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Vida

O Espelho de Cristal e o Batom de Morango

O sol de domingo entrava pelas janelas do triplex, iluminando as partículas de pó que dançavam no ar, mas no closet de Sara, o brilho vinha de outro lugar. O espaço, maior que o quarto de muita gente, era um labirinto de espelhos, prateleiras de vidro e o cheiro inconfundível de perfumes importados e couro de grife. No centro de tudo, em um pufe de veludo rosa choque, Valentina, com apenas dois anos e meio, observava cada movimento da mãe com uma concentração quase religiosa.

Sara estava sentada em sua penteadeira iluminada, aplicando camadas generosas de um gloss labial que prometia volume extra. Ela olhou pelo reflexo e viu a filha tentando imitar sua postura, com as costas retas e o queixo levemente erguido, uma expressão de enfado precoce que era a marca registrada da loira.

— Veja, Tina — disse Sara, virando-se para a menina com um sorriso orgulhoso —, uma mulher nunca está pronta sem o brilho certo. O mundo precisa saber que você chegou antes mesmo de você abrir a boca.

Valentina assentiu solenemente, como se estivesse recebendo coordenadas militares. Ela esticou a mãozinha gorda e pegou um pincel de blush que estava ao seu alcance, passando-o no próprio rosto com uma delicadeza surpreendente para a sua idade.

— Linda? — perguntou a menina, inclinando a cabeça para o lado, exatamente como Sara fazia quando queria convencer Emanuel de alguma extravagância.

— Você é uma diva, meu amor — exclamou Sara, pegando a filha no colo e sentando-a na bancada de mármore. — Você é o meu espelho. Diferente daquele... daquele projeto de vândalo que a Eduarda chama de filho. Você nasceu para o ouro.

Sara pegou um frasco de perfume infantil de uma marca francesa exclusiva, cujo frasco era adornado com cristais, e borrifou uma nuvem generosa ao redor de Valentina. A menina fechou os olhos, absorvendo a fragrância, e soltou um suspiro dramático.

— Cheirosa, mamãe. Igual você.

Enquanto isso, na sala de estar, o clima era drasticamente diferente. Emanuel estava sentado no sofá, tentando ler alguns relatórios no tablet, enquanto Arthur corria em círculos ao redor da mesa de centro, carregando um dinossauro de plástico que soltava rugidos eletrônicos irritantes. Eduarda estava sentada no chão, cercada por livros de História da Arte, tentando ignorar a barulheira.

— Arthur, querido, cuidado com a quina da mesa — avisou Eduarda, a voz mansa e carregada de uma paciência que parecia infinita.

— RAAWR! — respondeu o menino, dando um salto e aterrissando perigosamente perto de um vaso de cristal.

Emanuel levantou os olhos do tablet, a testa franzida.

— Ele está com energia demais hoje, Duda. Por que não levamos ele para o parque mais tarde?

— Eu adoraria, Manu. Mas a Sara disse que hoje é o dia de "spa" da Valentina. Ela não vai querer que a menina se suje de terra — comentou Eduarda, soltando um suspiro baixo.

— O spa da Valentina pode esperar — resmungou Emanuel, levantando-se. — Eu não aguento mais ficar trancado aqui ouvindo o Arthur rugir e a Sara gritar ordens para as empregadas.

Nesse momento, o som de saltos altos ecoou pelo corredor. Sara apareceu, segurando a mão de Valentina. A cena era quase cômica de tão coreografada. Sara vestia um conjunto de alfaiataria branco impecável; Valentina usava uma réplica em miniatura, completa com um laço de fita de gorgorão que era quase do tamanho de sua cabeça e uma bolsinha de mão que provavelmente custava mais do que o aluguel de um apartamento comum.

Valentina caminhava com passos curtos e decididos, tentando balançar os quadris como a mãe. Ao chegar perto do sofá, ela parou, colocou uma mão na cintura e olhou para Arthur com um desdém que fez Emanuel quase engasgar com o café.

— Barulho — disse Valentina, apontando para o dinossauro de Arthur. — Feio.

— Não é feio! É o Dino! — gritou Arthur, correndo em direção à irmã.

Valentina recuou imediatamente, escondendo-se atrás das pernas de Sara como se tivesse visto um monstro de lama.

— Não me toque! — gritou Sara, interceptando Arthur com a ponta do sapato. — Ele está suado, Eduarda! Olhe para as mãos dele, estão cheias de gordura de biscoito! Ele vai manchar o conjunto de seda da Valentina!

