Vida
Doce Amargor e Borbulhas de Cereja
O silêncio matinal no loft de Emanuel era uma mercadoria rara, quase tão valiosa quanto as máquinas de tatuar personalizadas que ele colecionava. Naquela terça-feira, o ambiente cheirava a café recém-passado e ao desinfetante caro que a governanta usava para tentar apagar os rastros de destruição de Arthur. Emanuel estava debruçado sobre a ilha da cozinha, analisando alguns esboços em seu tablet, quando ouviu o som metálico de uma lata sendo aberta.
Ele nem precisou olhar para saber quem era. O som foi seguido por um suspiro de satisfação quase infantil. Eduarda estava encostada na geladeira, segurando uma lata de Coca-Cola sabor baunilha como se fosse um elixir sagrado. Seus olhos ainda estavam um pouco inchados de sono, e ela vestia um cardigã de tricô bege que parecia três tamanhos maior que seu corpo esguio.
— Café da manhã dos campeões, Duda? — Emanuel perguntou, com um meio sorriso brincando nos lábios.
— É a única coisa que me acorda de verdade, Manu — ela respondeu, a voz mansa e levemente rouca. — O Arthur resolveu que as três da manhã era o horário perfeito para praticar o "salto do tigre" da cabeceira da cama para cima de mim. Estou exausta.
Emanuel soltou uma risada curta e se levantou, caminhando até ela. Ele a cercou com os braços, ignorando a frieza da lata que ela segurava contra o peito dele.
— Eu vi o estoque lá na despensa. Você sabe que eu pedi mais três fardos da de cereja também, né? Estão chegando hoje à tarde.
Eduarda brilhou. Ela se aninhou no peito dele, sentindo o calor das tatuagens através da camiseta fina.
— Você me mima demais. A Sara diz que isso é coisa de criança, que eu tenho paladar infantil.
— A Sara diz muita coisa — Emanuel murmurou, beijando o topo da cabeça dela. — Mas quem decide o que entra nessa casa sou eu. E se minha garota quer Coca de baunilha e cereja, ela vai ter um carregamento direto da fábrica se for preciso.
O momento de paz durou exatamente quatro segundos. O som de saltos agulha estalando contra o piso de concreto polido anunciou a chegada da tempestade loira. Sara entrou na cozinha carregando Valentina, que usava um conjunto de veludo molhado e um laço que parecia maior que sua própria cabeça.
— Mas que cena patética — disparou Sara, colocando Valentina em uma das banquetas altas. — O sol mal nasceu e vocês já estão aí, trocando fluidos e bebendo xarope radioativo. Eduarda, sério, como seus dentes ainda não caíram com esse açúcar todo?
Eduarda se encolheu levemente, mas não soltou a lata.
— É só um refrigerante, Sara.
— É veneno líquido, querida. Mas combina com você... doce, enjoativo e sem substância — Sara abriu a geladeira, pegando uma garrafa de água mineral francesa. — Emanuel, você viu o estado do tapete do corredor? O seu "mini-me" passou com um giz de cera vermelho lá. Parece que alguém foi sacrificado no meio do loft.
— Eu limpo depois, Sara — interveio Emanuel, sua voz assumindo aquele tom de controle que ele usava para mediar as duas. — O Arthur é uma criança de dois anos. Ele tem energia.
— Ele tem é falta de limite! — Sara virou-se para Valentina, que olhava para a lata de Eduarda com curiosidade. — Não olhe para isso, Tina. Isso é coisa de gente vulgar. Nós tomamos água e suco verde, lembra? Para manter a pele de porcelana.
Valentina assentiu solenemente, imitando o biquinho de desdém da mãe.
— Açúcar faz mal, papai — disse a menina, com uma dicção assustadoramente perfeita para a idade.
— Viu? Até a bebê tem mais discernimento que a universitária de Artes — debochou Sara, encostando-se no balcão e exibindo o corpo impecável em um vestido de academia justo.
Eduarda sentiu a costumeira pontada de insegurança. Ela olhou para a própria lata, sentindo-se, de repente, ridícula. Mas antes que pudesse se afastar, a mão de Emanuel apertou sua cintura de forma possessiva.
