Uma família fora dos planos
Sombras no Vidro e o Código da Família
O porão da mansão Waraha-Austin não era um lugar que Sonya conhecia, e Faye Peraya pretendia manter as coisas assim. Enquanto a garotinha estava segura no quarto de pânico, cercada por almofadas e um tablet carregado com desenhos animados, Faye lidava com a realidade crua do submundo.
Dois homens estavam amarrados a cadeiras de metal sob a luz fria de uma lâmpada nua. Eles trajavam ternos baratos e tinham a marca da facção de Sulax tatuada nos pulsos. Faye, segurando um canivete borboleta que girava entre seus dedos com uma agilidade hipnotizante, caminhava ao redor deles com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Vocês escolheram o dia errado, o CEP errado e a babá errada — Faye disse, a voz suave como o ronco de um motor antes da explosão. — Eu ia levar a Sonya para tomar sorvete, mas agora estou aqui, perdendo meu tempo com dois amadores que acharam que podiam invadir a casa da Engfa Waraha.
Um dos homens tentou cuspir no chão, mas Faye foi mais rápida, atingindo-o no estômago com um chute seco que o fez perder o fôlego.
— Vamos pular a parte em que vocês fingem ser leais — continuou Faye, encostando a lâmina fria no pescoço do segundo homem. — Quem deu a ordem direta? Foi o Sulax ou um dos capangas de médio escalão dele que quer impressionar o chefe?
— Você está morta, Peraya — rosnou o homem. — O mestre Sulax vai tomar tudo o que é das Austin.
Faye soltou uma risada estridente, quase maníaca.
— "Mestre Sulax"? Que brega. — Ela pressionou a lâmina apenas o suficiente para fazer um filete de sangue aparecer. — Me deem um motivo para não enviar os dedos de vocês para ele pelo correio expressa. Falem agora.
Enquanto Faye "negociava" em Bangkok, o clima em Chiang Mai havia atingido o ponto de ebulição.
No salão de festas, Sulax estava cercado por dois guarda-costas, rindo de uma piada interna enquanto saboreava um champanhe vintage. Ele se sentia intocável. No seu mundo, a tentativa de sequestro em Bangkok era apenas uma jogada de xadrez para desestabilizar os Waraha e forçar os Austin a uma renegociação.
Ele não viu Engfa se aproximar.
Engfa Waraha caminhava com uma calma gélida, os óculos de grau levemente baixos no nariz, os olhos fixos no alvo. Ela pegou uma taça de vinho de uma bandeja que passava, mas não bebeu. Quando parou a poucos centímetros de Sulax, o homem sorriu, achando que ela vinha propor uma trégua.
— Mudou de ideia, Engfa? Percebeu que o norte é grande demais para você? — Sulax perguntou, a arrogância transbordando.
— Eu mudei muitas coisas hoje, Sulax — Engfa disse, sua voz baixa e mortal. — Mas a primeira coisa que vou mudar é a sua capacidade de tocar em qualquer coisa que me pertence.
Em um movimento tão rápido que os guarda-costas não tiveram tempo de reagir, Engfa quebrou a base da taça contra a borda de uma mesa de mármore. O som do cristal estilhaçando foi abafado pela música ambiente, mas o grito que se seguiu não foi.
Com a precisão de quem treinou mil vezes o mesmo golpe, Engfa cravou o vidro quebrado na palma da mão direita de Sulax, aquela que ele havia usado para beijar a mão de Charlotte. O homem soltou um urro de dor, o champanhe caindo no chão enquanto o sangue começava a manchar seu terno caro.
— Isso é pela minha esposa — sibilou Engfa.
Antes que um dos seguranças pudesse sacar a arma, Engfa girou o corpo, desferindo um soco de direita que acertou em cheio o nariz de Sulax com um estalo seco de osso partindo. Ela não parou. A adrenalina, misturada ao instinto protetor, transformou-a em uma máquina de combate.
Ela desferiu um segundo soco no queixo, seguido por uma cotovelada que fez o homem cambalear. Engfa o agarrou pelo colarinho, puxando-o para perto enquanto desferia uma sucessão de golpes rápidos e brutais no rosto dele.
