Uma família fora dos planos
O Encontro de Duas Dinastias e o Veneno do Ciúme
O sol da manhã refletia-se na lataria impecável do Mercedes blindado de Charlotte Austin. Após os eventos caóticos do dia anterior e a "limpeza" necessária que Faye e Engfa realizaram, Charlotte decidiu que a rotina precisava ser restaurada com mão de ferro. Isso significava que ela mesma levaria Sonya à escola, evitando que Engfa transformasse o trajeto em uma cena de *Velozes e Furiosos* ou que a professora de artes, Miss Sarah, tivesse qualquer oportunidade de lançar olhares insinuantes para sua esposa.
— Mama Charlotte, por que a Mama Engfa ainda está dormindo? — perguntou Sonya, ajeitando a mochila nas costas enquanto entravam no carro. — Ela disse que ia me ensinar a fazer um "drift" na curva da padaria hoje.
— Sua Mama Engfa precisa de um descanso forçado, pequena — respondeu Charlotte, sua voz mantendo a calma autoritária de sempre. — E nós não faremos "drifts". Chegaremos cinco minutos antes do sinal, de forma civilizada e sem queimar pneus.
Ao chegarem à escola de elite, Charlotte desceu do carro com a elegância de uma rainha. Seus olhos castanhos varreram o perímetro por puro instinto, mas o ambiente parecia seguro. Ela deixou Sonya no portão, observando a filha caminhar com aquela postura que, apesar de ter apenas seis anos, já exalava a confiança de uma herdeira Waraha.
— Comporte-se. E lembre-se: se alguém for rude, você não usa os punhos, usa a inteligência — instruiu Charlotte.
— E depois eu uso os punhos? — Sonya perguntou com um brilho travesso.
— Pergunte à sua outra mãe sobre isso mais tarde — Charlotte suspirou, dando um beijo na testa da menina antes de partir para um dia de reuniões financeiras intensas.
No interior da escola, o corredor estava movimentado. Sonya caminhava distraída, pensando se conseguiria convencer Faye a deixá-la mexer no sistema de som da escola, quando sentiu um impacto. Outra criança, vindo na direção oposta, colidiu com seu ombro.
O esbarrão não foi forte o suficiente para derrubá-las, mas foi o suficiente para que ambas parassem e se medissem.
Sonya ajustou a postura, estreitando os olhos de forma observadora, exatamente como Charlotte fazia quando desconfiava de um contrato. À sua frente estava uma garotinha de cabelos escuros e olhar extremamente analítico. O nome dela era Lookmhee.
Lookmhee não recuou. Ela não parecia uma criança comum que pediria desculpas choramingando. Havia algo na forma como ela mantinha os pés firmes no chão e o queixo erguido que gritava disciplina. Lookmhee era filha de Freen Sarocha e Becky Armstrong, duas das policiais mais condecoradas e temidas do país. Ela cresceu ouvindo sobre táticas de cerco e estratégias de interrogatório.
— Você deveria prestar atenção por onde anda — disse Sonya, sua voz firme, embora infantil.
Lookmhee inclinou a cabeça, analisando Sonya de cima a baixo. Ela reconheceu o relógio de marca no pulso da outra e a forma como Sonya não desviava o olhar.
— O corredor é público. Você estava no meio do caminho — rebateu Lookmhee com uma calma gélida que lembrava muito a de sua mãe, Becky. — Mas eu aceito que foi um erro de cálculo mútuo.
Sonya arqueou uma sobrancelha. Ela nunca tinha ouvido uma criança de seis anos usar a expressão "erro de cálculo mútuo".
— Você fala como as pessoas que trabalham para a minha Mama Charlotte — comentou Sonya, agora curiosa.
— E você tem o olhar de quem gosta de causar problemas, como os suspeitos que minha Mama Freen prende — Lookmhee respondeu, mas um pequeno sorriso de canto apareceu em seu rosto.
As duas ficaram ali por um momento, uma pequena mafiosa e uma pequena policial, reconhecendo em silêncio que eram diferentes de todas as outras crianças daquela escola. Havia uma conexão silenciosa entre quem cresce entre mentes estratégicas e segredos de Estado ou do submundo.
— Eu sou Sonya — disse a pequena Waraha, estendendo a mão de forma cerimoniosa.
