer dia desses? Ele parece... potente.
Engfa, em sua impulsividade habitual, não percebeu a armadilha. Ela estava prestes a responder com uma de suas piadas irônicas quando o som de uma porta de carro batendo com força excessiva ecoou pelo estacionamento.
Charlotte Austin caminhava em direção a elas como se estivesse marchando para uma execução. O terno cinza perfeitamente ajustado, o olhar gélido e a aura de poder que emanava faziam os outros pais ao redor se afastarem instintivamente.
— Engfa — a voz de Charlotte era um sussurro perigoso.
— Charlotte! Querida! Você chegou — Engfa disse, sentindo um calafrio subir pela espinha.
Charlotte ignorou a esposa completamente. Seus olhos focaram na professora, que ainda estava perigosamente perto de Engfa.
— Sonya, para o carro. Agora — ordenou Charlotte, sem desviar o olhar da mulher à sua frente.
— Tchau, Miss Sarah! — Sonya, percebendo que o clima havia ficado mais frio que o freezer da cozinha, correu para o Mercedes da mãe.
Charlotte finalmente olhou para a professora. Não era um olhar de raiva comum; era o olhar da administradora da máfia Austin avaliando uma ameaça.
— Eu sou Charlotte Austin, a outra mãe da Sonya — disse ela, com uma polidez que cortava como navalha. — Agradeço por cuidar da nossa filha, mas garanto que os "negócios" da minha esposa não a impedirão de ser pontual no futuro. Vamos, Engfa.
— Mas eu estava apenas... — a professora tentou gaguejar, mas Charlotte já havia dado as costas, caminhando com elegância em direção ao seu carro.
Engfa ficou parada por um segundo, olhando para Sarah e depois para as costas de Charlotte.
— É... acho que a aula acabou — Engfa murmurou, correndo atrás da esposa. — Ei, Charlotte! Espera!
Charlotte entrou no Mercedes, fechou a porta e deu partida antes mesmo de Engfa chegar ao vidro. Engfa não teve escolha a não ser voltar para o seu próprio carro e seguir a esposa.
O trajeto de volta para casa foi um exercício de paciência. Charlotte dirigia de forma impecável, mas Engfa sabia que, por dentro, ela estava fervendo. Pelo rádio de comunicação interna dos carros, Engfa tentou contato.
— Charlotte, me atende. Eu sei que você está brava porque eu dormi, mas a professora estava só sendo educada.
Silêncio.
— Charlotte? Amor? Esposa de contrato favorita?
Nada. Charlotte apenas mudou de faixa com uma precisão agressiva.
Quando chegaram à mansão, Charlotte desceu, pegou a mochila de Sonya e entrou em casa sem olhar para trás. Engfa estacionou o Porsche de qualquer jeito e correu para alcançá-la no hall de entrada.
— Sonya, vá lá para cima com a babá e comece o dever de casa — Charlotte disse, sua voz firme enquanto tirava o casaco.
— As mamas vão brigar? — Sonya perguntou, observando as duas com seus olhos atentos.
— Não vamos brigar, pequena. Só vamos ter uma "conferência de negócios" — Engfa tentou aliviar o clima, mas o olhar que recebeu de Charlotte poderia ter congelado o sol.
Assim que Sonya subiu as escadas, Charlotte virou-se para Engfa. O silêncio na sala era tão denso que poderia ser cortado com uma das facas de combate de Engfa.
— Você é patética, Waraha — Charlotte disse finalmente, sua voz baixa e carregada de desdém.
— Patética por que? Porque eu perdi a hora? Eu já pedi desculpas por isso! — Engfa jogou as chaves na mesa de centro. — Eu estava cansada, Charlotte. Ontem à noite eu tive que limpar a bagunça que os Lee deixaram no porto enquanto você estava revisando planilhas!
— Não estou falando do horário — Charlotte deu um passo à frente, os olhos brilhando. — Estou falando daquela cena ridícula no estacionamento. Você estava lá, toda sorridente, deixando aquela mulher flertar com você na frente da nossa filha!
Engfa piscou, surpresa. Um sorriso involuntário e convencido começou a surgir em seus lábios.
— Espera aí... Charlotte Austin está com ciúmes?
— Não seja idiota. Eu não sinto ciúmes de você — Charlotte retrucou rápido demais, cruzando os braços. — Eu me preocupo com a imagem da nossa união. Nós temos um contrato. Se as pessoas virem você agindo como uma adolescente carente com qualquer professora de escola primária, isso enfraquece a nossa posição de poder.