— E isso... — ela disse, entre um soco e outro — ...é pela minha filha! Se você olhar para a direção da minha casa de novo, eu não vou usar as mãos. Eu vou usar um tanque.
Os seguranças de Sulax finalmente avançaram, mas foram interceptados por P’Nam e outros três soldados da máfia Waraha que surgiram das sombras, armas em punho, silenciosos e eficientes.
Charlotte Austin observava a cena de longe, encostada em uma coluna de mármore. Ela não interveio. Sua expressão era de uma indiferença gélida, embora, por dentro, sentisse uma satisfação sombria. Ela sabia que Engfa precisava daquilo. A máfia não era apenas sobre números e contratos; às vezes, era sobre sangue e território.
Engfa soltou o corpo agora mole de Sulax, que desabou sobre uma mesa de canapés, arruinando a decoração e a própria dignidade. Ela limpou o sangue dos nós dos dedos com um guardanapo de seda, ajeitou os óculos e caminhou até Charlotte.
— Podemos ir agora? — perguntou Engfa, a respiração ainda um pouco pesada, a pequena cicatriz na bochecha destacada pela adrenalina.
— Você demorou três minutos a mais do que o necessário — comentou Charlotte, embora tenha estendido a mão para Engfa. — Mas o ponto foi bem colocado. Vamos para casa.
***
A viagem de volta no jato particular foi silenciosa. Charlotte estava focada no tablet, coordenando com Faye a limpeza dos vestígios em Bangkok, enquanto Engfa olhava pela janela, a mão ainda dolorida dos socos.
— Faye disse que os intrusos já abriram o bico — Charlotte quebrou o silêncio. — Eles confirmaram que Sulax queria a Sonya para nos forçar a ceder as rotas de transporte do sul.
Engfa apertou o punho.
— Ele nunca chegaria perto dela. Faye é doida, mas é a melhor.
— Eu sei. Mas isso muda as regras do jogo, Engfa. O contrato entre nossas famílias previa proteção mútua, mas agora... agora é pessoal.
Engfa olhou para Charlotte e viu, pela primeira vez, uma chama de fúria nos olhos da esposa que rivalizava com a sua.
— Sempre foi pessoal, Charlotte. Desde que achamos aquela garotinha naquele beco.
Quando chegaram à mansão, as luzes estavam todas acesas. O portão principal foi aberto por soldados que pareciam mais alertas do que o normal. Ao entrarem no hall de entrada, a cena era, no mínimo, peculiar.
Faye estava jogada no sofá de couro italiano, com os pés em cima da mesa de centro, comendo uma fatia de pizza fria. Ao redor dela, havia três monitores exibindo linhas de código verdes e o que parecia ser o sistema de segurança da prefeitura de Bangkok.
— Finalmente! — exclamou Faye, sem tirar os olhos da tela. — Achei que vocês tinham decidido ficar para o café da manhã com os mortos.
Charlotte olhou para a sala. Havia farelos de pizza por toda parte, uma lata de energético derramada perto de um tapete persa e o sistema de hackeamento de Faye estava aberto, expondo dados confidenciais que fariam qualquer agência do governo entrar em pânico.
— Faye Peraya... o que eu disse sobre comer na sala e expor nossos servidores? — a voz de Charlotte subiu um tom.
— Relaxa, Austin! Eu salvei a sua linhagem hoje, mereço um pouco de desordem — Faye deu de ombros, sorrindo.
Antes que Charlotte pudesse retrucar, passos rápidos soaram no andar de cima.
— Mama! Mama Charlotte! Mama Engfa!
Sonya desceu as escadas como um pequeno furacão, ainda usando sua bandana de "ninja" e o batom escuro que Faye tinha passado nela. Ela se jogou nos braços de Engfa, que a pegou no colo com um suspiro de alívio puro.
— Oi, minha pequena guerreira! — Engfa a abraçou apertado, sentindo o cheiro de sabonete e infância que a menina exalava. — Você está bem? A Tia Faye cuidou de você?
— Sim! — Sonya exclamou, os olhos brilhando. — Nós brincamos de esconde-esconde de elite e a Tia Faye me ensinou a abrir as portas da cidade pelo computador! Ela disse que agora eu posso fazer todos os sinais ficarem verdes para você correr com o carro!
