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Vida

O Preço da Arte e o Veneno do Ciúme

O grito que rasgou o silêncio da manhã no triplex não parecia humano; era um som agudo, carregado de um horror que faria qualquer um pensar que uma tragédia havia ocorrido. Emanuel, que estava na cozinha terminando seu café amargo, sentiu os músculos do pescoço retesarem instantaneamente.

— EU NÃO ACREDITO! EU VOU MATAR ESSE PROJETO DE DELIQUENTE!

O barulho de saltos batendo furiosamente no chão precedeu a entrada triunfal de Sara na sala. Ela não caminhava, ela desfilava ódio. Em uma das mãos, ela segurava pelos restos das alças o que um dia fora uma bolsa Birkin de couro de crocodilo, um item de colecionador que custava mais do que muitos apartamentos populares. Agora, a peça estava decorada com cortes profundos feitos por uma tesoura de picotar e generosas pinceladas de guache verde limão.

— Olha isso, Emanuel! Olha o que o seu bastardo fez com a minha bolsa! — Sara jogou o objeto destruído sobre a mesa de jantar, fazendo o café de Emanuel oscilar na xícara. — É uma edição limitada! Eu esperei dois anos na fila para ter essa cor!

— Sara, calma... — Emanuel começou, sua voz tentando manter a racionalidade, embora o estrago fosse, de fato, impressionante.

— Calma? Calma é o cacete! — Ela se virou para Eduarda, que aparecia na porta do corredor, pálida, segurando Arthur pela mão. O menino tinha o rosto levemente sujo de verde e um sorriso de satisfação que não conseguia esconder. — Você é uma incompetente, Eduarda! Como você deixa uma criança de dois anos ter acesso a uma tesoura e à minha prateleira de acessórios?

— Eu... eu estava no banheiro, Sara... foi um segundo — Eduarda gaguejou, os olhos já começando a brilhar com as lágrimas habituais. Ela apertou a mão de Arthur, que tentava se soltar para ir em direção ao pai. — Eu sinto muito, eu posso tentar limpar...

— Limpar? Isso é couro legítimo, sua sonsa! Não se limpa arte destruída! — Sara deu um passo em direção a Eduarda, o dedo em riste. — Você faz de propósito, não é? Você treina esse moleque para destruir as minhas coisas porque tem inveja que eu sou a mulher que o Emanuel realmente exibe, enquanto você é a que ele esconde no canto da sala com cheiro de fralda!

— Chega, Sara! — O tom de Emanuel subiu, autoritário. Ele se levantou, a figura imponente preenchendo o espaço. — Eu pago a bolsa. Eu compro outra. Eu ligo para o meu contato em Paris agora mesmo.

— Não é sobre o dinheiro, Emanuel, é sobre o desrespeito! — Sara bufou, os seios siliconados subindo e descendo com força sob o robe de seda. — Essa casa virou um zoológico. Eu não aguento mais essa dinâmica onde o seu filho com essa "mosca morta" dita o que acontece aqui.

Arthur, percebendo o clima tenso, soltou-se de Eduarda e correu para as pernas de Emanuel, abraçando-as com força.

— Papai, desenhei! Ficou bonito? — O menino perguntou com a inocência cruel da infância.

Emanuel olhou para baixo, para o filho que tinha o seu próprio olhar desafiador, e depois para a bolsa destruída. Ele sabia que Eduarda não tinha malícia, mas também sabia que ela era permissiva demais. E sabia que Sara usaria aquilo como munição por meses.

— Arthur, o papai já disse que não pode mexer nas coisas da Sara — Emanuel disse, pegando o menino no colo. — Hoje você vem comigo. Vou te levar para o estúdio. Você precisa sair de casa antes que a sua "tia" Sara tenha um infarto.

— Eu não sou tia dele! — Sara gritou para as costas de Emanuel, que já caminhava em direção ao quarto para se trocar.