— Lookmhee — respondeu a outra, apertando a mão de Sonya com uma firmeza incomum para a idade.
***
Enquanto isso, na mansão, Engfa Waraha acordava com o humor de quem tinha acabado de ganhar uma corrida clandestina. Ela se sentia revigorada. O acerto de contas com Sulax na noite anterior havia tirado um peso de seus ombros, e o beijo de Charlotte no escritório ainda queimava em sua memória.
Ela olhou para o relógio. 16h30.
— Droga! — exclamou Engfa, pulando da cama. — Charlotte vai me matar se eu me atrasar de novo.
Ela vestiu uma camisa social preta, deixou os primeiros botões abertos, colocou seus óculos e pegou as chaves do seu Skyline customizado. Se Charlotte queria pontualidade, ela teria pontualidade, mas com o estilo Waraha.
Engfa chegou à escola exatamente vinte minutos antes do horário de saída. Ela estacionou em uma vaga proibida, encostou-se no capô do carro e cruzou os braços, ignorando os olhares de reprovação de outros pais e os olhares de admiração de algumas mães (e da professora Sarah, que a observava de longe com um suspiro).
Quando o sinal finalmente tocou, Engfa viu Sonya saindo. Mas ela não estava sozinha.
Sonya vinha caminhando e conversando animadamente com Lookmhee. As duas pareciam estar discutindo algo sério, gesticulando com as mãos. Engfa sentiu uma pontada estranha no peito. Não era medo, não era raiva... era algo novo. Um ciúme maternal possessivo.
— Quem é aquela mini-adulta com a minha filha? — resmungou Engfa para si mesma, ajeitando os óculos.
Sonya viu Engfa e correu em sua direção, mas parou no meio do caminho para esperar Lookmhee.
— Mama Engfa! — gritou Sonya. — Esta é a Lookmhee. Ela sabe tudo sobre como a polícia funciona e eu contei para ela que você é a melhor motorista do mundo!
Engfa olhou para Lookmhee. A garotinha retribuiu o olhar com uma seriedade impressionante.
— Boa tarde, senhora Waraha — disse Lookmhee, educadamente. — Sonya me disse que seu carro tem um motor biturbo modificado. É uma escolha interessante para a cidade, embora pouco eficiente em termos de consumo de combustível.
Engfa piscou, completamente atordoada.
— Ela... ela acabou de criticar o meu consumo de combustível? — Engfa perguntou a Sonya, que deu de ombros.
— Ela é inteligente, Mama. E ela disse que o pai dela tem um carro que pode alcançar o seu em uma perseguição — Sonya comentou, parecendo orgulhosa da nova amiga.
— Ah, é? — Engfa estreitou os olhos para Lookmhee. — Diga ao seu pai que, se ele quiser tentar me alcançar, é melhor ele ter um paraquedas no carro, porque eu só ando em velocidade de decolagem.
— Minhas mamas são policiais, senhora — corrigiu Lookmhee com um sorriso educado. — Elas não usam paraquedas, usam bloqueios de estrada.
Engfa sentiu um calafrio. Policiais? Sonya estava fazendo amizade com a filha da lei? Isso era um pesadelo logístico para a máfia.
— Certo, Sonya. Hora de ir — disse Engfa, pegando a mochila da filha com uma pressa repentina. — Tchau, Lookmhee. Diga às suas mães que... na verdade, não diga nada. Só tchau.
Engfa colocou Sonya no carro e saiu dali o mais rápido que a lei permitia (e talvez um pouco além). Durante todo o caminho, Sonya não parou de falar sobre como Lookmhee era legal, como ela sabia lutar judô e como elas iam brincar juntas novamente.
Ao chegarem na mansão, Charlotte já estava lá, revisando alguns papéis na sala de estar. Ela notou imediatamente a expressão de Engfa: um misto de indignação e beicinho.
— O que aconteceu? — perguntou Charlotte, fechando o tablet. — Você se atrasou? Bateu o carro? A professora Sarah tentou te sequestrar?
— Pior — disse Engfa, jogando as chaves no sofá e sentando-se de forma dramática. — A nossa filha foi trocada.
Charlotte franziu a testa, olhando para Sonya, que corria para a cozinha para pedir um lanche.
