Vegdhh
O Santuário de Vidro e Sombras
O silêncio que se instalou no escritório após a partida de Clara era sufocante. Christian permanecia imóvel, encarando a porta fechada como se pudesse ver através da madeira maciça, seguindo o rastro do perfume de baunilha e sândalo que ela deixara para trás. Era o cheiro dela. Sempre fora. Anastácia se aproximou, tocando timidamente seu braço, mas ele se retraiu instintivamente.
— Christian? Você está bem? — perguntou Anastácia, a voz carregada de uma insegurança que ele, naquele momento, não tinha paciência para aplacar.
— Estou ocupado, Anastácia. Preciso revisar esses relatórios da fusão. Peça para a Andrea cancelar minhas próximas duas reuniões.
— Mas a Sra. Park disse que...
— Agora, Anastácia — cortou ele, o tom de voz gélido que ele reservava para os subordinados mais incompetentes.
Assustada, ela assentiu e saiu rapidamente. Christian esperou ouvir o clique da porta antes de se deixar desmorar na sua poltrona de couro. Seus dedos, geralmente firmes e precisos, tremiam levemente enquanto ele alcançava a carteira no bolso interno do paletó.
Lá, escondida atrás de um cartão de crédito que ele nunca usava, estava a foto. As bordas estavam levemente gastas pelo tempo, mas a imagem era nítida. Clara, rindo, com os cabelos castanhos bagunçados pelo vento de um iate, os olhos brilhando com uma alegria que ele nunca mais vira em ninguém. Ela estava radiante, as curvas que ele tanto cobiçava acentuadas por um vestido de verão.
Aquela foto fora tirada semanas antes do fim. Antes do pânico de Christian se tornar uma arma de destruição em massa.
Ele fechou os olhos e a dor latejou em seu peito, uma ferida que nunca cicatrizou, apenas criou uma crosta fina de indiferença que Clara acabara de arrancar com uma única olhada. Ele se lembrou da noite em que ela contou sobre o aborto. Eles já estavam separados há meses, o divórcio estava sendo finalizado, e ela ligou de Boston. A voz dela estava embargada, desprovida de qualquer emoção, como se ela tivesse morrido por dentro.
"Ele se foi, Christian. O bebê. Não há mais nada pelo que lutar."
Aquelas palavras o assombravam todas as noites. Na época, ele sentira um alívio egoísta, seguido por uma devastação que o engoliu por completo. Ele odiava a ideia de dividir Clara, mas perder a extensão dela — o fruto do amor obsessivo que compartilhavam — foi como perder um membro do próprio corpo. Ele imaginava, em seus momentos mais sombrios, como seria agora. Uma criança com os olhos castanhos dela e, talvez, o temperamento difícil dele. Eles seriam uma família. Ele teria aprendido. Ele teria tentado... se não fosse tão covarde.
Christian levantou-se abruptamente. A sala parecia pequena demais. Ele caminhou até a estante de livros de carvalho que cobria a parede leste. Com um toque habilidoso em uma trava oculta atrás de uma edição de colecionador de "A Arte da Guerra", a estante deslizou silenciosamente, revelando uma porta de aço escovado.
Apenas duas pessoas tinham o código daquela porta. Ele e Clara.
Ele digitou a sequência — a data do aniversário dela — e entrou.
O quarto privado era um santuário congelado no tempo. Não era um "quarto de dor", como o que ele apresentara a Anastácia. Era um quarto de prazer, de urgência e de amor doméstico e selvagem. Ali, as paredes eram revestidas de veludo escuro e a cama de dossel ocupava o centro do espaço. Foi ali que eles se refugiaram inúmeras vezes quando o desejo era tão voraz que a viagem até o Escala parecia uma eternidade insuportável.
Christian sentou-se na beirada da cama, sentindo o tecido sob suas palmas. Ele podia quase ouvi-la. O riso dela ecoando nas sombras, o som de seu nome sendo chamado em um sussurro ofegante. Clara nunca fora submissa no sentido técnico que ele tanto prezava agora; ela era sua igual, sua rainha, a única mulher que o olhava nos olhos e via o monstro, mas escolhia beijá-lo de qualquer maneira.
Com Anastácia, tudo era cuidadoso, coreografado, uma tentativa constante de moldar algo que fosse seguro. Com Clara, era incêndio. Era perigoso. Era real.
— O que eu fiz com a gente, Clara? — murmurou ele para o vazio, a voz carregada de um arrependimento que ele jamais mostraria ao mundo.
***
Enquanto isso, no saguão do hotel Fairmont Olympic, Clara tentava controlar a respiração. Suas mãos ainda formigavam com a adrenalina de ter estado tão perto dele. Christian tinha esse efeito; ele era como um campo magnético, puxando cada fibra do seu ser para perto, mesmo quando a lógica gritava para ela fugir.
Ela se olhou no espelho do elevador. Viu a mulher de negócios bem-sucedida, a Sra. Park, mas por trás daquela máscara, ela ainda via a garota que chorou até dormir em um apartamento vazio em Boston, segurando um par de sapatinhos de bebê que nunca seriam usados.
Ao entrar na suíte, ela jogou a bolsa sobre o sofá e caminhou até a janela. Seattle se estendia abaixo dela, cinzenta e melancólica. Clara levou a mão ao pescoço, puxando a corrente de ouro escondida sob a blusa de seda. O anel de diamantes — a aliança que Christian colocara em seu dedo com a promessa de eternidade — brilhava friamente.
— Você é uma idiota, Clara — sussurrou para si mesma. — Ele seguiu em frente. Ele tem aquela menina.
