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Vida

Tinta, Saltos e o Caos do Pediatra

O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro do loft, iluminando a poeira que dançava no ar e o rastro de destruição que Arthur já havia deixado na sala antes mesmo das nove horas. Emanuel, sentado no chão de madeira com as costas apoiadas no sofá, segurava uma canetinha preta de ponta macia com a precisão de quem manuseia uma máquina de tatuar de última geração.

— Fica parado, campeão. Se você se mexer, o traço vai sair torto e o papai é um profissional de elite, não pode queimar o nome da família — murmurou Emanuel, concentrado.

Arthur, sentado entre as pernas do pai, estava em um estado de êxtase raramente visto. Ele olhava para o próprio braço gordinho enquanto Emanuel desenhava uma âncora estilizada, cercada por algumas estrelas e o que parecia ser um dragão minimalista.

— Tatu! Igual papai! — Arthur exclamava, os olhos brilhando.

— É, igualzinho ao papai. Você vai ser o cara mais radical desse parquinho hoje — Emanuel sorriu, orgulhoso da "obra de arte" temporária.

Eduarda apareceu no topo da escada, ainda de pijama de seda clara, prendendo o cabelo em um coque frouxo. Ao ver a cena, ela parou no meio do caminho, os olhos arregalados.

— Emanuel... o que você está fazendo com esse menino? — A voz dela saiu carregada de uma indignação doce, mas firme.

— Estou expressando a personalidade dele, Duda. Olha só essa composição — Emanuel apontou para o braço de Arthur, que agora exibia orgulhoso a âncora de canetinha.

— Emanuel, isso é tinta! No braço de um bebê de dois anos! — Eduarda desceu os degraus rapidamente, aproximando-se da dupla. — E se ele tiver uma alergia? E se isso não sair? A gente tem pediatra daqui a pouco, o que a Dra. Helena vai pensar? Que o pai dele é um louco?

— A Dra. Helena vai achar que ele tem estilo — rebateu Emanuel, enquanto Arthur se levantava e começava a fazer poses de "homem forte" para a mãe.

— Estilo? Ele parece um pequeno delinquente! — Eduarda cruzou os braços, tentando manter a expressão séria, embora seu coração estivesse derretendo com a fofura do filho tentando imitar as poses de Emanuel no espelho. — Você tem uma hora para tirar isso dele, Emanuel. Uma hora!

— Relaxa, Duda. É canetinha atóxica. Sai com um pouco de água e sabão... ou talvez um pouco de esforço — Emanuel deu de ombros, levantando-se e pegando o filho no colo. — Agora, Arthur, vamos aprender a parte dois do treinamento de hoje: o salto radical.

— Nem pense nisso! — gritou Eduarda, mas já era tarde.

Emanuel colocou Arthur em cima do sofá de couro italiano.

— Certo, Arthur. O segredo é o impulso. Quando o papai disser "já", você pula na direção da mesa de centro, mas eu te pego no ar, beleza? É assim que os grandes fazem.

— Já! — gritou o menino, preparando-se para o salto.

— EMANUEL! — O grito de Eduarda ecoou pelo loft. — Ele vai quebrar o pescoço! Ele vai bater a cabeça na quina! Tira ele daí agora!

— Ele tem que aprender a ter coordenação motora, Duda! — Emanuel ria, enquanto Arthur dava um salto desajeitado e caía rindo nos braços fortes do pai. — Viu? Sobreviveu. Ele é um viking.

Enquanto Eduarda continuava seu monólogo de uma hora sobre segurança infantil e os perigos da tinta na pele, ela aproveitou um momento em que Emanuel foi buscar o café para pegar o celular. Escondida atrás do balcão da cozinha, ela deu zoom no braço de Arthur e tirou três fotos seguidas. O contraste da âncora preta com a pele branquinha e as dobrinhas do braço era, secretamente, a coisa mais adorável que ela já vira. Ela salvou as fotos em uma pasta oculta chamada "Tesouros do Arthur" e limpou a garganta quando Sara entrou na sala.

Sara era uma visão de eficiência e excesso, mesmo às dez da manhã. Ela usava um conjunto de academia que custava mais do que um carro popular, e Valentina estava em seu colo, impecável em um vestido de linho rosa com sapatos de verniz combinando.

— Que gritaria é essa? Dá para ouvir a Eduarda tendo um colapso nervoso lá do corredor — disse Sara, ajeitando os óculos escuros no topo da cabeça loira.

— O Emanuel resolveu transformar o Arthur em um gibi — Eduarda apontou para o filho, que agora tentava escalar a estante de livros.

Sara olhou para Arthur e soltou uma risada debochada.

