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uma noite

Entre o Cálculo e o Caos

O ar na sala de aula estava saturado com o cheiro de giz e a tensão silenciosa que acompanhava a presença de Nicolas Farrabras. Ele não precisava gritar para ser notado; sua aura, fria e calculista, preenchia os cantos do ambiente como uma névoa escura. Nicolas mantinha os olhos fixos no caderno, mas sua mente não estava nas equações de física. Ele estava processando o peso da noite anterior. A confissão de Eduarda sobre Curitiba ainda ecoava em sua cabeça, desmanchando cada boato que ele um dia ouvira sobre ela.

Eduarda entrou na sala como um furacão de cores e barulho, contrastando violentamente com a monotonia cinzenta da manhã. Ela usava um batom vermelho vibrante e uma pulseira que tilintava a cada movimento.

— Bom dia para quem já acordou com vontade de pecar porque ser santa não dá futuro! — exclamou ela, jogando a mochila na cadeira à frente de Gabriella.

Gabriella, que retocava o rímel, soltou uma risada curta, enquanto Pollyana, sempre a mais doce, apenas balançou a cabeça com um sorriso tímido. Grazielly, por outro lado, levantou o olhar do seu livro de filosofia, ajustando os óculos com uma expressão analítica.

— Você não cansa de ser o centro das atenções, Duda? — perguntou Grazielly, embora houvesse um carinho óbvio em sua voz.

— Se eu não for o centro, o mundo para de girar, Grazi — respondeu Eduarda, virando-se para trás para piscar para Nicolas.

Ele não retribuiu o gesto. Apenas sustentou o olhar dela por dois segundos — o suficiente para ela sentir o arrepio familiar na nuca — antes de voltar sua atenção para o professor que entrava na sala. O jogo de máscaras continuava, mas agora, havia um pacto silencioso entre os dois.

No intervalo, o grupo se reuniu nas mesas de cimento sob as árvores do pátio. Andrey, o namorado de Gabriella, sentou-se ao lado dela, ainda lançando olhares cautelosos para Nicolas, que estava encostado em um pilar próximo, observando tudo como um falcão.

— Então, Duda, vai ter aquela resenha na casa do Leo de novo no sábado? — perguntou Andrey, tentando quebrar o gelo. — O pessoal está comentando que a última foi... intensa. Especialmente depois que você e o Farrabras sumiram.

Um silêncio desconfortável caiu sobre a mesa. Gabriella sentiu o clima e deu um beliscão discreto no braço do namorado.

— Andrey, por que você não foca em acertar um lance livre em vez de cuidar da vida alheia? — disse Gabriella, o tom de voz cortante como uma navalha.

— Eu só estava comentando! — defendeu-se ele, levantando as mãos em sinal de rendição. — Todo mundo na escola diz que a Duda é a alma da festa, que ela não deixa ninguém passar vontade...

Eduarda soltou uma risada alta, jogando a cabeça para trás, mas Nicolas notou o leve tremor em seus ombros. A máscara de "safada" estava sendo testada.

— Ah, Andrey, querido — disse Eduarda, inclinando-se sobre a mesa com um sorriso lascivo —, se eu fosse dar para cada um que espalha boato sobre mim, eu não teria tempo nem para escovar os dentes. Mas relaxa, sua namorada cuida bem de você, não precisa ficar imaginando como seria comigo.

Grazielly fechou o livro com um estalo seco.

— Boatos são a literatura dos medíocres — sentenciou ela, lançando um olhar de desprezo para os alunos que cochichavam na mesa vizinha. — Eles precisam criar uma versão da Eduarda que possam entender, porque a verdadeira é complexa demais para as mentes pequenas deles.

Nicolas se aproximou da mesa, sua sombra cobrindo o grupo. A aura dark que ele emanava fez as conversas paralelas ao redor cessarem instantaneamente.

— O treino começa mais cedo hoje — disse ele, a voz grave e sem emoção, olhando diretamente para Andrey. — E se eu ouvir mais uma palavra sobre "alma da festa" ou qualquer outra merda que não seja sobre o jogo, você vai passar o resto do semestre limpando o chão do ginásio com a língua.

Andrey engoliu em seco, assentindo rapidamente. Nicolas então desviou o olhar para Eduarda. Por um breve momento, a frieza em seus olhos derreteu, substituída por uma promessa sombria que só ela compreendia.

— Você também, Eduarda — continuou ele. — Pare de alimentar os idiotas. Você sabe que o barulho deles não muda o que aconteceu no escuro.

Ele se virou e saiu, os ombros largos e a postura impecável intimidando qualquer um em seu caminho.

— Uau — sussurrou Pollyana, os olhos arregalados. — Ele está realmente... tipo, protegendo você?

— Ele está sendo um babaca possessivo — corrigiu Eduarda, embora suas bochechas estivessem levemente coradas. — Mas é um babaca que sabe exatamente o que diz.

Mais tarde, no vestiário feminino, o clima era mais íntimo. Eduarda trocava de roupa para a aula de educação física, enquanto suas três amigas a cercavam. Gabriella encostou-se no armário, cruzando os braços.

— Duda, a gente sabe que você usa essa falação toda para se proteger — começou Gabriella, a voz baixando para um tom sério. — Mas o Farrabras... ele é perigoso. Não do jeito que o Rodrigo era, mas de um jeito que pode realmente desarmar você.

— Eu sei — respondeu Eduarda, parando de abotoar o short. — Ele vê através de mim. Ele sabe que tudo isso é uma encenação.

— Ele sabe sobre Curitiba? — perguntou Pollyana, preocupada. — Sobre o que aquele desgraçado fez com as fotos e com a sua família?