— Ela gosta, Sara. E eu gosto que ela goste. O que você acha ou deixa de achar sobre o paladar da Duda me interessa tanto quanto o preço do arroz — Emanuel disse, os olhos fixos na loira. — E por falar em vulgaridade, o decote desse seu vestido está quase encontrando o umbigo. Se for sair com a Valentina assim, prepare-se para os olhares.
Sara deu uma risada estridente, jogando o cabelo platinado para trás.
— Inveja, Emanuel? Ou medo de que outros homens percebam o que você está desperdiçando enquanto fica aí, brincando de casinha com a "santinha das cerejas"?
O clima estava prestes a explodir quando um grito de guerra ecoou do final do corredor. Arthur surgiu correndo, vestindo apenas uma fralda e uma capa de super-herói improvisada com uma toalha de rosto. Ele trazia um rastro de pó azul pelo corpo — provavelmente talco ou sombra de maquiagem de alguém.
— PAPAI! TATU! — gritou o menino, lançando-se contra as pernas de Emanuel.
— Arthur! O que é isso no seu rosto? — Eduarda se abaixou, tentando capturar o furacão.
— Azul! — Arthur riu, tentando passar as mãos sujas na calça de Emanuel.
— MEU DEUS! — Sara gritou, protegendo seu vestido. — Tira esse monstro de perto de mim! Emanuel, ele está coberto de... isso é a minha sombra da Chanel? Aquela edição limitada que eu trouxe de Paris?
Emanuel pegou o filho no colo, analisando o tom de azul vibrante.
— É, parece que o azul é a cor mais quente hoje, Sara.
— EU VOU MATAR ESSA CRIANÇA! — Sara avançou, mas Emanuel se colocou na frente.
— Você não vai tocar nele, Sara. É maquiagem. Sai com água. Eu te compro outra, compro dez se você quiser, mas para de gritar. Você está assustando a Valentina.
Valentina, de fato, começara a chorar, um choro calculado e dramático, enquanto Arthur, no colo do pai, achava tudo uma grande brincadeira e tentava "tatuar" o pescoço de Emanuel com os dedos azuis.
— Você sempre passa pano para ele! — Sara exclamou, as veias do pescoço saltando. — Ele destrói o loft, destrói minhas coisas, e você trata como se fosse arte! Enquanto isso, minha filha tem que viver nesse hospício!
— O Arthur é uma criança, Sara! — Eduarda levantou a voz, algo raro. Ela estava tremendo, mas a proteção ao filho falava mais alto. — Ele não faz por mal. Você que vive provocando, vivendo em pé de guerra!
— Ah, cala a boca, Duda! Volta para o seu refrigerante de baunilha e sua faculdade de museu — Sara se aproximou, o dedo apontado para o rosto de Eduarda. — Você é tão sonsa que nem percebe que o Emanuel só te mantém aqui por pena, porque você não saberia nem atravessar a rua sem ele.
Eduarda recuou, os olhos enchendo-se de lágrimas instantaneamente. Ela olhou para Emanuel, buscando aquele porto seguro de sempre.
— Chega! — O grito de Emanuel fez o loft vibrar. — Sara, para o seu quarto. Agora.
— Você não manda em mim, Emanuel!
— Eu mando nesta casa! — Ele deu um passo à frente, a estatura imponente e a expressão gélida fazendo Sara vacilar. — Se você não consegue conviver civilizadamente, eu vou começar a rever nossos acordos. Eu não vou tolerar você humilhando a Eduarda na frente dos meus filhos.
Sara bufou, pegando Valentina no colo com força.
— Isso não vai ficar assim. Você prefere essa... essa garrafa de refrigerante morna a uma mulher de verdade. Vamos, Valentina. Vamos para um lugar onde as pessoas tenham classe.
Ela saiu batendo os saltos, deixando um rastro de perfume e fúria para trás.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Arthur, sentindo que a brincadeira tinha acabado, encostou a cabeça suja de azul no ombro de Emanuel e começou a chupar o dedo, seus olhos grandes e pesados de sono.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. Ele sentiu o toque suave da mão de Eduarda em seu braço.
— Desculpa, Manu... por causa da maquiagem dela.
— Não pede desculpa, Duda. Eu é que peço. Eu devia ter mais controle sobre essa situação, mas a Sara... ela sabe onde apertar os botões.
