Vida
O Eclipse do Silêncio e a Fúria do Possessivo
As semanas que se seguiram transformaram o loft de luxo em um território de guerra fria e nervos esticados. Emanuel, acostumado a ter o controle de tudo — desde o traço preciso de suas agulhas até o ritmo das finanças de seus estúdios —, sentia-se agora como um náufrago em águas desconhecidas. Eduarda não gritava, não arremessava objetos como Sara, e não fazia exigências. Ela simplesmente... não estava lá.
Mesmo dividindo o mesmo teto, ela era uma sombra. Eduarda cumpria suas obrigações com Arthur com uma dedicação silenciosa, mas, no momento em que Emanuel entrava no cômodo, ela se tornava uma estátua de gelo. O "Manu" carinhoso fora substituído por um "Emanuel" protocolar que o atingia como um soco no estômago toda vez que era proferido.
— Eduarda, pelo amor de Deus, olha para mim — ele implorou certa tarde, bloqueando o caminho dela no corredor. — Eu já pedi desculpas. Eu já expliquei que aquela conversa com a Sara não significou nada. O que mais você quer que eu faça? Eu estou ficando louco com esse seu silêncio!
Eduarda apenas ergueu os olhos, castanhos e profundos, mas desprovidos daquela luz de adoração que costumava brilhar para ele. Ela segurava um livro de História da Arte contra o peito, como um escudo.
— Eu não quero que você faça nada, Emanuel. Eu só estou vivendo a minha vida, assim como você vive a sua. Com licença, o Arthur está me esperando para mamar.
Ela passou por ele, deixando apenas o rastro suave de seu perfume de baunilha, um cheiro que agora parecia uma tortura para o tatuador. Emanuel socou a parede de concreto aparente, sentindo a dor física como um alívio momentâneo para a agonia mental.
Sara, assistindo à cena da mesa de jantar enquanto lixava as unhas impecáveis, soltou uma risada anasalada.
— Você é patético, Emanuel. Está rastejando por causa dessa sonsa. Não vê que ela está te manipulando? Esse papel de "vítima silenciosa" é a arma mais velha do mundo. Ela quer que você se sinta um monstro para que, quando ela finalmente te "perdoar", você entregue a alma em uma bandeja de prata.
— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, os olhos injetados. — Você não ajuda em nada!
— Eu ajudo sendo real — Sara retrucou, levantando-se e caminhando até ele com sua sensualidade agressiva. — Eu sou de carne e osso, eu grito, eu brigo, mas eu não fico fazendo esse joguinho psicológico barato. Você está perdendo o seu tempo com uma menina que nem sabe o que quer.
Emanuel a ignorou e saiu do loft, precisando de ar. Ele passou as noites seguintes no estúdio, tatuando até as mãos tremerem, tentando afogar a imagem de Eduarda em tinta e trabalho. Mas, toda vez que fechava os olhos, via o rosto dela — não o rosto manhoso e doce que ele amava, mas o rosto frio da mulher que parecia ter desistido dele.
O ponto de ruptura aconteceu em uma tarde de quinta-feira. Emanuel decidiu voltar para casa mais cedo, decidido a arrastar Eduarda para uma conversa definitiva, nem que tivesse que trancá-los no quarto por dois dias. Ao estacionar o carro na frente do prédio, ele viu algo que fez seu sangue ferver instantaneamente.
Eduarda estava na calçada, perto da entrada do hall social. Ela não estava sozinha. Ao lado dela, segurando uma caixa de papelão, estava o vizinho novo que se mudara para o apartamento 102 há poucos dias — um homem jovem, de aparência atlética e um sorriso que Emanuel classificou imediatamente como "insuportável".
O pior não era a presença do homem. O pior era que Eduarda estava rindo.
Não era o riso forçado que ela dava para ser educada com os amigos de Emanuel. Era uma risada leve, solta, enquanto ela ajeitava o cabelo atrás da orelha e olhava para o vizinho com uma curiosidade que Emanuel não via direcionada a ele há semanas.
— — Sério? — Eduarda dizia, a voz chegando aos ouvidos de Emanuel como um trovão. — — Você também estuda História da Arte? Eu achei que ninguém mais no prédio se interessava por isso.
— — É a minha paixão — disse o vizinho, inclinando-se um pouco mais para perto do que Emanuel considerava aceitável. — — Se você precisar de algum livro raro ou apenas quiser discutir o simbolismo de Botticelli, meu apartamento está sempre aberto.