Eduarda assentiu, sentando-se no banco de madeira.

— Eu contei ontem. Eu não aguentava mais o jeito que ele me olhava, como se estivesse resolvendo um problema de matemática e eu fosse a variável errada. Eu queria que ele me odiasse pela verdade, não por uma mentira inventada por moleques de ensino médio.

Grazielly ajeitou os óculos, observando a amiga com atenção.

— E ele não te odiou — observou Grazielly. — Pelo contrário. Ele parece ter decidido que você é a única coisa nesta escola que vale o tempo dele.

— O problema — disse Eduarda, levantando-se e recuperando sua postura vibrante — é que agora eu não sei como agir perto dele sem a máscara. É mais fácil falar putaria e fingir que sou a "rodada" do que ser a garota que quase teve a vida destruída por um ex-namorado psicopata.

— Você não precisa ser nenhuma das duas — disse Gabriella, segurando a mão da amiga. — Você só precisa ser a nossa Duda. O resto, o Farrabras que se vire para calcular.

A aula de educação física foi um caos controlado. Nicolas dominava a quadra de basquete do outro lado do ginásio, enquanto as garotas jogavam vôlei. No entanto, os olhos de Nicolas raramente saíam de Eduarda. Ele observava cada salto, cada risada, cada provocação que ela lançava para os meninos que tentavam flertar com ela.

Em um momento, a bola de vôlei rolou para a quadra de basquete. Eduarda correu para buscá-la, parando a poucos centímetros de Nicolas, que acabara de enterrar uma bola com uma força que fez a tabela vibrar.

— Cuidado, capitão — disse ela, o sorriso atrevido de volta ao rosto. — Se continuar descontando a raiva no aro, vai acabar quebrando alguma coisa. E eu sei que você prefere coisas mais... macias para apertar.

Os jogadores ao redor soltaram assobios e risadinhas. Nicolas, no entanto, não sorriu. Ele caminhou até ela, pegando a bola de vôlei da mão dela, mas sem soltá-la. Ele se inclinou, o suor brilhando em seus músculos morenos, o cheiro de esforço físico e testosterona atingindo Eduarda em cheio.

— Você continua falando demais, Eduarda — sussurrou ele, a voz tão baixa que só ela ouvia. — Mas eu vi suas mãos tremendo quando o Andrey falou daquela festa. Pare de atuar para esse público medíocre. Eles não merecem o show.

— E quem merece, Nicolas? Você? — rebateu ela, desafiadora.

— Eu já vi o show principal — disse ele, os olhos escuros perfurando a alma dela. — E garanto que o bis vai ser muito mais silencioso... e muito mais intenso.

Ele soltou a bola e voltou para o jogo sem olhar para trás. Eduarda ficou ali por um segundo, o coração martelando contra as costelas. Ela voltou para as amigas, que a olhavam com expressões variadas de choque e diversão.

— Amiga, se tensão sexual gerasse energia, você acabava de iluminar a cidade inteira — comentou Pollyana, rindo.

O dia escolar finalmente terminou, mas a tensão não se dissipou. Enquanto os alunos saíam, Nicolas interceptou Eduarda no corredor, longe dos olhares curiosos. Ele a prensou contra a parede, não com agressividade, mas com uma possessividade que a deixou sem fôlego.

— O que você quer agora, Farrabras? — perguntou ela, embora suas mãos já estivessem subindo pelo peito dele. — O cálculo do dia já não terminou?

— O cálculo nunca termina — disse ele, prendendo os cachos pretos dela entre os dedos. — Eu estive pensando no que você disse sobre Curitiba. Sobre como aquele idiota usou o silêncio e as imagens contra você.

Eduarda ficou rígida. O passado sombrio era uma ferida que ainda ardia.

— E daí? — disse ela, a voz subitamente fria.

— E daí que eu não sou como ele — continuou Nicolas, o rosto a milímetros do dela. — Eu não quero o seu silêncio, Eduarda. E eu não me importo com a sua fama. Se você quiser gritar para o mundo que é a garota mais safada dessa escola para se proteger, grite. Mas quando estiver comigo, você vai ser apenas você. Sem máscaras. Sem boatos. Apenas a garota que me faz perder o controle de cada equação que eu já montei.

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas ela as engoliu. Ela puxou a gola da camisa dele, trazendo-o para um beijo que era uma mistura de desespero e alívio. Não havia público ali. Não havia boatos de "rodada" ou aura de "frio e calculista". Havia apenas dois jovens tentando encontrar ordem no meio do caos que suas vidas haviam se tornado.

— Você é um idiota, Nicolas — sussurrou ela contra os lábios dele.

— E você é um incômodo — respondeu ele, com um raro e quase imperceptível sorriso. — Mas é o meu incômodo favorito.

Eles saíram da escola separadamente, mantendo as aparências. Mas enquanto Eduarda caminhava com Gabriella, Pollyana e Grazielly, ela sentia que o peso de Curitiba estava, pela primeira vez, sendo dividido. E enquanto Nicolas entrava em seu carro, ele não estava pensando em basquete ou em táticas de jogo. Ele estava calculando o tempo exato até poder ver Eduarda novamente, longe das luzes, onde as sombras eram reais e a verdade era a única coisa que importava.

A "Eduarda de rodada" continuaria sendo o assunto dos corredores, uma lenda urbana alimentada por mentes pequenas. Mas para Nicolas Farrabras, ela era o único mistério que ele nunca se cansaria de tentar resolver. E para Eduarda, Nicolas era o único porto seguro onde ela podia finalmente parar de falar e apenas sentir. No final das contas, o passado sombrio dela não era um fim, mas o prólogo de uma história que nenhum boato seria capaz de escrever.