Vida
O Veneno no Cálice e a Pureza das Águas
A manhã de sábado no triplex começou com o peso de uma ressaca emocional que nem o café mais forte de Emanuel conseguia dissipar. O sol entrava pelas vidraças, revelando cada partícula de poeira e cada marca de dedo que o caos do dia anterior deixara no ambiente. No centro da sala de jantar, o clima estava gélido, apesar do aquecimento central.
Sara estava sentada à cabeceira, usando um robe de seda champagne que custava o preço de um carro popular. Ela mexia em sua salada de frutas com uma agressividade contida, enquanto Valentina, em seu cadeirão, brincava com uma colher de prata. Do outro lado, Eduarda tentava fazer Arthur comer um pouco de iogurte, mas o menino estava mais interessado em bater com a colher na mesa, rindo de cada barulho.
— Dá para controlar esse selvagem por cinco minutos, Eduarda? Minha cabeça está explodindo — disparou Sara, sem desviar os olhos de seu prato.
— Ele só está feliz, Sara. É uma criança — respondeu Eduarda, a voz suave, mas com um cansaço que beirava a exaustão.
Emanuel entrou na sala, terminando de abotoar uma camisa de linho. Ele olhou para a cena — a tensão palpável entre as duas mulheres — e sentiu a habitual vontade de dar meia-volta e se trancar em seu estúdio de tatuagem.
— Bom dia para quem? — murmurou ele, sentando-se e servindo-se de café.
— Para você, deve estar ótimo — retrucou Sara, finalmente levantando o olhar, seus olhos azuis faiscando de ressentimento. — Você passou a manhã inteira no quarto do Arthur, não foi? Eu ouvi as risadinhas.
— Eu estava brincando com meu filho antes de ele descer para o café, Sara. Qual é o problema agora? — Emanuel perguntou, a paciência já no limite.
— O problema é o seu favoritismo descarado, Emanuel! — Sara bateu o garfo na mesa, fazendo Valentina pular de susto. — Você trata o Arthur como se ele fosse o herdeiro de um império e a Valentina como se fosse um acessório de decoração nesta casa.
— Isso não é verdade — Emanuel disse, a voz subindo de tom. — Eu amo os dois da mesma forma.
— Mentira! — Sara levantou-se, a voz carregada de veneno. — Você olha para esse menino e vê a si mesmo, vê essa rebeldia barata de tatuador de rua. Você ama o Arthur mais porque ele é o filho da "santinha", da sua protegida. Você ama o Arthur porque, no fundo, você odeia o fato de que a Valentina é minha cópia fiel.
— Sara, para com isso na frente das crianças — Eduarda pediu, os olhos já começando a marejar.
— Cala a boca, Eduarda! Ninguém te chamou na conversa! — Sara voltou-se novamente para Emanuel. — Admite, Emanuel! Admite que se tivesse que escolher, você jogaria a Valentina e eu no lixo para ficar com esse bastardo e essa sonsa!
Emanuel levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando com um ruído estridente no mármore. Ele contornou a mesa e parou a centímetros de Sara, sua presença física impondo um silêncio súbito.
— Nunca mais — ele disse, a voz baixa e perigosa — chame o meu filho de bastardo. E nunca mais questione o meu amor pela minha filha. Eu dou tudo para vocês. Eu sustento esse seu luxo vulgar, eu aguento as suas crises de ego e eu tento manter essa família unida. Se você está insegura, o problema é seu, não da Valentina e muito menos do Arthur.
Sara recuou um passo, a respiração ofegante, as lágrimas de raiva borrando sua maquiagem impecável.
— Você não me engana, Emanuel. O seu desprezo por mim é o que alimenta o seu amor por esse menino. Você quer que ele seja tudo o que você é, enquanto quer que a minha filha seja apenas... nada.
Sem dizer mais uma palavra, Sara pegou Valentina do cadeirão com um solavanco e saiu da sala, os saltos batendo com fúria contra o piso enquanto ela subia para o andar superior.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Arthur, sentindo a tensão, parou de brincar e esticou os braços para Eduarda, começando a choramingar.
— Vem cá, meu amor... — Eduarda pegou o filho, aninhando-o no peito. Ela olhou para Emanuel, que estava de costas, as mãos apoiadas na mesa, a cabeça baixa. — Manu... você está bem?
— Eu estou exausto, Duda — ele confessou, a voz rouca. — Eu não aguento mais essa guerra. Cada palavra da Sara é como uma agulha nos meus nervos.
Eduarda aproximou-se dele, colocando uma mão hesitante em seu ombro.
— Ela está com ciúmes. Ela vê a conexão que você tem com o Arthur e se sente por fora.
— A conexão é diferente porque o Arthur é diferente, mas eu nunca deixei de cuidar da Valentina — ele se virou, olhando para Eduarda. Os olhos dela eram o único refúgio de paz que ele conhecia. — Eu só queria um minuto de silêncio. Um minuto sem gritos, sem acusações de silicone e sem esse veneno.
Eduarda deu um sorriso triste e compreensivo.
— Por que você não vai tomar um banho? Eu vou colocar o Arthur para tirar um cochilo e depois... talvez eu possa te ajudar a relaxar.
