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Vida

O Brilho da Cozinha e o Gelo no Peito

O loft de Emanuel sempre pareceu maior durante a madrugada. O pé-direito alto e as janelas imensas que davam para a cidade transformavam o espaço em uma catedral de concreto e vidro, onde cada som ecoava com uma nitidez quase dolorosa. Eram três da manhã quando Eduarda despertou, o lado da cama onde Emanuel deveria estar ainda frio e intocado.

Ela sentou-se, afastando os cabelos do rosto, sentindo aquela sede característica que a Coca-Cola de cereja não conseguia saciar plenamente, mas que sua garganta implorava para sentir. Com passos leves e descalços, ela deslizou pelo corredor, o pijama de seda clara balançando contra suas pernas esguias. Ela esperava encontrar Emanuel no escritório, debruçado sobre algum projeto de tatuagem, ou talvez na varanda, fumando um cigarro enquanto olhava as luzes da cidade.

No entanto, ao se aproximar da balaustrada do mezanino, o som que a atingiu não foi o silêncio do trabalho, mas algo muito mais cortante: uma risada.

Eduarda parou, o corpo ficando rígido instantaneamente. Ela se inclinou levemente, escondendo-se atrás de uma das colunas de sustentação, e olhou para a cozinha gourmet no andar de baixo.

A ilha de mármore estava iluminada por uma única luz pendente, criando um círculo de claridade íntima no meio da penumbra. Emanuel estava sentado em uma das banquetas altas, sem camisa, exibindo o mapa de tinta que cobria suas costas e braços. Ao lado dele, quase colada ao seu corpo, estava Sara.

Sara vestia apenas uma camiseta de Emanuel, que ficava curta demais em suas coxas torneadas, e segurava uma taça de vinho. Ela estava contando algo, gesticulando com a mão livre, e Emanuel a observava com um sorriso que Eduarda raramente via. Não era o sorriso protetor e suave que ele dedicava a ela; era um sorriso cúmplice, carregado de uma energia vibrante e terrena.

— — Você não existe, Sara — disse Emanuel, soltando uma gargalhada baixa e rouca após ela terminar uma frase que Eduarda não conseguiu ouvir. — — Só você para ter a audácia de falar isso na cara do curador da galeria.

— — Alguém precisava dizer a verdade, Manu! — Sara respondeu, inclinando-se para frente e tocando o peito dele com as unhas pintadas de vermelho vibrante. — — O homem é um esnobe. Ele achou que só porque eu sou loira e tenho esse corpo, eu não entenderia a técnica do seu traço. Eu o coloquei no lugar dele.

Emanuel balançou a cabeça, ainda rindo, e levou a mão à nuca de Sara, puxando-a para um beijo rápido e estalado na testa.

— — Você é um problema, sabia? Um problema lindo e barulhento.

— — E você ama cada segundo disso — provocou ela, bebendo um gole do vinho e oferecendo a taça a ele. — — Bebe. É o que eu trouxe de Bordeaux. É selvagem, como a gente.

Emanuel aceitou a taça, bebendo do mesmo lugar onde os lábios de Sara haviam tocado. Eles continuaram conversando em tons baixos, as vozes se misturando em um murmúrio de intimidade que parecia excluir o resto do mundo. Eduarda observava, sentindo o ar fugir de seus pulmões.

Não era apenas o fato de estarem juntos. Ela sabia que Emanuel tinha uma ligação com Sara, uma história de fogo e possessividade que ela nunca conseguiria emular com sua timidez. O que doía era a facilidade. A forma como eles pareciam falar a mesma língua naquela madrugada, enquanto ela, Eduarda, era apenas a "menina sensível" que precisava ser cuidada e protegida no andar de cima.

Ela sentiu uma pontada de ciúme tão aguda que seus olhos arderam. Naquele momento, ela se sentiu uma intrusa em sua própria casa. Sara, com sua vulgaridade magnética e sua confiança inabalável, parecia preencher todos os espaços vazios de Emanuel que Eduarda não conseguia tocar.