Mas ela sabia que mentia. Ela vira o olhar dele na sala de reuniões. Não era o olhar de um homem que seguiu em frente. Era o olhar de um homem que estava morrendo de fome e acabara de ver um banquete. A possessividade dele não diminuíra com os anos; se algo mudara, fora apenas a sofisticação da sua máscara.
O telefone de Clara tocou. Era Grace Grey.
— Clara, querida! Diga-me que é verdade, que você está na cidade! — A voz de Grace era calorosa, um bálsamo para o coração ferido de Clara.
— Olá, Grace. Sim, vim para a reunião de acionistas.
— E você virá ao jantar amanhã, não é? Eu não aceito um não como resposta. Christian me disse que você talvez estivesse ocupada, mas eu sei que você sempre tem tempo para sua velha sogra.
Clara sorriu tristemente. Grace ainda usava o termo "sogra", ignorando deliberadamente os papéis do divórcio.
— Eu estarei lá, Grace. Prometo.
— Ótimo! E Clara... — Grace hesitou por um segundo. — É bom ter você de volta. Esta família não é a mesma sem você.
Após desligar, Clara sentiu o peso da responsabilidade. Ir ao jantar significava enfrentar não apenas Christian, mas todo o clã Grey, que ainda a via como a mulher dele. E, pior, significava ver Christian e Anastácia juntos, fingindo uma normalidade que ela sabia que ele não possuía.
***
No dia seguinte, a sede da Grey Enterprises estava em polvorosa com os preparativos para o evento beneficente. Christian, no entanto, não conseguia se concentrar. Ele passou a manhã inteira no quarto secreto, o único lugar onde se sentia conectado a ela.
Ele se lembrou de uma tarde específica, três anos atrás. Clara o surpreendera no escritório, usando um vestido vermelho que o deixara sem fôlego. Eles não chegaram a trocar duas frases antes de ele a arrastar para trás da estante.
— Christian, temos uma reunião em dez minutos! — dissera ela, rindo enquanto ele a pressionava contra a porta de aço.
— Eles que esperem — rosnara ele, as mãos percorrendo as curvas dela com uma urgência maníaca. — Você é minha, Clara. Minha.
Naquela época, a obsessão dele era alimentada pela presença constante dela. Agora, era alimentada pela ausência. E a ausência era muito mais voraz.
Ele saiu do quarto secreto e encontrou Anastácia em sua mesa, organizando alguns papéis. Ela olhou para ele com expectativa, esperando talvez um elogio ou um gesto de carinho, mas Christian apenas passou por ela.
— O carro estará pronto às sete — disse ele, sem parar. — Esteja pronta.
— Christian, sobre a Sra. Park... — Anastácia começou, levantando-se. — Por que todos a chamam de Sra. Grey? E por que você parece tão... diferente quando ela está por perto?
Christian parou e virou-se lentamente. Seus olhos eram obsidianas frias.
— Clara Park é uma acionista vital desta empresa e uma amiga de longa data da minha família. O que você percebe ou deixa de perceber é irrelevante, Anastácia. Não questione o que você não entende.
— Eu só quero entender a sua vida, Christian. Você diz que não tem segredos, mas sinto que há uma sala inteira trancada que eu não posso entrar.
Ele soltou um riso sombrio.
— Você não tem ideia de quantas salas trancadas existem, Ana. Agora, volte ao trabalho.
Ele entrou em seu escritório e fechou a porta. A verdade era que Anastácia era a luz que ele tentava usar para dissipar as sombras, mas Clara... Clara era a própria escuridão onde ele se sentia em casa. Ela conhecia seus demônios porque ela os havia batizado.
Ele pegou o telefone e discou um número que sabia de cor, embora não o chamasse há dois anos.
— Sim? — A voz de Clara atendeu no segundo toque, soando cautelosa.
— Onde você está hospedada? — perguntou ele, sem preâmbulos.
— Christian, eu não acho que...
— Onde, Clara?
Houve um silêncio do outro lado da linha. Ele podia ouvir a respiração dela, o ritmo que ele conhecia tão bem.
— No Fairmont. Por que?
— Vou enviar um carro para você amanhã à noite. Não quero que chegue em um táxi ao jantar da minha mãe.
— Eu posso me cuidar, Christian. Não sou mais sua responsabilidade.
— Você é 20% dona desta empresa, Clara. E, para o mundo, você ainda é uma Grey. Enquanto carregar esse peso, você é minha responsabilidade.
— Eu não uso mais o seu nome, Christian.
— Mas usa o meu anel — disparou ele, um palpite certeiro baseado no conhecimento profundo que tinha da natureza dela.
O silêncio que se seguiu foi a confirmação de que ele precisava.
— Esteja pronta às sete, Clara. Não me faça esperar.
Ele desligou antes que ela pudesse protestar. Christian sentiu uma onda de satisfação sombria. O jogo começara novamente. Ele a queria de volta, não importava o custo, não importava quem saísse ferido no processo. Anastácia era uma distração, um paliativo para a dor, mas Clara... Clara era a cura e a doença, e ele estava pronto para se infectar novamente.
Ele voltou para a estante, abriu a porta secreta e entrou no quarto escuro uma última vez antes do dia terminar. Ele deitou-se na cama, fechou os olhos e, por um breve momento, permitiu-se imaginar que ela estava lá, que o divórcio fora apenas um pesadelo e que o filho deles estava dormindo no quarto ao lado.
A dor que se seguiu foi insuportável, mas era a única coisa que o fazia sentir que ainda estava vivo. E ele sabia, com a certeza absoluta dos obcecados, que Clara Park voltaria a ser Clara Grey, nem que ele tivesse que queimar o mundo inteiro para que isso acontecesse.