Eduarda levantou-se rapidamente, pegando Arthur no colo antes que ele pudesse causar um incidente diplomático.

— Ele só queria brincar, Sara. Não precisa desse escândalo.

— Brincar? — Sara soltou uma risada sarcástica. — Valentina não "brinca", ela socializa. Existe uma diferença fundamental. Tina, diga para eles o que nós vamos fazer hoje.

A menina olhou para Emanuel, deu um sorriso ensaiado e disse com a voz mais doce e manipuladora que conseguiu forjar:

— Shopping, papai. Comprar batom de morango. E sapatos.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a dor de cabeça latejar.

— Ela tem dois anos, Sara. Ela não precisa de batom ou de sapatos de grife. Ela precisa de um parquinho e de outras crianças que não a tratem como uma boneca de porcelana.

— Ela é uma boneca de porcelana — retrucou Sara, pegando a bolsa. — E ela adora ser assim. Não é, meu amor?

— Sim, mamãe. Sou linda — respondeu Valentina, mandando um beijo no ar para Emanuel, um gesto que ela claramente aprendera observando as modelos nas revistas de moda que Sara deixava espalhadas pela casa.

— Isso é ridículo — murmurou Emanuel, voltando-se para Eduarda. — Prepare o Arthur. Nós vamos ao parque. Agora.

— Mas Emanuel — interrompeu Sara, a voz subindo de tom —, você prometeu que levaria a Valentina para escolher o presente de aniversário da filha da minha esteticista! É um evento importante!

— Um evento importante? — Emanuel riu, uma risada seca e sem humor. — Sara, é uma festa de criança. Eu vou levar o meu filho para ser uma criança de verdade, longe desse museu de futilidades que você está construindo ao redor da Valentina.

Sara empalideceu de raiva, o que só realçou o blush perfeitamente aplicado.

— Você está me insultando? Na frente da minha filha?

— Eu estou constatando um fato — disse Emanuel, pegando a chave do carro. — Duda, pegue a bolsa do Arthur.

Eduarda, sentindo a tensão explodir, apenas assentiu e correu para o quarto do filho. Ela odiava conflitos, e a forma como Sara usava Valentina como um escudo de luxo a deixava profundamente desconfortável.

Enquanto Eduarda não voltava, o silêncio na sala era cortante. Arthur, no colo do pai, olhava para Valentina. Ele esticou a mão e ofereceu o dinossauro para a irmã.

— Toma, Tina. Dino faz roar.

Valentina olhou para o brinquedo de plástico barato, depois para a mãe. Sara fez uma careta de nojo. Valentina, seguindo o comando silencioso, empurrou a mão de Arthur.

— Eca — disse a menina. — Pobre.

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele colocou Arthur no chão e caminhou até Sara, parando a milímetros de seu rosto.

— Se eu ouvir essa palavra vindo da boca da minha filha mais uma vez, Sara, eu juro que corto todos os seus cartões de crédito e mando você e esse closet inteiro para um apartamento de dois quartos na periferia. Você está criando um monstro.

Sara recuou, o medo finalmente aparecendo por trás da máscara de arrogância. Ela sabia que, quando Emanuel falava naquele tom, ele não estava brincando.

— Eu só quero o melhor para ela... — sussurrou ela, a voz trêmula.

— O melhor para ela não é aprender a desprezar o irmão — disse Emanuel. — Valentina é uma criança, não uma extensão do seu ego.

Eduarda voltou, carregando a mochila de Arthur. Ela percebeu o clima pesado e evitou olhar para Sara.

— Vamos, Manu? — perguntou ela, a voz baixa.

— Vamos.

Eles saíram, deixando Sara e Valentina sozinhas na sala imensa. Sara sentou-se no sofá, sentindo-se humilhada. Ela olhou para a filha, que agora estava sentada no chão, tentando consertar o laço gigante que havia escorregado.

— Mamãe? — chamou Valentina. — Papai bravo?

— O papai não entende nada, Tina — disse Sara, puxando a filha para o colo e abraçando-a com força. — Ele não entende que nós somos especiais. Que nós somos diferentes deles.

No parque, o ambiente era o oposto do triplex. Havia barulho de crianças correndo, cheiro de grama cortada e o som de risadas genuínas. Arthur correu direto para o tanque de areia, mergulhando as mãos na terra com um entusiasmo contagiante.

Eduarda sentou-se no banco ao lado de Emanuel, observando o filho.

— Você foi duro com ela, Manu — disse ela, tocando o braço dele.