Emanuel saiu do carro com tanta violência que a porta quase ricocheteou. Ele caminhou em direção aos dois com passos pesados, a aura de fúria emanando dele como fumaça preta.
— — Eduarda. — O nome dela saiu como um rosnado.
Ela se virou, o sorriso desaparecendo instantaneamente, sendo substituído por aquela máscara de indiferença que Emanuel tanto odiava.
— — Ah, oi, Emanuel. Você chegou cedo.
— — Quem é esse? — Emanuel ignorou o cumprimento, fixando os olhos no vizinho com uma intensidade que faria um homem comum recuar.
— — Sou o Lucas, o novo vizinho do 102 — disse o rapaz, estendendo a mão com uma confiança irritante. — — Estava apenas conhecendo a sua... irmã?
Emanuel sentiu um estalo em sua mente. O desrespeito, a suposição e o fato de Eduarda não o ter corrigido imediatamente foram a gota d'água.
— — Ela é minha mulher — Emanuel sibilou, ignorando a mão estendida. — — E você está no meu caminho. Entra, Eduarda. Agora.
— — Emanuel, não seja grosseiro! — Eduarda protestou, a voz subindo um tom. — — O Lucas só estava sendo gentil.
— — Eu não dou a mínima para a gentileza dele! — Emanuel segurou o pulso de Eduarda, não com força para machucar, mas com uma possessividade desesperada. — — Entra para o loft. A gente vai conversar.
Ele a arrastou para dentro, ignorando os olhares curiosos das pessoas no hall. No elevador, o silêncio era sufocante. Eduarda tentava se soltar, o rosto vermelho de vergonha e raiva.
Assim que a porta do loft se fechou atrás deles, a explosão aconteceu.
— — Você ficou louco? — Eduarda gritou, algo raro nela. — — Você me envergonhou na frente do vizinho! Você agiu como um animal!
— — Um animal? — Emanuel chutou uma poltrona, o som ecoando pelo pé-direito alto. — — Eu chego em casa e encontro a minha namorada, a mulher que mal fala comigo há semanas, rindo e flertando com um desconhecido na rua? Você acha que eu sou o quê, Eduarda? Um idiota?
— — Eu não estava flertando! — Ela rebateu, as lágrimas finalmente começando a transbordar. — — Ele foi a primeira pessoa em dias que me tratou como um ser humano inteligente, e não como um móvel da casa ou uma babá de luxo!
— — Você estava olhando para ele como se ele fosse o seu salvador! — Emanuel se aproximou dela, o rosto a centímetros do dela. — — Você quer me punir? Quer me ver sofrer? Parabéns, você conseguiu! Eu estou um trapo, eu não durmo, eu não consigo desenhar, eu só penso em como trazer você de volta!
Eduarda tentou desviar o olhar, mas ele segurou seu rosto com ambas as mãos, a pele tatuada contrastando com a brancura delicada dela.
— — Olha para mim, Duda! — A voz dele falhou, e para o choque absoluto de Eduarda, os olhos de Emanuel estavam úmidos. — — Eu não aguento mais isso. Esse gelo, esse silêncio... dói mais do que qualquer agulha na minha pele. Eu errei naquela noite, eu fui um idiota por não perceber que estava te magoando, mas eu te amo! Eu amo você de um jeito que me assusta, de um jeito que eu não amo a Sara, nem ninguém no mundo!
Emanuel caiu de joelhos na frente dela, abraçando sua cintura e enterrando o rosto em seu ventre, soluçando abertamente. O grande e inabalável Emanuel estava quebrado no chão da sala.
— — Por favor, volta para mim — ele implorou, a voz abafada pelo tecido do vestido dela. — — Eu não sou nada sem a sua doçura. Eu fico cego, eu fico violento, eu perco o rumo. Eu prometo que vou ser o homem que você merece. Eu vou rir com você, eu vou ler seus livros, eu vou ser o seu melhor amigo... só não me deixa nesse escuro. Eu te amo, Duda. Eu te amo tanto que dói.
Eduarda ficou estática. Ver Emanuel naquele estado de vulnerabilidade total desarmou cada uma de suas defesas. O rancor que ela vinha cultivando como uma armadura se dissolveu em um segundo. Ela sentiu a dor dele, a sinceridade crua naquela confissão desesperada.
Lentamente, suas mãos subiram para o cabelo dele, acariciando os fios curtos com a ternura que estivera guardada por tanto tempo.
