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Uma noite quente em Paris

Linhas Fora do Roteiro

Seul amanhecia fria e cinzenta, mas dentro daquele estúdio cinematográfico no coração de Seongsu-dong, os refletores industriais operavam milagres ao simular o calor dourado do final de uma tarde europeia. Vitória ajustava a gola de seu casaco de lã pela terceira vez, respirando fundo para acalmar as batidas desordenadas do peito.

Atriz formada no Brasil, com um punhado de curtas-metragens independentes no currículo e nenhum padrinho influente, ela decidira arriscar a sorte na Ásia. Havia desembarcado na Coreia do Sul há seis meses, movida por uma bolsa mista de intercâmbio cultural e a fome visceral de construir uma carreira internacional, longe dos velhos estereótipos. Conseguir uma vaga como atriz coadjuvante no novo curta promocional de uma renomada grife de alta-costura fora uma vitória monumental para quem ainda lutava diariamente com as sutilezas do idioma coreano.

E, no entanto, enquanto lia suas poucas linhas no roteiro, sua mente insistia em voltar àquela noite em Paris.

Ela não era tola. Vitória sempre fora fã assumida do BTS, nutrindo por Kim Taehyung aquela admiração ardente que milhões de pessoas compartilhavam. Mas quando o destino colocou o vocalista no mesmo bar de hotel clandestino, ela agira por puro instinto carnal. Sabia exatamente como funcionava a engrenagem predatória daquela indústria e a fama de conquistador inalcançável que o cercava. Por isso, vivera a noite mais intensa e pecaminosa de sua vida nos lençóis do ídolo e partira ao raiar do dia sem deixar pistas. Havia sido uma fantasia perfeita, sem promessas, sem espaço para a dor da rejeição.

Era para ter acabado ali.

— Elenco de apoio em posição! O artista principal acabou de chegar! — anunciou o assistente de direção com o megafone, quebrando o silêncio concentrado do galpão.

Vitória deu dois passos à frente, posicionando-se junto à cenografia que imitava uma livraria clássica. Ela ergueu a cabeça, pronta para incorporar a personagem misteriosa descrita no roteiro, mas o ar simplesmente fugiu de seus pulmões quando as portas de correr do estúdio se abriram.

Taehyung entrou cercado por estilistas, maquiadores e dois seguranças. Vestia um sobretudo de veludo azul-marinho que valorizava seu porte esguio e elegante. Seus cabelos estavam levemente ondulados, caindo com naturalidade sobre os olhos escuros e expressivos. Ele parecia entediado, respondendo com acenos monossilábicos às instruções afobadas do produtor ao seu lado.

Até que seus olhos correram pelo cenário e travaram nela.

O cantor parou no meio do caminho. Toda a postura relaxada e displicente desmoronou em uma fração de segundo. Seus olhos se arregalaram quase imperceptivelmente antes de se estreitarem em um foco predatório, queimando através da distância que os separava. Vitória sentiu um arrepio violento subir por sua espinha, o coração disparando a ponto de ensurdecer seus ouvidos.

Ele não a havia esquecido.

Taehyung dispensou a maquiadora com um gesto brusco da mão, sem desviar o olhar nem por um milésimo de segundo. Um sorriso lento, torto e terrivelmente safado curvou seus lábios perfeitos. Ele retomou o passo, caminhando com a imponência de um felino que acabara de encurralar sua presa favorita.

— Todos prontos para o ensaio de marcação? — perguntou o diretor, alheio à corrente elétrica de mil volts que acabara de se instalar entre o astro global e a atriz brasileira.

Taehyung parou a menos de meio metro de Vitória. O cheiro dele — uma mistura inebriante de sândalo e couro caro — envolveu os sentidos dela com a mesma força devastadora daquela madrugada em Paris.

— Você fala coreano? — sussurrou ele, aproximando-se com a desculpa de verificar o posicionamento no chão, sua voz descendo em um tom tão grave e aveludado que fez os joelhos de Vitória vacilarem.

— Falo o suficiente para saber quando estou em apuros — respondeu ela em um sussurro rápido, tentando manter a postura profissional enquanto sustentava o olhar faiscante dele.

Os olhos de Taehyung brilharam de deleite. A audácia dela continuava a mesma.