— Típico. O pai é um rascunho humano e quer que o filho seja a cópia. Valentina, querida, olhe para o seu irmão. É por isso que nós não deixamos o seu pai escolher suas roupas.

Valentina olhou para Arthur, depois para as próprias unhas que Sara havia pintado com um brilho transparente, e fez um biquinho de desdém.

— Sujo, mamãe. Arthur sujo — disse a menina, com a voz pausada e esnobe de uma mini diva.

— Isso mesmo, boneca. Ele é um bagunceiro — Sara sorriu, vitoriosa. — Agora, vamos? Temos pediatra. E eu não pretendo passar o dia naquela sala de espera cheia de germes.

O trajeto até a clínica foi, como sempre, um teste de resistência para Emanuel. No banco de trás, Arthur tentava alcançar o laço do cabelo de Valentina, que gritava cada vez que um dedo sujo de canetinha chegava perto de sua seda.

— Emanuel, se esse menino encostar na Valentina, eu juro que vou cobrar a lavagem a seco do vestido de você! — ameaçou Sara, enquanto retocava o batom no banco do carona.

— Ele só quer brincar, Sara! — Eduarda defendia, espremida no banco de trás entre as duas cadeirinhas, tentando segurar as mãos de Arthur.

— Brincar? Ele quer destruir a estética da minha filha! — rebateu a loira.

Ao chegarem na clínica da Dra. Helena, a recepção parou. Emanuel entrou primeiro, com seu porte imponente e braços tatuados, carregando Arthur que, agora, ostentava não apenas a âncora, mas alguns rabiscos extras que conseguira fazer no próprio rosto durante o trajeto. Logo atrás, Eduarda, com seu jeito tímido, tentando esconder o rosto de vergonha, e Sara, que entrou como se estivesse desfilando em Paris, batendo os saltos e exalando um perfume caro que preencheu todo o ambiente.

— Família... numerosa — comentou a recepcionista, confusa.

— Família moderna — corrigiu Emanuel, entregando os documentos.

Não demorou cinco minutos para o caos se instalar na sala de espera. Valentina sentou-se em uma cadeirinha minúscula, cruzou as pernas e começou a folhear uma revista de moda que Sara trouxera na bolsa. Já Arthur... Arthur decidiu que a sala de espera era seu novo estúdio de acrobacias.

— Arthur, desce desse balcão! — Eduarda corria atrás dele, mas o menino era rápido.

Ele passou por baixo das pernas de um senhor idoso, deu a volta em um vaso de plantas e, antes que alguém pudesse reagir, correu em direção a Valentina.

— Tatu! — gritou ele, tentando "carimbar" o braço da irmã com a canetinha que ele ainda escondia no bolso.

— SAI DAQUI, SEU MONSTRO! — Sara se levantou em um salto, pegando Valentina no colo antes do ataque. — Emanuel, faça alguma coisa! Ele está tentando depredar a minha filha!

— Ele está compartilhando a arte dele, Sara! — Emanuel tentou conter o riso, mas a expressão de fúria de Sara era quase tão engraçada quanto o desespero de Eduarda.

— Arte? Isso é vandalismo! — Sara apontou para o chão, onde Arthur havia deixado um pequeno rastro preto. — Eduarda, você é uma inútil! Não consegue controlar um bebê?

— Eu estou tentando! — Eduarda estava vermelha, quase chorando. — Ele é muito forte, Emanuel, me ajuda!

Emanuel finalmente interveio, pegando Arthur pelo colarinho da camiseta antes que ele escalasse o bebedouro.

— Certo, Picasso, chega por hoje.

A Dra. Helena abriu a porta do consultório, observando a cena com uma sobrinha arqueada.

— Prontos para a consulta de rotina? Ou devo chamar a segurança? — brincou a médica, que já conhecia bem o histórico explosivo daquela configuração familiar.

Dentro do consultório, a dinâmica não mudou. Enquanto Valentina se deixava examinar como uma estátua de porcelana, ganhando elogios por ser uma "menina tão educada e limpa", Arthur transformou a maca em um trampolim.

— Dra. Helena, ignore os desenhos no braço dele — pediu Eduarda, morta de vergonha. — O pai dele achou que seria uma boa ideia.

A médica riu, examinando a âncora.

— Ficou muito bom, Emanuel. Mas da próxima vez, use algo que saia mais fácil. A pele de bebê é sensível.

— Viu, Eduarda? A doutora aprovou o design — Emanuel piscou para a namorada, que apenas suspirou, derrotada.

