Voltar ao resumo

Vida dupla

O Labirinto de Vidro e a Primeira Suspeita

A luz da manhã seguinte infiltrou-se pelas cortinas de seda do quarto principal, banhando o ambiente em tons de âmbar. Ester despertou antes mesmo do despertador, com o corpo ainda em alerta, mas uma sensação estranha aquecendo seu peito. Ao seu lado, Camila dormia profundamente, um contraste absoluto com a imagem da mulher tensa e encolhida que Ester encontrara no dia anterior. A pequena Cabello tinha um braço jogado sobre a cintura de Ester, e seu rosto estava sereno, com um leve sorriso que parecia ter sido esculpido durante a noite.

Ester observou-a por longos minutos. A culpa a corroía. Ela estava ali sob um pretexto falso, usando o rosto de uma mulher que desprezava para receber o amor que Camila oferecia tão puramente. No entanto, ao lembrar-se das marcas de hematomas que vira no corpo de Camila — marcas deixadas por Rafaela —, a determinação de Ester se renovava. Ela não era uma impostora por maldade; ela era uma salvaguarda.

Levantando-se com cuidado para não acordar a esposa, Ester foi ao banheiro. Ao se olhar no espelho, a semelhança física com Rafaela ainda a assustava. Eram idênticas em cada traço, até mesmo no detalhe de serem mulheres desfem com genitália masculina, uma raridade que tornava o plano da irmã ainda mais infalível. Mas o olhar... Ester via em si mesma uma profundidade que Rafaela nunca possuiu.

— O que eu estou fazendo? — sussurrou para o reflexo, enquanto ajeitava a camisa social cara que pertencia à irmã.

Ao sair do banheiro, encontrou Camila sentada na cama, esfregando os olhos com as costas das mãos, parecendo uma criança pequena.

— Bom dia... — Camila murmurou, a voz rouca de sono. — Você não fugiu.

Ester sentiu um aperto no coração.

— Por que eu fugiria, Camila? — Ester aproximou-se e sentou-se na beira da cama, acariciando a bochecha da menor.

— Porque normalmente, depois de uma noite... — Camila hesitou, baixando o olhar para os lençóis — ...você acorda de mau humor, diz que eu sou um peso e sai para pedir dinheiro ao meu pai ou para encontrar "amigos".

Ester respirou fundo, tentando manter o personagem, mas suavizando as arestas.

— Eu disse que as coisas iam mudar. Eu vou para a empresa hoje. Quero ver aqueles relatórios de novo. E você? O que tem planejado para as suas fotografias?

Camila arregalou os olhos. Rafaela nunca perguntava sobre o trabalho dela, a menos que fosse para zombar ou dizer que era um passatempo inútil de menina rica.

— Eu... eu tenho uma sessão no centro histórico à tarde. Mas não achei que você se importasse.

— Eu me importo. Suas fotos são lindas, Camila. Você tem um olhar sensível. — Ester levantou-se e deu um beijo casto na testa de Camila. — Tome um café reforçado. Nos vemos mais tarde.

Ester desceu as escadas e encontrou a mesa do café posta. Alejandro já estava lá, lendo o jornal, e Dinah estava sentada à frente dele, digitando furiosamente no celular. O silêncio era pesado até Ester se sentar.

— Bom dia — disse Ester, servindo-se de café preto, sem açúcar, exatamente como se lembrava de Rafaela fazer, embora preferisse doce.

— Bom dia — Alejandro respondeu, sem tirar os olhos do jornal. — Espero que o que você disse ontem sobre a logística não tenha sido apenas um devaneio para impressionar Camila. Eu marquei uma reunião com os diretores para as dez horas. Se você me fizer passar vergonha, Rafaela, sabe que minha paciência está no limite.

— Estarei lá, senhor Cabello. E os dados estarão prontos — Ester respondeu com uma confiança que não era fingida. Ela realmente entendia de números; era a única coisa que a mantivera viva nas ruas.

Dinah Jane, no entanto, não disse uma palavra. Ela apenas observava Ester com os olhos semicerrados, como um falcão analisando sua presa. Quando Alejandro se retirou para atender uma ligação, Dinah finalmente falou.

— Que bicho te mordeu? — Dinah perguntou, cruzando os braços sobre a mesa.

— Não sei do que você está falando, Dinah — Ester respondeu, mantendo a voz neutra.

