uma noite
Máscaras, Sombras e Mentiras Convenientes
O sol de segunda-feira entrou pelas janelas da escola com uma agressividade que Nicolas Farrabras considerava pessoal. Ele estava sentado no fundo da sala, a expressão mais gélida do que o costume, os braços cruzados sobre o peito largo. Seus olhos escuros não saíam da porta. Cada fibra do seu ser calculista tentava processar o que havia acontecido na sexta-feira à noite. Ele a possuíra, e ela o possuíra de volta, em um embate de dentes, unhas e sussurros obscenos que ainda queimavam em sua memória.
Quando Eduarda finalmente entrou na sala, ela não parecia a garota que quase implodira sob ele. Ela estava radiante, como sempre. O cabelo cacheado preto perfeitamente definido, a saia do uniforme desafiando as normas da instituição e aquele sorriso que parecia iluminar — ou incendiar — qualquer ambiente.
— Bom dia, grupo! — ela exclamou, jogando a mochila sobre uma mesa na frente, longe de Nicolas. — Alguém sobreviveu à ressaca ou só eu que sou feita de aço?
O burburinho começou instantaneamente. Nicolas observou, com o maxilar travado, como os garotos do time de futebol trocavam olhares e risadinhas.
— Com certeza a Duda sobreviveu — sussurrou um deles, alto o suficiente para Nicolas ouvir. — Dizem que ela deu para metade da festa depois que sumiu com o Farrabras. Aquela ali não nega fogo, é a rodada da escola por um motivo.
Nicolas sentiu uma onda de fúria fria percorrer sua espinha. Ele conhecia os boatos. Todo mundo conhecia. Que Eduarda era "fácil", que ela já tinha passado pela mão de todos os veteranos, que seu apetite era insaciável. Mas, enquanto a observava rir de uma piada qualquer, algo não batia. Na sexta-feira, entre os lençóis bagunçados, ele vira algo diferente. Havia uma hesitação escondida sob a luxúria, uma intensidade que não vinha de alguém que fazia aquilo por esporte, mas de alguém que usava o prazer como um escudo.
— Cala a boca, Andrey — uma voz feminina e cortante interrompeu os pensamentos de Nicolas.
Era Gabriella, uma das melhores amigas de Eduarda. Ela tinha os cabelos lisos e um olhar de quem não aceitava desaforo. Logo atrás dela, Pollyana e Grazielly formavam o séquito que protegia Eduarda como uma guarda pretoriana.
Gabriella caminhou até Andrey, o namorado, e deu um tapa leve, mas repreensivo, no braço dele.
— Se eu ouvir você repetindo essas fofocas de corredor sobre a minha amiga, você vai dormir no sofá por um mês, ouviu? — Gabriella sibilou.
— Relaxa, Gabi, é o que todo mundo diz — Andrey tentou se defender, mas murchou sob o olhar da namorada.
— O que "todo mundo diz" e a verdade são continentes diferentes — Grazielly interveio, ajeitando os óculos com um ar de superioridade. Ela era a mais observadora do grupo. — Pessoas pequenas precisam de histórias grandes para se sentirem importantes.
Nicolas continuou imóvel, sua aura sombria afastando qualquer um que pensasse em se sentar perto dele. Ele viu Eduarda se juntar às amigas. A máscara de "safada e extrovertida" estava impecável, mas ele notou como ela evitava olhar para o fundo da sala. Evitava olhar para ele.
No intervalo, o ginásio era o refúgio de Nicolas. Ele estava arremessando sozinho, o som da bola no aro servindo como terapia, quando as quatro garotas entraram e se sentaram na arquibancada.
— Você não vai falar com ele? — Pollyana perguntou, cutucando Eduarda. Pollyana era a mais doce do grupo, mas tinha uma curiosidade perigosa. — Todo mundo viu vocês sumindo na festa.
Eduarda soltou uma risada alta, aquela risada que Nicolas agora sabia que era um mecanismo de defesa.
— O Farrabras? Gente, aquilo foi só um lanche rápido. Ele é muito tenso, precisa de umas dez sessões de terapia e vinte de sexo para virar gente.
— Você é uma mentirosa péssima, Duda — Gabriella disse, cruzando as pernas. — Eu vi sua cara quando saiu daquele quarto. Você não estava com cara de quem comeu um lanche. Estava com cara de quem viu um fantasma. Ou um deus.
Eduarda ficou subitamente séria. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo *chuá* da bola de Nicolas caindo na cesta. Ele parou, segurou a bola contra o quadril e virou-se para elas. A distância era grande, mas a tensão era palpável.
— O treino é privado — Nicolas disse, sua voz ecoando grave pelo ginásio.
— O ginásio é público, poste deprimido! — Eduarda gritou de volta, recuperando a postura. — E eu gosto da vista. Seus músculos suados são a única coisa interessante nessa escola hoje.
Nicolas caminhou em direção a elas. Cada passo era calculado, intimidante. As amigas de Eduarda se empertigaram, mas não recuaram.
— Eduarda, vem aqui — ele ordenou, parando na base da arquibancada.