— Ele é saudável, forte e... bem, muito ativo — concluiu a médica, após lutar para ouvir o coração de Arthur enquanto ele tentava roubar seu estetoscópio. — Já a Valentina está perfeita. Uma pequena lady. Só tentem incentivar o Arthur a... talvez, não escalar as paredes?

— Boa sorte com isso — resmungou Sara, ajeitando o vestido de Valentina. — Ele é um furacão, doutora. E a mãe dele é uma brisa que não empurra nem moinho de papel.

— Sara, por favor... — Eduarda pediu, com a voz embargada.

— O quê? É a verdade! Você mima esse menino e o Emanuel incentiva as loucuras. Daqui a pouco ele está tatuando o próprio rosto.

— Se ele quiser, eu ensino a técnica correta — provocou Emanuel, abrindo a porta para que todos saíssem.

Na saída da clínica, a tensão entre as duas mulheres atingiu o ápice. Sara reclamava do tempo perdido e de como o "cheiro de hospital" estava impregnado em seu cabelo, enquanto Eduarda tentava limpar o rosto de Arthur com um lenço umedecido, sob o olhar impaciente de Emanuel.

— Eu não aguento mais essa rotina, Emanuel! — Sara exclamou, parando ao lado do carro. — Todo evento com vocês vira um circo. Eu sou uma mulher de negócios, tenho reuniões, tenho uma imagem a zelar. Não posso ser vista com esse... esse projeto de gangue — ela apontou para Arthur.

— Ele é meu filho, Sara. E seu enteado, quer você queira ou não — Emanuel disse, o tom de voz baixando para aquele nível perigoso que indicava que sua paciência havia acabado. — Se você quer uma vida de comercial de margarina, está na família errada.

Eduarda aproximou-se de Emanuel, encostando a cabeça em seu ombro, buscando proteção contra a agressividade de Sara.

— Vamos para casa, Manu... eu só quero que o Arthur durma um pouco.

— É o melhor que você faz, "santinha" — disparou Sara, entrando no carro e batendo a porta. — Leva ele para mamar, é a única hora que ele cala a boca.

O caminho de volta foi silencioso, exceto pelo som de Arthur roncando suavemente no colo de Eduarda. O furacão finalmente havia sossegado.

Ao chegarem no loft, Sara subiu direto para sua suíte com Valentina, provavelmente para dar um banho de sais na menina e tirar qualquer "contaminação" da sala de espera. Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos na sala, com Arthur adormecido entre eles no sofá.

Emanuel olhou para Eduarda e viu que ela ainda parecia abalada.

— Ei... não liga para o que ela diz. Você sabe que ela é assim porque precisa de atenção o tempo todo.

— Eu sei — sussurrou Eduarda. — Mas às vezes cansa, Manu. Eu me sinto tão pequena perto dela. E eu tenho medo de que o Arthur cresça achando que esse caos é o normal.

Emanuel a puxou para um abraço, beijando o topo de sua cabeça.

— O nosso normal é diferente, Duda. Mas ele é amado. Olhe para ele.

Eles olharam para o menino. Arthur dormia com a boca aberta, uma das mãos gordinhas agarrada à camiseta de Emanuel. A âncora de canetinha estava borrada agora, misturada ao suor do sono, mas ainda estava lá.

— Ele ficou fofo com a tatuagem, não ficou? — Emanuel perguntou, com um sorriso de canto.

Eduarda hesitou, fingindo severidade por alguns segundos antes de ceder.

— Ficou ridículo, Emanuel. Absolutamente ridículo.

Ela fez uma pausa, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

— Mas eu tirei fotos. E vou guardar para mostrar no casamento dele.

Emanuel deu uma risada alta, acordando Arthur por um segundo. O menino apenas resmungou, procurou o aconchego do peito da mãe e voltou a apagar.

Naquele loft de luxo, entre o silicone de Sara e a timidez de Eduarda, entre o minimalismo industrial e os rabiscos de canetinha, Emanuel percebeu que sua vida nunca seria tranquila. Mas, enquanto via as duas mulheres de sua vida — cada uma à sua maneira — cuidando de seus filhos, ele soube que o caos era o único lugar onde ele realmente se sentia em casa.

— Amanhã eu vou ensinar ele a andar de skate na varanda — murmurou Emanuel.

— Se você fizer isso, eu me mudo para a faculdade de Artes e levo o Arthur junto — ameaçou Eduarda, mas desta vez, ela estava rindo.

O dia terminava com a promessa de mais brigas, mais gritos de Sara e mais lágrimas de Eduarda, mas ali, naquele momento de silêncio, o tatuador e sua musa sensível compartilhavam a única coisa que os mantinha unidos: o amor pelo pequeno furacão que, mesmo dormindo, parecia planejar sua próxima grande aventura radical.