Eduarda ficou parada no meio da sala, os ombros caídos, sentindo-se o ser mais insignificante do mundo. Ela olhou para Sara, esperando mais um insulto, mas a loira apenas soltou um som de nojo e saiu em direção ao quarto de Valentina, batendo a porta com tanta força que um dos quadros de arte moderna no corredor ficou torto.

Uma hora depois, o apartamento mergulhou em um silêncio desconfortável. Emanuel havia saído com Arthur, que gritava de alegria por ir ao "trabalho do papai". Eduarda estava na sala, tentando ler um livro sobre a Renascença Italiana para a faculdade, mas as palavras pareciam flutuar sem sentido.

A porta do quarto de Valentina se abriu. Sara saiu de lá, impecavelmente vestida com um conjunto de ginástica de grife, segurando o celular. Ela parecia estar no meio de uma discussão com algum personal trainer ou assistente. Valentina vinha logo atrás, caminhando com seus passos curtos e precisos, abraçada a um urso de pelúcia que custava o preço de uma mensalidade universitária.

— Eu já disse que não vou hoje! — Sara gritava ao telefone. — Minha manhã foi um inferno, meu filho... quer dizer, o filho do Emanuel destruiu minha Birkin. Estou em crise!

Sara passou pela sala sem olhar para Eduarda. Ela foi até a cozinha, pegou uma garrafa de água mineral importada e continuou falando alto, gesticulando com a mão livre.

Valentina, no entanto, parou no meio da sala. Ela olhou para a mãe, que estava de costas, ignorando sua existência em favor do drama telefônico, e depois olhou para Eduarda.

Eduarda, sentindo o olhar da pequena, fechou o livro e deu um sorriso tímido.

— Oi, Tina... — sussurrou ela.

A menina não respondeu de imediato. Ela observou Eduarda. Havia algo na jovem estudante de História da Arte que era suave. Não havia gritos, não havia perfume forte que ardia o nariz, não havia o barulho constante de saltos ou de unhas batendo no celular.

Valentina caminhou até o sofá e parou na frente de Eduarda. Ela estendeu os bracinhos gorduchos, o urso de pelúcia pendurado por uma pata.

— Colo? — pediu a menina, a voz doce e pequena.

Eduarda sentiu o coração falhar uma batida. Ela olhou para a cozinha, onde Sara ainda vociferava ao celular sobre "indenização emocional", e depois para a menina.

— Você quer vir com a Duda? — Eduarda perguntou, surpresa.

Valentina assentiu com a cabeça. Eduarda a pegou com cuidado, sentindo o peso leve e o cheiro de talco e lavanda. A menina se acomodou no colo de Eduarda, encaixando a cabeça no vão do pescoço dela, soltando um suspiro de contentamento. Eduarda começou a balançar o corpo levemente, acariciando os cabelos loiros da pequena com uma ternura que era natural ao seu ser.

Enquanto isso, no estúdio principal de Emanuel, no coração dos Jardins, o cenário era outro.

— Arthur! Desce daí agora! — Emanuel gritou, enquanto tentava finalizar o traço de uma fênix nas costas de um cliente que pagava milhares de dólares pela sessão.

Arthur havia subido em um dos bancos giratórios e estava tentando usar o pedal de uma máquina de tatuagem desligada como se fosse o acelerador de um carro de corrida.

— Vrum, vrum, papai! Eu sou rápido! — O menino girava o banco, rindo alto.

— Emanuel, cara, o garoto tem energia, hein? — comentou o cliente, rindo, apesar da dor das agulhas.

— Ele é um pesadelo — Emanuel resmungou, mas havia um brilho de orgulho nos olhos. — Arthur, se você não ficar quieto, não vai ganhar o lanche que a gente combinou.

O menino parou por cinco segundos, o suficiente para Emanuel fazer uma linha reta. Mas logo em seguida, Arthur encontrou um pote de batoques — os pequenos recipientes de plástico para tinta — e começou a empilhá-los como se fossem blocos de construção. Em menos de dois minutos, ele havia derrubado o pote de tinta preta, manchando o chão de epóxi branco do estúdio.

