Vida
O Mistério das Frutas e o Ego de Porcelana
O loft de Emanuel estava mergulhado naquela luz âmbar de fim de tarde, o tipo de iluminação que fazia o estúdio de tatuagem integrado à sala parecer uma galeria de arte moderna. Arthur, o pequeno furacão de dois anos, estava momentaneamente contido em seu cercadinho, mas não em silêncio; ele batia um boneco do Batman contra um balde plástico, produzindo um som rítmico que Emanuel já havia aprendido a ignorar para manter a sanidade.
Eduarda estava sentada no sofá de couro, vestindo um robe de seda clara que Emanuel havia trazido de uma viagem a Milão. Ela estava com aquele olhar manhoso, os lábios levemente úmidos após beber um gole de sua inseparável Coca-Cola de cereja. Emanuel se aproximou, deixando de lado o tablet onde desenhava um esboço, e sentou-se ao lado dela, puxando-a para perto.
— Você está com cheiro de cereja, Duda — sussurrou ele, a voz rouca, roçando o nariz no pescoço dela.
Eduarda soltou uma risadinha tímida, encolhendo os ombros.
— É o refrigerante, Manu. Você sabe que eu sou viciada.
Emanuel sorriu, uma expressão possessiva cruzando seus traços sérios. Ele baixou a mão para a coxa dela, deslizando por baixo da seda do robe com uma familiaridade que sempre fazia Eduarda prender a respiração.
— Não é só o refrigerante — disse ele, aproximando o rosto do ouvido dela para que apenas ela ouvisse. — É a minha parte favorita de você. Minha cereja. Doce, macia e só minha.
Eduarda ficou instantaneamente vermelha, escondendo o rosto no peito tatuado dele. Emanuel adorava chamá-la assim na intimidade. O apelido "Cereja" se tornara o código secreto deles para a intimidade dela, uma referência tanto ao seu vício pelo refrigerante quanto à delicadeza que ele encontrava nela.
— Manu... não fala assim, o Arthur está ali — murmurou ela, embora estivesse se derretendo nos braços dele.
— O Arthur está ocupado tentando destruir o Batman, Duda. Ele não entende — Emanuel riu, beijando-a com vontade.
O que nenhum dos dois percebeu foi que Sara estava parada no topo da escada de metal que levava ao mezanino. Ela usava um conjunto de lingerie de renda neon sob um hobby transparente, com Valentina no colo. Sara tinha ouvido tudo. Seus olhos azuis, sempre afiados, brilharam com uma mistura de incredulidade e um ciúme que ela jamais admitiria como tal.
— Cereja? Sério, Emanuel? — A voz de Sara cortou o ar como um chicote, fazendo Eduarda dar um pulo e se afastar de Emanuel, ajeitando o robe freneticamente. — Eu sabia que o nível de futilidade dessa casa estava caindo, mas dar apelido de fruta para as partes baixas da "santinha" já é atingir o fundo do poço do ridículo.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo e buscando paciência nas profundezas de sua alma. Ele se virou para encarar a loira, que descia as escadas com a elegância agressiva de quem está prestes a começar uma guerra mundial.
— Sara, você não tem mais o que fazer? — perguntou ele, a voz gélida. — Tipo, sei lá, olhar se a Valentina não está tentando comer o seu batom de quinhentos reais?
— A Valentina é uma lady, ela não come batom — retrucou Sara, colocando a menina no chão. — Valentina, querida, vá brincar com o seu irmão, mas não deixe ele encostar no seu laço de fita.
A menina, uma mini diva de dois anos, caminhou até o cercadinho de Arthur com um ar de superioridade, enquanto Sara parava na frente de Emanuel e Eduarda, as mãos nos quadris perfeitamente esculpidos pelo silicone e pela academia.
— Cereja... — Sara repetiu, soltando uma gargalhada vulgar e sonora. — É tão... infantil. Tão "Eduarda". É o quê? Porque é pequena e tem carocinho? Ou porque você precisa de muito açúcar para aguentar a falta de sal dela?
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se encolheu no sofá, buscando o apoio de Emanuel.
— Não é nada disso, Sara... é só um jeito carinhoso — sussurrou Eduarda, a voz trêmula.
— É ridículo, isso sim — Sara desdenhou, revirando os olhos. — Mas já que você está nesse clima de "feira de frutas", Emanuel, eu exijo saber. Se ela é a cereja, o que eu sou? Porque eu não aceito ficar sem um título. E tem que ser algo que combine com o meu padrão. Nada de frutinha de quintal.
Emanuel olhou para Sara, incrédulo. Ele não sabia se ria ou se saía para dar uma volta no quarteirão.
— Sara, você está mesmo me pedindo um apelido para... para isso? Agora? Na frente das crianças e da Eduarda?
— Sim, eu estou! — Sara bateu o pé, o salto agulha fazendo um som seco no piso. — Se você deu um nome para o "parquinho" dela, o meu também precisa de uma marca registrada. Eu sou a mãe da sua filha, sou formada em administração e tenho mais silicone nesse corpo do que essa garota tem de sangue. Eu exijo um apelido de luxo.
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo uma dor de cabeça começar a pulsar. Eduarda olhava de um para o outro, chocada com a audácia de Sara, mas também curiosa, de uma forma masoquista, sobre o que Emanuel diria.
— Tudo bem, Sara. Você quer um apelido? — Emanuel se levantou, ficando frente a frente com a loira. A diferença de altura era notável, mas Sara não recuava um milímetro.
— Quero. E pense bem. Se for algo ofensivo, eu quebro aquela sua coleção de tintas importadas.
