Vida
O Eclipse da Atenção
O silêncio no loft de Emanuel era um fenômeno raro, mas naquela noite, ele parecia pesado demais, quase sólido. O relógio de parede marcava pouco mais de dez horas, e o único som que preenchia o ambiente era o clique rítmico das agulhas de tatuagem em um vídeo de referência que ele assistia no tablet. Emanuel estava sentado na ilha da cozinha, uma garrafa de cerveja artesanal esquecida ao seu lado, enquanto observava a porta fechada do quarto de Arthur.
Eduarda não saía de lá há quase três horas.
Desde que haviam voltado do estúdio, onde Arthur causara um pequeno incidente ao tentar "ajudar" o pai a organizar as tintas — o que resultou em uma mancha azul permanente no tapete da recepção e em um Emanuel rindo enquanto tentava limpar o rosto do filho —, Eduarda se fechara em um casulo de maternidade absoluta.
Emanuel suspirou, sentindo uma pontada de algo que ele relutava em chamar de ciúme, mas que se parecia muito com negligência. Ele estava acostumado a ser o centro do mundo de Eduarda, o porto seguro para onde ela corria sempre que Sara descarregava seu veneno. Mas, ultimamente, o porto parecia estar vazio.
A porta do quarto se abriu silenciosamente. Eduarda saiu de lá na ponta dos pés, usando um pijama de algodão doce e com o cabelo preso em um coque desleixado. Ela parecia exausta, mas tinha aquele brilho nos olhos que só aparecia quando falava do filho.
— Ele finalmente apagou — sussurrou ela, aproximando-se da ilha, mas sem olhar realmente para Emanuel. Ela foi direto para a geladeira. — Ele teve um pico de energia depois do banho, Manu. Acho que foi o chocolate que a Sara deu para ele escondida.
Emanuel acompanhou os movimentos dela com o olhar. Eduarda pegou sua inseparável Coca-Cola de baunilha, abriu a lata com um estalo que pareceu um tiro no silêncio e deu um gole longo.
— É, a Sara não sabe a hora de parar — comentou Emanuel, esperando que ela se aproximasse, que sentasse em seu colo ou que, pelo menos, perguntasse como fora o seu dia estressante gerenciando três estúdios diferentes.
— Ele é tão lindo dormindo, Manu. Você viu como ele agarra o travesseiro? Igualzinho a você — ela continuou, ignorando o comentário sobre Sara e voltando a atenção para o monitor do babá eletrônica que carregava na mão. — Eu sinto que ele está crescendo rápido demais. Às vezes eu só queria que o tempo parasse.
— Duda — chamou ele, a voz um pouco mais grave.
— Oi? — Ela finalmente olhou para ele, mas seus olhos pareciam distantes, ainda processando as demandas do "furacão Arthur".
— Senta aqui um pouco. Esquece o babá eletrônico por cinco minutos.
Eduarda hesitou, olhando para a tela onde a imagem granulada de Arthur mostrava o menino chutando a coberta.
— Eu só vou ver se ele está coberto, Manu. O ar-condicionado está forte e...
— O ar está em vinte e três graus, Duda. Ele está bem — cortou Emanuel, sentindo a irritação borbulhar. — Eu estou aqui. Eu cheguei em casa há três horas e a gente não trocou dez palavras que não fossem sobre o Arthur ou sobre o que a Sara quebrou hoje.
Eduarda parou, a lata de refrigerante a meio caminho da boca. Ela percebeu o tom na voz dele. Era o tom de quando ele estava perdendo o controle, mas temperado com uma vulnerabilidade que ela raramente via.
— Você está bravo? — perguntou ela, aproximando-se lentamente.
— Não estou bravo. Estou... invisível — disse ele, deixando a cerveja de lado e se levantando. Ele caminhou até ela, encurtando o espaço até que o cheiro de baunilha dela e o de tinta dele se misturassem. — Eu amo aquele garoto mais do que a minha própria vida, você sabe disso. Ele é minha cópia, é o meu orgulho. Mas eu também sinto falta da minha namorada.
Eduarda baixou o olhar, sentindo o rosto esquentar.
— Eu sinto muito, Manu. É que ele demanda tanto de mim... e com a Sara o tempo todo me atacando, dizendo que eu sou uma mãe incompetente, eu sinto que tenho que provar o dobro.
— Você não tem que provar nada para aquela loira — Emanuel segurou o queixo de Eduarda, forçando-a a olhá-lo. — A Sara vive em um mundo de aparências. A Valentina é um acessório para ela. Mas você... você se perdeu dentro do Arthur. E eu estou aqui fora, esperando o meu turno.
Antes que Eduarda pudesse responder, o som de saltos altos ecoou no corredor. Sara entrou na cozinha como se estivesse entrando em um palco, vestindo um robe de seda vermelha que custava o preço de uma moto e segurando uma taça de vinho.