— Ah, sabe sim. Você está... calma. Você não deu um coice em nenhum empregado desde que acordou. Você não pediu um cheque. E, pelo que vi no rosto da Camila agora há pouco, ela não parece estar querendo se esconder em um buraco. O que você está tramando?

Ester sentiu o suor frio brotar em sua nuca. Dinah era inteligente, e a amizade dela com Camila era baseada em proteção mútua.

— Eu só cansei de ser quem eu era, Dinah. As pessoas mudam.

— Pessoas mudam, Rafaela. Mas cobras apenas trocam de pele para continuarem sendo cobras — Dinah levantou-se, aproximando-se de Ester até que seus rostos estivessem a poucos centímetros. — Eu estou de olho em você. Se você estiver fazendo algum joguinho psicológico novo para tirar mais dinheiro da Camila ou do pai dela, eu juro que acabo com você.

— Eu não quero dinheiro, Dinah. Quero apenas fazer o meu trabalho e cuidar da minha esposa.

Dinah soltou uma risada seca, desdenhosa.

— "Minha esposa"? Você nunca a chamou assim com esse tom. Você a chama de "a garota" ou "o meu bilhete premiado". — Dinah semicerrou os olhos ainda mais. — Tem algo diferente no seu jeito de falar. Um sotaque... um ritmo diferente.

— É o estresse — Ester mentiu rapidamente. — Agora, se me der licença, tenho uma empresa para ajudar a gerir.

Ester saiu da sala de jantar sentindo o olhar de Dinah queimando em suas costas. Ela sabia que precisava ser mais cuidadosa. Se Dinah descobrisse a verdade, Ester voltaria para a cadeia e Rafaela continuaria impune.

A manhã na empresa foi um desafio de inteligência. Ester sentou-se na sala de reuniões cercada por homens de meia-idade que claramente a desprezavam. No entanto, conforme ela abria as planilhas e começava a apontar falhas nos cálculos de distribuição e sugerir rotas alternativas baseadas em algoritmos de otimização, o clima na sala mudou.

Alejandro Cabello observava a nora com uma mistura de choque e desconfiança. Aquela não era a mulher ignorante que ele contratara por pressão da filha. Aquela mulher ali era uma estrategista.

— Impressionante — admitiu um dos diretores ao final da apresentação. — Essas mudanças podem aumentar nossa margem líquida em 15% neste trimestre.

— É apenas matemática básica aplicada à logística — Ester disse de forma humilde, o que foi seu segundo erro. Rafaela teria sido arrogante e teria exigido um bônus imediato.

Alejandro a chamou em seu escritório após a reunião.

— Onde você aprendeu aquilo, Rafaela? — ele perguntou, sentando-se em sua poltrona de couro. — Eu vi o seu currículo quando você se casou com Camila. Você mal terminou o ensino médio em uma escola de quinta categoria.

Ester engoliu em seco. Ela precisava de uma história.

— Eu... eu fiz alguns cursos online. Tenho estudado à noite, senhor Cabello. Eu queria provar que mereço estar nesta família.

Alejandro suspirou, parecendo envelhecer alguns anos.

— Se isso for verdade, eu fico feliz por Camila. Mas não pense que um dia de bom trabalho apaga dois anos de negligência e maus-tratos. Continue assim, e talvez eu não a demita no próximo mês.

Ester assentiu e saiu. Ela precisava encontrar Camila. Precisava do conforto daquela presença doce para esquecer, por alguns instantes, que sua vida era um castelo de cartas.

Ela encontrou Camila em um parque no centro da cidade. A menor estava com sua câmera profissional, capturando a luz que passava pelas árvores. Quando Camila viu Ester se aproximar, seu rosto se iluminou de uma forma que fez Ester se sentir a pessoa mais vil do mundo por enganá-la.

— Rafa! O que faz aqui? — Camila correu até ela, abraçando-a pela cintura.

— Vim ver como você estava. E... queria te levar para almoçar. Em um lugar simples, o que acha?

Camila paralisou.

— Almoçar? Comigo? Em público? — Os olhos de Camila se encheram de lágrimas. — Você sempre teve vergonha de sair comigo porque dizia que eu sou "muito carente" na frente dos outros.

Ester sentiu uma onda de fúria contra a irmã. Como Rafaela pudera ser tão cruel?