— — Manu... — ela sussurrou, a voz voltando a ser a melodia manhosa que ele tanto sentia falta.
Ele ergueu o rosto, as lágrimas manchando suas bochechas, olhando para ela com uma esperança patética.
— — Você me perdoa? — ele perguntou, a voz trêmula.
Eduarda se ajoelhou no chão à frente dele, envolvendo o pescoço de Emanuel em um abraço apertado, aninhando-se nele como se estivesse voltando para casa depois de uma longa e fria jornada.
— — Eu te perdoo, seu bobo — ela disse, chorando junto com ele. — — Mas nunca mais me faça sentir que eu sou invisível. Eu não aguentaria outra vez.
— — Nunca mais — ele prometeu, beijando cada centímetro do rosto dela, respirando o cheiro de baunilha como se fosse oxigênio puro. — — Eu vou te colocar em um pedestal tão alto que ninguém, nem mesmo a Sara, vai conseguir te alcançar.
Eles ficaram ali, no chão da sala, abraçados por um longo tempo, enquanto o sol se punha e as sombras do loft se tornavam mais suaves. Arthur, que estava cochilando no quarto, acordou e soltou um grito chamando pela "Mamãe", quebrando o momento de introspecção.
Emanuel ajudou Eduarda a se levantar, mantendo uma mão firmemente em sua cintura, como se temesse que ela pudesse desaparecer se ele a soltasse.
Quando entraram na cozinha para preparar a mamadeira de Arthur, encontraram Sara parada no arco da porta, observando-os com uma expressão de puro desdém. Ela vira a cena da sala, vira o desespero de Emanuel e a capitulação de Eduarda.
— — Que espetáculo digno de um Oscar — Sara ironizou, cruzando os braços e fazendo seus seios siliconados saltarem. — — Você é realmente impressionante, Eduarda. Conseguiu colocar o homem mais durão que eu conheço de joelhos com meia dúzia de lágrimas e um silêncio calculado.
Eduarda, agora segura nos braços de Emanuel, apenas sorriu timidamente, escondendo o rosto no ombro dele com seu jeito manhoso de sempre.
— — Não foi um jogo, Sara — Emanuel respondeu por ela, a voz firme e carregada de autoridade renovada. — — Foi amor. Algo que você talvez nunca entenda completamente.
— — Amor? — Sara soltou uma gargalhada estridente. — — Isso se chama manipulação, Emanuel! Ela te tem na palma da mão. Essa carinha de santa esconde uma mestre em controle emocional. Veja só como ela já voltou a ser a "menininha frágil" agora que conseguiu o que queria.
— — Se ser amada é ser manipuladora, então eu aceito o título — Eduarda disse baixinho, olhando para Sara com uma coragem que não tinha antes. — — Mas o Manu é meu. E ele sabe exatamente quem eu sou.
Emanuel beijou o topo da cabeça de Eduarda, ignorando completamente a presença de Sara.
— — Vamos cuidar do nosso furacão, Duda? Ele deve estar faminto.
— — Vamos, Manu — ela respondeu, puxando-o pela mão em direção ao quarto do filho, voltando a ser a Eduarda tímida, carinhosa e completamente dependente do amor dele, mas com a certeza de que, naquele loft, o seu silêncio tinha mais poder do que qualquer grito de Sara.
Sara ficou sozinha na cozinha, bufando de raiva enquanto servia uma dose generosa de vodka. Ela sabia que tinha perdido aquela batalha. A "Cereja" tinha vencido a "Fruta do Conde" pelo cansaço e pela alma. Mas, enquanto observava os dois caminharem juntos, ela não pôde deixar de sentir uma pontada de inveja daquela conexão que, por mais caótica e desigual que fosse, parecia ser a única coisa real naquele mundo de tinta, luxo e aparências.
Lá dentro, no quarto de Arthur, o pequeno menino pulava no berço ao ver os pais juntos. Emanuel o pegou no colo, e por um momento, a paz finalmente reinou. O tatuador olhou para a mulher ao seu lado, a sua Eduarda, e soube que, não importava o quanto Sara gritasse ou o quanto o mundo tentasse separá-los, ele sempre estaria disposto a cair de joelhos para manter a doçura dela em sua vida. O eclipse passara, e o sol, embora às vezes ofuscado pelo caos, brilhava novamente sobre o seu estranho e imperfeito paraíso.