— Tatuagem no chão, papai! — Arthur apontou, orgulhoso da mancha que parecia um borrão de Rorschach.

Emanuel suspirou, limpando o suor da testa com o antebraço. Ele amava o filho, mas a energia de Arthur era exaustiva. Ele sentia falta da paz que Eduarda trazia, mas ao mesmo tempo, a vivacidade do menino o lembrava de por que ele trabalhava tanto. Arthur não era uma criança de porcelana; ele era a tinta que se espalhava, impossível de ignorar.

De volta ao triplex, a paz reinava na sala, mas era uma paz prestes a ser explodida.

Sara terminou sua ligação e guardou o celular no cós da calça de lycra. Ela se virou, pronta para pegar Valentina e sair para algum brunch onde pudesse reclamar da vida, quando congelou.

A cena diante dela era o seu pior pesadelo: Valentina, sua herdeira, sua boneca perfeita, estava profundamente adormecida no colo de Eduarda. A menina segurava um pedaço da blusa de algodão de Eduarda com a mãozinha, e Eduarda cantava uma música de ninar quase inaudível, passando os dedos de forma rítmica pelas costas da bebê.

— Mas o que é isso? — A voz de Sara saiu rouca de ódio.

Eduarda deu um pulo, quase acordando a menina, mas manteve o aperto protetor.

— Ela me pediu colo, Sara... ela estava com sono.

— Solta a minha filha agora! — Sara avançou, arrancando Valentina do colo de Eduarda com uma brutalidade que fez a menina acordar assustada e começar a chorar. — Quem você pensa que é? Acha que pode roubar o afeto da minha filha só porque o seu filho é um pequeno delinquente que ninguém suporta?

— Eu não estou roubando nada! — Eduarda se levantou, a voz subindo de tom, algo raro para ela. — Ela só queria carinho, Sara! Você estava no telefone gritando, ela se sentiu sozinha!

— Ela nunca está sozinha, ela tem a melhor vida que o dinheiro do Emanuel pode comprar! — Sara abraçou Valentina com força, mas a menina continuava a chorar, esticando os braços de volta para Eduarda, o que só fez o sangue de Sara ferver. — Cala a boca, Valentina! Para com isso!

— Você está assustando ela! — Eduarda gritou, as lágrimas agora caindo livremente. — Você é tão egoísta que não consegue ver que ela só quer paz!

— Paz? Você quer falar de paz? — Sara riu, uma risada histérica. — Você é uma parasita. Usa essa carinha de santa para ganhar o Emanuel e agora quer usar a minha filha? Pois saiba que eu vou acabar com essa palhaçada. Quando o Emanuel chegar, eu vou exigir que você e esse seu filho problemático saiam dessa casa. Ou eu, ou você!

— Você diz isso toda semana, Sara — Eduarda disse, limpando o rosto com força, uma coragem súbita surgindo de seu cansaço emocional. — Mas o Emanuel sabe quem cuida de verdade. Ele sabe quem traz caos e quem traz amor.

— Amor não paga Birkin, querida — Sara cuspiu as palavras. — E amor não sustenta o império que ele construiu. Ele precisa de uma mulher de verdade ao lado dele, não de uma babá chorona.

Sara saiu da sala carregando Valentina, que ainda soluçava. Eduarda desabou no sofá, escondendo o rosto nas mãos. O conflito parecia nunca ter fim. Era uma guerra de atrito, onde os bebês eram as armas e o coração de Emanuel era o território em disputa.

Ao final da tarde, Emanuel retornou. Ele estava visivelmente exausto. Arthur estava dormindo em seu ombro, com a bochecha manchada de tinta azul e preta, e uma pequena tatuagem temporária de um dragão no braço, presente de um dos artistas do estúdio.

Assim que ele cruzou a porta, foi recebido por duas frentes de batalha.