Engfa soltou uma gargalhada alta, olhando para Charlotte, que estava com a mão na testa, processando a informação.
— Viu só, Charlotte? Ela é um prodígio — Engfa provocou.
— Ela é uma ameaça à ordem pública, isso sim — murmurou Charlotte, mas não conseguiu evitar o sorriso ao ver a filha sã e salva. Ela se aproximou e acariciou o rosto de Sonya. — Como foi o evento, pequena? Você se comportou com a Tia Faye?
— Foi muito legal! A Tia Faye fez "pow pow" lá fora, mas ela disse que era só fogos de artifício especiais para comemorar que eu ganhei o jogo — Sonya contou com toda a inocência de seus seis anos.
Charlotte lançou um olhar mortal para Faye, que apenas levantou a fatia de pizza em um brinde silencioso.
— E o evento das mamas? — Sonya perguntou, olhando para Engfa. — Vocês ganharam o troféu?
Engfa olhou para Charlotte. As mãos de ambas ainda carregavam os vestígios da noite: Engfa com os nós dos dedos inchados e Charlotte com a mente cheia de novas estratégias de guerra.
— Ganhamos, pequena — disse Engfa, colocando Sonya no chão. — Digamos que a concorrência decidiu... se aposentar mais cedo.
— Que bom! — Sonya bateu palmas. — Agora podemos comer pizza? A Tia Faye disse que pizza de madrugada é o café da manhã dos campeões.
— Só se a Tia Faye ajudar a limpar essa bagunça antes — Charlotte impôs, apontando para os laptops e os farelos.
— Ah, qual é, Austin! Eu sou uma hacker de elite, não uma faxineira! — reclamou Faye, mas já começando a fechar as abas do sistema de segurança.
Engfa caminhou até Charlotte enquanto Sonya e Faye começavam uma discussão sobre qual sabor de pizza era o melhor. Ela parou ao lado da esposa, observando a cena. A mansão, que antes era apenas um monumento ao poder e aos contratos, agora parecia um lar. Um lar caótico, perigoso e fora da lei, mas um lar.
— Você está bem? — Engfa perguntou em voz baixa, apenas para Charlotte ouvir.
Charlotte olhou para a esposa. Engfa ainda usava os óculos, que estavam levemente tortos, e havia uma mancha de sangue seco no punho de sua camisa vinho. Charlotte estendeu a mão e ajeitou a armação no rosto de Engfa, seus dedos roçando a pele da bochecha.
— Estou. Só estou pensando que vamos precisar de um sistema de segurança novo. E de uma babá que não ensine crimes cibernéticos para crianças.
— Boa sorte com isso — Engfa riu, envolvendo a cintura de Charlotte com um braço. — Mas admita... a Faye fez um bom trabalho.
— Ela fez — Charlotte cedeu, encostando a cabeça no ombro de Engfa por um breve momento. — E você também. Embora tenha sido desnecessariamente dramática com aquela taça de vidro.
— Drama é a minha especialidade, querida. Você cuida do financeiro, eu cuido do espetáculo.
— Mamas! A pizza está esfriando! — gritou Sonya da mesa da cozinha.
As duas mafiosas mais temidas do país trocaram um olhar. O contrato que as unira era de papel e sangue, mas o laço que as mantinha ali, naquela cozinha bagunçada, era algo que nenhuma delas sabia explicar, mas que ambas estavam dispostas a queimar o mundo para proteger.
— Vamos comer — disse Charlotte, assumindo o controle novamente. — Mas amanhã, Engfa, você vai explicar para a escola por que a Sonya está usando batom gótico.
— Eu digo que é a nova tendência da máfia — Engfa piscou, seguindo a esposa. — Eles vão acreditar. Todo mundo acredita em uma Waraha.
A noite terminou com risadas, o som de teclados sendo fechados e o calor de uma família que, apesar de ter nascido de um contrato de ódio, havia encontrado sua própria forma distorcida e perfeita de amor. O submundo continuaria lá fora, com seus Sulax e suas traições, mas dentro daquelas paredes, as rainhas estavam em seu trono, e sua princesa estava segura.