— Eu era uma idiota, Camila. Eu quero que o mundo veja que eu estou com a mulher mais incrível de Miami.

O almoço foi um sonho para Camila. Ester ouvia com atenção cada detalhe sobre as lentes que ela usava, sobre como ela gostava de capturar a "alma" das pessoas através do olhar. Ester, por sua vez, falava sobre números de uma forma apaixonada, explicando como eles eram como notas musicais que precisavam de harmonia.

— Você é tão inteligente... — Camila sussurrou, segurando a mão de Ester por cima da mesa de madeira do pequeno bistrô. — Por que você escondia isso de mim? Por que você fingia ser aquela pessoa... bruta?

— Eu estava perdida, Camila. Eu não sabia quem eu era.

No caminho de volta para casa, o clima era de uma paz que a mansão Cabello não conhecia há anos. No entanto, ao entrarem, o clima mudou drasticamente. Dinah estava no hall de entrada, segurando um envelope pardo.

— Camila, que bom que você chegou — Dinah disse, a voz gélida. — Eu estava dando uma olhada nas faturas do cartão de crédito que o seu pai paga para a Rafaela.

Ester sentiu o sangue fugir do rosto.

— Dinah, agora não é hora para isso — Camila tentou intervir, mas Dinah continuou.

— Ah, é a hora perfeita. Sabe, Rafaela, eu notei algo estranho. Você gastou dez mil dólares em uma joalheria no aeroporto ontem de manhã, exatamente duas horas antes de "revisar contratos" em casa. E o GPS do carro que você usa registrou uma viagem até um hotel de beira de estrada que você nunca frequentaria.

Ester tentou pensar rápido. Rafaela tinha sido descuidada. Ela gastara o dinheiro de Camila antes mesmo de partir.

— Eu comprei um presente para a Camila — Ester mentiu, a voz firme. — E o hotel... eu me perdi e parei para pedir informações.

— Um presente? — Dinah arqueou a sobrancelha. — Onde está?

Ester olhou para Camila, que a observava com uma expressão de dúvida começando a nublar seus olhos castanhos.

— Eu... eu ainda não dei. É para uma ocasião especial.

— Engraçado — Dinah deu um passo à frente —, porque o joalheiro disse que o comprador estava acompanhado de uma mulher loira. E você não é loira, Rafaela.

Camila soltou a mão de Ester, o choque estampado em seu rosto.

— Rafa? — A voz de Camila saiu pequena, quebradiça. — Você... você me traiu de novo? Ontem? Depois de tudo o que você me prometeu?

Ester sentiu o impulso de contar a verdade. De dizer que ela não era Rafaela, que a irmã estava em algum lugar gastando aquele dinheiro. Mas o medo da prisão, o medo de ser arrancada de perto de Camila, a calou.

— Não é o que parece, Camila. Eu juro. Dinah está apenas tentando nos separar.

— Eu estou tentando proteger a minha amiga de uma parasita! — Dinah gritou. — Camila, olha para ela! Ela nem consegue te olhar nos olhos agora!

Camila olhou para Ester, as lágrimas escorrendo livremente.

— Eu achei que desta vez era real. Eu senti... eu senti que sua alma era diferente quando você me tocou ontem à noite. Como você pode ser tão boa em mentir? Como pode me dar o céu em uma noite e me jogar no inferno na manhã seguinte?

— Camila, por favor, me escuta — Ester tentou se aproximar, mas Camila recuou como se tivesse levado um tapa.

— Não me toca! — Camila soluçou. — Vá embora. Vá para o seu escritório, vá para onde quiser. Eu não quero te ver.

Camila subiu as escadas correndo, o som de seu choro ecoando pelo casarão. Dinah ficou parada, vitoriosa, mas com um olhar de profundo desprezo direcionado a Ester.

— Eu não sei quem você pensa que engana com esse teatrinho de "mulher de negócios inteligente", mas eu vou descobrir o que você está escondendo. E quando eu descobrir, você vai desejar nunca ter cruzado o caminho dos Cabello.

Ester ficou sozinha no hall. O peso da identidade de Rafaela era como uma armadura de chumbo, afogando-a. Ela subiu para o quarto de hóspedes, sabendo que não seria bem-vinda no quarto principal.