— Eu fui necessário, Duda. A Valentina está perdendo a infância tentando ser uma miniatura da Sara. Se eu não colocar um limite agora, ela vai se tornar uma mulher insuportável.

— Eu sinto pena da Valentina — confessou Eduarda. — Ela olha para a Sara como se ela fosse uma deusa. É uma pressão muito grande para uma menina tão pequena.

— E a Sara adora isso — Emanuel suspirou. — Ela se sente validada pelo culto que a própria filha presta a ela. É doentio.

Enquanto conversavam, Arthur veio correndo, com o rosto sujo de areia e um sorriso de orelha a orelha.

— Olha, papai! Achei uma pedra brilhante! — O menino estendeu uma pedra comum, mas que brilhava levemente sob o sol.

Emanuel pegou a pedra, sentindo a textura áspera.

— É linda, Arthur. É um tesouro.

— Vou dar para a Tina — disse o menino, com a inocência que só as crianças possuem. — Ela gosta de brilho.

Emanuel olhou para Eduarda e sentiu um aperto no coração. Arthur, apesar de ser chamado de "selvagem" e "bárbaro" por Sara, possuía uma generosidade que o luxo de Valentina jamais conseguiria comprar.

Horas depois, ao retornarem para o apartamento, encontraram a casa em silêncio. Sara e Valentina haviam saído. Emanuel foi até a cozinha buscar um copo de água e encontrou um bilhete na bancada, escrito com a letra rebuscada de Sara: "Fomos ao salão. Valentina precisava retocar as unhas para a festa de amanhã. Não nos espere para o jantar."

Emanuel amassou o papel e o jogou no lixo.

Mais tarde, quando a noite já havia caído, ele ouviu o som da porta se abrindo. Sara entrou, carregando sacolas, seguida por uma Valentina que parecia exausta, mas que ainda mantinha a postura ereta. As unhas da menina estavam pintadas de um rosa cintilante, e ela usava um batom de morango que brilhava sob a luz do hall.

Arthur correu até a irmã, segurando a pedra que encontrara no parque.

— Tina! Olha! Brilho para você!

Valentina olhou para a pedra suja na mão do irmão. Ela olhou para as próprias unhas perfeitas, depois para o rosto de Sara, que observava a cena com um sorriso de escárnio.

— Sujo, Arthur — disse Valentina, mas desta vez sua voz falhou um pouco. Ela olhou para a pedra novamente. Era um brilho diferente do brilho de seus sapatos. Era algo real.

Por um segundo, a "mini diva" hesitou. Ela esticou a mão, querendo tocar a pedra, querendo ser apenas uma irmã brincando com o irmão. Mas Sara limpou a garganta, um som curto e de advertência.

Valentina recolheu a mão.

— Não quero. Estraga a unha — disse a menina, virando as costas e caminhando em direção ao seu quarto, imitando perfeitamente o andar altivo de Sara.

Arthur ficou parado no meio da sala, segurando sua pedra, sem entender por que o seu tesouro fora rejeitado. Eduarda aproximou-se e o pegou no colo, beijando sua testa.

— Deixa, meu amor. A pedra fica com a mamãe. Ela é linda.

Emanuel, que observava tudo das sombras do corredor, sentiu uma tristeza profunda. Ele viu Sara entrar no quarto de Valentina, fechando a porta para o mundo exterior, trancando a filha em uma redoma de vidro, veludo e preconceito.

Ele caminhou até Eduarda e Arthur, abraçando os dois. Naquele triplex de luxo, a guerra não era mais apenas entre duas mulheres que se odiavam. Era uma guerra pela alma de duas crianças. De um lado, a liberdade suja de areia e cheia de afeto de Arthur; do outro, a prisão dourada e perfumada de Valentina.

Emanuel sabia que, enquanto Sara continuasse a ver em Valentina apenas um reflexo de sua própria vaidade vulgar, a menina estaria condenada a viver em um palco, sempre pronta para o aplauso, mas eternamente faminta por um abraço que não borrasse o batom.

Naquela noite, Emanuel não foi para o quarto de Sara. Ele ficou no quarto de Arthur, ajudando Eduarda a ler histórias sobre dinossauros e florestas, enquanto no andar de cima, o som de um secador de cabelos e o cheiro de laquê anunciavam que a preparação para a próxima performance da "mini diva" já havia começado. O espelho de Sara era impecável, mas Emanuel temia que, um dia, Valentina percebesse que ele era, na verdade, feito de gelo.