Emanuel assentiu, sentindo um peso sair de seus ombros. Ele subiu para a suíte principal, aquela que ele dividia com Eduarda nos dias em que a paz prevalecia. Ele entrou no banheiro de dimensões nababescas, com paredes de ardósia escura e uma banheira que parecia uma piscina particular. Ligou os chuveiros de teto, deixando a água cair com força, o vapor começando a embaçar os espelhos.
Ele se despiu, observando suas próprias tatuagens no reflexo embaçado. Cada desenho ali tinha uma história, mas nenhuma era tão complexa quanto a vida que ele levava agora. Ele entrou sob a água quente, deixando que o calor atingisse seus músculos tensos.
Alguns minutos depois, a porta de vidro do box se abriu silenciosamente.
Eduarda entrou, já despida de sua timidez habitual junto com suas roupas leves. Ela caminhou para baixo da água, a pele clara e suave brilhando sob as luzes embutidas. Seus seios médios e macios subiam e desciam com a respiração calma.
Emanuel a puxou para perto, envolvendo-a em seus braços. O contraste entre o corpo esguio e delicado dela e a estrutura forte e tatuada dele era o que ele mais amava.
— O Arthur dormiu? — perguntou ele, a voz abafada pelo som da queda d'água.
— Como um anjo — respondeu ela, passando as mãos pelo peito dele, sentindo os relevos das tatuagens. — Ele estava cansado de tanta bagunça.
Emanuel fechou os olhos, sentindo as mãos pequenas de Eduarda ensaboarem seus ombros com uma esponja macia. O toque dela era terapêutico. Não havia a urgência faminta de Sara, nem a necessidade de provar nada. Era apenas cuidado.
— Ela disse coisas horríveis, Manu — Eduarda murmurou, enquanto passava o sabonete pelo abdômen dele. — Eu sei que você não ama o Arthur mais do que a Valentina. Eu vejo como você olha para ela quando ela dorme.
— Eu sei que você vê — Emanuel segurou as mãos dela, obrigando-a a olhar para ele. — Mas o Arthur... ele tem algo. Ele me entende de um jeito que ninguém mais entende. E a Sara usa isso como arma contra mim.
— Não deixa ela entrar na sua cabeça — disse Eduarda, aproximando-se mais, o corpo molhado colado ao dele. — Você é um pai maravilhoso. O melhor que eles poderiam ter.
Emanuel suspirou, sentindo a tensão finalmente se esvair. Ele pegou o sabonete das mãos dela e começou a lavar o corpo de Eduarda com uma lentidão deliberada. Ele apreciava cada curva, cada linha de sua pele macia. Quando suas mãos chegaram à intimidade dela, Eduarda soltou um suspiro manhoso, inclinando a cabeça para trás e deixando a água do chuveiro lavar seu rosto.
— Você é a minha paz, Duda — sussurrou ele no ouvido dela. — Se não fosse por você, eu já teria enlouquecido neste apartamento.
— Eu sempre vou estar aqui, Manu — ela respondeu, os braços envolvendo o pescoço dele, puxando-o para um beijo que tinha gosto de água e promessas silenciosas.
No banho, entre o vapor e o som constante da água batendo no chão de pedra, o mundo exterior desapareceu. Não havia Sara, não havia gritos sobre herança, não havia a vulgaridade das discussões de café da manhã. Havia apenas o homem e a mulher que ele escolhera para ser seu porto seguro.
Emanuel a pressionou contra a parede de ardósia, os beijos tornando-se mais intensos, mais urgentes. A doçura de Eduarda sempre despertava nele um desejo de proteção que se misturava a uma paixão profunda. Ele a ergueu pelas coxas, e ela envolveu a cintura dele com as pernas, seus corpos se unindo sob a cascata de água quente.
— Eu te amo, Manu — ela gemeu baixo, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Eu sei, Duda. Eu também — ele respondeu, embora a palavra "amor" para ele fosse algo que ele preferia demonstrar com atos do que com frases prontas.
Eles ficaram ali por um longo tempo, deixando que a água levasse embora o veneno das palavras de Sara. Quando finalmente saíram e se enrolaram em toalhas de algodão egípcio, Emanuel sentia-se renovado.
No entanto, ao abrir a porta do banheiro, ele viu um vulto passar pelo corredor. Era Sara, que provavelmente estivera ouvindo atrás da porta, alimentando ainda mais seu próprio ódio.
Emanuel olhou para Eduarda, que percebera o movimento e empalidecera levemente.
— Deixa — disse ele, segurando a mão dela. — Ela pode ter o luxo, ela pode ter o ouro e ela pode ter o sobrenome. Mas o que nós temos aqui... ela nunca vai conseguir comprar.
Eduarda assentiu, apertando a mão dele. Ela sabia que a guerra estava longe de terminar. Sara continuaria acusando, Valentina continuaria sendo usada como escudo e Arthur continuaria sendo o pivô das maiores disputas de ego daquela casa.
Mas, enquanto houvesse aqueles momentos de silêncio, de água quente e de mãos dadas, Emanuel sabia que conseguiria enfrentar qualquer tempestade que a loira siliconada decidisse lançar sobre eles. O triplex podia ser um campo de batalha, mas naquele quarto, sob o cheiro de limpeza e o calor do corpo de Eduarda, Emanuel ainda era o rei de seu próprio destino.