Durante a noite, Ester não conseguiu dormir. Ela pegou seu celular — o de Rafaela, que ela fora obrigada a levar — e viu que havia uma mensagem de um número desconhecido.

"Espero que esteja se divertindo com a santinha. O Caribe é maravilhoso, e o dinheiro da sua cunhada compra as melhores mulheres. Não estrague nada, maninha. Eu volto em algumas semanas para pegar o que é meu. Beijos, Rafa."

Ester apertou o aparelho com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ela não podia deixar Rafaela voltar. Ela não podia deixar que aquela sombra destruísse Camila novamente.

De madrugada, Ester ouviu um barulho na porta. Ela se levantou e abriu. Camila estava lá, vestindo apenas uma camiseta larga, os olhos vermelhos e inchados. Ela parecia exausta.

— Eu não consigo — Camila sussurrou. — Eu tentei te odiar hoje o dia todo. Eu tentei me convencer de que ontem foi um truque. Mas o meu coração diz que a pessoa que me abraçou ontem não é a mesma que me traiu no aeroporto.

Ester sentiu o coração disparar. Camila era intuitiva demais.

— Camila... — Ester começou, mas Camila a interrompeu, entrando no quarto e fechando a porta.

— Me diga a verdade, Rafa. Só uma vez na vida. Você me ama? Ou eu sou apenas um cheque em branco para você?

Ester olhou para Camila, vendo a vulnerabilidade e a força de uma mulher que só queria ser amada. Ela não podia dizer a verdade sobre sua identidade, mas podia dizer a verdade sobre seus sentimentos.

— Eu não sou quem você pensa que eu sou, Camila. No sentido de que a pessoa que eu era... aquela Rafaela bruta e cruel... ela morreu. Eu olho para você e sinto uma vontade incontrolável de te proteger de tudo, inclusive de mim mesma. Eu não te traí ontem. Eu nunca te trairia.

Camila caminhou até ela e colocou a mão sobre o coração de Ester.

— Ele está batendo tão rápido... — Camila olhou no fundo dos olhos de Ester. — Você tem o mesmo rosto. O mesmo corpo. Mas o seu cheiro mudou. O seu toque mudou. Até a forma como você senta à mesa é diferente. Dinah acha que você é uma mestre da manipulação. Mas eu... eu sinto que estou conhecendo você pela primeira vez.

Ester puxou Camila para um abraço apertado, escondendo o rosto em seus cabelos.

— Apenas confie em mim, Camila. Não importa o que aconteça, eu nunca vou deixar ninguém te machucar de novo. Eu prometo.

Naquele momento, Ester tomou uma decisão. Ela usaria seu tempo ali para limpar o nome de Ester, para garantir que Rafaela nunca pudesse voltar a exercer poder sobre aquela família e, acima de tudo, para encontrar uma forma de ser de Camila sem ser uma mentira.

Mas o perigo espreitava. No dia seguinte, uma visita inesperada apareceu na empresa. Uma mulher loira, elegante e com um sorriso malicioso, perguntando pela "esposa". Era uma das amantes de Rafaela, e ela não estava feliz por ter sido deixada para trás.

Ester teve que lidar com a mulher em uma sala reservada, enquanto Dinah observava tudo por uma fresta na porta.

— O que você quer? — Ester perguntou friamente para a mulher, que se chamava Verônica.

— O que eu quero? Quero o meu colar de diamantes que você prometeu, "Rafa". E quero saber por que você não me atende mais. Quem essa Camila pensa que é para tirar todo o seu tempo?

Ester percebeu que a teia de mentiras de Rafaela era muito mais profunda do que ela imaginava. Ela teria que desmantelar a vida da irmã peça por peça, arriscando sua própria liberdade no processo.

Enquanto isso, Camila, em seu estúdio, revelava as fotos que tirara de Ester no parque. Ao observar a imagem, Camila notou algo que ninguém mais vira. Na foto, o reflexo de Ester em uma vitrine mostrava uma expressão de profunda tristeza e proteção, algo que Rafaela jamais seria capaz de sentir.

— Quem é você? — Camila sussurrou para a fotografia, sentindo que estava se apaixonando por uma estranha que habitava o corpo de sua esposa.

O jogo de espelhos estava apenas começando, e em Miami, onde o sol brilha para todos, as sombras de Ester e Rafaela estavam prestes a colidir de uma forma que mudaria a vida dos Cabello para sempre.