— Ela parece bem para mim.
— Ela fez uma amiga, Charlotte! — Engfa exclamou, gesticulando freneticamente. — Uma garotinha chamada Lookmhee. Ela é... ela é assustadora! Ela tem seis anos e fala sobre "eficiência de combustível" e "bloqueios de estrada". E o pior: as mães dela são policiais!
Charlotte não conseguiu conter um pequeno sorriso. Ela já tinha ouvido falar da família Sarocha-Armstrong. Eram lendas no departamento de polícia.
— E por que isso te deixa com essa cara, Engfa?
— Porque a Sonya não parava de olhar para ela como se ela fosse a coisa mais legal do mundo! — Engfa cruzou os braços, emburrada. — Eu sou a Mama legal! Eu sou a que ensina golpes e faz drifts! Aí chega essa mini-policial com termos técnicos e a Sonya fica fascinada? Eu senti uma vibração ali, Charlotte. Um vínculo.
Charlotte soltou uma gargalhada genuína, levantando-se e caminhando até a esposa. Ela parou entre as pernas de Engfa, colocando as mãos em seus ombros.
— Engfa Waraha... você está me dizendo que está com ciúmes de uma criança de seis anos?
— Não é ciúmes! É... preocupação estratégica — mentiu Engfa, embora suas bochechas estivessem levemente coradas. — E se a Sonya decidir que quer ser policial agora? Imagine o jantar de Natal. Eu contando como roubei um carregamento de diamantes e a minha filha tentando me dar voz de prisão entre o peru e a rabanada.
Charlotte inclinou-se, beijando a ponta do nariz de Engfa.
— Você é ridícula. A Sonya adora você. Ela passou a manhã inteira me perguntando quando você ia acordar.
— Ela perguntou? — O brilho nos olhos de Engfa voltou instantaneamente.
— Perguntou. Mas o fato de ela ter feito uma amiga inteligente é bom. Talvez a Lookmhee traga um pouco de ordem para a vida caótica que você ensina a ela.
— Ordem é chato, Austin. O caos é muito mais divertido — Engfa envolveu a cintura de Charlotte, puxando-a para mais perto. — Mas sério, se eu vir aquela garotinha dando conselhos sobre leis para a minha filha de novo, eu vou ter que intervir.
— Você não vai fazer nada — Charlotte sentenciou, sua voz tornando-se aquele tom de comando que Engfa secretamente amava. — Você vai aceitar que nossa filha está crescendo e que ela pode ter amigos de diferentes... esferas sociais.
— Esferas sociais? Charlotte, as mães dela prendem pessoas como nós!
— Exatamente — Charlotte sorriu de forma enigmática. — Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos, ou os filhos deles, mais perto ainda. Não foi você quem me ensinou isso?
Engfa parou por um momento, processando a lógica distorcida e brilhante de sua esposa.
— Você é diabólica, Austin. Eu amo isso em você.
— Eu sei que ama. Agora, vá lavar as mãos. Sonya quer que a gente jante juntas hoje para contar sobre o "plano de dominação do parquinho" que ela e a Lookmhee criaram.
Engfa suspirou, derrotada pela fofura da filha e pela astúcia da esposa.
— Tudo bem. Mas se a Lookmhee vier brincar aqui, eu vou esconder todas as minhas ferramentas de arrombamento. Só por precaução.
Charlotte riu, deixando um beijo rápido nos lábios de Engfa antes de ir para a cozinha. Engfa ficou ali por um momento, olhando para o nada. Ela sabia que sua vida com Charlotte e Sonya nunca seria normal, mas agora, com filhas de policiais envolvidas, as coisas iam ficar ainda mais interessantes.
— Ciúmes de uma criança... — resmungou Engfa, levantando-se. — Eu não tenho ciúmes. Eu só tenho um padrão de qualidade muito alto para quem se aproxima da minha princesa.
Ela caminhou para a cozinha, onde Sonya já explicava para Charlotte como a "estratégia de pinça" da Lookmhee era eficaz para cercar os meninos que não queriam dividir o balanço. Engfa sorriu. O submundo podia ser perigoso, mas a política de uma escola primária era, definitivamente, o novo campo de batalha das Waraha-Austin. E, no fundo, Engfa mal podia esperar para ver onde aquilo ia dar.