— Ora, ora... o casalzinho está tendo uma DR no meio da noite? — provocou Sara, encostando-se no batente da porta e exibindo as pernas longas. — Eu não culpo o Emanuel, Eduarda. Você virou uma babá em tempo integral. Está cheirando a talco e leite azedo. Que homem aguentaria isso?
— Sara, não começa — avisou Emanuel, sem soltar Eduarda.
— Eu só estou sendo realista, querido! — Sara deu um gole no vinho, os olhos brilhando com a discórdia. — Enquanto você está aqui implorando por um pouco de atenção, a "doce Eduarda" só tem olhos para o pequeno vândalo. Se eu fosse você, procuraria diversão em outro lugar. Alguém que saiba separar as coisas. Alguém que ainda lembre como se usa um salto agulha e um batom vermelho.
Eduarda se encolheu, a insegurança voltando como uma onda fria. Ela tentou se afastar de Emanuel, mas ele a segurou com mais força.
— A diferença, Sara — disse Emanuel, a voz gélida —, é que a Eduarda tem um coração que não cabe no peito. Você tem um espelho no lugar do coração. Agora, se nos der licença, a gente estava conversando.
Sara soltou uma risada seca e vulgar.
— Conversando? Você está mendigando afeto, Emanuel. É patético. Valentina já está dormindo, e eu estou indo para a hidromassagem. Se cansar da monotonia da baunilha, sabe onde me encontrar.
Ela girou nos calcanhares e saiu, deixando o rastro de seu perfume caro e agressivo para trás.
O silêncio voltou, mas agora estava carregado de uma tensão diferente. Eduarda olhou para Emanuel, as lágrimas começando a formar uma película nos seus olhos grandes.
— Ela tem razão, não tem? Eu estou te deixando de lado. Eu sou chata, Manu. Eu só falo de fraldas, de escola, de como o Arthur é parecido com você...
— Duda, para — pediu ele, puxando-a para um abraço apertado. — Ela não tem razão sobre nada. Mas eu sinto falta de nós. Do tempo em que a gente ficava no estúdio até tarde, você lendo seus livros de arte e eu desenhando, sem nenhuma preocupação além da próxima tatuagem.
— Eu também sinto falta — sussurrou ela contra o peito dele. — Mas eu me sinto culpada se não estou cem por cento focada nele. Parece que se eu tirar o olho por um segundo, ele vai crescer e eu vou perder algo.
— Você não vai perder nada. Ele é um furacão, lembra? Ele vai sempre fazer questão de ser notado. Mas eu não sou um furacão, Duda. Eu sou o cara que tenta manter o teto em cima de vocês. E às vezes, o teto precisa de manutenção também.
Emanuel a pegou no colo, surpreendendo-a. Eduarda soltou um pequeno grito de surpresa, agarrando-se ao pescoço dele.
— O que você está fazendo? O babá eletrônico...
— O babá eletrônico vai ficar aqui na ilha. Se o Arthur chorar, o som é alto o suficiente para ouvirmos do quarto — disse ele, caminhando em direção à suíte deles, longe dos quartos das crianças.
— Manu, a Sara pode aparecer...
— Deixa a Sara com a hidromassagem dela. Hoje o mundo pode acabar lá fora, mas aqui dentro, eu só quero a Eduarda. Não a mãe do Arthur, não a rival da Sara. Só a minha Duda.
Ele a colocou na cama com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta. No quarto, a luz era baixa, vinda apenas dos abajures de design industrial. Emanuel se posicionou sobre ela, observando cada detalhe do rosto que ele tanto amava — a timidez, a doçura e a fragilidade que o faziam querer protegê-la do mundo inteiro.
— Você é linda — sussurrou ele, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Mesmo cansada, mesmo cheirando a talco, como diz a Sara. Para mim, você é a obra de arte mais valiosa que eu já vi.
Eduarda sorriu, um sorriso real que iluminou seu rosto. Ela passou as mãos pelas costas tatuadas de Emanuel, sentindo os relevos da tinta sob a pele.
— Eu te amo, Manu. Desculpa por me perder um pouco.
— Eu te ajudo a se encontrar de novo. Sempre.
O momento foi interrompido por um ruído vindo do monitor na cozinha. Um resmungo baixo, seguido por um "Papai?" sonolento.
Eduarda congelou, o instinto materno disparando como um alarme.
— Ele acordou. Eu preciso ir...
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. A frustração ameaçou voltar, mas ele viu o conflito no rosto dela.
— Fica aqui — disse ele, selando os lábios nos dela em um beijo rápido. — Eu vou lá.
— Você?
— É. Eu sou o pai dele também, lembra? E se ele quer o papai, ele vai ter o papai. Você fica aqui, fecha os olhos e tenta relaxar por dez minutos. É uma ordem do seu namorado tatuador.
