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O Batismo da Consequência
O céu de Boston estava tingido de um cinza metálico, uma cor que Clara sempre associava aos olhos de Christian quando ele estava prestes a perder o controle. Fazia seis semanas desde a noite na mansão dos Grey. Seis semanas desde que ela fugira de Seattle como se estivesse fugindo de uma cena de crime, sentindo o peso do sêmen dele e da promessa silenciosa que aquele ato carregava.
Clara estava sentada em seu escritório na Park Financial, uma torre de vidro que oferecia uma vista privilegiada da baía. Ela tentava se concentrar nos gráficos de rendimento de um fundo de pensão, mas sua mão direita insistia em repousar sobre o ventre, ainda plano, mas que parecia carregar todo o peso do universo.
Ela não precisava de um exame de sangue para saber. O atraso de dez dias era apenas uma formalidade biológica. O enjoo matinal que a atingira naquela terça-feira, o cheiro do café que subitamente se tornara insuportável e a sensibilidade nos seios eram sinais que ela conhecia bem demais. A última vez que se sentira assim, ela acabou em uma cama de hospital, sozinha, chorando a perda de um futuro que Christian havia rejeitado.
O telefone sobre a mesa de carvalho vibrou, tirando-a de seus devaneios sombrios. Era uma mensagem de Grace Grey.
"Clara, querida. Christian está fora de si. Ele terminou tudo com a senhorita Steele. Ele não diz o motivo, mas eu suspeito que você saiba. Por favor, fale com ele."
Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Então ele realmente tinha feito. Ele descartara Anastácia como se ela fosse apenas um rascunho de uma história que ele não queria mais escrever. A crueldade de Christian podia ser cirúrgica, mas Clara sabia que, para ele, era apenas uma questão de limpar o caminho.
— Sra. Park? — A voz de sua secretária ecoou pelo interfone. — O Sr. Grey está na linha dois. Ele insiste que é urgente.
Clara respirou fundo, tentando estabilizar o ritmo cardíaco.
— Diga que estou em reunião, Sarah.
— Eu já disse, senhora. Ele respondeu que, se você não atender, ele pousará o Charlie Tango no telhado deste prédio em trinta minutos.
Clara fechou os olhos por um segundo. A possessividade dele não conhecia limites geográficos. Ela apertou o botão da linha dois.
— O que você quer, Christian? — A voz dela saiu firme, apesar do tremor interno.
— Você sabe o que eu quero, Clara. Eu quero você. — A voz dele era um sussurro rouco, carregado de uma autoridade que sempre a fazia querer se curvar. — Eu terminei com a Ana. Ela saiu do Escala esta manhã.
— Você é um monstro, Christian. Você usou aquela menina como um curativo para o seu ego ferido e agora a joga fora.
— Eu nunca menti para ela sobre quem eu amava, Clara. Eu apenas tentei viver sem você e falhei miseravelmente. — Houve uma pausa pesada do outro lado da linha. — Como você está se sentindo?
O silêncio de Clara foi a resposta. Ela não podia dizer a ele. Não ainda.
— Eu estou trabalhando, Christian. Tenho uma vida aqui. Uma vida que você não faz parte.
— Você tem certeza disso? — ele perguntou, o tom de voz subitamente perigoso. — Porque eu tenho o relatório do seu médico, Clara. Eu sei que você marcou uma consulta em uma clínica de obstetrícia para amanhã de manhã.
O sangue de Clara gelou. A invasão de privacidade era absoluta, tipicamente Grey.
— Como você ousa? — ela explodiu, levantando-se da cadeira. — Você não tem o direito de me espionar!
— Eu tenho todos os direitos sobre o que é meu! — ele gritou de volta, e ela pôde ouvir o som de algo sendo arremessado do outro lado da linha. — Você está carregando um filho meu, Clara. Eu senti isso na noite em que estivemos juntos. Eu não usei proteção porque eu queria isso. Eu queria que você ficasse presa a mim de uma forma que não pudesse fugir para Boston ou para qualquer lugar do mundo.
— Você odiava a ideia de ser pai! Você me deixou por causa disso! — As lágrimas começaram a cair, quentes e amargas. — Por que agora, Christian? Por que destruir a minha vida de novo?
— Porque eu percebi que o que eu mais odiava não era a criança, Clara. Era a ideia de que você amaria algo mais do que a mim. Mas eu estava errado. Eu quero essa criança porque ela é parte de você. E eu vou ser o pai que ela merece, mas você tem que voltar para casa. Para Seattle. Para mim.
— Eu não vou voltar para ser sua prisioneira — ela disse, limpando o rosto com as costas da mão. — Eu não sou a Anastácia. Eu conheço os seus jogos.
— Não é um jogo. É a minha vida. Eu estou indo para Boston agora. Meu jato decola em dez minutos. Esteja no seu apartamento às oito da noite. Se você não estiver lá, eu vou procurar em cada hotel, em cada rua desta cidade até te encontrar.
Ele desligou antes que ela pudesse protestar. Clara desabou na cadeira, o coração martelando contra as costelas. Ele estava vindo. O furacão Grey estava cruzando o país para reclamar o que considerava seu.
***
Às oito da noite, o apartamento de Clara em Beacon Hill parecia pequeno demais para a expectativa que pairava no ar. Ela tinha acendido algumas velas, não por romantismo, mas porque a luz suave acalmava seus nervos. Ela usava um conjunto de cashmere cinza, confortável e largo, tentando esconder a mudança sutil em seu corpo que só ela percebia.
A campainha tocou. Três toques curtos e autoritários.
Clara abriu a porta e lá estava ele. Christian parecia exausto. O terno estava levemente amassado, o cabelo desalinhado e os olhos cinzentos estavam injetados. Assim que a viu, a tensão em seus ombros pareceu evaporar, substituída por uma fome devoradora.
