uma noite
Sombras de Curitiba e a Geometria do Caos
O asfalto da quadra externa estava frio, retendo a umidade de uma garoa que ameaçava cair a qualquer momento. Nicolas Farrabras estava encostado na tabela de basquete, a silhueta alta e imponente quase se fundindo com a escuridão da noite. Ele não usava o uniforme da escola; vestia um moletom preto e calças largas, mas a aura de predador silencioso continuava ali, intacta. Ele olhou para o relógio digital no pulso: 20h03.
O som de passos apressados ecoou pelo cimento. Eduarda surgiu do escuro, mas não era a Eduarda que a escola conhecia. Ela não usava roupas provocantes ou maquiagem carregada. Estava de calça de moletom cinza, um casaco largo que escondia suas curvas e o cabelo preso em um coque desleixado. Seus olhos, geralmente brilhantes de malícia, pareciam opacos sob a luz fraca dos postes da rua.
— Você é um desgraçado, sabia? — disse ela, parando a alguns metros de distância. — Ninguém ameaça envolver a minha família.
— Eu não teria feito se você não tivesse fugido de mim o dia todo — Nicolas respondeu, a voz grave cortando o vento frio. — Você usa essa boca para falar de tudo, menos do que importa. Eu cansei de jogar, Eduarda. Pelo menos desse jogo de fachada.
Eduarda soltou uma risada sem humor, abraçando o próprio corpo para se aquecer.
— E o que o grande Nicolas Farrabras quer? Uma confissão? Um gráfico sobre os meus traumas para você calcular a melhor forma de me ignorar depois?
— Eu quero saber por que você deixa eles te chamarem de rodada — ele deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. — Eu quero saber por que Gabriella e as outras te olham como se você fosse feita de vidro, enquanto você tenta convencer o mundo de que é feita de aço e luxúria.
Eduarda desviou o olhar para o aro da cesta, o silêncio se arrastando por longos segundos. O vento soprou mais forte, bagunçando alguns fios soltos de seu cabelo.
— Boatos são úteis, Nicolas — disse ela finalmente, a voz baixa. — Se todo mundo acredita que eu sou uma vadia que não se apega a nada, ninguém tenta chegar perto o suficiente para ver o que sobrou de mim. É uma distração. É barulho. E enquanto eles fazem barulho, eu fico segura no meu silêncio.
— Segura? — Nicolas riu, um som seco e perigoso. — Você não está segura. Você está se afogando. Eu vi como você reagiu na sexta-feira. Você não é a garota das fofocas do vestiário.
Eduarda sentou-se no chão da quadra, ignorando a frieza do cimento. Ela parecia pequena ali, longe das luzes da festa. Nicolas sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas sua presença era como um campo magnético que ela não conseguia ignorar.
— Em Curitiba... — ela começou, a voz trêmula — ...eu não era a "safada". Eu era a garota certinha. Notas altas, namorado de família rica, planos para a faculdade de Direito. O nome dele era Rodrigo. Ele era o tipo de cara que todo mundo amava, o capitão de tudo, o filho perfeito.
Nicolas ouvia atentamente, cada detalhe sendo processado por sua mente analítica. Ele percebeu como ela apertava as próprias mãos até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Ele era possessivo — continuou ela. — No começo, eu achava que era cuidado. Depois, virou controle. E quando eu tentei terminar, ele não aceitou. Ele espalhou fotos que eu nunca soube que ele tinha tirado. Ele destruiu minha reputação na cidade inteira. Meus pais perderam o emprego por causa da influência da família dele. Fomos expulsos socialmente de lá.
— E os boatos de agora? — perguntou Nicolas, o sangue fervendo ao imaginar a cena.
— Quando chegamos aqui, eu decidi que ninguém mais teria o poder de me envergonhar — disse ela, virando o rosto para encará-lo, e Nicolas viu uma lágrima solitária escorrer. — Se eu mesma criasse a fama, se eu mesma falasse as baixarias, as palavras deles não teriam poder. Eu me tornei a piada antes que eles pudessem me transformar em vítima. Gabriella, Pollyana e Grazielly... elas foram as únicas que souberam da verdade. Elas me ajudaram a construir essa máscara.
— Então é tudo mentira — concluiu Nicolas, a voz suavizando. — A "Duda de rodada" é apenas uma personagem que você interpreta para não ser ferida de novo.
— Eu não sou virgem, Nicolas, se é isso que sua mente calculista quer saber — rebateu ela com um resquício da antiga ousadia. — Mas eu não sou o que o Andrey e aqueles idiotas dizem. Eu nunca fui.
Nicolas estendeu a mão e, com uma delicadeza que ninguém na escola acreditaria que ele possuía, limpou a lágrima no rosto dela. A pele dela era quente contra seus dedos frios.
— Você é brilhante, Eduarda — sussurrou ele. — Criar um caos para esconder uma ferida... é uma estratégia de defesa impecável. Mas você esqueceu de um detalhe no seu cálculo.
— Qual? — perguntou ela, hipnotizada pelo olhar sombrio e intenso dele.
— Que eu não me importo com o que os outros dizem. Eu vejo padrões. E o seu padrão não condiz com a sua fala.
Eduarda soltou um suspiro longo, como se tivesse segurado o fôlego por anos. Ela se inclinou e encostou a cabeça no ombro de Nicolas. Pela primeira vez, não havia segundas intenções, apenas o peso de uma verdade compartilhada.
— Por que você se importa? — perguntou ela. — Você é o cara frio. O calculista. O jogador que não tem sentimentos.
