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Vida

O Furacão e a Herdeira

O som de algo pesado atingindo o chão de mármore ecoou pelos três andares do triplex, seguido imediatamente por uma risada cristalina e estridente. Emanuel, que tentava analisar o relatório de faturamento de seu estúdio em Londres, fechou os olhos e respirou fundo. Ele conhecia aquele som. Era o som do caos.

— Arthur! Não, meu amor, o vaso da mamãe não! — O grito de Eduarda veio da sala de estar, acompanhado pelo barulho de passos rápidos e desesperados.

Emanuel levantou-se da poltrona, abandonando o tablet. Ao chegar ao topo da escada de vidro, a cena que encontrou era digna de um filme de ação. Arthur, um menino de dois anos com cabelos castanhos bagunçados e olhos que brilhavam com uma inteligência travessa, corria em círculos ao redor do sofá de design italiano. Ele carregava um pincel de pintura de Eduarda, sujo de tinta azul, e deixava um rastro de pingos pelo tapete persa.

Eduarda, visivelmente exausta, com o cabelo preso num coque frouxo e manchas de tinta na bochecha, tentava cercar o pequeno furacão.

— Emanuel, me ajuda! Ele pegou as minhas tintas de novo! — Eduarda exclamou, quase sem fôlego. A timidez dela ainda estava lá, mas a maternidade a forçara a desenvolver uma agilidade que ela nunca pensou ter.

— Vem cá, campeão — Emanuel disse, descendo os degraus com passos firmes.

Arthur parou por um segundo, olhou para o pai e deu um sorriso largo, mostrando os dentes pequenos. Mas, em vez de obedecer, ele viu Sara descendo do andar superior com Valentina no colo e decidiu que tinha um novo alvo.

— Sai daqui, seu monstrinho! — Sara gritou, desviando-se bruscamente quando Arthur passou raspando por suas pernas, quase sujando seu vestido de seda da Versace. — Emanuel, olha isso! Esse menino é um perigo público! Ele vai destruir o apartamento e acabar com o psicológico da minha filha!

Valentina, uma bebê de dois anos impecavelmente vestida com um conjunto rosa de renda, olhava para o meio-irmão com uma mistura de curiosidade e medo. Ela era o oposto de Arthur: calma, previsível, uma "bebê de manual". Chorava quando tinha fome, fazia birra quando estava com sono, mas passava a maior parte do tempo brincando silenciosamente com suas bonecas de grife.

— É só uma criança, Sara — Emanuel respondeu, pegando Arthur no colo com um movimento preciso, apesar dos protestos e dos chutes do menino.

— Uma criança? Isso é um demônio da Tasmânia! — Sara retrucou, ajeitando Valentina no quadril. — A Valentina está traumatizada. Ela nem consegue brincar em paz porque esse... esse selvagem atropela tudo.

— Ele só quer brincar, Sara — murmurou Eduarda, aproximando-se de Emanuel e pegando o pincel da mão do filho. Ela limpou o rosto do pequeno com o carinho que lhe era peculiar. — Ele é enérgico.

— Enérgico? Eduarda, você é uma tonta. Você deixa ele fazer o que quer porque não tem pulso — Sara debochou, revirando os olhos. — Enquanto isso, a minha filha tem que viver nesse hospício. Emanuel, você prometeu que colocaria ordem aqui.

Emanuel ignorou a reclamação de Sara por um momento, concentrando sua atenção no filho. Arthur estava agora tentando puxar a gola da camiseta preta de Emanuel, os olhinhos fixos nas tatuagens que subiam pelo pescoço do pai.

— Tatu, papai! Quero tatu! — Arthur exclamou, as mãos gordinhas batendo no peito de Emanuel.

Emanuel não conseguiu evitar um sorriso de canto. Era ali que a conexão entre os dois se tornava inegável. Arthur era fascinado pelo mundo do pai. Enquanto Valentina chorava com o barulho das máquinas de tatuagem quando visitavam o estúdio, Arthur ficava hipnotizado. Ele tentava imitar os movimentos de Emanuel com seus gizes de cera, desenhando "tatuagens" em seus próprios braços e nos de Eduarda.

— Amanhã você vai para o estúdio com o papai, Arthur. Mas agora, você precisa pedir desculpas para a Sara e para a Valentina — Emanuel disse, tentando manter a voz firme, embora a vontade fosse de rir da audácia do filho.

— Não! — Arthur respondeu prontamente, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel.

— Viu? — Sara apontou. — Ele não tem limites. Valentina, diga "grosseiro". Diga para o seu irmão que ele é um grosseiro.

Valentina, no entanto, apenas bocejou e encostou a cabeça no ombro da mãe, indiferente ao drama.

— Deixa ele, Emanuel — Eduarda pediu, tocando o braço do companheiro. — Ele está agitado porque não dormiu a soneca da tarde. Eu vou dar um banho nele e tentar amamentar. É o único jeito de ele acalmar.

— Ele ainda mama? — Sara soltou uma risada ruidosa e vulgar. — Pelo amor de Deus, Eduarda! Esse garoto já tem dentes para comer um bife e você ainda trata ele como um recém-nascido. Por isso que ele é essa coisa mimada e descontrolada. A Valentina desmamou com seis meses, como uma criança civilizada.