Sem fazer barulho, Eduarda recuou. Ela não desceu para buscar seu refrigerante. Ela não interrompeu a cena. Ela apenas voltou para o quarto, fechando a porta com uma lentidão agonizante. Deitou-se na cama e puxou o edredom até o queixo, mas o calor não vinha. O choro veio silencioso, as lágrimas escorrendo pelas têmporas e molhando o travesseiro. Ela chorou pela sua própria fragilidade, pela sua incapacidade de ser o "problema lindo" que fazia Emanuel rir às três da manhã.

***

Na manhã seguinte, o loft estava ensolarado e caótico, como de costume. Arthur já estava correndo pela sala, tentando usar um pincel de maquiagem de Sara para "pintar" as paredes, enquanto Valentina tentava, sem sucesso, organizar seus sapatos de boneca por ordem de cor.

Emanuel estava na cozinha, preparando um café forte. Ele viu Eduarda entrar na sala e abriu um sorriso, o mesmo sorriso protetor de sempre.

— — Bom dia, Duda. Dormiu bem? Você nem se mexeu quando eu deitei.

Eduarda não olhou para ele. Ela caminhou direto para a geladeira, pegou uma garrafa de água e serviu-se, mantendo as costas voltadas para o marido.

— — Dormi. — A resposta foi curta, sem a doçura habitual.

Emanuel franziu a testa, deixando a caneca de lado. Ele caminhou até ela e tentou colocar as mãos em sua cintura.

— — Está tudo bem? Você parece... distante.

Eduarda esquivou-se do toque com uma sutileza calculada, fingindo que precisava pegar um guardanapo no balcão oposto.

— — Estou apenas cansada, Emanuel. Tenho muito estudo hoje. História da Arte não se lê sozinha.

Ele parou no meio do caminho, as mãos pendendo ao lado do corpo. O uso do seu nome completo, em vez do habitual "Manu", foi como um balde de água gelada.

— — Emanuel? — Ele repetiu, a voz carregada de estranhamento. — — O que aconteceu? Se for por causa do Arthur ter acordado cedo...

— — Não é nada — interrompeu ela, finalmente olhando para ele, mas com olhos que pareciam feitos de vidro fosco. — — Eu preciso ir para a biblioteca da faculdade. Não me espere para o almoço.

Nesse momento, Sara entrou na cozinha, usando um robe de seda rosa choque, os cabelos loiros perfeitamente bagunçados. Ela exalava uma energia vitoriosa, como se ainda estivesse saboreando a madrugada.

— — Bom dia, família! — Sara exclamou, indo direto para a cafeteira. Ela olhou para Eduarda e deu um sorriso de lado, quase imperceptível. — — Nossa, Duda, que olheiras. O Arthur deu trabalho ou foi o peso da consciência de ser tão sem graça?

Normalmente, Eduarda baixaria a cabeça ou daria uma resposta evasiva e magoada que levaria Emanuel a defendê-la. Mas, hoje, ela apenas pegou sua bolsa.

— — Com licença — disse Eduarda, passando por Sara sem sequer reconhecer a provocação.

Emanuel observou-a sair, o som da porta do loft fechando ecoando como um veredito.

— — O que deu nela? — perguntou Sara, servindo-se de café. — — Acordou com o pé esquerdo ou finalmente percebeu que bege não é a cor dela?

— — Eu não sei — murmurou Emanuel, o peito apertado com uma sensação de desconforto que ele não conseguia explicar. — — Ela nunca me tratou assim.

***

Os dias seguintes foram um exercício de tortura psicológica para Emanuel. Eduarda, a mulher que sempre buscava seu toque, que se aninhava nele ao menor sinal de cansaço, havia se tornado uma sombra educada e gélida dentro do loft.

Ela não brigava. Ela não reclamava. Ela simplesmente o ignorava.

Quando ele chegava do estúdio, ela estava invariavelmente "ocupada" com Arthur ou submersa em livros de faculdade. Quando ele tentava puxar assunto durante o jantar, ela respondia com monossílabos, mantendo a conversa focada estritamente na rotina das crianças.

Na terceira noite, Emanuel não aguentou mais. Ele entrou no quarto enquanto ela escovava os cabelos diante do espelho. Arthur já dormia no berço ao lado, um anjo loiro que era a única ponte de comunicação que ainda parecia funcionar entre eles.

— — Chega, Eduarda — disse ele, fechando a porta e encostando-se nela. — — Você vai me dizer agora o que está acontecendo. Você não olha na minha cara há três dias. Se eu fiz algo, se a Sara disse algo... fale.