— Eu calculo riscos, Eduarda — disse ele, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para mais perto. — E você é o maior risco que eu já encontrei. Mas, pela primeira vez, eu não quero minimizar o prejuízo. Eu quero ver até onde esse caos nos leva.
Eles ficaram ali por um longo tempo, duas sombras unidas no centro de uma quadra vazia. O passado de Curitiba ainda estava lá, uma cicatriz escura na alma de Eduarda, mas o peso parecia menor agora que Nicolas segurava uma parte dele.
Na manhã seguinte, o clima na escola estava estranho. A notícia de que Nicolas e Eduarda tinham sido vistos conversando seriamente na noite anterior já tinha se espalhado. Quando Eduarda entrou pelo portão, Gabriella e as outras amigas a cercaram imediatamente.
— E aí? — perguntou Pollyana, ansiosa. — Você contou?
— Contei — respondeu Eduarda, mas não havia o sorriso forçado de sempre. Havia uma calma nova em seu rosto.
— E como o "Robô Farrabras" reagiu? — Grazielly questionou, ajustando os óculos. — Ele tentou calcular a raiz quadrada do seu trauma?
— Ele foi... ele mesmo — disse Eduarda, olhando para o corredor onde Nicolas acabara de aparecer.
Nicolas caminhava com sua habitual aura de autoridade, mas quando seus olhos encontraram os de Eduarda, houve um breve aceno de cabeça. Ele não sorriu, mas o brilho em seu olhar era diferente. Ele caminhou direto para o grupo de jogadores de futebol que estava perto dos armários.
Andrey, o namorado de Gabriella, estava contando alguma vantagem sobre o jogo do fim de semana quando sentiu a mão de Nicolas em seu ombro. O aperto era forte o suficiente para fazer o garoto empalidecer.
— Andrey — disse Nicolas, a voz soando como um trovão baixo. — Lembra do que conversamos no vestiário?
— Lembro, cara, mas eu só estava... — Andrey começou a gaguejar.
— Pois é — interrompeu Nicolas, aproximando o rosto do dele. — O tempo de "estar" acabou. De agora em diante, qualquer um que abrir a boca para falar da Eduarda vai ter que prestar contas comigo. E eu não sou conhecido por ser paciente.
O corredor ficou em silêncio absoluto. Gabriella, que observava de longe, deu um sorriso de lado. Ela sabia que, para Nicolas Farrabras ter tomado aquela atitude em público, as coisas tinham mudado de patamar.
Eduarda caminhou até Nicolas, parando na frente dele sob o olhar atento de toda a escola. Ela colocou as mãos nos quadris, recuperando um pouco de sua postura atrevida.
— Protegendo minha honra, Farrabras? — provocou ela, embora seus olhos estivessem cheios de gratidão. — Cuidado, ou vão achar que você tem coração.
— Eu não tenho coração, Eduarda — ele respondeu, voltando a ser o calculista de sempre, mas com um toque de possessividade na voz. — Eu só não gosto que mexam no que é meu.
— O que é seu? — ela arqueou uma sobrancelha, rindo. — Eu não lembro de ter assinado nenhum contrato de exclusividade.
— Você não precisou assinar — disse ele, inclinando-se para sussurrar no ouvido dela, fazendo-a arrepiar-se inteira. — O cálculo já foi feito. Você é o meu caos, e eu sou a sua ordem. Agora, vai para a sala antes que eu decida te levar para o vestiário e mostrar para essa escola inteira o que realmente acontece quando a gente fica sozinho.
Eduarda deu um tapa brincalhão no peito dele e saiu rebolando, mas desta vez, não era para os outros. Era apenas para ele. As amigas a seguiram, rindo e comentando, enquanto Nicolas permanecia ali, observando-a.
Ele sabia que o passado sombrio dela ainda voltaria a assombrá-los. Sabia que a família de Rodrigo em Curitiba poderia ser um problema no futuro. Mas, enquanto olhava para Eduarda, Nicolas Farrabras percebeu que, pela primeira vez em sua vida, ele não estava apenas jogando para ganhar. Ele estava jogando para proteger.
E no tabuleiro daquela escola estadual, o rei e a rainha do caos tinham acabado de declarar guerra ao resto do mundo.
— Ei, Farrabras! — gritou Gabriella, parando na porta da sala e olhando para trás. — O Andrey quer saber se você ainda vai treinar hoje ou se vai passar o dia secando a minha amiga.
Nicolas olhou para Andrey, que ainda parecia assustado, e depois para Gabriella.
— O treino começa em dez minutos — disse ele de forma ríspida. — E Andrey, se você errar um passe hoje, vai correr dez voltas na quadra.
— Viu só? — Pollyana sussurrou para Eduarda enquanto entravam na sala. — Ele continua sendo um grosso.
— É — Eduarda sorriu, sentando-se em sua classe e sentindo o olhar de Nicolas queimando em suas costas lá do fundo da sala. — Mas ele é o meu grosso. E ele sabe exatamente onde apertar para eu parar de falar.
A aula começou, mas para aqueles dois, o verdadeiro aprendizado não estava nos livros. Estava na forma como duas pessoas quebradas podiam se encaixar perfeitamente, transformando sombras e boatos em uma fortaleza que ninguém seria capaz de derrubar. O silêncio calculista de Nicolas e a voz audaciosa de Eduarda agora falavam a mesma língua: a língua de quem finalmente tinha encontrado um lugar para baixar a guarda.