— Cada criança tem seu tempo, Sara — Eduarda respondeu, a voz trêmula, mas sustentando o olhar. — O Arthur precisa desse momento de conexão. Ele sente muito as coisas.

— Ele sente vontade de destruir tudo, isso sim — Sara resmungou, virando as costas. — Vou levar a Valentina para o quarto. Lá, pelo menos, o ar é mais puro e não tem cheiro de tinta de segunda categoria.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão de sempre. Dois anos se passaram, e a convivência entre as duas mulheres não havia melhorado um milímetro. A única diferença era que agora havia duas crianças no fogo cruzado.

— Leva ele, Duda — Emanuel disse suavemente, entregando o menino para a mãe. — Eu vou limpar essa bagunça na sala.

Eduarda assentiu, levando Arthur, que já começava a esfregar os olhos, um sinal claro de que o combustível do furacão estava acabando. Emanuel ficou parado na sala, observando-as subir. Ele amava Valentina; ela era sua princesa, a personificação de uma vida estável e luxuosa que ele construíra. Mas havia algo em Arthur que o puxava de uma forma visceral.

Talvez fosse o fato de Arthur ser um espelho de sua própria inquietude interior. O menino tinha a intensidade de Emanuel, mas temperada com a sensibilidade de Eduarda. Ele era um desafio constante, uma força da natureza que não podia ser contida por regras sociais ou etiquetas de luxo.

Cerca de uma hora depois, o silêncio finalmente reinou no apartamento. Emanuel caminhou pelos corredores e parou na porta do quarto de Eduarda. A luz estava baixa, e o cheiro suave de lavanda preenchia o ambiente.

Eduarda estava deitada na cama, com Arthur aninhado ao seu peito. O menino, que momentos antes parecia capaz de derrubar as paredes, agora era a imagem da paz absoluta. Suas mãos pequenas estavam relaxadas sobre o corpo da mãe, e a respiração era lenta e profunda. Eduarda também cochilava, com uma expressão de serenidade que raramente mostrava durante o dia.

Emanuel aproximou-se e sentou-se na beira da cama, observando o filho. Arthur era fisicamente muito parecido com ele — o formato do rosto, a linha da mandíbula, até a maneira como franzia a testa mesmo dormindo. Mas o jeito manhoso, a necessidade constante de toque e o apego emocional eram puramente Eduarda.

— Ele finalmente parou — a voz de Sara soou da porta, baixa, mas ainda carregada de seu tom característico.

Emanuel olhou para trás. Sara estava encostada no batente, usando um robe de seda transparente, observando a cena com um brilho estranho nos olhos. Não era ódio, era algo mais próximo de uma inveja mal disfarçada.

— Ele cansa até a alma — Emanuel sussurrou, levantando-se e indo até ela.

— Ele é um problema, Emanuel. E você sabe disso — Sara disse, cruzando os braços, fazendo com que o decote se acentuasse. — Mas... eu confesso que ele tem personalidade. A Valentina é doce, é perfeita, mas esse garoto... ele domina o ambiente.

— Ele é especial, Sara. Os dois são — Emanuel corrigiu, tentando manter o equilíbrio.

— Não venha com esse papo politicamente correto comigo. Eu vejo como você olha para ele quando ele está no estúdio. Você vê a si mesmo ali — Sara deu um passo à frente, colocando a mão no peito de Emanuel. — Só não esqueça que a Valentina é quem vai carregar o nome da família com elegância. O Arthur vai acabar sendo um rebelde tatuado igual ao pai.

Emanuel sorriu, segurando o pulso de Sara.

— E o que há de errado nisso?

— Nada... se você tiver dinheiro o suficiente para pagar a fiança dele no futuro — ela riu, recuperando sua vulgaridade habitual. — Agora, vem. A Valentina já dormiu e eu não quero passar a noite sozinha enquanto você fica aqui admirando a "Madona e seu filho".

Emanuel olhou uma última vez para Eduarda e Arthur. A fragilidade de Eduarda e a força indomável do filho eram o que o mantinham são, ironicamente. Ele precisava daquela paz, daquela entrega sem filtros. Mas ele também conhecia suas obrigações com Sara e a vida vibrante, embora exaustiva, que ela exigia.

— Já vou — ele disse.

Enquanto caminhava pelo corredor com Sara, Emanuel pensou no dia seguinte. Ele levaria Arthur ao estúdio. Imaginou o menino sentado na bancada, observando as agulhas com aqueles olhos curiosos, sem medo do sangue ou da dor, apenas fascinado pela arte.

Arthur era, de fato, um furacão. Mas era o furacão que Emanuel nunca soube que precisava em sua vida perfeitamente controlada. Entre a calmaria de Valentina e a tempestade de Arthur, o tatuador rico e poderoso percebeu que sua vida nunca mais seria uma tela em branco. E, pela primeira vez, ele não sentia necessidade de controlar o resultado final daquela obra.

No quarto de Eduarda, o pequeno Arthur deu um suspiro profundo em seu sono, sonhando talvez com tintas, dragões e os braços fortes do pai, enquanto o silêncio do loft era apenas a preparação para o caos que, com certeza, recomeçaria ao amanhecer.