— Paris foi um belo truque de mágica — murmurou ele, fingindo arrumar o folheto cenográfico sobre o balcão, roçando a lateral dos nós dos dedos na mão dela, arrancando-lhe um suspiro mudo. — Mas você cometeu um erro ao vir brincar no meu quintal.

— Senhor Kim, precisamos começar a primeira cena! — gritou o assistente de iluminação.

Taehyung deu um passo para trás, inclinando a cabeça com uma reverência impecável para a equipe, mas o brilho lascivo em seus olhos dizia tudo o que ele faria assim que as câmeras fossem desligadas.

As quatro horas seguintes foram uma tortura refinada. No roteiro, Vitória era a mulher enigmática que trocava olhares fugazes com o personagem de Taehyung através das prateleiras de livros. O que o diretor acreditava ser uma química dramática avassaladora era, na verdade, o fogo cruzado de duas pessoas consumidas por uma tensão sexual que beirava a insanidade. Toda vez que ele a encarava, Vitória via a lembrança de mãos firmes cravadas em seus quadris. Toda vez que ela desviava o olhar com um sorriso contido, Taehyung se lembrava com precisão cirúrgica do sabor da pele macia de seu pescoço.

No instante em que o diretor gritou o corte final para a pausa do almoço, Taehyung nem sequer esperou a equipe se dispersar. Com a agilidade de quem conhecia todos os cantos cegos do local, ele segurou Vitória pelo pulso com firmeza e a puxou para o corredor dos fundos, empurrando-a sem violência, mas com urgência implacável, para dentro do primeiro camarim vazio e trancando a porta atrás de si.

O clique da fechadura soou como uma sentença.

— Três meses — rosnou ele em inglês, prensando o corpo dela contra a madeira da porta, as mãos espalmadas ao lado da cabeça de Vitória, encurralando-a completamente. — Três meses revirando aquela porra de suíte na minha cabeça. Quem você pensa que é para sumir daquele jeito?

Vitória não se intimidou. Apesar da respiração entrecortada pelo contato súbito de seus corpos, ela ergueu o queixo, exibindo aquele sorriso adorável e atrevido que desarmava qualquer tentativa de frieza.

— Eu sou uma fã sensata, Kim Taehyung — retrucou ela, deslizando as mãos descaradamente pelas lapelas do sobretudo de veludo dele. — O que você queria? Um café da manhã romântico com croissants e juras de amor eterno? Você não é o tipo que gosta de compromisso. Eu só poupei o seu trabalho de inventar uma desculpa esfarrapada para me mandar embora.

Taehyung soltou uma risada rouca, incrédulo diante da audácia dela. Seu olhar desceu para a boca carmim que o assombrara por noites a fio.

— Você não sabe de nada — murmurou ele, colando sua testa à dela, sentindo o calor febril que irradiava de ambos. — Qual é o seu nome? Você ao menos vai me dizer o seu nome antes de me deixar louco de novo?

— Vitória.

— Vitória... — repetiu ele, testando as sílabas com reverência, achando a sonoridade deliciosamente exótica em sua língua nativa. — Pois você acaba de perder o controle deste jogo, garota.

Taehyung não esperou por uma resposta. Tomou a boca dela com uma fúria acumulada de noventa dias de abstinência forçada. Foi um beijo voraz, cru, desprovido de qualquer pudor. Suas línguas se encontraram em um ritmo frenético, enquanto as mãos compridas do cantor desciam com determinação implacável para a cintura dela, apertando sua carne através do tecido fino do vestido. Vitória gemeu contra os lábios dele, enroscando os braços em seu pescoço, cedendo àquela gravidade que parecia atrair os dois com força magnética.

Ele a ergueu com facilidade, sentando-a sobre a bancada de maquiagem, espalhando pincéis e pós compactos pelo chão sem se importar com o estrago.

— Tae... nós temos vinte minutos antes da equipe chamar — advertiu ela em um sussurro sôfrego, enquanto os lábios quentes dele desciam famintos pela curva de sua garganta, chupando a pele sensível bem onde a maquiagem escondia suas pulsações.

— Então é bom não fazermos barulho — respondeu ele com a voz embargada pela luxúria mais descarada.

Ali mesmo, no silêncio perigoso do camarim trancado, eles reacenderam a fogueira. Taehyung rasgou a meia-calça dela sem a menor cerimônia, puxando a calcinha de renda para o lado com dedos ágeis e trêmulos de desejo. Quando penetrou em seu corpo com um impulso fundo e certeiro, ambos sufocaram um grito simultâneo. Vitória cravou as unhas nos ombros largos dele, mordendo o próprio lábio inferior até sangrar para não ecoar os gemidos pelo estúdio.