Ele colocou Arthur no chão, e o menino, milagrosamente, caminhou até o sofá e se aninhou nas almofadas, o cansaço do "crime" finalmente batendo. Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ela ainda segurava a lata, agora suada, e parecia tão pequena e frágil no meio daquela sala monumental.
— Bebe sua Coca, Duda — ele disse, com a voz suave. — Eu vou lá embaixo buscar os fardos novos que o entregador acabou de deixar na portaria.
— Você não precisa...
— Eu quero. Eu quero que você tenha tudo o que te faz feliz aqui dentro, mesmo que seja só um refrigerante com gosto de baunilha. É o seu jeito de ter paz, e eu vou garantir isso.
Ele a beijou profundamente, um beijo que carregava todo o estresse e a proteção que ele sentia por ela. Eduarda correspondeu, sentindo o mundo lá fora — e a fúria de Sara no andar de cima — desaparecer por um instante.
Dez minutos depois, Emanuel voltou ao loft carregando dois fardos pesados sob os braços, como se fossem troféus de guerra. Ele os colocou na despensa, organizando lata por lata em uma prateleira que ele havia designado exclusivamente para as bebidas dela.
Eduarda observava da porta, um sorriso tímido surgindo.
— Sabe, Manu... a Sara tem razão em uma coisa.
Emanuel parou, olhando para ela por cima do ombro.
— No quê?
— Eu sou um pouco viciada nisso. Mas não é pelo açúcar.
— É pelo quê, então?
Eduarda se aproximou, pegando uma lata de cereja gelada e encostando-a no rosto dele antes de abrir.
— É porque toda vez que eu tomo, eu lembro que você lembrou de mim. No meio de todos os seus estúdios, das viagens, das brigas com a Sara... você sempre lembra de abastecer o meu estoque. É o meu jeito de saber que eu pertenço a algum lugar.
Emanuel sentiu um aperto no peito que nenhuma tatuagem ou sucesso financeiro jamais lhe dera. Ele a puxou para perto, ignorando o fato de que Arthur tinha acabado de acordar e estava tentando comer uma das latas fechadas.
— Você pertence a mim, Duda. E eu pertenço a você. O resto... o resto é só barulho de salto alto e inveja.
— Papai! Coca! — Arthur gritou, apontando para o fardo.
— Nem pensar, garotão — Emanuel riu, pegando o filho. — Isso é da mamãe. Para você, é leite e banho para tirar esse azul da cara.
— Deixa ele só um pouquinho, Manu — Eduarda pediu, manhosa, abrindo a lata de cereja e deixando que o menino sentisse o cheiro das bolhas.
Arthur fez uma careta engraçada quando o gás atingiu seu nariz e soltou uma gargalhada que preencheu o loft, dissipando os últimos resquícios da energia negativa de Sara.
Naquela tarde, enquanto Arthur dormia o sono dos anjos (ou dos pequenos vândalos) e Valentina era submetida a uma sessão de fotos interminável pela mãe no andar de cima, Emanuel e Eduarda ficaram sentados na varanda. Ela bebia sua Coca de cereja, e ele desenhava novos esboços no tablet, ocasionalmente parando para observar a serenidade no rosto dela.
O loft era, de fato, um campo de batalha. Havia o fogo de Sara, que queimava e exigia atenção, e havia a água de Eduarda, que acalmava e nutria. Emanuel sabia que precisava de ambos para se manter equilibrado, mas naquele momento, com o sabor doce e artificial da baunilha pairando no ar e a mão de Eduarda na sua, ele sabia de qual lado preferia estar quando a guerra finalmente desse uma trégua.
— Manu? — ela chamou, baixinho.
— Oi, Duda.
— Compra aquela de limão na próxima vez? Só para eu testar?
Emanuel riu, puxando-a para mais perto.
— Eu compro o que você quiser, meu amor. Até uma fábrica inteira, se isso mantiver esse sorriso no seu rosto.
E assim, entre borbulhas de gás e promessas de novos sabores, a paz reinou no loft de luxo. Pelo menos até Valentina acordar e Sara descobrir que Arthur tinha escondido um de seus sapatos de sola vermelha dentro da caixa de brinquedos. Mas essa seria uma briga para outra lata de Coca-Cola. Por ora, o silêncio era doce. Tão doce quanto a cereja no fundo do copo de Eduarda.