— Ah, claro. É tudo sobre o "poder" e a "posição" — Engfa revirou os olhos, aproximando-se de Charlotte até que elas estivessem a poucos centímetros de distância. — Engraçado, porque o jeito que você olhou para aquela mulher parecia muito mais com o desejo de enterrar ela em um pilar de concreto do que com uma preocupação financeira.
Charlotte sustentou o olhar. Ela era mais alta que Engfa, o que geralmente lhe dava uma vantagem de intimidação, mas Engfa nunca se deixava intimidar.
— Você não cortou o flerte, Engfa. Você ficou lá, com aquele sorrisinho idiota, aproveitando a atenção — Charlotte disse, e por um breve momento, a máscara de gelo rachou, revelando uma mágoa genuína. — Sonya estava lá. Eu estava lá. E você agiu como se estivesse solteira.
O sorriso de Engfa desapareceu. Ela percebeu que, para Charlotte, aquilo não era sobre o contrato. Era sobre respeito. Ou algo que ambas tinham medo de admitir que estava crescendo entre elas.
— Charlotte... — Engfa estendeu a mão, mas Charlotte recuou. — Eu sinto muito. Eu sou uma idiota, você sabe disso. Eu gosto de atenção, é da minha natureza, mas eu não tive a intenção de desrespeitar você ou a Sonya. Eu nem percebi que ela estava indo tão longe até você aparecer como a Rainha do Gelo para salvar o dia.
— Você nunca percebe nada que não envolva motores ou socos — Charlotte suspirou, desviando o olhar. — Vá tomar um banho, Engfa. Você cheira a sono e a perfume barato de professora de artes.
Engfa soltou uma risada anasalada, tentando quebrar a tensão.
— É lavanda. O perfume dela era de lavanda. Mas eu prefiro o seu. Cheira a dinheiro e a sabonete caro.
Charlotte não respondeu, mas Engfa notou que os ombros dela relaxaram um pouco.
— Eu vou compensar você — Engfa continuou, seguindo Charlotte até a cozinha. — Eu preparo o jantar. E prometo que amanhã eu chego na escola vinte minutos antes, com um terno tão caro que vai fazer todos os pais pensarem que eu sou a dona da cidade.
— Você já acha que é a dona da cidade — Charlotte disse, pegando uma taça de vinho. — E você não sabe cozinhar nada que não venha em uma caixa de papelão.
— Eu sei fazer um macarrão instantâneo que é uma obra de arte — Engfa brincou, aproximando-se novamente. Desta vez, ela colocou as mãos na cintura de Charlotte, com cuidado. — Me desculpa?
Charlotte olhou para as mãos de Engfa em sua cintura, depois para o rosto da esposa. Os óculos de Engfa estavam levemente caídos, e a pequena cicatriz na bochecha parecia mais suave sob a luz da cozinha.
— Se isso acontecer de novo, Engfa, eu juro que reviso a cláusula de fidelidade do contrato e deixo você sem nem um pneu reserva para correr — Charlotte ameaçou, mas sua voz não tinha mais o fio cortante de antes.
— Justo — Engfa sorriu, inclinando a cabeça. — Mas admita... você gosta de me ver em perigo, não gosta?
— Eu gosto de ver você em silêncio. O que é uma raridade — Charlotte deu um gole no vinho, permitindo-se um pequeno sorriso de canto.
Engfa aproximou o rosto do de Charlotte, a tensão mudando de raiva para algo muito mais elétrico. Por um momento, o mundo da máfia, os contratos e as brigas desapareceram.
— Mama! O papai do desenho disse que mentir é feio! — a voz de Sonya ecoou do topo da escada. — A Mama Engfa mentiu sobre o trânsito!
As duas se afastaram rapidamente, como adolescentes pegas em flagrante. Charlotte limpou a garganta, recuperando sua compostura instantaneamente.
— Viu só? Até a criança sabe que você é uma mentirosa — Charlotte disse, recuperando sua máscara de indiferença, embora houvesse um brilho diferente em seus olhos.
— É, mas ela também sabe que você não consegue ficar brava comigo por muito tempo — Engfa piscou para Charlotte e gritou para cima: — Sonya! Venha aqui ajudar a Mama Engfa a decidir qual pizza vamos pedir! A Mama Charlotte está pagando!
— Eu não concordei com isso! — Charlotte protestou, mas já era tarde demais. Sonya já estava descendo as escadas correndo.
Enquanto a menina pulava entre elas, Engfa lançou um olhar cúmplice para Charlotte. O contrato as unia pelo papel, Sonya as unia pelo amor, mas aquele ciúme repentino... aquilo era algo que nenhuma máfia poderia controlar. E, no fundo, ambas sabiam que a noite estava apenas começando.