Aquele era o contraste mortal que enlouquecia Taehyung: diante das pessoas, Vitória era doce, sorridente, uma mulher adorável e educada que pedia desculpas com uma reverência desajeitada quando tropeçava no tapete; mas entre quatro paredes, desprovida de plateia, ela se transformava em uma fera indomável, que exigia mais força, que rebolava contra seu quadril com uma audácia pecaminosa e o olhava nos olhos como se fosse ela quem estivesse no comando.

Eles terminaram sufocados contra a pele um do outro, tremendo de um orgasmo tão violento que deixou manchas vermelhas em seus corpos e as pernas de Vitória bambas.

Aquele camarim foi apenas o começo.

O que era para ter sido apenas uma repetição ocasional, um acerto de contas físico para "tirar aquilo do sistema", transformou-se em uma espiral viciante. Taehyung colocou seu motorista particular à disposição dela. Todas as noites em que a agenda de gravações dele permitia, Vitória era levada discretamente até o apartamento de cobertura em Hannam-dong.

O combinado implícito entre dois adultos que temiam amarras era simples: sexo da melhor qualidade, sem cobranças, sem expectativas de futuro. Afinal, Taehyung era o solteiro mais cobiçado da Coreia, um homem que sempre bradara aos quatro ventos seu pavor por compromissos, e Vitória estava focada em sua carreira, sem tempo para ilusões românticas com uma estrela mundial.

Mas a teoria ruiu diante da prática.

Uma noite virou três. Três viraram semanas. Eles transavam no sofá de couro branco com vista para o Rio Han, na bancada da cozinha americana enquanto o chá esfriava na xícara, debaixo do chuveiro sob a água fervente até que a pele de ambos estivesse vermelha e sensível. A foda entre eles era sempre crua, suada e visceral. Taehyung parecia não se saciar; precisava possuí-la repetidas vezes, em posições diferentes, arrancando dela cada variação de gemido que a garganta dela podia produzir, como se estivesse tentando desesperadamente provar para si mesmo que aquilo era apenas carne, apenas instinto biológico.

Porém, entre uma sessão de prazer e outra, as frestas começaram a se abrir.

Taehyung, o homem que sempre exigia que suas companheiras fossem embora antes do amanhecer, pegou-se preparando café para ela pela manhã. Ele se viu sentado no chão da sala, rindo descontroladamente enquanto Vitória tentava, em vão, pronunciar trava-línguas em coreano com seu sotaque brasileiro carregado e irresistível. Ele a observava adormecer em seu peito, com o nariz enfiado em sua clavícula, enrolada em um de seus moletons gigantes que a faziam parecer minúscula e infinitamente protegida.

Ela trazia para a vida dele uma leveza que a fama avassaladora havia roubado há anos. Vitória não o tratava como um ídolo de porcelana; ela zombava de sua teimosia, criticava seus filmes favoritos com argumentos inteligentes, roubava a comida de seu prato e o beijava na ponta do nariz com um carinho tão genuíno que desarmava qualquer escudo que ele tentasse erguer.

E então, vinha a noite, e aquela mesma mulher doce se transformava na dona absoluta de sua cama, cavalgando nele com uma volúpia selvagem, puxando seus cabelos e deixando arranhões profundos em suas costas que os maquiadores da Big Hit precisavam cobrir com camadas generosas de corretivo no dia seguinte.

Taehyung era teimoso demais. Orgulhoso demais. Ele repetia para seu próprio reflexo no espelho que aquilo era apenas uma simbiose perfeita entre dois corpos compatíveis.

A ficha só caiu de forma brutal em uma terça-feira chuvosa.

Vitória fora chamada para um teste importante em Busan para um papel fixo em um drama da Netflix. Ela passou a tarde inteira ensaiando suas falas na sala dele, compenetrada, com os óculos de leitura na ponta do nariz e o cabelo preso em um coque frouxo.

Quando a noite caiu, a despedida foi inevitável.

— O trem sai cedo amanhã — disse ela, guardando o roteiro na bolsa e se aproximando dele com aquele sorriso calmo. — Vou ficar por lá umas duas semanas. Se eu passar no teste, talvez tenha que me mudar temporariamente.