Eduarda continuou escovando o cabelo, o movimento rítmico e mecânico.

— — Não aconteceu nada, Emanuel. Eu só estou focada nas minhas coisas. Você não gosta que eu seja independente? Estou sendo.

— — Independência não é indiferença! — Ele caminhou até ela e segurou a escova, forçando-a a parar. — — Você está me tratando como se eu fosse um estranho. Como se eu nem estivesse aqui.

Eduarda finalmente olhou para o reflexo dele no espelho. Seus olhos estavam secos, mas carregados de uma mágoa profunda.

— — Talvez eu tenha percebido que você não precisa tanto da minha atenção assim — disse ela, a voz baixa para não acordar o filho. — — Você tem outros tipos de companhia que te fazem rir muito mais do que eu. Companhias que bebem vinho caro e falam sobre galerias de arte até o sol nascer.

Emanuel congelou. A ficha caiu com um estrondo metálico em sua mente. A madrugada na cozinha.

— — Você viu... — Ele começou, a voz falhando. — — Duda, a Sara e eu estávamos apenas conversando. Ela estava agitada com o evento da tarde, eu perdi o sono...

— — Eu vi como você olhava para ela, Emanuel. — Eduarda virou-se para encará-lo, a voz agora tremendo levemente. — — Você não olha para mim daquele jeito. Comigo você é o protetor, o homem que limpa as lágrimas e cuida da menininha frágil. Com ela, você é... você. Você ri, você provoca, você compartilha segredos.

— — Isso não é verdade! — Ele tentou segurar as mãos dela, mas ela as recolheu.

— — É a sua verdade. E tudo bem. Eu só entendi o meu lugar. Eu sou a mãe do seu filho, a mulher que você cuida por dever e por um carinho protetor. Mas eu não sou a mulher com quem você quer rir às três da manhã. E para me proteger de me sentir um lixo, eu decidi que não preciso mais buscar o que você não tem para me dar.

— — Eduarda, você está sendo injusta! — Emanuel sentiu a frustração subir pela garganta. — — Eu amo você. Eu amo a sua paz, a sua doçura. Eu não quero que você seja a Sara!

— — Que bom, porque eu nunca serei. Mas eu também não quero ser a sua obrigação, Emanuel.

Ela passou por ele e deitou-se na cama, virando-se para o lado oposto, criando uma muralha de silêncio que parecia intransponível.

Emanuel ficou parado no meio do quarto, sentindo-se mais impotente do que nunca. Ele olhou para Arthur, dormindo tranquilamente, e depois para as costas de Eduarda. Ele percebeu que o ciúme dela não era um ataque, era uma retirada. Ela estava se escondendo dentro de si mesma porque o brilho daquela risada na cozinha tinha ofuscado a segurança que ela sentia nos braços dele.

No andar de baixo, ele ouviu o som de um salto alto caindo no chão e a voz de Sara gritando algo sobre Valentina ter escondido seu batom favorito. O caos habitual continuava, mas, pela primeira vez, Emanuel não queria o fogo de Sara e nem mesmo a paz passiva de Eduarda. Ele queria a conexão que havia quebrado.

Ele saiu do quarto e foi para a varanda, o vento frio da noite batendo em seu rosto. Ele sabia que os próximos dias seriam uma batalha. Eduarda, em sua quietude, era muito mais difícil de manejar do que Sara em suas explosões. A indiferença dela era um campo minado de mágoas que ele teria que desarmar uma a uma.

Ele olhou para suas próprias mãos, as mãos que criavam arte permanente na pele das pessoas, e percebeu que a marca que deixara em Eduarda naquela madrugada era uma cicatriz que não saía com água e sabão. Ele teria que aprender a rir com ela também, ou acabaria perdendo a única pessoa que realmente via o homem por trás das tatuagens e do sucesso.

Enquanto isso, no quarto, Eduarda fechava os olhos com força, tentando ignorar o vazio no peito. O gelo que ela impusera entre os dois era sua única armadura, mas, por dentro, ela ainda era a cereja que Emanuel tanto dizia amar — só que, agora, ela estava com medo de estar ficando amarga demais para ser colhida.