— Ih, olha o tom! — Grazielly comentou baixo. — Ele acha que é o dono da bola e da dona da bola.
Eduarda suspirou e desceu os degraus de concreto. Ela parou na frente dele, desafiadora, mas Nicolas viu o leve tremor em suas mãos.
— O que foi, capitão? Quer repetir a dose ou vai me dar um sermão sobre física quântica?
Nicolas se inclinou, diminuindo a distância até que apenas o ar quente entre eles restasse.
— Por que você deixa eles falarem? — ele perguntou, tão baixo que apenas ela podia ouvir.
— Falarem o quê? — Ela tentou desviar o olhar.
— Que você é de todo mundo. Que você é "de rodada". Eu estive com você, Eduarda. Eu sei que aqueles boatos são lixo. Eu sei que você veste essa personagem para ninguém chegar perto do que realmente importa.
O sorriso de Eduarda vacilou. Por um segundo, a garota animada e vulgar desapareceu, dando lugar a uma mulher com olhos carregados de uma dor antiga e sombria.
— Você não sabe de nada, Nicolas — ela sussurrou, a voz subitamente rouca. — Você calcula trajetórias de bolas de basquete, não vidas humanas. Algumas pessoas preferem ser odiadas pelo que fingem ser do que destruídas pelo que realmente são.
— O que aconteceu com você? — Ele deu um passo à frente, sua aura dark e protetora envolvendo-a.
Antes que ela pudesse responder, Gabriella se aproximou, colocando uma mão no ombro de Eduarda. O olhar que a amiga lançou a Nicolas não era de diversão, mas de aviso.
— Deixa ela, Nicolas — disse Gabriella com firmeza. — Você é inteligente, mas tem coisas que não estão nos seus livros. A Duda passou por coisas em outra cidade, antes de vir para cá, que um garoto mimado como você não entenderia.
— Eu não sou mimado — Nicolas rebateu, os olhos fixos em Eduarda.
— Então prove — disse Pollyana, aproximando-se também. — Se você quer mesmo entrar na vida dela, saiba que não é só baixaria e provocação. Ela tem cicatrizes que você nem imagina.
Eduarda se soltou do toque de Gabriella e respirou fundo, recompondo a máscara de ferro.
— Chega de drama! — ela exclamou, voltando ao tom vibrante. — Nicolas, querido, menos papo filosófico e mais ação. Se quiser saber mais sobre mim, vai ter que suar muito mais do que nesse treino medíocre.
Ela se virou e saiu caminhando com as amigas. Nicolas observou o movimento de seus quadris, mas, desta vez, não havia apenas desejo. Havia uma curiosidade científica e uma possessividade que ele não conseguia mais ignorar.
Mais tarde, no vestiário, Nicolas encontrou Andrey terminando de se trocar. O namorado de Gabriella parecia desconfortável na presença do capitão do time.
— Ei, Farrabras... — Andrey começou, hesitando. — Sobre o que eu disse mais cedo na sala... a Gabi me deu uma bronca feia. Ela disse que a Eduarda teve um passado pesado em Curitiba. Algo sobre um ex-namorado e uma situação de justiça... Eu não devia estar falando isso, mas se você gosta dela, toma cuidado. Ela não é o que parece.
Nicolas não respondeu imediatamente. Ele abriu o armário, guardou a bola e vestiu a camisa preta.
— Eu sei que ela não é o que parece — Nicolas disse, sem olhar para Andrey. — E se eu ouvir você ou qualquer outro idiota chamando ela de "rodada" de novo, eu vou garantir que você nunca mais acerte uma cesta nesta escola. Entendido?
Andrey engoliu em seco e assentiu rapidamente, saindo do vestiário.
Nicolas ficou sozinho no silêncio úmido do local. Ele se sentou no banco de madeira e fechou os olhos. O cálculo agora era outro. Eduarda era um caos, sim, mas era um caos planejado. Ela falava putaria para chocar, para manter as pessoas a uma distância segura de sua alma. Ela se oferecia em palavras para nunca ter que se entregar de verdade em sentimentos.
Aquele passado sombrio que as amigas mencionaram... Nicolas sentiu uma necessidade visceral de desvendá-lo. Não por curiosidade mórbida, mas porque ele percebeu que, sob aquela armadura de cachos e curvas, havia alguém tão frio e calculista quanto ele, apenas usando uma estratégia diferente para sobreviver.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem curta.
"Na quadra externa, às 20h. Sem amigas. Sem máscaras. Ou eu mesmo vou até a sua casa e pergunto para o seu pai o que aconteceu em Curitiba."
A resposta veio dois minutos depois.
"Você é um psicopata, Farrabras. Mas eu gosto de perigo. Estarei lá. Só não espere que eu seja boazinha."
Nicolas deu um meio sorriso, algo raro que iluminou seu rosto sombrio por um breve instante. Ele não queria que ela fosse boazinha. Ele queria a verdade, por mais suja e escura que fosse. E ele sabia que, naquela noite, a única coisa que seria arremessada não seria uma bola, mas todas as mentiras que os cercavam.