Ele entrou sem ser convidado, fechando a porta com um chute e prensando Clara contra a madeira antes que ela pudesse dizer uma palavra.
— Não fuja de mim de novo — ele murmurou, enterrando o rosto no pescoço dela. — Nunca mais.
— Christian, pare... — Ela tentou empurrá-lo, mas ele era uma parede de músculos e determinação.
— Eu não consegui dormir — ele disse, a voz abafada pela pele dela. — Cada vez que fechava os olhos, eu via você naquele banheiro. Eu sentia você. E então eu pensava no que eu fiz anos atrás e a vontade que eu tinha era de me matar por ter deixado você ir.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Suas mãos desceram para o ventre de Clara, repousando ali com uma reverência que ela nunca imaginou ver naquele homem.
— É verdade? — ele perguntou, a voz falhando. — Você está mesmo...
— Sim — ela sussurrou, desistindo de lutar. — Cinco semanas.
Christian soltou um suspiro trêmulo e encostou a testa na dela. Por um momento, o bilionário arrogante e possessivo desapareceu, restando apenas um homem aterrorizado e esperançoso.
— Eu não vou deixar nada acontecer dessa vez — ele prometeu. — Eu vou trazer os melhores médicos do mundo para Boston. Ou melhor, você vem para Seattle. Eu já preparei um andar inteiro no Escala para ser o berçário.
— Christian, devagar — ela disse, afastando as mãos dele. — Você terminou com a Ana hoje. As pessoas vão falar. Sua família...
— Minha mãe vai soltar fogos de artifício quando souber que você está grávida — ele a interrompeu. — E quanto à Anastácia, ela já recebeu um acordo de confidencialidade e uma quantia generosa para recomeçar a vida. Ela foi um erro, Clara. Um erro que eu usei para tentar esquecer o fato de que eu sou incompleto sem você.
Clara caminhou até a janela, observando as luzes da cidade.
— Você é obcecado, Christian. Você não me ama da forma comum. Você me quer como um objeto, como algo que você possui e controla.
— Eu te amo da única forma que eu sei amar — ele disse, aproximando-se por trás e envolvendo-a em seus braços. — Com tudo o que eu sou. Se isso é obsessão, então eu sou o homem mais obcecado do mundo. Eu não quero te controlar, Clara. Eu quero te proteger. O mundo é perigoso demais para você e para o nosso filho estarem sozinhos.
— Eu estava bem em Boston — ela mentiu, sentindo o calor dele a envolvendo.
— Não, você não estava. Você estava sobrevivendo. Assim como eu. — Ele virou-a de frente para ele. — Eu vi o seu rosto na reunião em Seattle. Eu vi como você me olhava quando achava que eu não estava vendo. Você ainda me pertence, Clara Park. Assim como eu pertenço a você.
— O que você vai fazer agora? — ela perguntou, sentindo a resistência se esvair.
— Eu vou te levar para jantar. E depois, eu vou te levar para a cama e passar a noite inteira garantindo que você saiba que este bebê é a coisa mais importante da minha vida, porque ele é metade seu.
— E a Anastácia? Ela sabe sobre nós? Sobre o casamento?
Christian hesitou por um segundo, a mandíbula cerrando.
— Ela sabe que eu nunca a amei. Ela sabe que havia outra pessoa. Ela não precisa saber os detalhes. Ninguém precisa. O que importa é que a Sra. Grey está voltando para casa.
— Eu ainda não disse que vou voltar — ela desafiou, erguendo o queixo.
Christian deu um sorriso predatório, aquele que sempre fazia o coração dela disparar.
— Você vai voltar, Clara. Porque você não consegue ficar longe de mim tanto quanto eu não consigo ficar longe de você. E porque, lá no fundo, você sabe que este filho precisa do pai dele. E o pai dele precisa desesperadamente da mãe.
Ele a beijou então, um beijo que não aceitava recusas. Era um beijo de posse, de promessa e de um futuro que seria tão tempestuoso quanto o passado deles. Clara se entregou, sabendo que estava voltando para o olho do furacão. Ela era a mulher de Christian Grey, para o bem ou para o mal, e o vínculo que agora crescia dentro dela era a algema final que os manteria unidos para sempre.
— Eu vou mandar o Taylor buscar suas coisas amanhã — ele murmurou contra os lábios dela.
— Eu tenho uma empresa para dirigir, Christian!
— Você pode dirigir de Seattle. Eu compro o prédio ao lado do meu se for preciso. — Ele a pegou no colo, fazendo-a soltar um gritinho de surpresa. — Mas hoje à noite, você é apenas minha. Sem ações, sem reuniões, sem passado. Apenas nós três.
Enquanto ele a carregava para o quarto, Clara sentiu uma paz estranha misturada ao medo. Christian era um homem perigoso, um homem quebrado, mas ele era o seu homem. E enquanto ele a deitava nos lençóis de seda, ela soube que a jornada de volta a Seattle seria o batismo de uma nova vida, onde as sombras de Christian finalmente encontrariam a luz na forma de uma vida que eles criaram juntos, no meio do caos de um amor que nunca soube ser pequeno.
— Eu te amo, Clara — ele sussurrou, a voz carregada de uma sinceridade que a desarmou completamente.
— Eu também te amo, seu idiota possessivo — ela respondeu, puxando-o para baixo.
A noite em Boston estava fria, mas dentro daquele quarto, o incêndio iniciado em Seattle continuava a arder, consumindo as mentiras e as distâncias, deixando apenas a verdade nua e crua: eles eram um do outro, e nada, nem mesmo a lógica ou a sanidade, poderia mudar isso.