Sara estava de pé perto da varanda, com uma taça de vinho na mão e um olhar gélido.

— Temos que conversar, Emanuel. Agora. Sua "namoradinha" passou dos limites hoje. Tentou virar a minha filha contra mim.

Eduarda apareceu no corredor, os olhos inchados, segurando um copo de água.

— Eu não fiz nada, Emanuel... a Valentina só queria um abraço...

Emanuel olhou para uma, depois para a outra. Ele sentiu o peso de Arthur em seu ombro e pensou na bagunça que o estúdio estava após a passagem do pequeno. Ele pensou na bolsa destruída e na cena que provavelmente ocorrera entre as duas mulheres.

Ele caminhou até o sofá e deitou Arthur com cuidado, cobrindo-o com uma manta. Depois, virou-se para as duas.

— Eu não quero ouvir uma palavra sobre bolsas, colos ou quem é a melhor mãe — Emanuel disse, a voz baixa e perigosamente calma. — Eu passei o dia limpando tinta do chão e tentando trabalhar com um furacão no colo. Eu chego em casa e o clima é de funeral ou de guerra.

— Ela tentou manipular a Valentina! — Sara insistiu, aproximando-se.

— E você provavelmente estava gritando no celular e ignorando a menina, como faz sempre que está irritada — Emanuel retrucou, fazendo Sara recuar um passo, surpresa pela franqueza dele. — E você, Eduarda... eu sei que seu coração é bom, mas você precisa entender que a Sara é a mãe da Valentina. Evite o conflito.

— Mas ela me pediu, Emanuel... — Eduarda sussurrou.

— Eu sei. Eu vi como ela olha para você — Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto. — E é isso que assusta a Sara.

Houve um silêncio tenso. Sara desviou o olhar, a vulnerabilidade brilhando por trás da máscara de arrogância. Eduarda baixou a cabeça, sentindo a dor da injustiça.

Emanuel caminhou até a adega, serviu-se de uma dose de uísque e olhou para as duas crianças dormindo em quartos separados — Arthur na sala, Valentina em seu berço de luxo.

— Amanhã — começou Emanuel —, nós vamos sair. Todos nós. Como uma família. Ou pelo menos como o que quer que nós sejamos. Sem bolsas caras, sem aulas de arte, sem estúdios. Só nós e as crianças no parque.

— No parque? — Sara fez uma careta. — Tem germes no parque, Emanuel. E sol. O sol acaba com o meu botox.

— Você vai ao parque, Sara. E você também, Eduarda — ele ordenou, sem dar espaço para discussões. — Porque se Arthur e Valentina conseguem conviver neste apartamento sem se matarem, vocês duas também conseguem.

Emanuel deu um gole longo em sua bebida, observando o pôr do sol. Ele sabia que a trégua seria curta. Sabia que Arthur provavelmente tentaria comer grama e que Valentina choraria se sujasse o vestido. Sabia que Sara e Eduarda trocariam farpas silenciosas o tempo todo.

Mas, enquanto olhava para Arthur dormindo, ele percebeu que, apesar do caos, das bolsas destruídas e das brigas por colo, aquela era a obra que ele estava tatuando na própria vida. Uma obra confusa, cheia de cores conflitantes e linhas tortas, mas que era, de alguma forma, a única coisa que o fazia se sentir verdadeiramente vivo.

— Arthur vai ser um artista — Emanuel murmurou para si mesmo, lembrando-se do brilho nos olhos do menino ao ver a tinta.

— E a Valentina vai ser a dona da galeria que vai vender os quadros dele — Sara completou, aparecendo ao lado dele, o tom de voz um pouco mais suave, mas ainda competitiva.

Emanuel deu um sorriso de canto. Talvez, apenas talvez, houvesse um futuro onde o furacão e a herdeira não precisassem destruir um ao outro para brilhar. Mas, até lá, ele teria que aprender a viver no olho da tempestade.