Emanuel olhou para o corpo de Sara, para a postura imponente, para a vulgaridade estilizada que ela carregava com tanto orgulho. Ele pensou na intensidade dela, no quanto ela era cara, barulhenta e, às vezes, excessiva.
— Fruta do Conde — disse ele, finalmente.
Houve um silêncio mortal no loft. Arthur parou de bater o Batman. Valentina parou de ajeitar o laço. Eduarda piscou, confusa.
— Fruta do Conde? — Sara repetiu, franzindo a testa perfeitamente desenhada. — O que diabos é isso? É caro? É importado? Tem em Paris?
— É uma fruta exótica, Sara — explicou Emanuel, tentando manter a cara séria, embora o canto de sua boca quisesse traí-lo. — É cheia de saliências por fora, meio bruta, difícil de descascar. E por dentro... bem, é doce, mas tem tantos caroços que você passa mais tempo cuspindo do que aproveitando. É trabalhosa, exige esforço e, se você não souber lidar, acaba fazendo uma sujeira danada.
Eduarda soltou um som que foi uma mistura de soluço e risada, cobrindo a boca com a mão imediatamente.
Sara ficou estática por alguns segundos, processando a descrição.
— Difícil de descascar... exótica... trabalhosa... — Sara murmurou para si mesma. Ela pareceu ignorar a parte dos "caroços para cuspir" e focou apenas no "exótica" e "trabalhosa". — É, faz sentido. Eu sou complexa. Sou para paladares refinados, não para qualquer um que se contenta com uma cerejinha de bolo de padaria.
— Exatamente — concordou Emanuel, querendo encerrar o assunto antes que Sara pesquisasse no Google e visse que a fruta também é conhecida como "Ata" ou "Pinha" e tem uma aparência bem acidentada.
— Mas eu ainda acho "Cereja" um nome de stripper de quinta categoria — Sara disparou, voltando sua metralhadora verbal para Eduarda. — Você deveria ter vergonha, Eduarda. Aceitar ser chamada de fruta.
— Você acabou de aceitar ser chamada de Fruta do Conde, Sara! — Eduarda retrucou, ganhando um pouco de coragem. — E o Manu gosta da minha cereja. Ele disse que é a parte favorita dele.
— Porque ele ainda não explorou todas as camadas da minha Fruta do Conde esta semana! — Sara rebateu, aproximando-se de Eduarda com um olhar desafiador. — Emanuel, você vai ter que provar que sabe lidar com as "saliências" hoje à noite. A santinha que fique com os desenhos dela.
— Eu não vou provar nada para ninguém sob pressão — Emanuel interveio, pegando Arthur no colo, que já começava a reclamar de fome. — Duda, prepara a janta do Arthur? Sara, por favor, coloca uma roupa decente, a Valentina está começando a repetir tudo o que você faz. Olha lá, ela está tentando desabotoar o vestido para ficar "igual à mamãe".
Sara olhou para a filha e, por um momento, o orgulho de ver a "mini diva" superou a briga.
— Ela tem estilo, Emanuel. Aceite.
— Ela tem dois anos, Sara! — Emanuel exclamou, caminhando para a cozinha.
Eduarda se levantou e foi atrás dele, sentindo-se um pouco mais segura, mas ainda processando a cena bizarra. Sara, por sua vez, ficou na sala, pegando o celular para pesquisar "Fruta do Conde" no Instagram, esperando encontrar fotos de sobremesas em restaurantes estrelados.
— Emanuel! — Sara gritou da sala, alguns minutos depois. — Essa fruta é toda cheia de gomos esquisitos na casca! Você está dizendo que eu tenho celulite?
— Eu disse que era exótica, Sara! — Emanuel gritou de volta da cozinha, enquanto Arthur jogava uma colher de papinha no chão. — Foca na doçura, não na casca!
Eduarda riu, uma risada genuína e leve, enquanto passava por Emanuel para pegar um pano de prato.
— Fruta do Conde, Manu? Sério? — sussurrou ela.
— Foi o melhor que eu consegui pensar sob pressão, Cereja — ele piscou para ela, puxando-a para um selinho rápido antes que o furacão Arthur começasse o segundo round da guerra da janta.
— Eu prefiro ser a cereja — admitiu Eduarda, manhosa, encostando a cabeça no ombro dele.
— E você sempre vai ser a minha favorita — Emanuel garantiu, embora soubesse que, no andar de cima, a "Fruta do Conde" estava provavelmente escolhendo a lingerie mais cara para provar que seus "gomos" eram muito mais interessantes do que qualquer fruta pequena.
A noite no loft prometia ser longa. Entre o choro de Arthur, o esnobismo de Valentina e a competição frutífera entre suas duas namoradas, Emanuel percebeu que sua vida era um pomar caótico, mas, de alguma forma, ele não conseguia imaginar sua pele sem o sabor de cada uma daquelas confusões.
— PAPAI! MAMA! — Arthur gritou, batendo na mesa.
— Já vai, pequeno tatuador — Emanuel suspirou. — Duda, esquece a cereja por um segundo e me ajuda aqui com o furacão.
— Só se você prometer que não vai dar apelido de legume para ninguém amanhã — Eduarda brincou, entregando a mamadeira para ele.
Emanuel riu, o som ecoando pelo loft, abafando por um instante as reclamações de Sara sobre a iluminação do espelho do banheiro. No fim das contas, apelidos à parte, ele sabia que era o único que realmente conhecia o sabor de cada conflito e de cada carinho naquela casa. E, por enquanto, ele estava satisfeito em ser o dono de todo aquele pomar.