Taehyung estava encostado na ilha da cozinha, segurando uma garrafa de água. As palavras dela bateram em seu peito como uma marretada invisível.

— Mudar para Busan? — perguntou ele, a voz saindo mais fria do que pretendia, a máscara de desdém tentando desesperadamente se recompor.

— É uma grande oportunidade para mim, Tae — respondeu ela, dando de ombros com naturalidade, embora seus olhos castanhos guardassem uma sombra de expectativa não dita. — Nós sabíamos que isso aqui era temporário. Dois corpos matando a vontade enquanto o trabalho permitia, não é? Foi o que combinamos.

Vitória se aproximou, depositando um beijo suave e casto em sua bochecha — um beijo de adeus que queimou mais do que qualquer brasa —, virou as costas e caminhou em direção ao hall de entrada para calçar os sapatos.

O silêncio do apartamento pareceu engolir o ar.

Taehyung olhou para a garrafa em sua mão. Lembrou-se de Paris. Lembrou-se da cama vazia naquela manhã cinzenta. Lembrou-se dos meses de tortura procurando aquele cheiro de jasmim em cada esquina. E agora, olhando para as costas dela prees prestes a cruzar a porta mais uma vez, a epifania o atingiu com a força avassaladora de um raio: não era o sexo.

Nunca tinha sido apenas o sexo.

Precisara fodê-la dezenas de vezes, precisara sentir a pele dela colada à sua até a exaustão para finalmente admitir aquilo que seu ego arrogante vinha negando desde o primeiro olhar trocado naquele bar francês: ele estava apaixonado. Irremediavelmente, pateticamente e profundamente apaixonado por aquela mulher. O homem que zombava de romances estava de joelhos diante da perspectiva de perdê-la.

Antes que Vitória pudesse tocar na maçaneta de metal, Taehyung atravessou a sala em passadas largas. Suas mãos agarraram a cintura dela por trás, puxando-a contra seu peito e girando seu corpo com força até prensá-la novamente contra a parede do corredor.

— O que você está fazendo? — perguntou ela, surpresa, os olhos brilhando assustados sob a penumbra do hall.

— Você não vai para Busan — disse ele, a respiração pesada, a voz crua e desprovida de qualquer joguete de sedução. Era a verdade mais pura que já saíra de sua boca.

— Taehyung, para com isso. Minha carreira...

— Eu não dou a mínima para o que combinamos — interrompeu ele, encostando a testa na dela, os dedos compridos segurando seu rosto com um desespero quase doloroso. — Dane-se o combinado. Dane-se a porra do desapego. Eu menti para você e menti para mim mesmo esse tempo todo.

Vitória piscou, o peito subindo e descendo em compasso com o dele.

— Você disse que não gostava de compromisso — sussurrou ela, com a voz embargada.

— Eu odiava a ideia de compromisso até conhecer uma brasileira atrevida que fode como uma deusa e tem a audácia de sorrir como se o mundo fosse dela — desabafou ele, um sorriso torto e vulnerável finalmente quebrando a dureza de suas feições. — Eu tentei tirar você da minha cabeça desde Paris, Vitória. Transar com você de novo era para ser a cura, mas só me fez afundar mais. Eu sou teimoso pra caralho, mas não sou burro o suficiente para deixar você ir embora uma segunda vez.

Vitória o encarou em silêncio por alguns segundos, vendo a armadura do ídolo intocável se esfarelar completamente diante de si, revelando apenas o homem necessitado e apaixonado por baixo. O canto de sua boca se ergueu, e ela deixou escapar aquela risadinha adorável que sempre o desmontava por inteiro.

— Você precisou me levar para a cama tantas vezes para perceber isso, Kim Taehyung? — provocou ela, acariciando o maxilar tenso dele com a ponta dos dedos.

— Eu precisava ter certeza de que você não era uma miragem — murmurou ele, unindo seus lábios em um beijo profundo, lento e carregado de uma promessa que ele nunca imaginou fazer a ninguém na vida.

Quando se separaram, sem fôlego, Taehyung olhou bem no fundo dos olhos dela, com o sorriso safado e apaixonado que selaria o destino de ambos.

— O motorista vai te levar para o teste em Busan amanhã cedo — decretou ele —, mas você volta para cá no mesmo dia. Porque a partir de hoje, garota, você não tem mais para onde fugir.

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