Emanuel saiu do quarto e caminhou pelo loft silencioso. No quarto de Arthur, o menino estava sentado no berço, esfregando os olhos com as mãozinhas gordinhas. Quando viu o pai, um sorriso enorme se abriu em seu rosto.
— Papai! Tatu!
Emanuel sentiu todo o seu ressentimento derreter. Ele pegou o filho no colo, sentindo o peso sólido e reconfortante do pequeno furacão.
— Shhh, campeão. Está na hora de dormir. A mamãe está descansando.
— Mamãe dodo? — perguntou Arthur, tombando a cabeça no ombro de Emanuel.
— É, a mamãe está cansada. Vamos deitar com o papai um pouco?
Emanuel sentou-se na poltrona de amamentação com o filho no colo. Arthur se acomodou instantaneamente, o polegar indo para a boca enquanto observava as tatuagens no braço do pai sob a luz fraca da luminária de dinossauro.
— Desenho... — murmurou o menino, antes de fechar os olhos.
Emanuel ficou ali por um longo tempo, observando a cópia fiel de si mesmo. Ele entendeu, naquele momento, por que Eduarda se perdia tanto. Era fácil ser hipnotizado por Arthur. Era fácil esquecer o resto do mundo quando se tinha aquela pureza nos braços.
Cerca de vinte minutos depois, quando Arthur estava em um sono profundo, Emanuel sentiu uma presença na porta. Eduarda estava lá, observando os dois com lágrimas nos olhos. Ela não aguentara ficar na cama; a curiosidade e o hábito falaram mais alto.
Emanuel fez um sinal para que ela se aproximasse. Quando ela chegou perto, ele a puxou para o seu lado na poltrona, acomodando-a entre seu corpo e o braço da cadeira, com Arthur no meio deles.
— Viu? — sussurrou Emanuel. — Ele só precisava de um minuto com o pai.
— Vocês são iguais — disse ela, acariciando o cabelo de Arthur e depois o de Emanuel. — Eu tenho tanta sorte.
— A gente é que tem sorte, Duda. Mas amanhã... amanhã a gente vai contratar uma babá por algumas horas.
— O quê? Manu, a Sara vai dizer que eu sou preguiçosa...
— A Sara não vai dizer nada porque ela vai estar ocupada demais no shopping. A gente vai sair. Só eu e você. Sem fraldas, sem desenhos animados, sem discussões sobre o Arthur.
Eduarda hesitou, mas depois relaxou contra ele.
— Para onde vamos?
— Para o estúdio. Eu quero terminar aquela tela que eu comecei a pintar para você. E depois, eu quero te levar para jantar naquele lugar que você gosta, onde a gente pode tomar vinho e conversar sobre História da Arte até os garçons expulsarem a gente.
Eduarda sorriu, sentindo-se finalmente vista, não apenas como a mãe do Arthur, mas como a mulher que Emanuel escolhera para dividir a vida.
— Eu adoraria isso.
— Ótimo. Agora vamos levar esse pequeno vândalo para o berço e tentar recuperar o tempo perdido.
Eles colocaram Arthur na cama juntos, como uma equipe. Ao saírem do quarto, passaram pela porta de Sara, de onde vinha o som de música alta e o aroma de sais de banho caros. Emanuel nem sequer olhou para trás.
De volta ao quarto deles, Emanuel fechou a porta e trancou-a. Ele se virou para Eduarda, que o esperava com um olhar que misturava timidez e desejo.
— Onde estávamos? — perguntou ele, aproximando-se.
— Acho que você estava me dizendo que eu era uma obra de arte — respondeu ela, manhosa, passando as mãos pela cintura dele.
— Ah, sim. E eu sou um restaurador muito detalhista, Duda. Eu pretendo passar a noite inteira apreciando cada detalhe.
Naquela noite, o eclipse da atenção finalmente passou. Emanuel não se sentia mais deixado de lado, e Eduarda não se sentia mais apenas uma extensão do filho. No meio do luxo de Búzios, entre os gritos de Sara e as travessuras de Arthur, eles encontraram novamente o espaço que pertencia apenas aos dois.
E enquanto o mar lá fora quebrava suavemente na areia, Emanuel soube que, não importa o quão forte fosse o furacão Arthur ou o quão ácida fosse a tempestade Sara, ele sempre teria aquele porto seguro nos braços de Eduarda. E ela, por sua vez, aprendeu que para ser uma boa mãe, ela também precisava se permitir ser a mulher amada pelo homem que segurava o seu mundo nas mãos.
A paz duraria até as seis da manhã, quando Arthur certamente acordaria gritando por "tatu" e batendo tampas de panela, mas até lá, o loft pertencia apenas ao amor, à tinta e ao silêncio doce que só os dois sabiam compartilhar.